Ao Robert cheguei atrasado por não encontrar o livro que sabia editado, mas ninguém, nesses lugares onde agora se podem encontrar livros, o tinha disponível. Está bem, eu sei, mas a minha pessoa não compra livros na ‘internet’. Mais não fosse porque ninguém me passa um cartão de crédito.
Entretanto consegui encontrar o Jakob von Gunten e através dele tive acesso ao Instituto Benjamenta. Bom, talvez não seja bem assim. Eu tinha tido um pequeno acesso ao Instituto Benjamenta n’o mal de Montano do Enrique Vila-Matas. Coisa pouca mas bastante intrigante, embora o Enrique tenha essa estranha capacidade de tornar intrigante um objecto só porque lhe faz referência. Nem sei dizer se isso é bom ou é mau.
Mas a verdade é que não saltei directamente d’o mal de Montano para o Jakob von Gunten. Existe cerca de um ano de intervalo entre os dois. E um ano nestas coisas dos livros não é nada. Mas um ano nesta coisa da vida é muito tempo; demasiado tempo. Talvez a paciência seja a grande diferença entre os livros e a vida.
Antes de Jakob apenas posso referir, por isso, uma certa impaciência em encontrar o livro. Até porque não consigo estabelecer nenhuma relação entre ele e Paris nunca de acaba também do Enrique, mas onde nem tenho a certeza de haver alguma referência ao Robert, e que foi mais próximo.
Fui ver. Retiro o que disse. Enrique, fala de Robert assim: O golpe de misericórdia deu-mo Arrieta oferecendo-me o romance Jacob von Gunten de Robert Walser. Abri-o na primeira página, comecei a ler: “Aqui aprende-se muito pouco, há falta de professores e nós, os rapazes do Liceu Benjamenta, nunca viremos a ser nada, quer dizer, de hoje para amanhã seremos todos gente muito modesta e subordinada.”
O caso assim muda de figura. Fui literalmente empurrado pelo Enrique para cima do Robert! Não gosto de dizer estas coisas mas acho que valeu a pena. Isto para mim é um esforço terrível, enviar para o éter a notícia dos amigos que cultivo e aprecio.
Afinal, quem leio eu quando leio um autor estrangeiro traduzido para a minha língua? Não há nada a fazer, estou na mão do tradutor. Nem posso dizer, por que não sei, se traduziu bem ou mal. Posso apenas dizer que o Jakob parece escrito directamente em português. E também isso me soube bem.
Artur Torrado







