quarta-feira, agosto 08, 2007

Comparação

Sabes? Não é possível chegarmos aos sonhos dos outros. Nem aos nossos. Mas ainda menos aos dos outros. Cada gesto que construímos na particularidade do nosso entendimento, pressupõe uma história, e medos muito próprios. E não sabemos nada dos sonhos dos outros.
No estado puro o pensamento talvez dispensasse a informação do tempo. Mas nunca sairia do seu lugar original. Vogaria em círculos sobre a mesma paisagem, e se não chegasse ao tédio seria por desconhecimento. Mas o estado puro é também ele um sonho, ou mais propriamente um pesadelo.
Na realidade, chamando realidade a este lugar que habitamos com os nossos sonhos, há em cima de cada desejo um peso extravagante de formas, sentidos e perdas. Tudo junto numa bola de trapos que permanece inquieta entre os dedos.
Mas aos sonhos dos outros não chegamos. Arquivamos as frases melhores e sorrimos quando a memória atraiçoa mais um momento que se perdeu. Sobre esse estrado de emoções constrói-se outro andar da torre da nossa Babel interior. Claro que o objectivo é o céu.
Que fazer quando, sobre o tabuleiro, parecem esgotados os movimentos que garantem a vitória? Como viver sem essa vital substância da comparação? Como permanecer no lugar em que não se é sempre o primeiro? Como sentir alguma coisa quando sobre o sentir paira sempre a ave abrupta da imposição?
Quando nasci não me questionei sobre a liberdade. Tinha outros propósitos, e alimentar-me era o que me tornava vivo. Ao pé de mim passou o tempo e houve um instante em que devo ter sentido que o vento era mais forte do que eu. Terá sido aí, pelo acaso de um momento, que me apercebi da estranheza do lugar. Nada do que tinha pensado era autêntico, e olhar para as coisas com atenção não era suficiente para as ver.
Haviam outras formas e outros mundos, outras idades e outras estranhezas, outras manchas e muitos outros sonhos. De cada lado da certeza surgia uma verdade diferente e a cada uma delas eu poderia designar suprema se isso fosse a minha vontade. Também porque em todos os sentidos a minha designação era inútil e a minha vontade etérea.
Nasci num tempo em que já todos os objectos tinham nome. Mesmo as coisas que não se sabia o que eram, eram coisas. E às coisas que eu ainda não sabia que eram coisas chamava aquilo. E o tempo passei-o eu todo a aprender os nomes das coisas, a saber de cor as cores e o números e a tentar arranjar outra coisa que o dicionário ainda não soubesse.
Tempo ganho é tempo perdido de outra forma. O passo que se dá para a frente já tem o seu ocaso no próprio passo. Mas nenhum sonho o distingue de outro. Nenhuma comparação.
Sabes? Não é possível chegarmos a sonho nenhum. Nem aos nossos nem aos dos outros. Este lugar onde ocorrem os nossos sonhos é tão irreal como os sonhos que temos deste lugar. Depois de virarmos uma esquina há sempre outra esquina para virar. E, por causa dos sonhos, as esquinas são sempre outras. Isto é o que se sabe. Haverá outras coisas que não se sabem. O que dói muito a dizer.
Aquilo que eu queria, aquilo que teria feito as coisas parecerem, segundo os meus sonhos, diferentes, era a hipótese, ainda que remota, de haver algum sentido oculto, coisa ainda sem nome, que valesse a pena procurar. Essa seria a razão mais que suficiente para andar por aí, no maior dos tédios, a alimentar o corpo.

ikivuku

quarta-feira, agosto 01, 2007

Por outras palavras...

Mil anos de trabalho precário

"Não existe um clima de medo. A precaridade no trabalho é que tornou as pessoas subservientes."


António Arnaut, Visão

quarta-feira, julho 25, 2007

domingo, junho 24, 2007

Surpresas

Neva no topo da montanha.
O frio e a sua mancha branca regressaram.
Os ciclos, desanimados com a rotina, preparam surpresas e tempestades.
Os caminhos tornam-se indiscerníveis e os passos marcam-se pesados.

Transporto um mundo às costas e com ele a minha vida.
Não é muito nem pouco, apenas o essencial.
Restos de coisas que foram restos de outras coisas.
Como o nosso corpo é o resto dos outros corpos que o fizeram.

Mesmo que eu não saiba ou não queira saber, houve alguém antes de mim e haverá alguém depois.
Os passos que ficam na neve serão tão efémeros como o meu medo.

Lá no topo, as horas são mais longas e o frio mais frio.
Agora que a temperatura é baixa ninguém lá vai, e a solidão é sólida.
Em nenhum caminho me cruzo com outra palavra.
Apenas o meu monólogo de louco que não quer ser.

Quando se fala é contra o silêncio.
É o único que perece perante a voz.
E o que digo, e digo porque penso, é mais do que penso e digo.

Há também a voz do vento.
Voz que diz o que sabe, como se soubesse.
E é o vento a coisa mais humana que encontro nos lugares altos onde me empurro.

Para todas as coisas é necessário estar preparado.
Mas há tanta variedade de coisas, que acontece sempre uma surpresa.
E depois, na surpresa que nos surpreende, não há nada de novo...

Esse não é o meu caminho.
Não estou à espera de surpresas.
Estou como se estivesse preparado para todas as surpresas.
Jogo com elas e esqueço todas as suspeitas.
O que vier a seguir é ainda uma daquelas coisas que podem ser.

E o que pode ser, o que está dentro do horizonte das possibilidades, faz parte do saco grande de surpresas que na infância soubemos estar à nossa espera.

Não sou eu que espero as surpresas no topo da montanha.
São elas que estão pacientemente à minha espera.

Sísifo

sábado, junho 23, 2007

sexta-feira, junho 22, 2007

Postdezasseis

No lugar onde moro há fantasmas. Passam de um lado para o outro a zunir, com um propósito que me ultrapassa. Suponho que os trouxe de outros lados, mergulhados no meio dos livros, agarrados ao pó dos objectos ou simplesmente embrulhados numa colecção de memórias mais ou menos oblíquas. Mesmo ouvindo mal, ouço-os à noite a roer o tempo, desprevenidos do súbito silêncio de uma casa oca de sentidos.
Como noutras ocasiões em que me adaptei ao ruído sombrio que vem do prólogo do universo, também se tornaram familiares as deambulações equívocas dos espectros. Há em todas as perturbações um carácter efémero que logo a seguir pode provocar a nostalgia da ausência. Deve ter sido isso que não percebeste.
Tinha-te dito, com alguma ênfase, que não há à minha volta lugares abandonados. Depois de algum tempo de espera o meu lastro cresceu e cada passo que dou é outra vez o primeiro dos últimos.
O que te assustou foram os fantasmas. Poderia dizer-te, como se soubesse, para te aquietar, que são seres inofensivos. Poderia ter falado deles com carinho e mostrar que estão aqui como outras coisas em que ninguém repara. Que sobrevoam as cabeças como se se divertissem e dão gargalhadas alarves que podem perturbar os incautos, mas não vão além da sua centelha de virtualidade. Poderia e deveria tê-los defendido para te defender a ti deles.
Mas eu não sei. Estabeleceu-se, temos de reconhecer, entre mim e o resto-do-mundo, para simplificar, um desentendimento que oscila vigorosamente entre o formal e o estrutural: não sabemos, nem eu nem o resto-do-mundo, se há alguma razão para nos salvarmos. Por isso, e por outras razões certamente, não sou capaz de dizer coisas positivas sobre os fantasmas que moram cá em casa, ainda que com o mero propósito de te fazer sentir mais confiante nas sombras que rasam em velocidades vertiginosas as cabeças que tentam aqui em casa descansar o tempo.
Terão sido eles a fazer-te ir embora abruptamente. Desentendidos das ciências dramáticas não souberam respeitar um rosto que já conheciam bem. E depois, há no gesto brusco de fugir uma mímica própria da libertação que os fantasmas não entendem, livres que são de saber sonhar.
Por outro lado, comigo não acontece nada de especial por sair de casa. Alguns fantasmas, quais anjos-da-guarda, seguem-me pelos caminhos, mesmo que não sejam os meus caminhos, e por isso acostumei-me a tê-los sempre presentes, o que espero, num futuro próximo, tenha o dom de em qualquer lugar, seja onde for, esteja onde estiver, me sinta sempre como se estivesse em casa.

Aibieme

terça-feira, junho 19, 2007

sexta-feira, junho 01, 2007

"Palavras soltas"

"... escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa."

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Ácido

Nada tem que ser como eu tinha pensado.
Os frutos caem da árvore sem chegarem a perguntar porquê.
Circulam os afectos da mesma forma que a água pelos canais.
E nas sombras mais obscuras não se escondem monstros nem gemidos.

Aquilo que conta quando se fazem as contas sem fazer de conta, é o que se sente quando se sente.

Sobre o abismo que se avista do topo da montanha paira sempre a tonalidade húmida de um certo infinito.
O relativo abandono gera no coração uma vaga sensação de perda.
Como se nos confins onde custa a chegar fosse necessário um ar rarefeito.

