terça-feira, março 14, 2006

A Lilith

Várias pessoas me têm perguntado pela Chris. Perguntam assim como se costuma perguntar pela úlcera ou pelos ataques de asma. E perguntam por perguntar. Porque todos parecem saber da Chris e da maneira como ela condiciona a minha vida e, também, estão todos pouco interessados com o que se passa com a Chris, comigo e comigo com a Chris. E, já agora, também devo realçar que estes todos que eu digo que perguntam são, na realidade, muito poucos.
De facto, não sendo capaz de viver com a Chris em minha casa e percebendo que ela não iria embora tão depressa, saí eu. Eu sei que foi uma atitude irreflectida. A casa é minha e portanto ela é que teria que sair. Eu sei isso tudo. Há dez milhões de pessoas a dizerem-me a mesma coisa todos os dias. Mas foi assim que eu fiz. Tive uma reacção ilógica, instintiva, irracional, etc. etc. Mas fui eu que a tive e por isso não me estou a queixar.
Se eu já era um sem-abrigo mental, tornei-me um sem-abrigo total. Foi uma experiência nova e, como se costuma dizer, enriquecedora. Estrago tudo dizendo que estou a ser irónico mas se quiser ser honesto direi que a minha experiência de alguns meses de sem-abrigo me enriqueceu no aspecto de me tornar facilmente irónico. No momento em que digo que estou a ser irónico deixo de ser irónico.

Ao contrário de outras mulheres que amei, que já conhecia da infância, a Lilith começou a aparecer-me nos sonhos já da idade adulta. E digo sonhos porque não me parecia possível a existência de seres assim próximos de uma espécie de verdade universal. Existências que parecem sobrenaturais mas de quem, ao aproximarmo-nos, ficamos a ver leves flutuações de orgulho, brisas de dominada harmonia, flocos muito brilhantes de intenção e um cálido e envolvente saber. Levei meses a acreditar, como um ateu que forçado por um milagre incontestável tivesse que, roendo os seus instintos racionais, aceitar uma realidade que o transcendia.
Revelação ou não, ser real ou imaginário, Lilith, introduziu-se no meu destino como margem definitiva para os mitos e tradições, para os paradigmas e para as ilusões. Soube, nesse tempo e para sempre, que Lilith teria sido o traçado exclusivo para a evidência. Soube mas não quis. Temi, pelo exagero da oferta, estar a cair num logro. E, apesar de cravada no eterno, fiz como se esquecesse, fiz como se não tivesse sido.
É fácil nos dias de hoje, em que já poucas coisas se podem gabar de se nos impor pela materialidade, encarar o virtual como virtuoso, a rede como teia, o 'link' como ligação, o endereço de 'mail' como carne, o écran como universo. Lilith apareceu-me antes deste apelo programado à ilusão e trouxe-me, de uma forma quase incorrecta, um método impossível de olhar para o que se passava à minha volta. Lilith deu-me o passo único do que podia ser, em vez de me tentar, como é bem, iludir-me com a diversidade da inconstância.
Ainda hoje quando a vejo - como aconteceu há dias quando procurava um vão de porta onde encostar os ossos para mais uma noite - me ocorre a presença de uma dimensão diferente a que não posso ter acesso sem perder o respeito pelos meus respeitáveis preconceitos. Porque é que as formas hão-de ser melhores umas que as outras? Porque é que uma circunferência, a que foi dado um nome pela sua peculiaridade, é mais figura que um traço irregular que o dedo traça na poeira de um vidro? Porque é que seleccionamos da imensidade estes lugares comuns como eleitos e eternos?
A Lilith não me viu naquela noite. A minha prudência levou-me a caminhar indefinidamente para outro bairro. Não era suposto encontrar próximo do fim da linha uma palavra mágica capaz de remeter para o início. Não era suposto que no fundo das coisas houvesse ainda uma imagem, um reflexo capaz de iluminar um gesto já perdido e terminal. Não era suposto.

Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

domingo, março 12, 2006

Queda

(relativamente a uma bela fotografia do Revelações Avulsas)

Houve um tempo em que eu quis voar.
Estava aberta a porta e eu saí, como se fosse ali fora apenas para respirar outro ar e saber novidades.
Não sei bem se é assim que se começa a querer voar mas foi assim que aconteceu comigo.

Do lado de lá da porta - e a mim interessa-me aquilo que está do lado de lá da porta - sentia que o espaço era mais largo, fosse isso o que fosse.
Porque eu não sabia.
O que eu sabia era apenas o resultado de uma operação de elementar inteligência: não há abismos; nada acaba abruptamente; a seguir há sempre mais e mais.
Dir-se-ia que o meu horror ao vácuo era pura descrença.

A primeira palavra que terei dito, fora do expectável da criança que aprende a falar, foi 'aquilo'.
Mas isso foi muito antes de ter essa impressão de que poderia voar.
Muito antes de pensar que havia um lado de lá desejável e promissor.
Mas gosto de pensar - pura vaidade - que aquilo a que o meu 'aquilo' se referia, era já a incógnita de um lugar que ainda não sabia.
Era já o espaço onde tudo existe em potência.

Os gatos raramente se preocupam com o que vêem.
As ansiedades que os tomam são sempre estranhezas e ausências - o que se não vê mas está presente na forma oculta ou disfarçada.
O meu voo, naquela ocasião de porta aberta, naquele desejo de um lugar de estranheza e sobreposição, nascia inocente, do querer olhar para trás e conseguir ver a totalidade.
Voar seria então, estar à altura do impensável, coabitar com o infinito, ver o invisível.

À tarde o avô levava-me ao jardim e os pombos vinham comer as migalhas das bolachas aos meus pés, antes de ousarem bicar com perícia a palma da minha mão.
Estranhava que podendo eles voar, podendo eles seguir um rumo de excesso para a distância em que se vê um largo horizonte, preferissem ficar ali comigo, na magreza de uma migalha.
Embora não compreendesse agradava-me aquela dedicação.
Num momento, infância, é-se o centro, a importância, o filho, o neto, a causa.

Só mais tarde dei conta de as novidades durarem apenas um instante.
Só muito mais tarde percebi que o mundo é uma metáfora de si próprio.
Só ainda mais tarde acreditei que acabamos sempre trocando voos por migalhas.

Sísifo

quinta-feira, março 09, 2006

Fim de um circo...


Num certo sentido só hoje se completa o processo democrático iniciado no 25 de Abril. A promessa era a de que o povo decidisse sobre todas as questões do país, mas por uma razão ou outra, houve sectores que, no meio político, resistiram à ideia de que até nos seus redutos, o povo poderia meter o pé. Acreditava-se que o povo saberia escolher entre os seus, os melhores para cada uma das diversas posições que era necessário ocupar no sistema.
E assim foi. Sempre que pôde o povo soube procurar entre os seus, aqueles que melhor considerava para estarem nos melhores lugares de relevo e de decisão. A longo de trinta anos o povo foi, por aquisição de conhecimento, por amadurecimento, por dedicada postura de aprendizagem e esforço, recompensando os melhores, primeiro nas suas esferas de proximidade, depois em círculos mais alargados, até que hoje consegue colocar um dos seus na mais elevada cadeira de representabilidade.
Suponho que só nos resta comemorar o facto. Admitindo que existem mesmo ciclos, temos que admitir também que depois de se atingir um ponto máximo, mais tarde ou mais cedo se começará a descer. Claro que poderá ser desagradável pensar que tempos melhores só virão depois de nós cá não estarmos, e que por isso, para o bem e para o mal, este é o tempo que vai ser para sempre o nosso.
Reconheço: vivo na clandestinidade. Não compreendo como é possível reconhecermo-nos com tanto empenho, nesta mediocridade. Como é possível termos deixado de nos questionar sobre o valor das coisas e como aceitamos com tanta facilidade o banal. Como substituímos com prazer, o valor do esforço pelo da futilidade. Agora, durante anos, muitos anos, vamos mergulhar ainda mais numa idade de trevas, de pensamento manietado ou ausente, uma Idade Média de ideias laminares, de espessura nula, de frivolidade e vaidade, de zero, de vazio de conteúdo. Terão de passar várias gerações para que este efeito de ausência mental se perca e possa ser substituído por alguma coisa parecida com identidade e indivíduo, por uma sociedade de seres pensantes, apaixonados, razoáveis e sem uniforme. Eu sei que isso é um sonho. Foi sempre um sonho.

Artur Torrado

Rugosidade

Eu sei que não sei contar histórias. Sei que só falo de acontecimentos em que nada aconteceu. O meu propósito é, quase sempre, que não haja propósito nenhum e espero da maioria das coisas que de facto não existam.
Quando pego num assunto, digamos assim, é sempre na perspectiva que o assunto não tenha tema e não se ligue a nada que possa parecer verdade. É uma perspectiva e é uma expectativa. Apesar de, acima de tudo, eu não esperar nada e não ter, por isso, de sentir que perco o meu tempo com estas coisas.
Pressinto que o meu pensamento é rugoso. Assim como uma papel amassado. Não digo um papel amassado furiosamente, e por isso de maneira superficial, mas um papel amassado com intenção, com método, com vontade. E um pensamento rugoso, de volume variável e superfície baça, não reflecte, não transmite, não passa, nem no tempo nem no espaço, para além dos limites vagamente definidos do presente.
Não se trata de um jogo de palavras. Ou trata-se, na medida em que a tudo se pode dar o título de jogo. Mas só nesse caso, só nessa rugosa acepção. Porque de outra maneira não gosto de jogo. Não por a alguns parecer que durante um jogo acontece alguma coisa. Que não acontece. Nada acontece num jogo.
Um dia, com mais tempo, também farei a minha teoria dos jogos. Por agora direi apenas da perplexidade perante o relato de um jogo. Pela fantasmagórica atitude de ouvir com atenção alguém que descreve - eles dizem narra - um jogo. De que é que falam esses narradores?
Mas falar disso já seria narrar a narrativa de um jogo, ou descrevê-la, dar-lhe um volume, uma cor, uma intensidade, uma emoção. E no jogo que chega a nós por interposta pessoa, isto é, num jogo em que não jogamos, em que não somos intervenientes, em que somos, como se diz, espectadores ou receptores secundários de narrativas, materializam-se emblemáticas formas de ficção que, como sempre, dão a quem especta a imortal sensação de sentir e viver.
E eu não sei contar histórias. Ocasionalmente apercebo-me que acontecem coisas. Mas não as percebo. Não as consigo inscrever numa convergência de rectas e, pelo tempo que as une, parece sempre que há um lugar a mais, uma direcção que falhou, um gesto de indecisão que foi levado a sério.
Um dia, talvez depois de fazer a minha teoria dos jogos, hei-de tentar, para me entreter, perceber porque é que o tempo passa como se fosse uma ave migratória, voando sobre nós como se não fizéssemos parte da história. Sei que não é tema que dê para contar uma história. Mas talvez esteja aí o sublime da situação: uma história que não faz parte da história e que por isso não se conta a não ser que possa ser relatada como um jogo em que ninguém joga e todos são espectadores.

