quinta-feira, novembro 02, 2006

A dificuldade de ler (72- C6/P6)

Como vês, hoje foi um dia duro. Duro e ingrato como é próprio dos dias em que se quebram as verdades universais. Sei que amanhã vou descobrir novas incertezas e vou ficar a não saber coisas que hoje ainda sei. É provável que esta seja a última vez que te reconheço e que os momentos que aí vêm me tornem irremediavelmente distante. Para ti isso não é novidade: sempre soubeste que este não era o meu meio, e disseste-me para não vir para que eu viesse com mais entusiasmo. É provável que esqueça o teu nome como quase já esqueci o do pai e o da mãe. Sei que é aqui que não vou ser feliz, mesmo que essa nunca tenha sido a minha ambição. Poderia ter escolhido outro lugar qualquer ou deixado que o acaso decidisse por mim.
As vozes que ouço lá fora, agora que anoitece, são alegres de quem não regressa cansado de um dia de trabalho e está à espera da noite para conhecer. Mas não ouso, hoje, voltar a ouvir-lhes o tom diferente da voz a dizer-me boa-noite. Fico eu, desta vez, a olhar por detrás das cortinas, a ver as sombras que evoluem na rua, divertidas na sua maneira resoluta de andar, como se tivessem uma absoluta ligação ao tempo e ao espaço e por isso não temessem nenhum movimento inesperado. Eu não sou daqui. É provável que nunca venha a ser daqui. Serei estrangeiro, então. Ficarei prudentemente à beira das coisas, na expectativa de um desenlace inesperado. Eles não esperam nada inesperado e por isso eu não sei o que eles esperam nem sei o que eles são. Conheço-lhes as vozes que tomam para mim a diferença na expressão e me põem com isso no meu lugar à margem.
Tu dirás, como sempre disseste, que eu ouço o que quero ouvir e que me coloco no lugar em que sou capaz de estar. Dizes isso depois de teres fugido daqui numa reacção brusca, de que ainda hoje te arrependerias se fosses capaz de te arrepender de alguma coisa. Eu arrepender-me-ei de ficar, da mesma maneira que me lamentaria para sempre se tivesse agora a coragem de abandonar o meu destino. Talvez eu dificulte um pouco a linearidade dos sentimentos. Admito que algumas coisas possam não ser exactamente como eu as vejo. Mas este é o meu primeiro dia aqui, meu irmão. Ontem, por esta hora, passava eu os meus passos pelas poças de chuva à procura da fechadura onde cabia a minha chave. Estou agora num lugar estranho, com um tempo estranho, ouvindo pessoas estranhas que rezam à lua e sabem tudo sobre mim com um simples olhar. Passou pouco tempo. O suficiente para eu saber que cometi um erro e estar na disposição de o manter para todo o sempre. Cometo este erro em vez de outro qualquer. Que é que isso tem de especial?
Digo-te adeus caro mano. Apesar de tudo sempre gostei de ti. És o meu irmão mais velho e ensinaste-me a não aprender, a não gostar, a não querer, a não sonhar. Devo-te, portanto, tudo o que poderia querer não ter sido e sou.
(continua)

Torcato Matos

Livremente

Não quis que soubessem o meu nome quando atravessei a altura máxima da montanha.
Assim também tinha guardado para mim os lamentos e evitado que me vissem eu.
Da mesma forma me dirijo aos lugares ermos e de lá volto no escuro da invisibilidade.

Ontem morreu alguém na montanha.
Tinha todos os gestos certos mas houve um que falhou e a dureza do tempo aproveitou-se.
Não me ocorre agora a tristeza por isso ou por tantas vidas que ontem se perderam.
Ocorre-me antes pensar nesta natureza que cumpro em mim e a que não dou nome.

Não sei até que ponto é patético desfolhar a luta diária com os elementos.
Eles vêm de diversas formas e tomam as nossas mãos nas suas para sempre.
Invadem a propriedade e a atenção como se não pudéssemos ser.
Negam os desejos por um acaso em que não estejam interessados.
Limitam os movimentos às zonas nobres como se esperassem com paciência infinita.

Mas, não, eles, os elementos, não querem.
Passam pela voz pendente dos sonhos e determinam a partir da indeterminação.
Desdenham das poses sem chegarem a desdenhar, indiferentes.
Não pousam o pé na nossa lógica e seguem o seu caminho sem olhar para o caminho ao lado.
Dispersam os porquês em passos aleatórios, abismos, potências, fogo.
Movem o peso pesado do tempo na margem da absoluta marginalidade.

A terra seguiria divina a sua marcha sem nós.
Levaria o seu impulso até que outro impulso maior a perturbasse.
Pó, pedra e lume seguiriam ainda o rasto do lume, da pedra e do pó.