Cada momento de azul que amanhece sobre o horizonte é uma dose suplementar de incerteza.
Vê-se, ao mesmo tempo que se ouve a monotonia dos passos a trilhar a areia, o rasto sistemático da repetição e a atracção sublime do espaço.
Não saber acaba por ser o destino mais natural.
Oculta sobre a névoa está a ambição e a prática corrente de comparar os sonhos.
Todos concorrem para afastar o pensamento do seu caminho.

Nem sempre chego ao topo com a mesma ansiedade.
Dias há que parecem claros e luminosos.
Aí, os sons são mais soltos e as verdades menos necessárias.
Cumprem-se os rituais e retoma-se o canto na dobra mais simples do mapa.

Um dia, quando, por acaso, se reunirem as condições especiais, vou pensar em todas as consequências de subir e descer esta montanha, sem que nada de sagrado me obrigue, a não ser esta genética que ocasionalmente conformou as moléculas emprestadas ao meu corpo.

Sísifo

quarta-feira, maio 30, 2007

domingo, maio 27, 2007

Pérolas (XXXIV)

Nem em pensamento sei explicar por que é que isto é uma pérola, mas é!

domingo, maio 13, 2007

Fatídica

Às vezes vem de fora a razão, pedaço de intrusão que semente e germe em árvores hierárquicas de sons iluminados pela lâmpada de Alá, digno denota quando detona a explosão de ar inchado de orgulho pátrio e mau trio admira que não saibas as últimas derradeiras invenções ocasionais da sociedade com sumo de fruta da época clássica. Eu vi, com estes olhos que a terra há-de temer por serem escuros de luz negra fechada no subterrâneo ruidoso minado de nome e nado vivo a treze desmaio cansado de tanta importância despedida por mau apartamento com duas ou mais atoalhadas combinações de certezas com rigor mortis e funeral combinado dois em um vitalício para sempre ou até que a sorte os separe nas fases orgânicas e angulosas do ritmo concêntrico, como é possível que não aconteça nada quando acontece alguma coisa que não esperamos que seja o que já aconteceu e então vemos que não. Foi assim de madrugada a cama destapada e o sol esfrangalhado dançando perdido pelo éter retumbante de ondas com vozes misturadas de imagens gastas e fartas de serem cera que derrete outra vez numa forma deformada e parada, sem olhos, sem mãos, sem carteira nem beira mar plantado de urgência numa viagem a pé ante pé até ao fim da linha âncora e corrente de lava mais branco que a neve que derrete o mais endurecido dos ruminantes enfiados contra as tábuas com dores de cabeça repetidas até o vermelho se embaciar de negro e derrubar outro ditador no ciclo infernal de casas alugadas aos seis meses de véspera por não saber que logo a seguir há uma nesga de céu por onde passa trincada às doze baldadas que se esqueceram que tinham marcado um encontro com o destino e o tino que se entregou à sorte grande para saber mais do que os outros que gostavam de se esquecer que viviam para lá do que era possível e não era possível aparecer nem ser na têvê que só vê o que é mais perto do que é aviltante e não esquece que é verdade o que já passou há muitos anos quando ainda aconteciam coisas bizarras à porta de cada casa e não era preciso importar galões de gasolina para peregrinar as ilusões. Mas, e há sempre um mastim que é fiel e por isso morde com precisão enquanto defende o seu bem e os bens dos que são bem e sabem bem onde está o bem e como está bem de ver não interessa onde se quer chegar quando não se quer chegar a lado algum mas se sabe por interposta pessoa que há quem conte à noite os contos que tinham ficado por contar na manhã anterior e com tudo isso se agradeça ao seu a seu dono do mundo e arredores e nós, que ficamos apegados às coisas fúteis da diversidade que há na cidade e da diversão que há na são tomamos com o olhar que não vê porque é melhor não ver do que nevar à noite quando ainda o frio do riso quente se sente a brilhar no modelo incontinente da tal razão que vem de fora e só estorva.

Prólogo

sexta-feira, maio 11, 2007

Cansaço

Todos os dias cumpro o meu plano.
O ritmo e a rotina confundem-se.
À distância, no leito do descanso, ocorre-me mesmo uma certa melodia.
Como se numa dada dimensão, às coisas sobrasse significado.

Na distância que se desenvolve repetida sob os meus pés, nos caminhos que vão sendo sempre o mesmo de outros dias, vejo, pela previsão própria de não esperar, o ciclo finito da importância.

No alto de cada dia há o cansaço adequado a eliminar promessas.
Tudo o que aprendi esqueço pelas mesmas razões.
E logo a seguir há o recomeçar do silêncio.

O recado de cada hora é a expressão do seu limite.
Sei, por querer saber, a curta vida das ilusões.
Aprendi, por ignorar, que se ousasse seguir, seguiria sempre.
Vi, por me ocultar, lugares mais além do horizonte.
Perdi, por desejar, uma boa ocasião de ser sentido.
Ouvi, pelo silêncio, o cântico orvalhado da servidão.
Fugi, emparedado, do medo que todos os dias me alimentou.

Todos os dias cumpro o meu plano.
Mesmo que o meu plano são seja meu.
Mesmo que não tenha feito nenhum plano de algum dia cumprir planos.

Há uma cadência própria nos passos que marcham a favor do seu destino.
Latente, na invisibilidade há uma presença rigorosa.
A harmonia é tão aparente como o desgosto de ficar de fora.
E lá fora, no erguer subtil da tempestade, queremos ainda que sejam sinais.

Cumpro o meu ciclo de verdades.
Arrisco apenas o ligeiro ardor dos olhos.
E à noite, enquanto se fazem fogueiras para acender desejos, ocupo o meu corpo a iluminar os limites que não quer.

Sísifo

segunda-feira, maio 07, 2007

Thinking Blogger Award

Nestas coisas dos blogues, como em tudo o mais, começa-se ao acaso e deixa-se que o acaso governe o estabelecimento da rede. É provável que nem outra coisa seja possível: o acaso é o deus único e nele repousa o destino. Eu deixo as coisas ao acaso por saber que mesmo que exerça o meu direito de escolha ele será ainda deturpado pela natureza rudimentar do desejo. Por acaso, por puro acaso, houve quatro blogues onde este modesto Zumbido foi incluído na lista "Thinking blogger award". Decididamente há pessoas capazes de tudo. A Elipse do poético Palavras em Linha diz que este é um lugar "onde a profundidade da escrita me faz pensar". A JP do enérgico Faz de Conta diz que há aqui uma escrita " que me deixa atenta às palavras fluídas e subentendidas". A MRF do interventivo Divas & Contrabaixos escolhe-me "por algumas 'velhas amizades' a que não faço referência há muito tempo". E a Maria do sereno Thornlessrose inclui-me nos "espaços que visito, admiro, e onde me detenho". Tenho que reconhecer que os próximos duzentos 'posts' que fizer vão ser a este propósito. Enquanto me lembrar dificilmente conseguirei falar de outra coisa.

Brinco, mas não brinco. Depois de descobrir que já não há tempo para criar um mundo novo, consola-me saber de lugares, pessoas e ideias que ainda conseguem ter a sua divergência em relação à norma. E que na sua marcha diária - ainda que virtual e simbólica - vão criando diferença e estando atentas a que o mínimo não seja um padrão. Pensam porque pensam e sabem pensar e se eu contribuo é apenas por acaso. E fazem-me criar afectos...

Por inerência de cargo devo agora indicar os meus favoritos. Mas não o vou fazer porque os meus favoritos são pessoas e só me ocorreria eleger aqueles que conheço e gosto pessoalmente. Ficam portanto excluídos esses e os que votaram em mim. Indico por isso, da lista aqui ao lado, aqueles que, além dos outros, já não dispenso nesse processo diário de nunca deixar de pensar: É um mundo mágico; Kitchnet; Mil nove sete nove; O livro no espaço triste; Voando sobre um ninho de dúvidas. De qualquer maneira isto fica só aqui entre nós. Eles não precisam de saber...

Zumbido

quinta-feira, maio 03, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Marcas de água

Vês? Agora o país está vazio. Bastou um momento e tudo debandou. Movem-se em bandos à procura de outros lugares. É sempre outro o lugar onde se esconde a salvação, e há que ir à procura dele, indefinidamente, sempre.

Um dia que seja de folga e aí vai a trupe, a toda a força, queimando alegremente a essência, indiferentes a um futuro que não seja o minuto já a seguir. Sábios de leis e de segredos da monarquia, da vida luminosa dos eleitos e preenchidos com os ícones que oferecem a volúpia na compra de modelos exclusivos.

Na corrida à procura do destino, na rápida sucessão dos passos decididos, estão entre as bagagens feitas à pressa e a velocidade do olhar, os sons ténues de uma fuga, ensaiada todos os dias na repetição cruzada de ideias simples conseguidas por empréstimo a juro reduzido.

Ver a correr tudo, para sentir que se toma posse de paisagens que outros contam como mágicas e indispensáveis. Passar pelos lugares e averbar os nomes na caderneta; fazer mais um risco na coronha do revólver das recordações. E ter sempre outra meta logo a seguir para não deixar aquecer o lugar nem arrefecer a emoção.