Prólogo

terça-feira, março 07, 2006

Postcinco

Sabes que eu tenho que estar a uma certa distância das coisas para as saber olhar. Faço isso como ninguém, e não estou à espera de conseguir libertar-me deste peso e reconsiderar a direcção que os meus passos levam.
Também sabes que à distância a que percebo as coisas há apenas ecos e não ouço nada do que é som próprio do momento. Os gritos chegam já tarde à minha imaginação e eu não espero que eles tenham sentido. Não espero nada. Mesmo que não seja bem assim como me ocorre agora dizê-lo, porque há sempre estas palavras que não chegam, que não são suficientes para que me percebas.
Não, não tenho gestos bruscos. Não procuro na impaciência a razão que sei ter ficado escondida num quarto escuro da infância. O que sobra de cada momento não chega para ocultar esse vício que tenho de chamar verdade ao que vejo. E não oscilo. Não mudo o meu papaguear apenas para que possas por momentos ouvir o meu silêncio.
É certo que houve um tempo em que gostavas das minhas palavras. Eu tinha aberto o sótão das tristezas e a brisa nova parecia levantar a cabeça para o alto das transgressões e dos movimentos aleatórios. Vinha-me o riso, assim de repente, conflito de interesses entre o meu rosto fechado e a vontade de saltar com gritos de adolescente.
Preparei-me para quase tudo. Era esse o meu entretenimento favorito: ficar à espera de surpreender o acaso com uma mostra de conhecimento antecipado de tudo o que ele me pudesse trazer. Obsessão minha. Erro. Há demasiada diversidade na imaginação do tempo. Por mais seguro que estivesse vinha sempre uma vaga inesperada. E as ocasiões de voar eram poucas. O sentido da voz vinha sempre deturpado e o gesto oculto era revelado como parte integrante do dia e da moda.
Que é que me fez parar? Pergunto às vezes o que é que me fez parar. Porque eu sabia tudo. Sabia o resto de todas as histórias e as surpresas tinham ficado todas no passado, na angústia do passado.
Falta-me distância para perceber. Falta-me estar já noutro lado para compreender o erro de não estar aqui. Deve ser este o melhor método para perder sempre.

Aibieme

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O computador de Detroit

Assustei-me com o carácter industrial das letras. Vêm de todo o lado. Caem no meu acaso como formas começadas mas afinal já estão completas e justas ao tempo. A minha função seria embrulhá-las em cores vistosas. Ou nem isso. Apenas teria que olhar e aplaudir. Ler seria já um excesso, uma redundância. Então é isso: estou assustado. A terra treme com a intensidade com que as letras caem do ânimo das mentes. Parece agora que a combinatória esgotou as formas belas e já vale tudo desde que o arranjo pareça novo e se distinga do já visto por uma unha negra. E negro não é por acaso. É porque diz tudo sobre a ausência de luz. Mas não é isso, eu sei e sei que me dizem que não é isso. Esgotou-se a combinatória. Um computador com milhares de processadores a trabalharem em paralelo jurou a pés juntos que todas as combinações de caracteres com algum significado já foram feitas: umas por humanos e outras por máquinas programadas para combinar dia e noite todos os padrões que ainda restassem virgens. Agora acabou. O que quer que se faça há-de ser uma repetição. Isto é uma repetição. Até eu já disse isto milhares de vezes, talvez no humilde propósito de me convencer a parar. Cada vez que alguém nasce sente-se no direito - e suponho que tem o direito - de reservar para si um grão razoável de novidade. Não, não sou eu que distribuo esses direitos. Tenho até a minha justificada repugnância a querer dizer seja a quem for o que deve fazer. Assustei-me foi com a dimensão. O carácter monstruoso do que vem chegando e inundando todos os canais, todos o percursos, todos os olhares.
"Olha aqui o que eu tenho, o que eu produzi. Dá atenção a este texto, a esta música, a este quadro, a esta cuspidela para o ar. Olha pra mim, porra! Não consegues perceber que não tenho tempo para falar com pessoas que não me ouvem?"
Um computador em Detroit com milhares de processadores a trabalhar em paralelo combinou em segundos todas as letras de todas as formas possíveis e determinou que a partir desse instante toda a escrita passava a ter direitos de autor. Depois fez o mesmo com todos os sons, com todas as cores, com todas as formas, e toda a música, toda a pintura, toda a arte passou a ter direitos de autor. "Faças o que fizeres já foi feito por um computador em Detroit que registou, num outro computador em Detroit, a autoria de todas as variantes da natureza que ainda não tinham sido feitas até hoje."
Sobre a minha secretária, há uma pilha de revistas que comprei já desactualizadas. Não consigo comprar revistas actualizadas. Quando chego a casa, o tempo do percurso do comboio faz com que ao pousar a revista em cima da secretária ela já não seja actual, já tenha sido ultrapassada em actualidade por milhares de outras revistas que ainda não comprei.
Ligo o computador. Demora. É um aparelho mono-processador. Peça de museu, ele próprio. Ao aceder a um 'site' há uma demora assinalável. O que recebo está desactualizado. Refresco e vem outra página que também já não é actual. Há trinta e sete milhões de pessoas a actualizar aquela página. Cada uma das trinta e sete milhões de pessoas copia a velocidades vertiginosas o conteúdo de outros quarenta e nove milhões de 'sites' que estão cada um deles a ser actualizados por dezenas de milhões de utilizadores ávidos de mostrar o mundo tal e qual ele é.
Chega o meu momento de actualidade. Informação em primeira mão. Sou o primeiro a saber e comunico. Escrevo rapidamente: "Estou a dar um tiro nos cor..." Porra! Esqueci-me do 'enter'.

Artur Torrado

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Secreto

Não me interessam essas coisas que se andam a dizer por aí sobre mim.
Eu percorro as minhas noites com os meus passos e dispenso guias e conselhos.
E não se trata de arrogância ou egocentrismo mas apenas de identidade.

Não. Eu não tenho questões por resolver.
E também não é verdade que tenha decidido limitar-me a aceitar.
Até porque aceitar não é uma coisa a que se possam pôr limites ou que os defina.
O meu patamar, se se pode dizer, permanece infinito e o meu desejo autónomo.
Vou pelo caminho que existe e não pelo caminho que escolhi.

Claro que não sei explicar esta percepção de não dar grande importância à escolha.
Poderia chamar-lhe acomodação mas sei que é bastante mais do que isso.
Não tenho agenda, não procuro sistema de interpretação, não arrumo os objectos deslocados do seu lugar, não sei que lugar têm os objectos.

Se eu pudesse dizê-lo de outra maneira talvez acabasse por confessar que deixei de levar a sério todas as palavras que teimam em fazer-se anunciar pelo sofrimento.
Do meu ponto de vista são palavras a evitar.
Prometem tudo para depois.
Fazem pensar: um dia, sim, um dia esta palavra há-de ser minha, e eu serei ela.

Não. Eu não quero essas palavras a rondarem a minha casa.
Parecem ter a ideia fixa de preparar o mundo para a tortura.
Lidam com os humanos como lixo e fazem sangrar os soldados e a voz.
Agarram-se à garganta e aí ficam, adereços de uma força eternamente adiada.

E talvez seja isso, essa impaciência para com as palavras mais poderosas, que me faz percorrer caminhos que não escolhi.
E deixei de entrar no jogo, a não ser que seja mesmo um jogo, de saber o que é que esta ou aquela palavra quer mesmo dizer; qual é o seu verdadeiro significado; como a usavam originalmente; que segredo e mito esconde a sua carapaça.

Sei que está travestida, mas permanece no ar a ideia de ser nas origens que se encontra a verdade.
Saltei por cima.
O meu paraíso há-de ser esse caminho que não escolhi e que certamente me matará por atravessá-lo.
É só isso que me interessa ser.