Aqui, no meu passo simples, sou tão natureza como natureza é o trovão.
Sou tão inofensivo como inofensivo é o riacho que desce a gravidade.
Sou tão apático como apática é uma lua a honrar um sol.
Sou tão leal como leal é o frio que volta no inverno.

Não há nomes que cheguem para dar a todas as coisas.
E, por isso, algumas ficam esquecidas de ser e de se ouvir.
Como se a indiferença nascesse de não haver um lugar perfeito para a colocar.

Fogem pelo caminho passos mais apressados que os meus.
Vão animados à procura do que resta para enfeitiçar.
Querem, porque a vontade os impele, querer outras coisas que também querem e fogem.
E o fluir constante dos desejos faz animar o vento e as forças ocultas.

Lá longe, no lugar onde se fecha o horizonte, e onde parece que as espécies outonais se comprimem, há nomes a morrer e outros a nascer, selados os documentos que a história irá avidamente recolher.

Sísifo

quarta-feira, novembro 01, 2006

Pérolas (XXII)

Memórias do fiel-amigo do fiel-amigo...

A dificuldade de ler (71- C6/P5)

Devo dizer que não foi fácil regressar aqui. Estarás neste momento a lamentar o meu execrável sentido de orientação e a rir-te com gosto, imaginando-me às voltas sobre o mesmo lugar, perdido num labirinto construído na minha imaginação. Estou-me nas tintas para o que tu penses. O facto é que este não é o meu meio. Não me sei mover em lugares em que as pessoas são distantes e mudam de tom quando me falam, e em que as casas se parecem mover e mudar de aspecto de cada vez que as olhamos. Esta terra não é sólida. Molda-se como uma gelatina à forma que por acaso a contenha. Tinha andado mais de quinze minutos quando vi uma jovem a quem pensei perguntar o caminho. Foi aí que percebi que não sabia como indicar o meu destino. Hesitei. Ela cumprimentou-me com a palavra chave: bom-dia. Pareceu-me, mas não tenho a certeza, que usou uma maneira ligeiramente diferente da dos seus conterrâneos. Eu ouvi uma coisa diferente mas sou suficientemente lúcido para aceitar que possa ter ouvido o que queria ouvir. Sim, exactamente como tu dizes que eu funciono, quando me queres irritar. Estupidamente perguntei-lhe se me podia dizer qual era o melhor caminho para chegar a minha casa. Ela não se mostrou surpreendida e disse que seguisse pela rua em frente e virasse na terceira à direita. Seria depois a terceira casa à esquerda.
E era. Poucos minutos depois estava aqui sentado a pensar que este não podia ser um lugar para permanecer muito tempo e muito menos para ousar sequer pensar em penetrar nos seus segredos e fixar-me para sempre. Repara que ela sabia que era esta a minha casa tendo eu chegado aqui ontem à noite sob chuva e com as ruas desertas. E eu sabia que ela sabia porque senão não lhe teria perguntado. Este não é um lugar normal, meu irmão. Tu estiveste aqui alguns dias e retiraste-te com o rabinho entre as pernas. Eu sei. Tu não me disseste mas a mãe contou-me. Desesperaste e foste embora.
Está bem. Por isso vou eu ficar. Vou vencer o meu medo e vou ficar. Não é para te vingar. É para mostrar que sou mais capaz do que tu. Que vou mais longe; que aguento melhor as decepções e sou mais persistente.
Ainda não sei como vou fazer. Tenho que respirar fundo e pensar uma coisa de cada vez. Este não é o meu meio e vou ter que lutar todos os dias contra isso. Sei que os que nasceram cá têm à partida mais facilidade em orientar-se. Sabem alguns segredos mas, acima de tudo, é este o ar que melhor conhecem; nasceram a respirá-lo e tratam-no por tu. Eu cheguei agora. Não sei nada. Fico assombrado com o mais pequeno movimento da vegetação. E estou à defesa: à espera de um golpe que há-de vir quando menos o esperar. Apenas tenho esta decisão de não fugir para não me parecer contigo e ficar também, para sempre, a rir-me das impossibilidades.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, outubro 31, 2006

A dificuldade de ler (70- C6/P4)