É fácil respeitar este cinema. Concordar com todas as razões brilhantes, mesmo que a revolta esteja ali mesmo, à tona da garganta. Há o cansaço e há a dúvida. A poderosa ofensiva da solidão, medida em milhares de pessoas juntas à volta do seu próprio ardor. Comunidade de ausências, concílio de desconsolos.

E custa parecer sempre o velho do Restelo, que tem razão de vez em quando, logo que cada vitória se torna um marco outra vez perdido, e as lantejoulas se gastam da sua alegria. Dizer outra vez o que já foi dito, apenas por descargo de consciência, ou por descargo de bílis, ou por outra pouco razoável razão.

Em todo o lado se carimba com êxtase a marca do desespero. De fora, da esquina a seguir àquela que se sonhava ontem, diz-se que algumas pessoas souberam derrotar o medo. E esse desejo, esse absurdo desafio de, de repente, por magia, passar a ignorar a traficância das emoções telúricas, empurra a alma para a nova terapêutica de esconjuro.

Mas eu sei que não há alternativa. No interior falta a pressão da vontade, e tecer caminhos próprios custa mais do que caminhar pelos carreiros eloquentes dos que sabem guiar. Mesmo que não seja assim, é o que me ocorre quando percebo que para não ter à noite a voz a ecoar nas paredes obtusas do vazio, tenho que ignorar a cantilena da razão e deixar como verdadeira a mímica festiva da liberdade.

Artur Torrado

quarta-feira, abril 25, 2007

Pérolas (XXXIII)

Nos 33 anos do 25 de Abril, a História como ela é...

segunda-feira, abril 23, 2007

Sedimento


Houve um tempo em que a luz parecia ser o lugar definitivo.
Todos os caminhos se lhe dirigiam e não havia dúvidas.
Cada passo que se dava tinha-a por projecto e o que ainda não era, haveria de ser.
Pela luz passavam todos os sinais e toda a esperança.
Era impossível admitir, sem luz, mais do que o inferno.

No meu rotineiro caminhar para o alto estava implícita a luz.
Lá de cima, do topo, da distância, emanava a luz e a clareza.
Era assim para mim e para todos, e não havia outro caminho.

No prosaico rolar da gravidade adivinhava-se o refluxo da escuridão.
Descia, e o deslizar inclinado do destino era o assombro.
Em baixo, no fundo da montanha, a escassa luminosidade era disputada com a morte.

Na pena de subir e descer, os deuses tinham engendrado o maior dos sofrimentos:
Conhecer a luz e ter de a abandonar pela escuridão.

Outras penas há em que a pena se reduz por não saber que se pode viver sem pena.
Ou, a pena só é pena quando se lhe conhece a ausência.
Reconhece-se, por isso, que a ignorância é uma sorte.

Mas não é por isso que os poderosos manipulam a luz.
Querem apenas o equilíbrio rudimentar que evita a violência da revolta.
Luz quanto baste para algum desejo.
Luz tão pouca quanto a necessidade.

Depois foi a catástrofe do ultravioleta.

A luz já não é luminosa e o topo da montanha já não salva.
Os passos que se dão para subir não se distinguem do descer.
Na profundidade das masmorras vêem-se os pormenores de um rosto com rigor atómico.
E o que se sabe tem o mesmo valor do que não se conhece.

Os homens sentam-se às escuras para combinar os assaltos e as orações.
Rebuscam no lixo, com as mãos nuas, e alegram-se da sua precaridade.
Soltam uma gargalhada rugosa e o solavanco bestial fá-los felizes.
Despedaçam com os dentes os mistérios, os segredos e as frustrações.
E dizem, sempre que podem, que é assim que a vida é.

Passo por onde posso com um sorriso, para que não me sigam.

Sísifo

terça-feira, abril 17, 2007

Genérico


Não existe um amor genérico. O amor tem sempre marca, e marca por ser amor. O amor que existe, quando existe, declara-se a uma entidade concreta, material e insubstituível. É assim a natureza dogmática do amor. Não vai pela margem das coisas, encosta-se directamente ao centro e centra-se no concreto. Não é genérico o amor. Cola-se com veemência à pele e impede a regular respiração dos poros. Exige, como se não houvesse tempo, a urgência do tempo todo e esquece as prosaicas questões do real e do sentido. Para o amor o sentido é tão só aquilo que sente e que não traz à razão, e nunca a razão que, por qualquer razão, traz o sentir. Aquilo que o amor sente é sentido mas não tem sentido nem espera sentido porque por ser amor não espera. E não há nada de genérico no amor. É por isso que o que se diz do amor, como por exemplo isto que eu digo do amor, é sempre um disparate. Não é transmissível a ideia de amor. Só seria transmissível se se desse o caso de o amor ser genérico e poder, sujeito aos artifícios da comunicação, radicar em códigos que não fossem absolutamente únicos de cada vez. Um dia se descobrirá, se houver tempo, a incontornável descontinuidade do amor, e a forma unívoca como, qual um código genético, o amor se manifesta. Num certo sentido chamar amor ao amor já é uma facilidade de linguagem que pressupõe alguma espécie de afinidade entre coisas tão diferentes. Porque o amor é absolutamente unívoco. Tão unívoco que não é o mesmo que vai de A para B e de B para A. Funciona, às vezes, como uma vibração harmónica, descrita, quem sabe se por uma sobreposição absolutamente única de ondas sinusoidais perfeitas. Mas não tem nada de genérico. Fervilha de intensidade própria e, por vezes, basta-se a si próprio, ignorante de totalidades e forças transversais. Fica no centro de tudo e transforma o centro em margem, trazendo o paradoxo para a simetria dos dias. Genérico seria se se pudessem dizer coisas concretas que fossem capazes de englobar o amor sem nos estarmos sempre a contradizer. Isso sim, seria genérico. Dizia amor, e toda a gente sentiria a mesma picada na espinha. Para isso bastava uma palavra e ficava tudo dito. Como dizer água ou céu ou luz. Palavras genéricas para ideias genéricas para pessoas genéricas. Amor não. Há sempre uma outra coisa que ainda não se disse e não é bem assim, estão completamente enganados, não tem nada a ver com isso, nem penses, não é isso que eu sinto, nem pensar, está tudo ao contrário, que disparate. Não. O amor é uma doença do indivíduo. Doença sempre rara, sempre incurável, sempre mortal. Mas nunca genérica.

Prólogo

quinta-feira, abril 12, 2007

Mandamento

Talvez não valha a pena perceber.
Joga-se com o sentido e no fim cada um tem a sua boa razão.
Cada acto acaba a valer por si, e ao mesmo tempo por aquilo que não é.
O mérito está apenas em não perder; em não sentir nunca a derrota.

Cada viagem ao lugar central é um regresso.
Há ritmos inscritos nos materiais a contrariar as grandes opções.
Sobre os sonhos ainda se dirá serem eles a verdade.
E logo a seguir a morte ou a desistência.

A Lua, por exemplo, faz o seu ciclo como se não soubesse do tempo.
No horizonte há estrelas que se mostram nuas eternas.
Sob o manto pacífico da Terra movem-se massas imponentes de fogo.
E nas noites mais dóceis é possível olhar riscos de luz.
E os finos bordados do medo no escuro.

O nada que faço aqui é tão sério como a nuvem que se forma um instante.
Cada vez que o Sol nasce ainda, é uma primeira vez para sempre.
As rosas deixam cair as pétalas para depois.
Vazias.

Desço outra vez este caminho disfarçado de condenado.
O que sou, seja o que for, é tão pouco como o disfarce que uso.
As botas gastas do atrito do tempo são ao mesmo tempo que o meu rosto.
As gotas de água que transpiro já as bebi muitas vezes.
E o alimento que vai crescendo agreste na beira do caminho já de novo foi meu.
E eu já perdi da minha posse tudo o que outra e outra vez retive,

Nada é só uma vez para sempre.
Mas não é assim que se sentem as coisas.
O que se sente, o que ocorre no intervalo curto em que somos, é uma vontade desfocada de querer o que não é e fugir a todo o custo do que se mostra.

Talvez não valha a pena perceber.
Quando o vento já perdeu a força que tinha de mandar.


Sísifo

domingo, abril 08, 2007

Pérolas (XXXII)

A Paixão segundo Santa Fausta.

sábado, abril 07, 2007

Postquinze

Às vezes gostava de ser tão grande que fosse capaz de te dar guarida nas minhas mãos e acalmar assim esses teus medos de coisas imaginárias que tu sabes que são reais mas que também sabes que, tratadas como imaginárias, têm menos peso e causam menos perturbação. Seriam, então, as minhas mãos, lugares de paz em vez de prisões que contrariam a todo o instante os desejos e as ilusões e propõem com inabilidade o vazio como local habitável. Nas minhas mãos terias os momentos de serenidade e o local seguro onde habitar na incerteza.