Sísifo

sábado, fevereiro 18, 2006

Jakob von Gunten

Talvez fosse desejável que entre cada livro que se lê, como entre cada pensamento encadeado, houvesse uma ligação lógica que permitisse, numa espécie de investigação policial, fazer o rebobinar da história e chegar à origem primordial das coisas. Isto por na passada semana, antes de absurdamente me ter voltado para os contos de Franz Kafka escolhidos por Jorge Luis Borges, ter lido com impaciência infantil o Jakob von Gunten do Robert Walser.
Ao Robert cheguei atrasado por não encontrar o livro que sabia editado, mas ninguém, nesses lugares onde agora se podem encontrar livros, o tinha disponível. Está bem, eu sei, mas a minha pessoa não compra livros na ‘internet’. Mais não fosse porque ninguém me passa um cartão de crédito.
Entretanto consegui encontrar o Jakob von Gunten e através dele tive acesso ao Instituto Benjamenta. Bom, talvez não seja bem assim. Eu tinha tido um pequeno acesso ao Instituto Benjamenta n’o mal de Montano do Enrique Vila-Matas. Coisa pouca mas bastante intrigante, embora o Enrique tenha essa estranha capacidade de tornar intrigante um objecto só porque lhe faz referência. Nem sei dizer se isso é bom ou é mau.
Mas a verdade é que não saltei directamente d’o mal de Montano para o Jakob von Gunten. Existe cerca de um ano de intervalo entre os dois. E um ano nestas coisas dos livros não é nada. Mas um ano nesta coisa da vida é muito tempo; demasiado tempo. Talvez a paciência seja a grande diferença entre os livros e a vida.
Antes de Jakob apenas posso referir, por isso, uma certa impaciência em encontrar o livro. Até porque não consigo estabelecer nenhuma relação entre ele e Paris nunca de acaba também do Enrique, mas onde nem tenho a certeza de haver alguma referência ao Robert, e que foi mais próximo.
Fui ver. Retiro o que disse. Enrique, fala de Robert assim: O golpe de misericórdia deu-mo Arrieta oferecendo-me o romance Jacob von Gunten de Robert Walser. Abri-o na primeira página, comecei a ler: “Aqui aprende-se muito pouco, há falta de professores e nós, os rapazes do Liceu Benjamenta, nunca viremos a ser nada, quer dizer, de hoje para amanhã seremos todos gente muito modesta e subordinada.”
O caso assim muda de figura. Fui literalmente empurrado pelo Enrique para cima do Robert! Não gosto de dizer estas coisas mas acho que valeu a pena. Isto para mim é um esforço terrível, enviar para o éter a notícia dos amigos que cultivo e aprecio.
Afinal, quem leio eu quando leio um autor estrangeiro traduzido para a minha língua? Não há nada a fazer, estou na mão do tradutor. Nem posso dizer, por que não sei, se traduziu bem ou mal. Posso apenas dizer que o Jakob parece escrito directamente em português. E também isso me soube bem.

Artur Torrado

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Desagrado

Hoje apetecia-me falar de sagrado. Assim, sem mais nem menos.
Pegar naquelas palavras que às vezes tememos dizer, olhar, sentir e dissertar sobre elas, brincar com elas, deitar-me com elas. Tudo isso sem atentar nunca contra o sagrado.
Mas não me apetece ir pegar agora em livros e procurar essas tais palavras, dizê-las em voz alta e meter-me pela noite dentro à procura dos lugares comuns que elas encobrem.
Até porque este apetite que hoje tenho de falar do sagrado pode ser contra-producente. Porque há um estado de espírito próprio para falar e pensar o sagrado e dado que me apetece falar do sagrado não estou provavelmente com o melhor espírito para o fazer.
Não podia, no entanto, deixar de deixar registado este apetite.
Mas não. Hoje não é um dia que me apeteça meter o nariz no meio do pó dos livros onde com grande certeza se encontra o sagrado no seu estado mais puro. Eu sei que o sagrado é sempre puro mas mesmo a pureza mais refinada tem os seus altos e baixos. Em termos modernos até poderíamos falar de uma certa qualidade que o sagrado pode ter.
Cheguei aqui e reparo que o sagrado saiu sempre escrito com letra minúscula. E agora tenho a dúvida se devo ou não voltar atrás e pôr um 's' grande em todos os sagrados. Será sagrada a palavra 'sagrado'?
Vou admitir que não e se houver alguém para quem a palavra 'sagrado' seja sagrada, peço desde já desculpa porque a minha intenção era não ofender. Talvez eu devesse, pelo sim pelo não, pôr um 's' grande porque certamente ninguém ficaria ofendido se a palavra 'sagrado', mesmo não sendo sagrada, tivesse uma inicial maiúscula. Mas não sei.
Pode acontecer que alguém mais modelar nestas coisas, ache que já constitui uma ofensa usar uma marca de sagrado numa palavra que não é sagrada. É assim um pouco como deitar comida fora sabendo que há tanta gente a passar fome.
É estranho como afinal o sagrado se meteu no meu texto quando eu já tinha desistido de aqui o meter. Acaso eu não posso excluir o sagrado de um texto só porque me apetece? Eu sei que comecei por dizer que me apetecia falar do sagrado. Mas era uma mera hipótese. Também me apetecia agora ir para a praia e não está, evidentemente, tempo para isso. Pelo menos a esta latitude. Do apetecer ao fazer vai uma certa distância.
Mas quando dou por mim tenho o sagrado metido com toda a força e impertinência pelo meu texto adentro. A minha consciência diz-me que não devo considerar a palavra 'sagrado' como sagrada. Mas os dados da realidade permitem acreditar que em algum lugar haverá alguém para quem a palavra 'sagrado' é sagrada e que, por consequência, poderá considerar ofensiva a minha falta de respeito por uma palavra que, eu reconheço, não me pertence.
Talvez eu pudesse pôr uma advertência no início do texto: "se para si a palavra 'sagrado' é sagrada não continue a leitura deste texto pois poderá considerar-se ofendido e essa não é, em caso algum, a minha intenção". Mas, mesmo aqui, não posso evitar a escrita da palavra 'sagrado', podendo estar, extemporaneamente, a atiçar contra mim o ódio de alguém que desprevenidamente acede ao meu texto.
Se ponho uma advertência mais genérica, do género, "cuidado este texto pode ter um carácter ofensivo" estou por um lado a excluir a hipótese de ser lido por alguém que se possa sentir ofendido com o meu texto, mas estou, rigorosamente a propor o meu texto exclusivamente a dois tipos de leitores.
Os primeiros são os que pensam "ena, coisas ofensivas, era mesmo disto que eu estava à procura", que vão, não tenho dúvidas, ficar terrivelmente ofendidos e capazes de me matar por não encontrarem no meu texto nada de suficientemente ofensivo para a sua gula coprófila.
Os segundos são os que pensam "olha! deixa lá ver o que é que este gajo não quer que eu veja" e que hão-de encontrar alguma coisa realmente ofensiva para alguém, a quem, muito solicitamente, farão ver aquilo que de outra maneira não veriam e que, por isso, os não ofenderia.
O melhor mesmo seria apagar isto tudo e ir dormir. Ou então tirar o 's'.

Prólogo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Postquatro

Tinha que te falar hoje das impressões que o passar do tempo foi deixando de ti na minha memória. Imagens, sempre imagens, múltiplas de si e indiferentes. Pensar-te é o mesmo que pensar milhões de outras coisas diversas. Mas quando te penso, penso-te a ti. E quando penso milhões de outras coisas diferentes, procuro nelas o que tu lá deixaste.
Não é por uma questão de comemoração. Não sou solidário com a translação da Terra. É por uma questão de marca que se apôs a todos os movimentos e a todas a células de que o meu corpo é capaz. Os dias são para mim, há muito tempo, o ritmo ocasional do teu rosto e as frases que uso para me cumprimentar de manhã ao espelho têm sempre um nome que começa por ti.
Sei que tu sabes que eu sei que isto não é nada de importante. As escalas de importância são como a escala da música. Há notas que nos tocam e outras que projectam indiferença. Mas também sei que sabes que eu sei que já não cedo facilmente ao destino e olho para o caminho com a mesma sobriedade com que marco os meus pés na areia da praia.
Anos depois ainda não encontrei as palavras certas. Embora eu saiba que tu sabes que eu sei que não existem essas palavras certas, é sempre por elas que persisto nesta procura de um ocasional tom de milagre que um dia faça parecer harmonia o movimento fortuito de duas cordas que tentam ocasionalmente vibrar em conjunto.
Agora que se tornou fácil de dizer que sentir ou não sentir é uma questão de moléculas e em que uma paixão pode ser afinal não mais que uma hormona impertinente a desestabilizar a ordem, eu deixo à ciência as suas materiais certezas e continuo a fantasiar o desejo como música que não se explica. Nada acorda da matéria inanimada o acorde solitário que faz arrepiar uma emoção inesperada. Há um salto quântico entre essa indiferença perante o tempo e o espaço, e a entropia caótica que se gera ao fixar os teus olhos.
Hoje, por acaso, lembrei-me que há planos do saber que me interpelam sobre ti. Lembrei-me que há ocasiões em que estamos e outras em que é a ausência que marca o passar dos segundos. Lembrei-me também que os dados das experiências são muitas vezes contraditórios.
Mas, apesar da química, da genética e da matemática, continuo sem explicação para nada, como se nenhuma descoberta me movesse do meu irredutível amor. Mas há, apesar de tudo, muitas diferenças em relação ao tempo em que as perguntas eram um peso constante sobre a identidade dos sentidos. A maior dessas diferenças é, agora, ser capaz de sorrir trocista de todas essas explicações de que já não preciso.

Aibieme

domingo, fevereiro 12, 2006

Sangue

Há gotas de sangue no caminho que leva ao topo da montanha.
Escassas, são já demais, porque surgem como marcas num caminho antes difícil mas sereno.
Perturbam então quem passa e quer apenas que o seu pensamento se dirija para as palavras que ainda faltam inventar.

Tinha sido dito aos filhos que nos seus passos a perturbação seria cada vez menor e os percalços do insondável seriam reduzidos à medida do tempo.
Não seriam mais necessárias as filas de gente seguindo o critério da cegueira.
Tinha sido dito com alguma fé, como se lavadas as mãos das sujidades vadias o passado perecesse e os sonhos fossem novos.
A ninguém seria pedido o sacrifício de se fortificar de terror.