Nem sempre estamos preparados para a violência. Sabes bem que eu nunca estou preparado para a violência. E naquele sentido que tu costumas usar - e que eu manifestamente herdei - de dar às palavras a oportunidade de se revelarem, estou a ver-te a chamar a violência por um nome belo de uma mitologia qualquer, que os gregos ou outros trastes velhos que te viessem à memória, tinham adoptado para dar vitalidade a uma acção de contraste máximo. Pois eu vejo a violência como qualquer acto inesperado, qualquer coisa para que não estamos preparados, tudo o que destrói um cenário arduamente construído. Esta comunidade violentou-me ao primeiro contacto através de um cumprimento desajustado da minha necessidade. Matou no instante inicial a minha boa vontade. Liquidou com um golpe seco toda a minha ilusão.
Só te digo isto assim porque o teu olhar cáustico está ausente. Se estivesse aí ficaria silencioso como sempre, à espera ainda assim, com um peso de ansiedade permanente, de um comentário exagerado sobre as coisas mais normais e comuns do mundo. Esta distância é boa por isso. Sei que estás aí, e posso discorrer sobre as minhas dificuldades sem ter que ouvir o eco dramático que as coisas simples, os sentimentos claros, parecem ganhar quando frequentam o teu entendimento castrador.
O meu primeiro impulso, hoje de manhã, depois de ouvir a miserável saudação, foi entrar outra vez em casa, fechar-me e morrer aqui de fome e de sede na esperança de que ninguém desse pela minha falta ou sentisse o meu cheiro. E sabes porque não o fiz? Por vergonha. Exactamente, por vergonha. Tive mais medo de fugir do que de enfrentar. Eu sei que é a tua velha treta: substituímos um medo por outro; o corajoso é aquele que tem um medo oculto mais forte do que o medo visível. Eu tive medo que sentissem que eu tinha medo e por isso atravessei a rua, com as lágrimas a quererem rebentar e segui em frente como se soubesse para onde queria ir, dando a impressão de que tinha um destino e para ele teria que avançar de imediato com resolução e vontade.
Várias pessoas me saudaram. Homens e mulheres: em todos o mesmo injusto bom-dia a que fui respondendo com a voz a sumir-se. A seguir, perdi-me. O meu olhar estava de tal maneira posto em mim que não percebi os caminhos que tomei e os passos automáticos levaram-me para onde as escassas casas já eram nenhumas. Alguns passos ainda dei na hesitação de alguém perceber que me encontrava perdido - estranho paradoxo este que cai assim de me encontrar perdido - e só depois, seguro de que ninguém me via, inverti a marcha na esperança de que a minha intuição me devolvesse ao meu novo lar, à minha nova pátria.
(continua)

Torcato Matos

Seno de Pi

Se não tivesse dentro de mim uma cidade;
Se ao redor do rosto se não construíssem castelos;
Se nas nuvens altas não houvesse o vislumbre opaco da beleza;
Se por contar o verde da montanha não houvesse emoção;

Se na tarde outonal os homens não marchassem inclinados;
Se no perdão das sementes não estivesse pendente a vida;
Se, ao largo do horizonte, o chapinhar ousado das aves se esquecesse da óptica ilusão;
Se no lato senso do saber se não contassem semelhanças;

Se na pausa alegre do café se não bebessem muralhas;
Se durante o amor não se fizessem promessas;
Se oculta nas árvores não estivesse a sabedoria;
Se em cima da mesa não se sentisse o frio da lâmina;

Se no olhar ausente não estivesse também o devaneio;
Se por detrás da escada se não subisse ao contrário;
Se o universo não estivesse todo amortalhado no vácuo;
Se as forças da natureza não fossem as mágoas da prisão;

Se o imenso céu não fosse perdido todo em tempo;
Se à sombra da nogueira não se contassem histórias;
Se pela brisa da tarde não ecoassem os vestígios do medo;
Se o canto das aves não se perdesse na dureza da infância;

Se pendurados na certeza não estivessem o ódio e a ambição;
Se sentado à beira do rio não se ouvissem as sirenes;
Se no corte seco da carne não se ouvissem os ais adormecidos;
Se o beijo dado na boca do desejo não fosse um filme;

Se a pátria onde me acolho tivesse um tecto alto e confortável;
Se à beira do precipício não sentisse a atracção do vazio;
Se na prosa árida de quem escreve não se escondesse o desejo;
Se ao pintá-la de fresco a realidade mudasse;

Se na dádiva do tempo o pêndulo rodopiasse uma vez;
Se ao acaso dos sonhos se juntasse alguma vez a satisfação;
Se os olhos pudessem ver algo mais que sombras;
Se o medo servisse apenas para assegurar a sobrevivência

Então, hoje, talvez não quisesse dentro de mim uma cidade.

Artur Torrado

Posttreze

Há muito tempo que não te falo de amor. Reparei há dias que a palavra, sem que se gastasse, se tornou ausente das frases, dos períodos, dos textos e das conversas. Reconheço-lhe uma ausência que não é notada como nas coisas que, por uma razão, ou outra, ou nenhuma, perdem popularidade e deixam de andar nas bocas do mundo. Voltam à memória por razões de acaso ou por nos lembrarmos que já não nos lembramos delas durante os inventários das inexistências.