Às vezes gostava de ser tão belo que sobre mim pudesses lavar os olhos da angústia e ter no horizonte a forma rebuscada de um deus que definisse emoções com clareza e luminosidade. Seria, então, o meu corpo, o lugar onde descansam os sentidos e se aquietam as insatisfações, mural tinto de padrões eternos e pólo de infinita sobriedade. No meu corpo se guardariam as artes abstractas de desejo e sob as rigorosas lajes se acharia a rigidez determinada do absoluto.

Às vezes gostava de ser tão alegre que ao gesto simples de um olhar a tua face explodisse de riso e o entusiasmo rosado tivesse a temperatura excessiva da felicidade. Seria, então, o meu rosto, o lugar de múltiplos significados, expressão potente de hipóteses, de céus, de infernos e de ambições. No meu rosto estaria a salvo o teu, do tédio, da suspeita e da ingratidão.

Às vezes gostava de ser tão rico que o preço das coisas perdesse significado e o desejo da posse já fosse menor que a posse do desejo. Seria, então, na limpidez clara de um espaço induplicável, que sentirias a liberdade de não ter que ter e o verde dos campos a bastar-se no seu significado de beleza efémera. Na minha voz estaria multiplicado um canto sem reflexos, isento de vez da necessidade e da ilusão.

Às vezes gostava de ser tão inteligente que as palavras ditas em surdina fossem em si claras e de uniforme entendimento e os teus olhos brilhassem entre a surpresa e o deslumbramento ao encontro do texto soletrado e da ideia que ilumina. Seria, então, um oráculo da verdade, intérprete furtivo de emoções complexas e construtor sublime do sagrado. No plácido argumento das minhas mãos, expostas à fantasia e ao devaneio, encontrarias o conforto elementar da tua memória e o descanso flutuante dos sentidos.

Às vezes gostava de ser tão ágil, tão vertiginosamente ágil, que o meu corpo voasse sobre o teu em acrobacias rasantes, e a música da tua voz fosse o motor feliz dos meus movimentos harmónicos. Seria, então, a encarnação desejada do ritmo e fluiria sobre o teu desejo com a voracidade do génio e a intensidade da primavera. Na eufonia dos meus sentidos, arrebatados pela pueril extravagância de existires, estaria volátil a elegância infinita dos teus mínimos gestos.

Às vezes gostava de gostar de ser como sou e mesmo assim saber de ti.

Aibieme

terça-feira, março 20, 2007

Mundança

No silêncio da noite há um insulto que se propaga ligeiro.
Sabem os que ouvem que não está próximo o fim.
Mesmo assim é aos ouvidos sensíveis que chegam os estrondos mais fortes.
Relativo é o senhor, doutor.

Não disse nada ao pai nem à mãe.
A casa já está vazia desde a outra infância, quando ainda não era possível.
Vogavam à volta da luz insectos de fraco carácter.
Eu não os via porque os olhos se tinham fechado de cansaço.

É provável, disse o angustiado, que não seja este o fim que todos esperávamos.
Ninguém lhe respondeu, imersos que estavam os rostos na sua desencantada morte.
O vento.
Sim havia o vento a divertir as árvores.

Por acaso, ainda que perverso, o silvo da fábrica acordou mais cedo.
As mãos estavam ávidas de saber coisas.
Nenhum preço tinha sido dado para o abandono e nem era preciso.
Paz à sua alma.

Cada vez que as nuvens voltam do mar trazem novidades.
Dizem que são coisas que já se sabiam mas tinham sido entretanto esquecidas.
As frases mais desastradas riem-se de si próprias, com propriedade.
Mas o que eu queria era o horizonte.

Durante quanto tempo vão ainda persistir os hábitos?
Dizem que será a vegetação a vencer.
Mas não esta que desta vez ainda nos vai comer.
Hão-de vir outras mais hábeis a saber viver em lugares nefastos.

Apesar de tudo não lamento.
Foi uma boa tentativa.
A matéria a pensar-se a si própria... que estupidez.
Não acaba nem bem nem mal.

Ainda queria tirar uma moral da história.
São os velhos hábitos: querer que as coisas tenham sentido.
Que coisa estranha este silêncio.
Que coisa estranha não se ler o significado das coisas.

Torcato Matos

quarta-feira, março 14, 2007

Corte

Quando se corta o corpo, o corte que fica no corpo é um corte que fica para sempre como memória do corte que cortou o corpo.
Cortado, o corpo reage ao corte, como se o corte que o cortou fosse um corte sentido.
Cada corpo reage ao seu corte, cortando as ligações do corte ao resto do corpo; cortando de si o corpo cortado e salvando o corpo de um corte que o poderia cortar.
Existe entre o corte e o corpo cortado uma relação de semelhança.
Espera-se entre o corpo e o corte uma relação de pertença.

Quando um corte corta um corpo, encontra na reacção do corpo ao corte uma razão para ser corte.
Antes de cortar um corpo, um corte ainda não é um verdadeiro corte.
Depois de cortar um corpo, um corte já não é um verdadeiro corte.
Antes do corte o corpo é um corpo sem corte e sem memória de ter tido um corte.
Depois do corte, o corpo que foi cortado, é um corpo que tem um corte porque se recorda de um corte que teve.

Fotógrafos de todo o mundo procuram o retrato do corte no momento em que é corte.
Acreditam, aqueles que acreditam, que há um instante, disponível para um instantâneo, em que o corte é.
Perseguem então, os fotógrafos de todo o mundo, os que acreditam e os que não acreditam, o instante dinâmico em que sobre o corpo se manifesta o corte no seu esplendor insubstituível.
Esperam, os fotógrafos, que o corte se confunda com a imagem do corte.
Desejam, os fotógrafos, que o corpo ilumine a imagem do corpo.

Não é seguro que nenhum fotógrafo tenha alguma vez guardado o corte sobre o corpo no momento em que o corte se faz sobre a pureza elementar do corpo.
Divergem as opiniões e as certezas acerca da autenticidade dos cortes que dizem ter sido já impressos preto no branco.
Divergem também as certezas e as opiniões, sobre os corpos que foram cortados e que mostram a memória dos cortes que tiveram.
Nenhum corpo sabe, perante a evidência de um corte, onde ocorreu o corte que o separou de si próprio e cortou, para sempre o corpo dividido.
E se o corte que o corpo insiste é um corte que apenas cortou a superfície aveludada dos sentidos, pode acontecer que seja apenas um corte rudimentar, magra marca de um tempo que adiante se verá não ter acontecido.

Prólogo

terça-feira, março 13, 2007

Fronteira

Não tenho contacto com o infinito: imagino-o.
Naquilo que posso, tolero-o.
Mas o que eu vejo e sinto,
o que preenche os interstícios urgentes do vazio,
o que marca todos os passos que dou e submete a minha identidade,
são os limites.

A partir de um ponto, o abismo.
A partir de um momento, a indiferença.
A partir de um fogacho, a luz.
A partir de um sonho, a verdade.

Localizo-me, por isso, na fronteira.
É aí que mudo as minhas vestes
e me enredo nos dilemas de ser.
De um lado está, pouco nítida, a serenidade,
do outro, atormentada, a beleza.
Apenas um efémero fio
entre o apelo da trágica alegria
e o macilento olhar do náufrago.

A lebre e a tartaruga perseguem os meus paradoxos.
Há quem saiba que não sabe
e há quem não saiba que sabe.
Cada passo pode aproximar ou afastar e nunca saberemos.
Há um lado de dentro e um lado de fora que se conhecem
e uma luta permanente por não haver luta permanente.

Não sei nada do infinito.
Os meus encontros diários são com o limite das coisas.
E falam-me de potência e de futuro,
de dignidade e de subtileza.
Engrossam em cada instante novas redomas
onde guardam os testemunhos do esquecimento.

Vivo e convivo com os limites que não entendo.
E percebo tão bem esse infinito que me escapa...

Ikivuku

quarta-feira, março 07, 2007

segunda-feira, março 05, 2007

Importância

Há, nos gestos do dia a dia, um apelo muito forte ao esquecimento.
Enquanto se sobe a intransigente montanha, os pensamentos revesam-se até já não terem sentido.
O esforço de levar outra vez o pé para a frente do outro, esgota a sensibilidade e o entendimento.
É difícil que no topo ainda haja energia para fruir a paisagem.
Nada é comum quando os músculos se retesam para um último balanço.

Se eu tivesse um deus a que não chamasse acaso, di-lo-ia uma combinatória.
O meu olimpo tem uma fauna própria que não me aquieta.
Diverte-se a mitificar o número e a diversificar os caminhos.
Mesmo assim, o tédio é o patrono mais poderoso.
Acima do correr das nuvens já não mora a ameaça ou a salvação mas o vazio.

Nenhum acto é tão autêntico como o trabalho.
Quando queremos ser sérios e profundos dizemos que trabalhamos.
E é nesse gesto mágico e económico que se suportam os nossos sonhos.
A labuta como método de render homenagem à existência.
Culto do que não é oculto nem ficcional.

Nenhum passo é tão autêntico como o que não se deu ainda.
A energia potencial cresce enquanto as expectativas sobem aos lugares mais altos.
Há muito de irremediável na convivência com a solidão.
Diz-se a palavra e ela não chega a lugar audível.
Nem regressa.
Os sons atravessam o tempo como neutrinos.