Confesso que houve momentos em que, por desejo, acreditei.
Sabia que do lado de lá havia múltiplas formas de contaminar a linearidade do pensamento.
E sabia, ainda melhor, que do lado de cá se encavalitavam as ambições em movimento frenético para extrair de cada instante sucos cada vez mais verdes e sem sabor.
E sabendo tudo isso permanecia esperançado.

A ideia de milagre nasce com cada ser.
E mesmo quando o número irrompe como coisa próxima do infinito, erguemos a taça sugerindo ao tempo uma atenção especial à nossa condição de privilégio umbilical.
Sorte de nascer.
Sorte de viver.
Sorte de sentir.

Tinha sido dito aos filhos dos que morreram em inexplicável sofrimento que a história não se repetiria.
Que um erro acontece uma vez no tempo e depois se esquece a maneira de errar.
Tinha sido dito aos filhos que não importavam nada as evidências de o barco ter uma desmedida inclinação para estibordo.
Que a força das águas dispensava coisas abstractas como justiça e igualdade.

Há gotas de sangue no caminho.
Os deuses estão de novo preparando o ventre para lauto banquete.
Há no ar pólenes soprados com violência que perturbam a respiração de quem passa.
Os deuses querem de novo o medo.

Sísifo


sábado, fevereiro 11, 2006

Software bug


Em tempos quis um mundo perfeitamente racional. Parecia que todas as oscilações do tempo haveriam de ser enquadradas pela consciência e cada passo a dar poderia ser, do ponto de vista interior, um passo certo, claro e determinado. Das equações da vida bastava conhecer as variáveis mais relevantes para que o destino se tornasse uma brincadeira de risos e cânticos. Era assim que parecia que iria ser o futuro. Como em todas as situações técnicas era uma questão de domínio do saber que determinaria o longe que se conseguiria ir.

Posso dizer que durante anos mergulhei na perplexidade de o sistema não funcionar. Revia os cálculos, reavaliava as equações, tomava de novo o peso às variáveis... Com falta de tempo, deixava para mais tarde a angústia de perceber o que é que falhava.

O choque veio aos poucos. Instalou-se primeiro como dúvida, depois como incerteza, mais tarde como desvio. O modelo inicial estava errado. Não havia lugar onde chegar percebendo o mundo como ocasião definitiva e clara. Afinal, aquilo que desde o início parecia limitar a comunicação e a linguagem, era uma espécie de névoa que tudo encobria e a tudo tirava a definição límpida que as equações prometiam.

Ainda assim, perante a evidência, levei tempo a aceitar que teria que ser eu a mudar. O mar de racionalidade que eu me tinha proposto, o esquema mental que dava a cada coisa o seu lugar e a sua significação, não correspondia a mais do que uma simplificação para consumo infantil. Era belo, sim, como as construções puras, formal, arrumado, liso. Inviável também. Provavelmente aborrecido.

Não sei dizer agora se foi uma perda de tempo porque entretanto tento aprender que todo o tempo se perde ou que nenhum tempo se perde, o que é o mesmo. Por enquanto, e tornei-me assim céptico ao definitivo, vou olhando à volta e evitando os raios demasiado intensos do sol. Digamos que espero pacientemente e não me deixo impressionar sabendo, no entanto, que é nesses lugares em que nos deixamos impressionar que decorre sem solenidades a vida.

Há, então, um fôlego desconhecido que sobrevoa as explicações e que não depende delas. Posso construir um elaborado conjunto de conceitos para determinar a minha vida, mas o seu valor será apenas o entretenimento que me deu fazê-los.

Como o 'software' de um computador, a 'alma' é um conjunto de camadas. Umas mais próximas do corpo - o 'hardware' - outras mais distantes e capazes de comunicar com o exterior - a 'interface' - a que chamamos consciência. A razão é uma aplicação que tenta pôr ordem nos processos de comunicação entre as camadas. Mas a sua acção apenas se faz sentir nas camadas mais exteriores, e o corpo, que tem programação autónoma e independente, segue o seu caminho indiferente ao polícia racional.

Quando há desacordo entre o 'hardware' e o 'software', há sofrimento. E não há nenhuma razão que o previna. Porventura há que deixar o corpo dizer o que quer.


Artur Torrado

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Regresso

Talvez tenha acabado de vez o inverno. Talvez estes dias que agora parecem mais longos e mais quentes tenham vindo para ficar.
Quero que sim porque este lugar que tenta desesperadamente ser moderno e desempoeirado é deprimente e só me pode servir de teste ao estado de espírito.
Passar por aqui de manhã para tomar o café e sobreviver é sinal de que se instalou no peito uma força e uma resistência inultrapassáveis.
Tem muitas janelas este café.
Por uma vê-se o correr de lojas por onde não passa ninguém e cujos negócios, a existirem, serão virtuais, por telefone e, quem sabe, negócios escuros.
Pela janela a seguir vê-se o longo tapete de relva que esforçados ucranianos, recrutados pela câmara nos centros de desemprego, vão mantendo ilusoriamente verde.
Pela terceira janela vejo os carros a passarem; num outro plano aparece de vez em quando uma bola de basquetebol a tentar as tabelas e os cestos; noutro plano ainda, passa, às vezes, o comboio vermelho.
Outra janela mostra mais relva e o sinal luminoso que detém os carros quando alguém quer atravessar a rua.
Antes desta janela havia uma outra mais pequena, mas maior porque tem marca - sony - e mostra, hoje, o habitual desespero da tvi a tentar prender-me a atenção.
Depois há uma janela que é também a porta e por onde se vê o lado de lá e as escolas com os miúdos que, adivinho, gritam a energia dos intervalos.
Há ainda mais duas janelas que me são oblíquas e que não me apetece fazer o esforço de ver o que se vê por elas.
No ar há um som reverberante contínuo de chávenas e pires e pratos a baterem furiosamente uns nos outros. Às vezes as empregadas - de sotaque brasileiro - vêm arrumar as mesas e atiram energicamente com as cadeiras para o seu lugar. A televisão grita a sua razão definitiva e salta por cima das vozes, pobres vozes, tristes vozes que saem esganiçadas das poucas mesas ocupadas. Por vezes irrompe o moinho de café no seu rugido que nem chega a ser aromático, por defeito, certamente, dos sentidos.
A televisão mostra agora as bichas a entrar em Lisboa. Seja como for a televisão está sempre a mostrar bichas e as pessoas, estranhamente, dão audiência às bichas fazendo desconfiar que não são só dez por cento.
As mães contam a plenos pulmões, tentando sobrepor-se às chávenas, à televisão, às cadeiras, ao moinho de café e às outras vozes, os disparates dos filhos, dando um ar muito engraçado à sua perda de autoridade. Uma filha bate ritmadamente os calcanhares contra a madeira ressonante do banco onde está sentada.
Talvez tenha acabado de vez o inverno.
Consegui permanecer aqui o tempo de um 'post' sem ter saído a meio emitindo terríveis blasfémias contra o resto da humanidade.
Agora posso ir: hoje passei no teste.

Artur Torrado

terça-feira, janeiro 31, 2006

Indeterminação

Quando escrevemos uma frase esperamos que ela seja a última.
Sabemos por isso, por essa espera, que não será a última.
A frase que esperávamos fosse a última, e ao escrevê-la, naquele preciso instante mágico em que ela surge do nada é mesmo a última, parece não o querer ser.

Digo que esperamos querendo dizer uma espera muito particular, muito individual.
Eu com a minha frase; a minha última frase; a frase definitiva.

Suspeito haver neste processo de escrita da derradeira frase um desvio de intenções.
Anos depois, muitos anos depois, dou-me conta ainda do fracasso de acreditar.
Culpem a memória; culpo a memória; culpo.
Suspeito de suspeitos e culpo uma culpa mas não sei o que os une.

Depois da última frase, da tal, surge, do mesmo nada, outra frase.
Cada frase é, na sua essência exactamente igual à anterior mesmo que teimem em dizer coisas diferentes ou mesmo opostas.

Há um agente infiltrado.
Há alguém, em mim ou noutro lugar qualquer, que não quer que a última frase seja mesmo a última.
Há alguém, aqui ou a distância significativa, que não gosta da ideia de última frase.
Há alguém, agora ou no futuro, que teima em não esquecer.

Faria com prazer o retrato 'robot' desta personagem usurpadora de ilusões.
Mas vou passar sobre esse aspecto prazenteiro e ater-me aos factos.
Porque é que tão dedicadamente procuramos ilusões?
Quando digo nós é uma maneira de falar, porque é de mim que se trata.

Antes o mundo era muito mais claro.
Eu não estava cá para ver, mas assim à distância, no tempo e no espaço, é claro que o mundo era claro.
Sabíamos quem eram os bons e quem eram os maus.
Sabíamos o que era realidade e o que era ficção.
Sabíamos olhar para o lado e ver imediatamente onde estávamos, que nome as coisas tinham, e as vozes, todas as vozes eram audíveis.
Sabíamos então que, mais tarde ou mais cedo, o mundo além de claro haveria de ser compreensível.

Quando escrevo uma frase espero que ela seja a última.
Agora que me falam de infinito e que parece que não sabemos de que falamos se não falarmos de infinito, não consigo ter a certeza de que uma frase será a última.

Há dias, talvez pelo frio exagerado que não me deixava mover as mãos sobre o teclado plástico, nem pegar na esferográfica gelada, tive tempo para pensar e concluir que, como todos os outros, padeço da doença da comparação.

Sísifo

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Brainstorm

Hoje tinha uma proposta para brincarmos. Brincávamos como se fôssemos pessoas crescidas. Eu fingia, tu fingias, nós fingíamos... Eu sei que não é a mesma coisa porque quando eu finjo que finjo, é como se já fosse eu outra vez e tu, quando finges, e finges muito bem, ficas outra pessoa que, se finge, ainda fica mais outra pessoa.

O meu fingimento é binário. Oscilo entre dois lugares opostos e discretos. Tu, no teu fingimento, multiplicas a tua multiplicação por estados que parecem não acabar e me deixam perplexo na singularidade dos meus dois lugares comuns.

Mas também podíamos fingir que ainda éramos crianças e fingir então que éramos adultos, e talvez assim a brincadeira já resultasse. Era mais fácil. Não tínhamos que inventar personagens complicadas, porque como crianças não tínhamos que saber exactamente como eram os adultos e, por isso, não tínhamos que complicar.

Agora íamos ser adultos que brincavam a ser crianças para então brincarem de adultos que tinham filhos crianças e as compreendiam por serem como elas, embora não fossem como elas a não ser porque fingiam que eram adultos.

Não. Não digas que é complicado. Tu às vezes finges tão bem que és criança. Outras finges que és adulto, outras que és velho. Sabes fingir todas essas idades e sair a correr delas como se fossem tuas e as não quisesses.

Agora não era suposto que chorasses. Não sei o que finges quando choras. Sabes que esse teu fingimento incomoda. Estás mesmo a sentir? E quem é que está a sentir? És a criança ou já és o adulto que a criança está a fingir que é? Não te percebo.

Queres brincar ou não? Tínhamos combinado - ontem lembras-te? - que hoje brincaríamos. Chegávamos do trabalho e brincaríamos. Mas depois tu telefonaste e disseste que preferias passar o dia a brincar em vez de ir trabalhar. Embora para ti o trabalho seja uma brincadeira. Nem percebo se estavas a fingir quando me telefonaste. Nem sei quem eras quando me telefonaste.

Eu confesso que hoje não me apetecia brincar. Fingi que me apetecia para não te desagradar. Mas agora percebo que a ti também não te apetecia. Também fingiste.

Então afinal estamos aqui os dois a fingir que fingimos que queremos brincar. E eu não sei se o teu choro é fingido ou se finges que não é um choro fingido. Eu finjo, tu finges, nós fingimos...

Não. Agora não sei como voltar a pegar em mim e ser eu. Preciso de algum tempo para pensar em quem não é a personagem. Suponho que há alguém aqui que não é uma personagem. E se houver hei-de descobri-la.

Prólogo

terça-feira, janeiro 24, 2006

Posttrês

Tinha-te dito, sem segundas intenções, que as tuas palavras tinham um certo fogo que as tornava ao mesmo tempo apetecíveis e perigosas. Percebeste, parece-me a mim que percebeste, que eu tinha alguma coisa escondida contra as tuas palavras, mas hesitava em ser claro, hesitava em dizer coisas que te parecia a ti que eu tinha para dizer e que eu não dizia por pensar que com elas te iria magoar.

Digo parece-me, e faço-o por redundância, porque o que digo é o que me parece e outra coisa não seria de esperar.

Pensei que agora poderia dizer exactamente o que te queria dizer quando te disse que as tuas palavras tinham um certo fogo que as tornava ao mesmo tempo apetecíveis e perigosas. Mas fazê-lo, agora, seria reconhecer que quando o disse tinha outra coisa para dizer. E não o tinha. Ou, se quiseres, parece-me que não o tinha.

O que quer que possa dizer agora, sobre o que disse ou sobre outra coisa qualquer, é um remendo sobre um rasgão que não sei de onde veio.

Eu sei que poderia tentar. Poderia tentar dizer a mesma coisa por outras palavras. Como se tivesse que explicar um conceito difícil e para isso usasse de analogias, comparações, metáforas, imitações que ficam no lugar onde estava outra coisa como se fossem ela, não sendo ela e não sendo já senão o esforço de reconstruir ou segurar de pé uma ruína que morreu.

Fico a pensar que já havia alguma coisa antes das minhas palavras. Talvez já houvesse mesmo qualquer coisa antes das tuas palavras.

Um esforço que eu fizesse para traduzir o que te disse, ou o simples dizer que não queria dizer outra coisa senão o que disse, parece levar-te a pensar que, outra vez, por detrás das minhas palavras, ditas sobre as tuas palavras, em consequência de ter sentido, estava uma intenção oculta que nem tu descobres, nem eu, do teu ponto de vista, quero dizer.

Seria melhor se eu tivesse dito que as tuas palavras eram belas. Não é mentira. Mas não percebo porque é que agora digo que 'seria melhor' se disse naquele momento as palavras que eram as palavras daquele momento. E o que quer dizer 'seria melhor'? A que 'melhor' me refiro? Dizer que as tuas palavras eram belas terá menor probabilidade de ter segundas intenções? E porque seria 'melhor' dizer essas palavras menos prováveis?

Não adianta. Nunca saberei conviver com a morte.

Aibieme

segunda-feira, janeiro 23, 2006

E733

Manhã de domingo. Sol na rádio para o dia todo. Vejamos. Não. O meteorologista não passou por aqui. A barba hoje descansa para que o domingo o seja mesmo. Quase ao fim da manhã o nevoeiro dissolve-se e o sol leva-me para a rua. Há movimento a mais para um domingo. O meu café está fechado para obras e por isso o jornal fica à espera com as notícias que já não são frescas.
Hoje é perigoso andar na rua. Há carros que não é costume andarem por aí e os condutores não sabem que as ruas que há trinta anos tinham dois sentidos agora têm só um; e outras mudaram de sentido. Ouço som de ambulâncias mas não deve ser por causa disso.
Entro na escola primária é quase meio-dia. À porta cheirava a farturas e uma bombeira adolescente tentou colar-me a uma etiqueta de marca. Recusei enquanto procurava no edital o 'E733'. Penso sempre o meu número como um conservante cancerígeno. Um dia tiram-me da lista. Sala 20. Aqui já não cheira a farturas. Cheira a uma mistura de mofo com naftalina. Há uma bicha para respeitar. Sinto-me intruso numa sala com desenhos espalhados pelas paredes: intimidades de escola. Noutros dias aquela sala tem outros cheiros. Hoje entrou o mofo e a naftalina. Cada pessoa demora muito a pôr a sua cruzinha. No totoloto o quadrado é menor mas é uma prática semanal. Aqui têm medo de se enganar e mesmo depois de dobrado o voto, olham de novo para ver se ainda lá está. A entrega à entediada presidente da mesa parece mesmo o depósito de um ente-querido.
Ponho a cruz no Alegre. Por uma vez. Mais logo os especialistas vão tecer um número interminável de considerações sobre o meu acto de pôr a cruz no Alegre. Embora nem nestas coisas a minha opinião tenha peso, devo dizer que fiz aquilo que se faz quando se tem que escolher uma coisa de entre outras: optei. Escolhi o que dentre aqueles achei melhor ou, o que dá no mesmo, o que achei menos mau. Apenas isso. E a minha intenção era que o Alegre fosse o presidente. Escusam de perder tempo a pensar nas inúmeras outras intenções que eu tinha escondidas na manga.
Desta vez saio e ignoro o cheiro das farturas. Há uns anos arrisquei e fiquei com azia.
Da capela os votantes vêm para a escola e por momentos o cheiro a mofo e naftalina sobrepõe-se às farturas. Hoje saíram à rua rostos lívidos que a revolução assustou. Vêm agora mobilizados por uma oportunidade equívoca de voltar atrás. Procuram uma abstracta linhagem de pureza, clausura, ordem e mistério que encaixou como luva no perfil hirto e dogmático que agora escolhem.
A adolescente dos bombeiros pediu reforços e consegue auto-colar bastante gente. Em Bagdad os votantes reconhecem-se pelos dedos sujos de tinta; aqui pelo autocolante dos bombeiros. Há certamente um grupo de pressão que faz com que os dias de eleições sejam sempre ao domingo. Talvez por isso o voto mantenha este ar sacralizado e me apeteça pensar que podia ser diferente. Quase tudo podia ser diferente desta apologia da tristeza.

Zumbido

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Fluidos

Às vezes acontece-me acreditar.
São pequenos instantes, lapsos de tempo em que há um adormecimento qualquer da razão.

Proponho a química como explicação.
Uma intersecção improvável dos fluidos corporais leva a razão a baixar os braços, a desistir de ser.

Mas também pode ser o tempo.
Porque o tempo move-se aos saltos, não é um fluido contínuo.
Na linguagem dos físicos o tempo está quantificado.
Um 'quanta' de tempo, um 'cronão' - porque não? - há-de ser essa entidade minúscula, quantidade granular que vai passando - ela sim - pela ampulheta magnífica do instante.

E os grânulos do tempo não são todos iguais.
Alguns aparecem na engrenagem com dimensão tal que da fluidez fazem turbulência e da fé um estado estacionário.

Há quem garanta, por experiência própria, que as ocasiões de crença, muitas ou poucas, resultam do medo.
Mas são pessoas que resolvem tudo com o medo.
Contabilizam os estados de inquietação com teorias da ameaça e recuam para locais abrigados, para o fundo encoberto das cavernas.

Às vezes acontece-me acreditar.
E confesso que sabe bem.
Do rosto ausenta-se, nesses instantes, a contracção aborrecida da desconfiança.
Os braços levantam-se como se soubessem dançar.
Os pés ficam absurdamente ávidos de longas distâncias e saltos muito vivos.
O coração adormece os seus impulsos assassinos.

Mas não tem lógica nenhuma.
Não, não tem lógica nenhuma.

Sísifo


quinta-feira, janeiro 12, 2006

Postdois

Cada dia antigo ou dos que vêm a seguir a este que agora é, passo sobre os efeitos pouco edificantes de olhar para o lado e me parecer que o horizonte se tornou baço. Dizes, tens dito repetidas vezes, que o passo que se pode dar no instante que se vive é o mais importante; que o olhar para trás é, num sentido lato, uma derrota ou um hiato na marcação do tempo; que antecipar, guardar recursos na despensa dos afectos, é trocar uma loucura por outra.