Cada pensamento que se forma na escalada perde-se a seguir agarrado à gota de suor.
As melhores das intenções formam-se em nuvens de chuva ácida.
Neste olimpo não há nenhum deus a quem pedir clemência.
Não há também vontade de pedir, porque os que podem dar é porque roubaram.
O desequilíbrio equilibra os sentimentos.

Não fora a certeza de o poder poder não ser outra coisa que o acaso, e o ódio seria o atalho certo para a existência.
Não é aqui nesta montanha, mas é noutras em que se faz da vontade escravatura.
Lá em cima a vista é bonita.
Há muita beleza para escutar e sentir.
Mas antes disso há sempre um medo de perder qualquer coisa importante que não se sabe o que é...

Sísifo

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Simtoma

Disse que sim podendo dizer que não, digamos assim, como se dizer sim ou dizer não fosse o meu degrau de liberdade. Disse que sim porque sim, podendo dizer não porque não, ou dizer não porque sim, ou mesmo dizer sim porque não. As razões do sim e as razões do não à espera de eco nos hemisférios cerebrais, no norte e no sul da consciência e na ligeireza de ir ali e já vir, à procura outra vez de mais razões para os porquês de sentir.
Disse que sim, querendo dizer sim porque sim, e logo a seguir, assim, sem mais nem menos, descobrir que dizer que sim, agora, aqui, assim, é quase o mesmo que dizer que não, porque se pode dizer sim querendo dizer não, e se pode dizer não querendo dizer sim. Também se pode dizer sim dizendo que se disse não ou dizer não dizendo que se disse sim. Nada é assim simples.
Disse que sim, assim, sem mais nem menos, para depois saber, como já antes sabia, que hoje, nestes dias assim, dizer que sim e dizer que não - deitar mais uma gota de água no mar - é a mesma coisa, assim mesmo. Porque manda a verdade, a tal verdade de que se fala, que nada seja diferente de não ser nada e tudo seja igual a ser tudo, sendo o nada e o tudo tão iguais como o sim o não e o mais e o menos e tudo aquilo que já supus serem coisas opostas.
Disse que sim, sem vontade de dizer não, mas já me dizem que o sim que eu disse era não e o não que outros disseram era sim. Dizem-me que ao dizer sim não era bem sim que estava a dizer porque quem quer que dissesse não também sabia que o seu não era, ainda assim, um sim que não se dizia como sim mas como não. Foi assim que o meu sim é agora olhado como um não que eu não disse mas que me garantem que é exactamente igual ao não que outros disseram e igualmente igual ao nem sim nem não dos que não disseram nada.
Disse que sim mas sei agora que o meu sim era muito diferente de outros sins que foram ditos por outros e que, muito provavelmente, o sim que eu disse nem sequer era igual ao sim que eu queria dizer. A verdade, sei agora, é que muitos sins e muitos nãos são iguais a outros sins e a outros nãos sem que alguém seja capaz de distinguir os sins dos nãos e os nãos dos sins.
Disse que sim mas já não tenho a certeza de ter dito o sim que queria, ou mesmo se disse sim ou não, ou se não cheguei a dizer nem sim nem não na expectativa que outro qualquer soubesse dizer por mim esse sim que eu queria dizer. É assim que agora fico com o sim atravessado na garganta como já estava antes, quando me apercebi que era um sim que queria para subir mais um degrau na liberdade de poder cada um dizer não quando se tratasse da sua própria vontade.

Prólogo

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Postcatorze

Não me lembro quantas vezes não te disse que o caminho que seguíamos não era o melhor. O que recordo é o silêncio dessas vezes que o não disse porque o som se esgotou na garganta ou porque afinal não sabia que caminho era esse que seguíamos. Recordo também a tua voz a insistir na importância da tua voz e do meu silêncio a reconhecer a importância da tua voz.
Não sobram nestes momentos outras recordações para desassombrar a incerteza que ocupou os dias e me preenche agora a memória. Tinha sobre os meus ombros uma insensatez militante e o espelho devolvia-me um olhar estranhamente pálido e demitido. Eu quis que não fosse como tinha de ser e por isso infringi todas as regras do jogo, quebrei todas as virtudes avulsas da derrota.
Não sei como, ao mover-me ao teu encontro, aceitei perder a face e a vontade, e ainda mais me surpreende, agora, ter regulado o meu impulso para um delicada forma de inexistência. Quis, para além de toda a vontade, não querer. Logrei encontrar em ti, nessa manifestação de medo violento que te fazia, uma antítese do rosto que me fora prometido, mas que uma estranha fé me levava a saber latente.
Não esqueço o teu raro sorriso. Com ele apagavas as horas de angústia que eu supunha infinitas e diluías no morno caldo das ilusões o terror de me saber condenado. Havia na forma como as palavras travestidas percorriam o discurso, um feitiço próprio de sociedade secreta que à margem da cidade constrói um mundo novo, prudente, potente e mágico.
Não sei porque volto agora a estes inúteis pensamentos, quando já tudo se passou para o ramo enigmático das miragens. Deve ser apenas um passeio inofensivo sobre as ocasiões em que a dor venceu todas as possibilidades. Um sorteio inevitável de trajectos que delimitou para mim a pragmática obscuridade a que me acostumei.
Não deixo de pensar que por vezes, como tu disseste depois, tudo estava previamente traçado, e as revistas guardadas nas caixas eram um sinal de estarem prontas para a inevitável partida. Mas eu não sabia. Não teria tido coragem de saber que o que tinha construído não era para sempre. Medo estranho este de querer alguma coisa que não é o que se quer mas que se quer sem saber. Admito apenas que o acaso fez o seu trabalho e levou cada passo para o lugar que depois se tornou evidente.
Não sei o que somos agora um ao outro para além do texto que escrevemos a duas mãos numa noite efémera. Mas esse pouco não é pouco porque agora é tudo. E já não és tu nem eu mas outra coisa que emergiu do lugar oculto em que por uma vez dissemos algumas palavras que explodiram em magia.

Aibieme

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Lei

São os fantasmas que governam.
Vivem na escuridão, na sua nocturna providência, e mandam.
Regulam os gestos e os olhares, encaminham os desejos e dissimulam.

São os fantasmas que governam.
Dirigem os passos de maneira subtil.
Sorriem sobre o modo ausente de ser.
Empurram com elegância cada pensamento para o abismo.

Não deixam nada ao acaso, a não ser a aparência de que é o acaso que comanda.
E é o acaso que comanda, logo no nível acima.
Mas os fantasmas ficam contentes por sentirem que no nível em que se movem, e fazem mover toda a gente, são eles que determinam.
Ficam contentes no seu papel de senhores da vontade.

É curto o tempo da existência.
E inconsequente também.
Mais quente ou mais frio, para o planeta tanto faz.
Um homem e uma galinha apenas diferem no grau de destruição.
E na dimensão dos dejectos.
Para o planeta.

Sobre o planeta mandam os fantasmas.
Tiraram o poder aos deuses que primeiro inventaram para isso.
E condenam tudo o que lhes tenta sair debaixo da sola aveludada.
Marcam com um ferro em brasa o tresloucado.
Dão como exemplo o súbdito menor.

Estranha linhagem esta que não partilha o sangue mas o tilintar das moedas.
A montanha onde subo e em que cumpro a minha pena não tem ainda tributo.
Mas virá o dia em que, para o meu bem de condenado, será necessário que a minha pele se entregue para leilão.

São os fantasmas que governam.
Encostados uns aos outros, de liturgia em punho, defendem-me de mim.
Traçam do destino as linhas principais e ajudam-me a identificar o ouro e a lama.
Aquecem os meus neurónios para que se alegrem com a felicidade dos fantasmas.

Digo-lhes que a minha pena é antiga e sobreviveu a multidões como eles.
Depois deles virão outros.
E eu permanecerei aqui, feliz por não ter razão.