Não sei ainda que opinião posso dizer de ti. Eu sei que passaram anos, que o tempo deveria ter sido suficiente para eu deixar de te sonhar apenas, e dar-te consistência, corpo, sobriedade. Há em todos os actos uma lógica - gosto de pensar assim - e se não vejo a lógica, se parece faltar sentido, isso é apenas por ainda não ter chegado lá.

Está bem, eu tinha dito há muitos anos, com a certeza que tinha na altura, que tu eras isto e eras aquilo e que isso me bastava. Mas tu, como eu - como essas coisas todas que andam por aí e dizem que são - és um alvo em movimento. Quando já construí a tua nova máscara, sobe de estranhas profundidades um novo traço que desvia o olhar e apaga tudo o resto. E eu?

É possível. É possível que também comigo ocorram os mesmo movimentos telúricos. É possível que em cada manhã o rosto tenha mais um risco e o meu salto mortal tenha uma nova variante. Mas sabes que esses rodopios sou eu. Eu digo sempre antes de saltar: olha este movimento; olha este pormenor.

Concordo, não é só isso. Haverá coisas que tu vês e que eu não vejo. Mas podem ser os teus olhos. Pode ser o não estares na mesma posição de ontem que te leva a ver-me de uma maneira que não é a mesma de ontem. O sistema tem muitas variáveis.

Há muita violência no choque entre dois comboios que caminham a grande velocidade um contra o outro. A física explica isso pela adição das velocidades. Gosto do sinal mais. Gosto da soma e de somar a mais b e ver ambos a diluirem-se num novo e diferente c.

Hoje o meu filho falou-me de ter aprendido que a adição não tem elemento absorvente.

Ainda é muito cedo para ele saber a verdade toda.

Aibieme

terça-feira, janeiro 10, 2006

Miragem



De um desafio de Tozé


Tozé, tenho que reconhecer que esta foto não me diz nada. Um velho e uma criança na areia de uma praia, desenhando ao mesmo tempo um futuro e um passado, ambos errados, ambos querendo acima de tudo brincar. Pois, não me diz nada a fotografia.

Talvez o desenho, sobre a areia, de geografias novas. Talvez uma ocasião exacta em que alguém ainda ensina e alguém ainda aprende. Talvez uma magia que prende o olhar orgânico mas não engana a máquina. Talvez o vazio do ser, subitamente preenchido por um milagre.

Não, não me diz nada.

Porque se quisermos ver a imagem com uma certa frieza, e os tempos são propícios a não nos lembrarmos do calor próprio das coisas, areais imensos, anos acumulados e expectativas é o que mais há por aí. E sabemos como tudo isso é vão, deslavado, irreal.

O que eu vejo nesta fotografia, embora possa estar completamente enganado, é um olhar que parece querer trespassar o mundo com uma atenção que me comove. Porque há esta questão que, talvez erradamente, me parece esquecida: atrás da zona luminosa que atrevidamente é captada, roubada portanto da realidade instantânea que o tempo permite, está um olhar.

E hoje, ao olhar para esta foto que no sentido directo não me diz nada, não pude deixar de me colocar no lá atrás onde, no difícil papel de ausente que se perde sempre e se esquece e se reduz, pode ser referido um acaso, uma oportunidade, um rasgo, enfim alguém que no momento exacto que a memória reteve soube carregar no botão do sentido.

E por isso é estranho que uma imagem limpa e límpida a que recusei audácia, traga afinal uma carga de beleza e reflexo que põe na objectiva um pensamento e no obturador o sentir.

Talvez eu esteja enganado. Talvez não passe de uma miragem.


segunda-feira, janeiro 09, 2006

Indicador

Tenho sempre que voltar atrás.
O objectivo é encontrar a causa de todas as coisas ou pelo menos de algumas delas.
Quando parece que o modelo se completa ocorre uma brecha e a consistência, a divina coerência, perde-se, dilui-se, cai.

Recorre-se então aos exemplos impossíveis e justifica-se o injustificável com evidências e aforismos.

Prefiro voltar atrás.
Recomeço, reinicio, reinvento, resumo.

Não é bom o sentimento de piedade. É apenas piedoso.
A piedade é a fraqueza na sua máxima força.
A lágrima pende fácil e contorna o olho procurando um lugar onde se aconchegar numa pena que não doa mais do que um ligeiro olhar para o passado.
A lágrima manda, ordena o mundo e espera sempre que outra lágrima a siga.
A lágrima tem a sua própria genealogia e engendra sempre uma prole numerosa e entusiástica.

Hoje, agora, nestes dias que passam sonâmbulos e formidáveis a piedade escreve-se em dígitos grandes e pode ser comprada e comparada em formas digitais.
Pegando num cérebro humano, desses muitos que há por aí dispersos, usando as mãos de maneira hábil, comprimindo aqui, soltando ali, umas pancadinhas, um ligeiro aliviar da pressão, um polegar raspando levemente a pálpebra e um indicador que suavemente massaja o lóbulo da orelha, consegue-se com relativa facilidade que ele verta uma vasta torrente de lágrimas.
De idêntica forma se faz rir.
E não são muito diferentes as maneiras de fazer sonhar, vomitar, lutar, gritar, parecer…

Diferente é fazer ser e pensar.

Pode então chorar-se com o mesmo desvelo o herói, o mártir, o pai, o irmão, o assassino, o deus, o mendigo, o tirano, o déspota, o santo, o ladrão, o louco, o sábio, o devasso e o honesto.
Pode gemer-se com a mesma intensidade um membro quebrado, o estômago vazio, o campo queimado, o corpo leproso, a falta de rede, o café pouco quente, o sapato novo apertado e a queda na bolsa.

A piedade não é um bom indicador económico.

Du Sísifo

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Um poste como deve ser


Du Nitrato

domingo, janeiro 01, 2006

Morra o d'antes, morra! Pim!

Agora que chegou ao fim o fim do fim do ano e que o fim do fim do princípio do ano também se aproxima, é a altura certa para tomar a decisão de adiar a tomada de decisões importantes.

Por princípio nunca começo as coisas pelo princípio e nesta altura em que, digamos assim, o campeonato já vai a meio, é um risco arriscar começar o que quer que seja.

Partamos, portanto, da elementar verdade de que aquilo que não for começado não corre o risco de não ser terminado e sobre isso construamos uma nova ordem mundial.

Cada decisão que tomamos é errada. Garantidamente errada. Mais tarde ou mais cedo.

Mesmo assim, por inerência de uma certa inércia que terá vindo do início dos tempos - uma evidente decisão errada - gerou-se uma necessidade incontrolável de tomar decisões, gerando com elas novas necessidades de tomar decisões e assim sucessivamente.

Há, nitidamente, uma grande dificuldade em a realidade ter verosimilhança. Suponho que é um problema que ocorre a qualquer prosador e ainda mais ao prosador que tenha a veleidade de - por razões certamente inconfessáveis - querer ser lido. Mas para a realidade, que em tempos teve, pelo menos por inerência de cargo, a responsabilidade de ser autêntica, a falta de verosimilhança impede aquilo que se chama a realização de um contrato com o leitor.

Por todas estas razões estou à espera de um dia destes, em que a conjugação dos astros, dos asteróides, das luas, dos cometas e dos outros objectos celestes, seja propícia, tomar a decisão de deixar de ler a realidade, saltar as linhas e as páginas em que for evidente o excesso de imaginação deslocada do contexto, ignorar os textos obtidos por 'copy & paste', ignorar os textos gerados a partir da máquinas electrónicas de repetição ou de geração aleatória que passam por criativos, indignar-me com novidades trazidas directamente do baú do morto.

Ontem ouvi outra vez o Dantas do Almada. Morra o Dantas, morra! Pim! Em miúdo, não sabendo quem era o Júlio Dantas, parecia-me que o Almada dizia: Morra o d'antes, morra! Pim!

Para este ano prevê-se o regresso do Dantas e do d'antes. Pim!


Du Prólogo


Postum

Sabes, eu sei que quando tu usas palavras inadequadas isso quer dizer que esgotaste o sentido e queres agora determinar os passos seguintes por palavras que já não são tuas. Mas isso não é muito importante. Porque apesar de perceber a sua falsidade eu bebo as tuas palavras. É tudo uma questão de percepção e não se percebendo o que é que vem a seguir não temos hesitações em acreditar que o actual, estas palavras que são ditas, são as certas, as adequadas para o momento que vem a seguir, tornar as constantes imaginárias que povoam os sentidos, indeterminações.

Não é há muito tempo, infelizmente, que te leio. Poderia ter-te lido desde o início. Poderia ter-te lido mesmo antes de começares a escrever, mesmo antes de começares a saber escrever. Mas aí, devo dizê-lo, já haveria alguma batota, alguma viagem no tempo. E isso, confesso, eu não sei fazer. Sou um tipo prosaico. Não tenho quaisquer espécies de ligações ao transcendente. Ouço as palavras e levo-as para o sentido abstracto que têm sem acrescentar um milímetro que seja à sua natureza.

De facto, eu sei que tu não sabes. Tens uma vaga ideia que te leio e que com essas palavras que leio aproveito para fazer uns movimentos telúricos nas minhas emoções. Nada que transcenda os momentos, óbvios, da verosimilhança.

Por isso, sem razão nenhuma, vou diariamente à procura dos teus textos e quando os encontro meço-os como se fossem novas unidades da diversidade humana e a seguir coloco-os, com alguma ternura, é verdade, no estreito campo das palavras esquecidas.

Percebes então que o que me falha, admitindo sempre que me falha alguma coisa, é a razão. Mas isso não é razão para não perceber que o meu esforço é honesto. O que eu queria, de facto, e vem a talho de foice neste momento em que o ano recomeça, era passar o meu tempo a olhar para um horizonte a que sentisse alguma pertença. Como o cavalo que apesar do sofrimento sente que pertence à terra que ajuda a lavrar- eu sei que é uma comparação forçada mas as comparações são, por definição, forçadas. Porque eu não sinto que pertença ao meu sofrimento e queria, por isso, estar num lugar em que sentisse. Simplesmente isso: que sentisse.

Há nos teus textos, que procuro, uma intenção pouco clara de tornar os sonhos dos outros momentos de fulgurante realidade. Mas isso é irrelevante. O que eu queria era que fosses capaz de escrever, com as tuas ágeis palavras, um destino que me agradasse.

Aibieme

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Momento

Para um desafio de palavras em linha sobre fotografia de revelações avulsas


Podemos olhar para um rosto e ver nele o tempo. Imaginar que esse tempo foi todo ele como se nos apresenta agora. Pensar que nos interstícios de cada ruga se alojou um desgosto.

Mas também podemos ver no olhar firme o traço intenso da vontade e a fruição íntima de um gesto ou de uma memória. Digo eu. Que gosto de olhares fixos no horizonte, abandonados a uma reflexão que parece concentrar num instante todos os destinos.

O nosso olhar é o momento do nosso olhar.

E no rosto instantâneo, aliviado pela tigela de caldo, paira, naquela impressão primeira que me autorizou um sorriso terno, a posse de um passado cheio de acontecimentos, de acasos, de sortes e de perdas. Isso mesmo. Tal e qual como eu, tal e qual como nós.

Um rosto que sobreviveu ao tempo, e que aparece agora recheado de idade, aconchegado pela roupa quente, alvo e quieto, imune às velocidades de quem ainda espera muito, lembra-me, às vezes, como neste caso, sabedoria.

Parece-me, pelo menos nos dias bons, que não devo lamentar o tempo nem os cabelos brancos.

A 'alma', essa animação que nos identifica e percorre um intervalo de tempo, tomando da terra a matéria emprestada, termina um dia. Mas cada um de nós é, enquanto é, só e apenas essa animação. E isso é extraordinário.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Na tal...



terça-feira, dezembro 13, 2005

Referendo ao aborto

Depois da questão socrática sobre a efectiva natureza do tempo, que dividiu a nação entre aqueles que consideram o início do ano no princípio e aqueles que consideram que o início está no fim - repetição assaz semelhante à que há uns anos deu origem a que este século se iniciasse pelo menos duas vezes - viu-se adiado para nova oportunidade o referendo ao aborto. Tudo parecia, portanto, indicar que a opinião dos portugueses sobre o aborto não iria coincidir com a escolha do próximo Presidente da República.
Não começando a actual sessão legislativa antes de acabar a sessão legislativa anterior, nem se sabendo se a sessão legislativa anterior já acabou ou ainda estamos nela, ou melhor, na eventual possibilidade de já estarmos numa nova sessão legislativa que afinal é ainda a anterior, e por ser a anterior não se pode considerar já como sendo a sessão actual, pode considerar-se que houve pelo menos uma sessão legislativa que abortou.
Embora pareça, esta questão não é irrelevante.
De uma maneira que há poucas semanas era difícil de imaginar, a opinião dos portugueses a propósito do aborto parece ter tido uma viragem de 180º (pi radianos no sistema internacional). De um momento para o outro, a maioria dos analistas parece ter-se dado conta da importância do aborto na redução do défice nacional. O aborto é, nos círculos mais bem informados e mais abonados, a solução para todos os problemas dos portugueses. Aquilo que aparecia uma prática infame e indigna ainda não há dez anos, ganhou uma dinâmica salvífica que está a dinamitar - perdão, dinamizar - a nação de norte a sul de Portugal de aquém e de além-mar. Os gigantes, mais ou menos gigantes... pronto, os maiores grupos económicos nacionais, movem-se no sentido de melhorar a imagem nacional do aborto, de maneira a que a população, tradicionalmente católica, consiga engolir esta mudança de paradigma.
Por essa razão, no próximo dia 22 de Janeiro, em que chegou a estar prevista a realização simultânea da eleição do Presidente e do referendo ao aborto e, posteriormente, apenas a eleição do presidente, vai, afinal, fazer-se apenas o referendo ao aborto.
Mas a mudança não se fica por aqui. As forças vivas inverteram-se. Os mais insuspeitos e aguerridos militantes anti-aborto, toda a direita, extrema direita e algum centro que tem medo que lhes queimem os jaguares, tornaram-se de repente os seus maiores apoiantes. A própria Igreja, embora não aplauda directamente, inclui em toda a sua actualmente frenética actividade, elementos que têm vindo a público apoiar claramente o aborto como solução para todos os nossos problemas.
O mais surpreendente de tudo é, no entanto, a atitude da esquerda. Apesar de extremamente dividida está empenhadíssima em que vença o não. Aliás, todo o discurso da esquerda está, como quase sempre, centrado em dizer não, neste caso ao aborto. Ninguém sabe exactamente o que é que quer a esquerda, mas sabe-se que não quer o aborto.
De facto, há dez anos ninguém poderia prever esta reviravolta no eleitorado nacional.

Ivo Cação


terça-feira, novembro 29, 2005

A Chris (II)

Confesso ter acreditado que a Chris se iria embora assim que chegassem os dias frios. A minha casa, um terceiro andar em Mem Martins, tem as mesmas condições da maioria dos apartamentos do país, isto é, nenhumas, para resistir a baixas ou a altas temperaturas exteriores e fica-se na dúvida se nesses dias não se estará melhor na rua. Claro que não é um problema apenas das habitações. Basta pensar na premiada Gare do Oriente onde, de certeza, ninguém pensou uma vez que fosse que se destinava a pessoas.
Apesar do protocolo de Quioto a Chris está-se nas tintas para as emissões de CO2 e mantém os aquecedores ligados vinte e quatro horas por dia atirando, com a maior das calmas, o meu dinheiro para a rua através da paredes mal isoladas.
Não há dúvida que a Chris veio para ficar. E começo a sentir a pressão de me parecer que estou a mais na minha própria casa. Vou para a varanda, a única do prédio que ainda não tem marquise (o que faz com que os vizinhos já me olhem de lado), fumar o que penso sempre ser o último cigarro e olho, com alguma inveja, para as varandas dos outros prédios fechadas pelo alumínio, da felicidade e harmonia que imagino inundar aquelas casas apenas por não terem que compartilhar o espaço com uma Chris.
O Hilário, que nas raras vezes em que não tem que fazer toma umas cervejas comigo na padaria da D. Albertina, depois do trabalho (do meu trabalho porque ele está no desemprego e passa o tempo todo a fazer uns servicinhos para os três ex-sogros), pergunta-me com o seu ar trocista, quando me queixo, porque é que não ponho a Chris a andar. E eu venho para casa a pensar nisso. Para ele a coisa é muito fácil de resolver. Arranja sempre uns esquemas e não se detém a pensar nas consequências disso para o resto da humanidade.
Não há dúvida que sou um coração mole. Vejo como ela está a condicionar a minha vida e não sou capaz de tomar uma atitude. Ponho-me com pensamentos lamechas: coitada da Chris, que seria dela, sem amigos nem amigas, com aquele feitio difícil, ninguém a quer aturar, nem os pais nem os filhos que negam sempre ter alguma coisa a ver com ela. Não sou capaz de a pôr a andar.
Tirando o consumo de electricidade, os canais do cabo e a alimentação excessiva, a Chris até nem tem feito muita despesa. Para ajudar até já só toma dois banhos por dia. Cheguei a sentir que talvez ela até estivesse a querer colaborar. Acreditei.
Mas agora anda outra vez com os olhos a brilhar. Projectos, diz ela, um bocado megalómanos. Coisas em grande para se manter ocupada e ir disfarçando a insipidez da vida afectiva. Quer mudar todo o chão da casa porque daqui a dez anos já não estará em condições, mudar as cortinas para materiais mais modernos e vistosos, e pôr um computador em cada compartimento para ficar uma casa tecnologicamente avançada e preparada para o futuro. Fiquei chocado. Já a vi várias vezes com aqueles olhos e brilhar de ideias maravilhosas e da merda que deram.
Além disso a Chris sente-se muito bem. Sente que tem o futuro garantido. Os potenciais presidentes, os potenciais governos e o estado de espírito dos concidadãos são uma garantia.


Ivo Cação
©
Dias que voam

sexta-feira, novembro 11, 2005

Literatura Láite: uma lista por desordem cronológica

(proposta restante no dias que voam)

Podia começar pelO Náufrago (TB) e ficar por aí mesmo. Era suficiente para levar para uma ilha deserta e lá ficar até ao fim. E tem música incluída. Mas como não vou para nenhuma ilha deserta, nem vou para lado nenhum, passo a outros (TBs) como O Sobrinho De Wittgenstein, o Betão ou a Perturbação. O autor de E Não Disse Nem Mais Uma Palavra ou Retrato De Grupo Com Senhora (HB) que já não se encontram em lado nenhum - o que não me incomoda porque sou muito egoísta - foi até hoje o único autor cuja morte chorei. Também teria chorado o autor dO Livro De Areia e das Ficções (JLB) se ele não me tivesse preparado com as suas fabulosas entrevistas. Na Corda Bamba (SB) fiquei para sempre com As Palavras (JPS) e O Castelo (FK) e ao Reviver O Passado Em Brideshead (EW). Tenho o Complexo De Portnoy (PR) - salvo seja - e O Meu Michael (AO) vai crescendo enquanto A Sibila (ABL) anda sobre O Fio Da Navalha(SM). Pedro Páramo (JR) tem Cem Anos de Solidão (GGM) para fazer A Obra Ao Negro (MY) nOs Cus de Judas (ALA). Bartleby (HM) é O Estrangeiro (AC) que nO Ano Da Morte De Ricardo Reis (JS) instala O Mal De Montano (EVM) no Império Do Amor (LCG). Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto (MC) mas a Aparição (VF) dO Delfim (JCP) e mais Três Homens Num Bote (JKJ) nO Vale Da Paixão (LJ) com O Contrabaixo (PS) resultaria nA Morte De David Debrizzi (PM) em casa dOs Maias (EQ) Se Numa Noite De Inverno Um Viajante (IC), O Vendedor de Passados (JEA), não trouxesse Mexilhão Para A Ceia (BV). Esta Noite Sonhei Com Brueghel (FB), O Jogador (FD) das Crónicas Americanas (SS)...