Sísifo

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Tudo é água


Está de chuva. As estradas enchem-se de água. É um subúrbio mas a maior parte das pessoas movem-se de carro. Depois de anos na lama o conforto chama-se automóvel. Há quem fale, vagamente, em reduzir as emissões de cê-ó-dois. Seja qual for a razão, ainda há pessoas a circular pelos passeios, a lutar com um guarda-chuva penoso. Eu vou no meu carro, claro. É uma espécie de direito adquirido depois de trinta e oito anos a partilhar transportes públicos. No passeio, à direita, vem uma mulher pendurada no guarda-chuva. À minha frente, outra mulher enfrenta sem abrandar uma generosa poça de água e dá um banho de lama à derradeira pedestre da zona. Ensopada, a transeunte limita-se a temer que eu e o meu bólide lhe façamos o mesmo.
Xis é a mulher do automóvel e Ípsilon a mulher peão (peã?). Vamos supor, por instantes, que Xis vota sim no referendo. A preocupação dela é com as mulheres que têm direito ao seu próprio corpo e que, por isso, podem fazer com ele o que quiserem. Respeito pela mulher, portanto. De facto, quando falamos de respeito pela mulher, estamos a falar de uma mulher abstracta. Em alguns casos talvez se pense em mulheres concretas, mas genericamente não será em mulheres que vão no passeio da rua tentando proteger-se da chuva intensa, ela própria uma abstracção num país que tem quase sempre sol.
Mas também podemos supor, por instantes, que Xis vota não no referendo. A preocupação dela será, então, com o aglomerado de células chamado embrião. Preocupa-se, portanto Xis, talvez enquanto conduz, com uma abstracção invisível mas cheia de direitos. Numa daquelas hipóteses muito 'estrambólicas' - típicas da argumentação em referendos deste tipo - posso imaginar que Ípsilon, a transeunte, está grávida, e graças ao inesperado banho, apanha uma pneumonia, não está em condições de ir votar no dia certo e para cúmulo perde a criança. Aqui estou eu a criar a abstracção com que gostamos de viver quando não temos de tomar decisões sobre o nosso próprio problema.
Um filósofo qualquer da antiguidade, caiu num buraco enquanto olhava preocupado para as estrelas (estão aqui a dizer-me que foi Tales de Mileto). Esta é a abstracção simples, em que a concentração em objectivos distantes provoca o alheamento em relação ao que está ao alcance da mão. Mas a história tem mostrado muitas situações em que a criação de abstracções tem como único objectivo focar o olhar num problema marginal para o afastar dos lugares concretos onde o poder é decidido. É o método do ilusionista.
O concreto, o próximo, o pouco mediático elemento que está ao nosso lado todos os dias, tem muito menor importância que um vago feto nas entranhas de uma mulher abstracta.
Mas quem entra nos caminhos da abstracção, quem se comove essencialmente com o que é mediático, global ou de grande escala - o maior português, as sete maravilhas, o melhor jogador, o prédio mais alto, a batalha mais mortífera, ... - não tem hipótese de regresso, ficará para sempre refém do gigantismo e do número e não conseguirá olhar para o buraco onde vive.
Com tanto gosto pela abstracção os portugueses deveriam ser mais hábeis a matemática, mas, provavelmente, gastam toda essa capacidade nas peculiares relações humanas.

Artur Torrado

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Sim ó não

O assessor Jakim é a favor dos que são contra o sim e é contra os que são contra o não. Por isso já decidiu o seu sentido devoto e está a fazer campanha. Finalmente há alguém que apresenta bons argumentos.

domingo, janeiro 28, 2007

Pérolas (XXVIII)

O gajo que open, close and play e não compreende as mulheres (só em pensamento)!

Aparência


Não é fácil aceitar o vazio.
Olha-se para o horizonte e fica-se à espera que surja qualquer coisa.
No silêncio da noite, os sentidos aguardam a negação do nada.

É uma expectativa milenar, herdada e legada para fazer de conta que há alguma coisa.
Foi ficando da ignorância dos tempos, um rasto firme da alergia à inexistência.
Toda a razão, toda a informação intimamente acumulada, choca com um passado todo poderoso onde se definiram as verdades eternas.
O homem, esquecido que é o pó das estrelas, prefere ser o bolor da história.

Os tempos novos são de recuo.
A evolução, fosse o que fosse, parou perante a manipulação orgânica da consciência.
A protuberância do umbigo, deixou de acreditar na terra como centro do universo e ficou orfã de centralidade.
O Deus que tudo justificava, continua a servir, metido no bolso da conveniência.
O homem passou a ser uma deficiência fatal do planeta.

Não é fácil aceitar o vazio.
Como não é fácil aceitar a contingência.
Melhor seria que tudo estivesse previsto, e uma potência qualquer determinasse cada movimento.
Melhor porque mais fácil.

O músculo cresceu e evoluiu para agora ficar parado, desajeitado e inútil, a definhar na sua preguiça inconsequente.
Mandam, então, os que têm a ambição de mandar.
Determinam sobre a inércia própria dos que não se querem aborrecer.
Quem diga duas palavras seguidas sobre um pedestal suficientemente elevado, receberá os aplausos da multidão perdida de tédio.

Não é fácil aceitar o vazio.
Na infância iludem-nos com espaços, tempos e estômagos bem cheios, repletos.
Esgotam-se nos primeiros anos os terrenos da maravilha, e todo o resto do tempo se passa a ignorar.

A paz da morte há-de ser mantida.
Nenhum esforço será exigido.
É preciso que nada desperte emoções lúcidas.
É preciso que cada palavra nova seja isenta de surpresa.

Beatriz Teresa

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Pérolas (XXVII)

Para o bem e para o mal são as mulheres que determinam o mundo...

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Armadilha

Há uma armadilha à frente de cada homem. Parece uma palavra e age como uma palavra e provavelmente é também uma palavra, mas antes de tudo é uma armadilha. O homem enquanto criança ainda não sabe. Depois cresce e aprende... e aprende sobre tudo o que aprende, que tem à sua frente uma armadilha. Aprende por isso, enquanto aprende que tem à sua frente uma armadilha, que antes de dizer seja o que for, antes de dizer que queria dizer outra coisa, que o que sente deve ser tanto quanto possível omitido. Enquanto aprende que poderia sentir outras coisas que não aquelas que sente, aprende também que tem toda a conveniência em não sentir o que sente, mas antes sentir o que se torna evidente que devia sentir quando sente.

Há uma armadilha à frente de cada homem. Homem que é homem aprende que essa armadilha está lá, e aprende como evitar a armadilha que está à sua frente. Quando, adolescente, o homem sente e percebe que o que sente não é o que devia sentir, aprende, por experiência própria, a sentir como deve sentir quem sente. Aprende que o gesto brusco de não acreditar, aquele desvio subtil do braço para obliterar o medo, não serve para ser usado no dia a dia das certezas. E aceita, logo a seguir, que toda a sobrevivência passa por fintar a morte. E escuta com atenção aqueles que sabem como evitar a armadilha de saber outras coisas distintas das coisas que tem o dever de saber.

Há uma armadilha à frente de cada homem. Para saber como deve saber, o homem repete o mesmo exercício centenas de vezes - milhares de vezes se necessário - repete o gesto que aprendeu até que o gesto seja seu, e não deixa que alguma vez de dentro de si transborde outra personagem que não a que Deus criou e limou à imagem e semelhança do seu suposto interesse. A mão adulta segura o instrumento que segura a mão adulta e os dois seguem lado a lado como um só, comovidos por serem tão seguros da sua verdade e tão eleitos sobre a vulgaridade dos que não sabem. Dissipada a disfunção, esquecida a armadilha, segue o homem o seu caminho de articulado dever.

Há, à frente de cada homem, o torpor da liberdade. Assombra com a sua sombra, e seduz com histórias antigas. Ao olhar de quem vê, aparenta-se a perdição, negrume e calamidade. Não vale como a vida. E aprende cada homem, em cada dia que aprende, a não olhar de frente, a não sentir o que sente, a consentir em não sentir para além do que está determinado. Avisado, o homem não cai na armadilha. Escuta com atenção as palavras do oráculo, dos santos e dos deuses, e recorre a rituais para se libertar da liberdade. O homem que cresce e aprende, aprende, antes de mais, a saber as fontes do bom saber e a não hesitar no seu confronto com as armadilhas: nenhuma vale contra a vida recebida como oferta num duvidoso saldo de hipermercado.

Há, à frente de cada homem, o torpor da liberdade. Não vale como a vida porque vale mais do que a vida. É apenas aí, no horizonte disforme onde a consciência é autónoma, que vida se chama vida. Mas que interessa isso se os gestos entretanto aprendidos riscaram da memória a rebeldia, para dar à consciência a prática salutar da submissão.

Prólogo

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Rebanho


Há um corpo estranho dentro de um corpo estranho e espera-se que o corpo estranho seja capaz de expulsar o corpo estranho de dentro de si.
O corpo estranho, qualquer deles, é estranho porque primeiro se estranha e depois se entranha. Ou o contrário.
O corpo estranho que penetra o corpo estranho, entranha no corpo estranho um outro corpo estranho e espera, sem esperar, que o corpo estranho que invade o corpo estranho, se entranhe, que emprenhe o corpo estranho com outro corpo estranho.
O corpo estranho dentro do corpo estranho, gerando outro corpo estranho nas entranhas, é o anho do sacrifício, o salto desconhecido, a molécula da incerteza.
Sendo Deus o corpo estranho que se entranha e estranha, no corpo estranho que se entranha noutro corpo estranho para gerar mais outro corpo estranho, no estranho corpo da terra estranha, fica cada corpo estranho com a ideia entranhada de ser mais do que um corpo estranho na estranha forma da estranha vida.
O corpo estranho é, como o pensamento estranho, uma estranha combinação de pedaços avulsos que se entranham de maneira estranha, como um vício de antanho, e pertencem como a imagem no espelho ao corpo estranho em que se entranhou.
Como todo o pensamento, que a ser pensamento começa por ser estranho no momento em que se entranha, o corpo estranho é o estranho objecto perdido na generosidade do banho que fará do seu potencial de estranheza o que entender. O corpo estranho sobrevive apenas à contingência de a sua estranheza se entranhar na estranha estratégia da multiplicidade.
Quantas ideias estranhas, quantos estranhos sonhos, quantas estranhas verdades, quantas estranhas ilusões, se ficam pela estranheza de corpos estranhos expulsos, recolhidos à partida pela estranheza do esquecimento e ignorados para sempre pela estranha diversidade. É assim que o universo age, distante da fenomenal consciência.
Um corpo estranho vale tanto como outro corpo estranho. Mas há corpos estranhos que valem mais do que outros corpos estranhos. A vida, a ser alguma coisa abstracta, a ser alguma coisa que não radique na estranheza, é apenas a multiplicação aleatória de corpos estranhos, viáveis por infinitésimos de tempo, inúteis fora de contextos muito singulares, imóveis na sua individualidade, e com sofrimento apenas perceptível nas zonas circundantes onde o grito chega.
Um corpo estranho às vezes ama outro corpo estranho e, por momentos, abandona a aridez singular da abstracção.

Prólogo

domingo, janeiro 21, 2007

Aborto ou desmancho?

A grande disputa que vai ocorrer no referendo à interrupção voluntária da gravidez (IVG), não é entre o “sim” e o “não” mas entre o aborto e o desmancho.
O aborto que se promete, no caso de ganhar o 'sim', vai ser rigorosamente vigiado. Os hospitais, ou as clínicas, que venham a incluir nos seus serviços a prática do aborto, vão preencher papéis em triplicado, mandar reconhecer a assinatura, exigir um fiador para as questões financeiras, um tutor para as questões de responsabilidade social, vão passar factura dedutível no IRS e inscrever no enigmático algarismo que vem a seguir ao número de BI a quantidade de abortos oficiais.

O desmancho não tem nenhuma destas burocracias. É absolutamente incógnito, sigiloso e anónimo. Acabado o acto, é como se nada tivesse acontecido. Ninguém em lugar algum vai saber, a não ser que a utente, num desvario, resolva expor-se num movimento pró-"sim", dizendo alto e bom som: eu fiz!
O aborto é a interrupção de uma vida em potencial, a anulação de um Einstein, de um Hitler ou de um zé-ninguém. O desmancho é geralmente a salvação de várias vidas, de famílias inteiras em perigo de caírem na lama.
O aborto é um pecado grave, universalmente condenado. O desmancho para todos os efeitos não existe. E o que não existe não é confessável.
O aborto não tem tradição em Portugal. Falta-lhe estatuto e tem um certo ar intelectual de esquerda, cheira a enxofre por todos os lados.
O desmancho é, salvo seja, o pão nosso de cada dia. Tem resolvido o problema a inúmeras famílias, mantendo-as unidas na fé e na alegria. Está próximo do povo, convive com ele em cada esquina e promove a tão necessária cumplicidade que define a cultura tradicional.
No caso improvável de, no referendo, vencer o "sim", as dificuldades de implantação seriam inultrapassáveis.
Quer isto dizer que vença o "sim" ou o "não", os métodos tradicionais continuarão a ser os preferidos, pelo que é necessário que o governo se prepare para abordar esta questão de uma maneira mais pragmática. Eis algumas sugestões:
- alguns dos milhões que vêm da Europa poderiam ser entregues directamente aos sacos azuis das autarquias, para estas, da maneira mais discreta possível, subsidiarem a compra dos desinfectantes que tanta falta fazem nos lugares de desmancho;
- permitir a atribuição da ISO9000 a todos os vãos-de-escada que apresentem elevados níveis de sobrevivência;
- instituir um prémio anual para os lugares que tenham menor número de complicações pós-desmancho;
- isentar do imposto de selo todos os proprietários de vãos-de-escada, bem como atribuir-lhes licença para aquisição de gasóleo agrícola;
- fomentar a instalação de eco-pontos devidamente preparados para lixo biológico;
- favorecer as sinergias sociais incentivando a concentração de outros negócios tradicionais paralelos.
O respeito pela vontade popular e pela tradição é uma conhecida fonte de felicidade e harmonia. Ao contrário do que se diz, o sistema vigente é o que melhor protege as famílias de serem punidas, de o seu nome, ó ignomínia, ser dito na praça pública.

ikivuku

Talvez

Na grande questão do aborto, decidi fazer campanha pelo talvez. Depois de muito pensar e me informar, e voltar a pensar depois, cheguei à conclusão que não me revejo nem no sim nem no não. Não sei ainda como vou montar a minha estratégia de campanha, até porque não parece ter sido prevista uma posição que excluísse as duas que estão a ser impostas, mas como a razão está do meu lado, só tenho que seguir em frente com fé. É precisamente por aí, pela confrangedora pobreza da proposta, que a minha campanha do talvez vai começar: o referendo ao aborto, nos moldes em que está definido, corresponde a um efectivo aumento dos impostos. Estamos, portanto, perante mais uma clamorosa violação das promessas eleitorais. Como sabem a violação é uma das circunstâncias em que o aborto já é permitido na actual legislação. Havendo neste caso, uma violação, parece-me a mim que há fortes probabilidades de o referendo ao aborto ter o direito de ser abortado. Porém, e aqui se vê a diferença da minha proposta, o talvez é uma posição que deixa em aberto a hipótese de não se fazer o aborto mesmo no caso de violação.
Eu sei que o talvez vai ser visto por muito boa gente - e pela má ainda mais - como uma espécie de pelo sim pelo não. Nada de mais errado porque o talvez é mesmo para ser ao mesmo tempo contra o sim e contra o não, mantendo-se na equidistância central que é própria da virtude.
O talvez pretende dar uma hipótese ao abortado de ter uma palavra a dizer. É um pouco como a escolha da religião ou do clube de futebol: será a consciência do próprio indivíduo a determinar a ocasião do seu próprio aborto, mais o recurso eventual a opiniões externas (do tipo deixar os pais dos alunos dar notas aos professores).
Tudo isto parecerá um pouco confuso se não se tiver em conta que o meu projecto vai definir duas novas figuras legais, que passariam a ter efeito se o talvez ganhasse. Refiro-me ao aborto retroactivo e ao aborto a título póstumo.
O aborto retroactivo destina-se a ser aplicado a todos aqueles que a dada altura da sua vida se reconheça ter sido um grave erro não terem sido abortados até às dez semanas. O exemplo recente de Saddam Hussein.
O aborto a título póstumo tem como objectivo ser atribuído a todos aqueles que só depois de terem morrido se lhes reconhece a perniciosidade com que nasceram, e que leva a sociedade a concluir que melhor teria sido se tivessem sido eliminados na altura certa. Augusto Pinochet, por exemplo.
A mais inovadora das propostas é também a que irá ter mais resistência, uma vez que é minha intenção que caso vença o talvez, possa entrar imediatamente em vigor, dando hipótese a que nos livremos de algumas personalidades da nossa vida política e social, que deveriam ter sido abortadas há muitos anos e não foram por causa do não.

Alícia Neto

sábado, janeiro 20, 2007

Cara ou coroa


Hoje, 20 de Janeiro de 2007, a dois meses do início da primavera, vi as primeiras andorinhas. Não sei se já regressaram da sua rigorosa migração ou se não chegaram a ir embora. Não é muito relevante, porque as andorinhas, ao que sabemos, não pensam e não têm direito a voto. Mas são sinais. Se quisermos são sinais dos tempos.

Entretanto, o que nos preocupa é o sexo dos anjos na variante IVG.

Como diz Vasco Pulido Valente, no Público de hoje (roubado para aqui), há problemas que não se podem reduzir ao simples "sim" ou "não". Mas os tempos - os tais que as andorinhas anunciam - são tempos maniqueístas que se apoiam num 'choque tecnológico' - também ele assente no código binário - luminosa fachada virtual de um edifício vazio, destinado a entusiasmar mentes pouco dadas a esforço e raciocínio, num país convicto da sua tendência para o tudo ou nada, para a certeza absoluta da fé ou para a indiferença fatal da razão.

O zumbido vai votar "sim", mas não se orgulha disso, nem vai fazer uma festa de vitória se o "sim" ganhar. Porque o que está em causa, ganhe o "sim" ou o "não", é uma sociedade muito preocupada com as questões de princípio e com as abstracções, muito interessada em defender formulações ocas e pré-fabricadas, mas cada vez mais distante da pessoa concreta que tem ao seu lado, cada vez mais indiferente às consequências dos seus actos desde que não ocorram à sua porta; cada vez mais recolhido no seu condomínio privado de conforto e segurança.

Sugiro aos outros colaboradores desta página que emitam opinião sobre este assunto.


zumbido

sábado, janeiro 13, 2007

O império do amor

Há muitos anos, nas salas de 'chat' do IRC mais dedicadas à área da escrita e da literatura, era comum os mais jovens que apareciam, expressarem o seu desejo de no futuro virem a ser escritores. Quando lhes perguntava sobre o que liam, referiam, invariavelmente, com enorme paixão o escritor brasileiro que mais vende no mundo (EBMVM*). Não conhecendo a fabulosa escrita de EBMVM e não estando disposto a experimentar**, limitei-me a constatar que a leitura do EBMVM induzia comportamentos imitativos e reforçava a famosa auto-estima. No sentido mais plano do termo, muitos dos leitores do EBMVM apercebiam-se que aquele tipo de escrita estava perfeitamente ao seu alcance. Dez anos depois alguns desses potenciais escritores estão a publicar. Outros têm 'blogs' espirituais.