ABL - Agustina Bessa-Luís; AC - Albert Camus; ALA - António Lobo Antunes; AO - Amos Oz; BV - Birgit Vanderbeke; EVM - Enrique Vila-Matas; EQ - Eça de Queiroz; EW - Evelyn Waugh; FB - Fernanda Botelho; FD - Fiodor Dostoiévsky; FK - Franz Kafka; GGM - Gabriel Garcia Marquez; HB - Heinrich Böll; HM - Herman Melville; IC - Italo Calvino; JCP - José Cardoso Pires; JEA - José Eduardo Agualusa; JKJ - Jerome K. Jerome; JLB - Jorge Luis Borges; JPS - Jean-Paul Sartre; JS - José Saramago; JR - Juan Rulfo; LJ - Lídia Jorge; LCG - Luísa Costa Gomes; MC - Mário de Carvalho; MY - Marguerite Yourcenar; PM - Paul Micou; PR - Philip Roth; PS - Patrick Süskind; SB - Saul Bellow; SM - Somerset Maugham; SS - Sam Shepard; TB - Thomas Bernhard; VF - Vergílio Ferreira.

Zumbido


terça-feira, novembro 08, 2005

A Luciah

Sokolsky (spead)


Há um estranho pacto entre as bruxas e as coincidências.
Vêm ambas de um lado de lá do sonho.
E ambas existem mesmo sem acreditar.

Paris é uma festa.
Paris já está a arder.
Paris nunca se acaba.

Luciah encontrou-me cedo na infância, e olhei para ela como se fosse verdadeira.
Ela tinha todas as formas e mais as formas de mulher.
Parecia sempre ser uma coisa e era outra.
E mesmo essa coisa que ela era, não era ela mas outra coisa.

Luciah construía mundos e com isso construiu os meus mundos.
Dizia que Kafka era igual a Kapa, mesmo que fossem diferentes.
Que Cervantes era igual a Quixote e Sancho ao mesmo tempo.
Falava de deuses e humanos em pé de igualdade e criava falsos deuses assim como falsos humanos que eram igualmente verdadeiros.

Luciah traz-me todos os dias notícias frescas num prato aquecido com o fogo do inferno.
Traz-me anjos, santos e bem-aventurados aventureiros.
Exemplos do que se pode ser e do que se não é.
Sonhos que enchem o mundo como o ar que se respira.

Porque gosto então de Luciah se sei que é mentirosa?
Porque não passo eu sem as suas nocturnas fábulas rotineiras?
Pior que isso: porque vou, como um dependente, à procura das falsidades de Luciah?
Talvez por ser ela que faz de mim humano.

É Luciah que me traz à cabeceira a ligeira hipótese de considerar o viver como coisa aceitável.
É ela que flutua sobre a estrutural fantasia dos textos.
É Luciah o lado de cá de eu não me sentir um mero DNA reprodutível.

Cada vez que encontro Luciah, e em que ela a seu bel-prazer me faz, com as suas artes, oscilar violentamente entre o amor e o ódio, entre a paixão e a viagem, entre o medo e a sofreguidão, entre o poder e o vácuo, entre a música e o ardor do mérito, percebo que Deus, na sua superior sabedoria, criou Luciah para dar sentido a uma obra eternamente adiada.

Luciah, campeã da ironia, há-de morrer sem revelar os seus segredos!


Ivo Cação


sexta-feira, novembro 04, 2005

A Pathricia

Só este ano percebi porque é que odeio as férias. Muito simples: porque há o regresso. Noutras férias nem tenho saído de casa mas este ano aproveitei para me livrar da Chris durante umas semanas. Foi bom de mais não fora este retorno doloroso. No ano de Einstein, é nestas pequenas coisas que se descobre a relatividade. Se eu não gozar férias não tenho a sensação trágica do regresso à realidade.

A Chris continua por cá e parece que se instalou para ficar. A casa estava um caos quando cheguei. Resolveu começar a escrever um guião para um programa de televisão e por isso, diz ela, não tem tido tempo para manter a casa limpa e arrumada. Sonha ser uma mulher famosa e acha que a TV é o veículo apropriado. Eu aceno que sim, que ela faz muito bem em estar entretida, não acreditando que a ideia dela alguma vez seja aprovada. O programa vai chamar-se 'Vomitorium' e é um concurso em que o vencedor é o concorrente que conseguir maior quantidade de vomitado do júri.

Consolam-me as memórias das férias. Passei algum tempo com a Pathricia. Uns dias, poucos. Ela continua a não ser capaz de estar muito tempo no mesmo lugar. E eu a ter cada vez menos vontade de me mover.

Entre qualquer fim e qualquer princípio, entre qualquer prólogo e qualquer epílogo, entre qualquer pensamento e qualquer realização está sempre Pathricia. Conheci-a tarde, demasiado tarde como se costuma dizer. Não por culpa minha ou por culpa dela mas, como se costuma dizer também, por causa das circunstâncias. As circunstâncias. É difícil descrever as circunstâncias em que conheci Pathricia. Por isso o melhor é omiti-las, como ela própria faria por ser mais sensível aos ambientes e à passagem das nuvens do que à aparente fixidez das estrelas.

Se pudesse, assim num pequeno gesto de magia, reeditar as ocasiões em que sem me dar conta disso - sem medir o tempo nem o horário, sem pensar nem quase sentir, sem pesar nem quase respirar - sonhei a perfeição do ser, teria que ser com Pathricia. Foi ela que me revelou o estado inerte de tudo o que não se move; que me levou a perceber o voo como essência do existir e como ocasião da vontade. Com ela tudo está onde já não está; tudo se muda do momento para o momento seguinte, pouco antes de se estar a atingir o lugar do desejo. Em Pathricia todas as fases estão desfasadas, todo o tempo é assíncrono, toda a verdade é opinião, todo o sentido é ilusão.

Um dia, quando por qualquer razão me conseguir libertar destas pequenas, mínimas, miseráveis ligações que agarram os pés à terra que desconhecem; quando vir em cada pequeno pormenor do percurso um gigantesco emissor de júbilo; quando num curto gesto, ao passar a mão em afago sobre a parede fria sentir um tremor especial de milhares de efervescentes motivos de alegria, estarei apto a acompanhar Pathricia em permanência, na sua feliz deambulação eterna à procura de lugar nenhum.


Ivo Cação

© diasquevoam.blogspot.com

domingo, outubro 09, 2005

A Saphira

Et in Arcadia ego. Não, não sei latim. Ficou-me esta frase de há muitos anos quando revivia o passado em Brideshead. Sem propriedade, diga-se. Aconteceu apenas porque me lembrei de Saphira. E a memória é sempre uma feiticeira boa que vem em auxílio de quem já não sabe sair do estreito caminho da evidência.

Saphira esteve comigo no lugar que primeiro defini como meu. Filho único, avesso ao encontro fortuito com a realidade rude e agreste, encontrei em Saphira a companheira, que não sendo capaz de distinguir entre a aventura e a conveniência, me levava para os espaços ocultos onde eram possíveis os devaneios.

À distância, fica a dúvida se a felicidade da memória não é um duro texto de reclusão ornamentado por Saphira na sua proverbial bonomia e poderosa coragem. Lembro-me das palavras de Sartre e já não sei se são dele ou minhas, se Saphira as trouxe a mim e me repuxou o olhar estrábico para parecer um neto de doutor que passou a infância a ler.

É mentira. Na infância eu plantei uma nespereira. Enterrei o cinto do meu pai no quintal e enchi o pátio de guerras horríveis em que ganhavam sempre os bons. Saphira ao meu lado, olhos brilhantes, tentadores, sorriso eterno, incentivador, murmúrios nos lábios como o tal anjo-da-guarda que nunca cheguei a ver.

Agora já cá não estão na casa os coelhos e as galinhas que cantavam os ovos novos. A distância do quintal também já não é imensa e a pasta da escola, quando ainda era desejada, já não tem aquele cheiro a novo que parecia definir o outono.

Há as marcas do corpo. Na dobra da perna a cicatriz de um dardo metálico do portão que servia de baloiço; ao pé do joelho o furo de um pauzinho chinês que, afiado, serviu de punhal para desbravar a floresta das traseiras; e as falhas de cabelo, dos galos, quando a cabeça absorvia os choques.

E há as outras marcas. Marcas desviadas de qualquer propósito que não o de reservar para cada momento um encontro completo com Saphira. Não havia fadas, não havia gnomos, mas havia já heróis da televisão. Dois revólveres, um chapéu negro, um lenço da mãe ao pescoço e muitos fora-de-lei para matar e prender. Ainda não sabia mas era um Cartwright de pleno direito. Transportava-me a cavalo, alinhando o passo pelas marcas negras do chão, dançando com a elegância que via nas cerimónias iniciais das touradas.

Li, em tempos, ao lado de Saphira, que os lugares e as coisas guardam, nos interstícios aparentemente vazios dos átomos, todos os acontecimentos em que intervieram e que, se prestarmos a devida atenção, eles nos devolvem essas imagens acrescidas da ternura própria de quem é eterno. Não sei se é assim porque o tempo me tornou surdo às coisas demasiado pequenas e a visão passou a deliciar-se apenas com o que reconhece.

Mas não mudou tudo: Saphira ainda anda por aí.



Ivo Cação