Lembrei-me desta questão ao ver num hipermercado um molho de livros em saldo, provenientes da recentemente finada Tinta Permanente, pela qual tinha uma especial simpatia, devida, entre outras coisas, a ser a editora de "FICÇÕES - revista de contos" - que entretanto passou para a Caminho - e me ter parecido, durante a sua curta existência, ser respeitadora da palavra literária.

No meio dos vários livros em saldo estava, a 3,00 €***, uma pérola chamada "O império do amor", um livro de contos de Luísa Costa Gomes que teve há alguns anos sobre mim o efeito contrário ao que o EBMVM costuma ter sobre os seus leitores. Perante o virtuosismo dos contos de "O império do amor" apercebemo-nos de como é difícil escrever bem; de como manejar a arte das palavras exige esforço, dedicação e estudo; de como o texto se pode tornar numa coisa viva, resistente e amável; de como o mundo é uma entidade complexa em que nada se define pela linearidade, nem os sentimentos têm que ser permeáveis à vulgaridade do poder; de como a liberdade, a inteligência, o conhecimento e o espírito crítico têm afinal aplicabilidade na relação entre as pessoas.

Suponho que é inevitável a instalação da facilidade em todos os domínios. Uma frase que não seja óbvia numa primeira leitura será abandonada como confusa. Einstein, na sua bonomia, terá referido a importância de em alguns aspectos da existência permanecer criança toda a vida. Referia-se à curiosidade e à disponibilidade para o maravilhoso da realidade. Hoje é interpretado como se tivesse dito que qualquer assunto deve ser transmitido com a simplicidade que permita ser percebido por uma criança de sete anos. Suponho que esse é o método seguido pela televisão e seria excelente que se ficasse por aí. Mas os livros, Senhor...


* uso esta sigla em vez do nome para evitar que o 'google' traga aqui pesquisadores que iriam ficar desiludidos e porque desde pequenino que sei que não se deve invocar o santo nome de Deus em vão.
** não sendo um suicida entusiasta recuso experiências cujos efeitos perniciosos consigo identificar a tempo nos outros.
*** deixo aqui o preço para aqueles que tiverem a oportunidade não a deixarem escapar, pois é livro para depois disto ficar sem reedição milhares de anos.

Artur Torrado

quinta-feira, janeiro 11, 2007

E o meu futuro foi aquilo que se viu

O amigo Japinho fez-me interromper a hibernação para me lembrar do que é que queria ser quando fosse grande quando era pequeno. A seguinte é uma das versões.


Acabamos por ser sempre o que queríamos ser em crianças mas não tínhamos nem dados nem discernimento para descrever. Isto porque o querer é uma força, e no caminho que os dias de hoje nos reservam apenas impera a eficiência da vontade que cada um tem. Admito portanto que na origem, nos primeiros anos, no tempo em que ainda pensava sem pensar que pensava, a minha vontade incógnita era, já então, ser um equívoco. Mas não era possível, pela força das circunstâncias, assumir uma vontade incompreensível e irrealizável dentro dos padrões que são geralmente atribuídos às crianças. Dizia, por isso, que quando fosse grande, quando tivesse assumido essa idade mítica de já saber o que queria, haveria de ser o inventor da harmonia, da equivalência e do movimento perpétuo. Parecia simples e evidente, como continuam a parecer simples e evidentes os meios para criar e manter uma proximidade formal entre a realidade e a ficção.

Os desejos manifestados na infância são voláteis como os dias e os brinquedos. Nos livros do tio Patinhas, o professor Pardal tinha no laboratório um cartaz a anunciar os seus serviços que dizia: inventa-se qualquer coisa. Devo ter nascido aí no meio do paradoxo dessa frase, e nunca mais recuperei a lucidez.

Descobri já há bastante tempo que o que faz a particularidade de cada indivíduo são as suas doenças, as suas inaptidões para a norma: fôssemos todos sãos e integrados e seríamos espécie extinta de tédio. Olhar para as coisas é a melhor maneira de não as ver e cada verdade pode estar mesmo ao lado do óbvio embora o mais certo seja estar em lugar nenhum. Vale então a infância como o lugar onde ainda havia uma hipótese para a verdade. As frases eram curtas e precisas e cada palavra dizia apenas uma coisa. Brincámos com isso com toda a seriedade até que um dia fomos colocados no mercado...

Passo o trabalhinho a três amigos que andam também com um problema de expressão: Torcato, Lino e Jakim.

Ikivuku

sábado, janeiro 06, 2007

Segunda leitura

No afectuoso 'blog' pé-de-meia, que estimo e visito com a frequência que os dias permitem, era dada notícia ontem de ter sido colocado à venda nos Estados Unidos um boneco representando Saddam Hussein de corda ao pescoço. O primeiro impulso foi lamentar a ideia e estranhar a facilidade ética com que os mecanismos patriótico-comerciais americanos se movem. Mas algo me reteve a mão. E foi a meio da noite, escurecida a mente e a razão, que alicerçado nos comentários indignados, me lembrei: então e se fosse o boneco de um judeu pregado numa cruz? Seria mau gosto? Seria horrível? Seria fanatismo? Seria folclórico? Seria vergonhoso? Seria escabroso? Seria horrível? Seria mórbido? O que seria? Seria comércio, fé ou selvajaria?

Ikivuku

terça-feira, janeiro 02, 2007

Imitação

De quantas maneiras posso eu não saber a mesma coisa?
Fiz as contas e fiz de conta que continuei a não saber.
Que saber poderia eu ter para saber que o meu saber é suficiente?
Não sei, nem sei como saber.
Por isso não sei ainda o suficiente para saber que o que sei é suficiente.
Mas já sei, e estou convicto, que o que sei é mais do que precisava saber para saber o que sei.
Há ocasiões em que sei que já sei tudo.
Não são muito frequentes – diria mesmo que são cada vez mais raras – mas quando acontecem trazem para o elemento instantâneo da memória formas quase certas da existência.
E fico, nesse momento, com certezas quase permanentes sobre o destino e sobre a realidade.
Formas ocultas sem dúvida, sem dúvidas, sem hesitações, sem tristezas, sem tédios e sem medos.
Como se soubesse alguma coisa.
Sabendo ou não sabendo resta sempre alguma dúvida sobre o saber se o saber que se sabe é todo ou apenas parte.
E se um saber que se sabe não sabe se é o saber todo que saber é esse que o saber que sabe não sabe?
Que banalidades haverá para lá do saber tudo?
Posso supor que sei para concluir a seguir que se souber não tenho que supor que sei.
E mesmo que não saiba fico na dúvida se o que não sei é ainda um saber a que falta saber.
Mas o meu jogo há-de ser sempre com o saber.
Não com a mera acumulação de dados – que sei eu? – nem com a estranha ilusão de transformar tudo em números.
O meu jogo há-de ser sempre com essa vacuidade do próprio saber, com aquelas coisas que serão – quem sabe? – universais no tempo e no espaço; saber e conhecimento que não perdem validade nem têm prazo.
O meu jogo é saber do próprio saber uma formulação eterna e insaciável de partículas capazes de conviverem todas no mesmo lugar sem que o espaço-tempo as perturbe.
Mas eu não sei se existe esse saber.
Sei que não sei se existe esse saber e isso é uma forma de saber que posso saber mesmo não saber.
E saber não saber pode ser o saber que é possível quando ainda não se sabe nada.
Porque até hoje, na minha busca desastrada de saber mais, mais não tenho encontrado que saber que não sabe, conhecimento que não conhece, tempo que passa, espaço que se ocupa, energia que se gasta e medo que se renova.

Prólogo

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Crédito

Não procuro o mistério nem a assombração.
Não me interessam os lugares que servem de esconderijo às lendas.
Desprezo realmente a ocultação e o truque.
Não tenho paciência para os enfeites nem para as divindades.
Aborrecem-me de morte os exercícios de adivinhação.
Não consigo olhar duas vezes para as ilusões fanáticas.
E a magia serve-me apenas para brincar.

Prefiro dizer que não sei.
Que ainda não, e que talvez nunca venha a saber.
Pensar a ignorância como o estado em que se está à espera.
Pensar o desconhecido como lugar onde ainda não cheguei.

Mas este não é hoje um lugar muito habitado.
Só vejo ânsia de acreditar.
Só vejo ânsia de receber.
Dificilmente encontro alguém à procura.
É raro o rosto que aceita morar no intervalo entre a escuridão e a luz.

Perfilam-se no horizonte exércitos rigorosos a defender verdades.
Constroem-se muros a separar mundos.
Matam-se em cada reduto todos os sinais de crítica e razão.
Rendem-se os pensamentos à sabedoria enlatada.
E acredita-se, acredita-se muito, acredita-se em acreditar.
O crédito como Deus acima de todos os deuses.
Alinham-se contra uma parede os corpos que não alinham.

Estaremos a chegar ao fim da linha?
Não sei...
Não procuro o mistério nem a assombração...

Sísifo