Há muito tempo que não falamos de amor. Dei conta porque no desuso das palavras elas ecoam como lacunas e cria-se no espaço um vazio de uma leveza inverosímel. No princípio era o verbo que conformava a acção; saíam do desejo os sons articulados em voz activa e flutuava no ar a insistência dos sentidos, e o que se dizia era, mesmo quando não era, a firmeza intransigente do amor.

Há muito tempo que não se fala de amor. Foi o que eu senti quando li sobre expectativas que já não esperavas serem as expectativas que tinhas esperado. Pensei que tinha a ver com a ausência de palavras que soubessem dizer de outro modo o que o corpo já não sabe. Mesmo que o corpo ainda conserve a memória do que perdeu e já não é, nem nunca foi, mais do que expectativa.

Há muito tempo que não te digo amor. Lembrei-me agora ao tomar o café: “amar é a melhor coisa do mundo” está escrito no pacote de açúcar que eu devia dispensar mas continuo a colocar na bica. O doce de uma palavra que fica na boca a dar prazer enquanto atiça as bactérias que desintegram os dentes. Doce que é amargo antes e a seguir, para que tudo se sinta renovado na dinâmica da conquista permanente.

Há no tempo que passa, entre o sóbrio e o sombrio, entre o temor e o tremor, entre o dom e a dor, finas teias de ligação, entre o eterno e o etéreo, entre o prático e o apático, entre o saber e o sabor, que levam os olhos, entre o ver e o viver, entre o crer e o querer, entre o durar e o dourar, para os lugares solitários, entre o vento e o evento, entre o passo e o compasso, entre o cais e o caos, onde se criam amarras, entre o sólido e a solidão, entre o ético e o frenético, entre o mítico e o místico, a coisa nenhuma, entre o vácuo e o vazio, entre o oco e o seco, entre o mérito e a morte...

Aibieme

segunda-feira, outubro 30, 2006

Pérolas (XXI)

O terceiro estado da matéria colectável.

A dificuldade de ler (69- C6/P3)

Quando cheguei, ontem à tarde, a estação estava vazia. Ninguém mais desceu nesta paragem e provavelmente o comboio nem pararia se o revisor não soubesse que havia um passageiro com este destino. É certo que chovia. Mas isso até poderia ser razão para haver gente recolhida no átrio sombrio. As bilheteiras estavam fechadas como se fosse evidente que ninguém irá ter vontade assim de repente de sair daqui. À frente da estação um largo escorrendo alguma água e espaço aberto até uma distância exagerada. Na cidade os lugares estão mais próximos. Não nos falamos mas gostamos de estar em colmeia a fingir que não pertencemos uns aos outros. Aqui há uma estranha segurança como já te disse. As casas ficam a uma distância assinalável umas das outras, dando tempo à terra de ser visível. As indicações que me deste foram milagrosas. Suponho que estas horas todas depois ainda não teria encontrado esta casa que me foi destinada. A chave que trouxe e que agora guardo como um talismã, tirou-me a última dúvida sobre o meu novo refúgio. Gostava de te descrever esta casa mas ainda não olhei bem para ela. A mala pesava e cheguei demasiado cansado para me pôr a vasculhar os compartimentos e a procurar vestígios de anteriores habitantes. Tu tinhas-me recomendado que não trouxesse livros. Mas eu já não sei se as tuas recomendações são bondade ou ironia. Como sabes que faço questão de não seguir os teus conselhos, às vezes já me parece que me dás os conselhos que queres que eu não siga. Seja como for vim carregado de livros. Metade do peso eram livros. Trouxe tudo o que sabia que em condições normais me recusaria a ler. Tudo o que é aborrecido como a morte. Não te rias. Vejo perfeitamente que te estás a rir.
A esta distância não é importante o que penses. Para todos os efeitos agora estou por minha conta, e se te faço saber estas coisas sobre o que se está a passar comigo é agora porque ainda não criei raízes e ainda não sei o que fazer ao tempo. Brevemente deixarás de saber de mim apesar de me parecer que é isso mesmo que queres. Não deveria ter-te dito atrás que não tenho grandes expectativas sobre o que virá a seguir. Por uma questão de orgulho. É-te indiferente o que eu espero ou não. Mas não quero ir por aí. Não me interessa o que pensas. Ponto final.
Foi esta manhã que ouvi lá fora as pessoas a saudarem-se com todo o entusiasmo. Pareceu-me bem. Animou-me. Achei que tinha chegado a um lugar em que as pessoas se conhecem e reconhecem em vez de se temerem. Fiquei contente de aqui estar e preparei-me com cuidado para sair à rua e dar uma primeira impressão agradável, sem estrondo, sóbria. Houve mesmo um instante - daqueles que resultam da tensão natural - em que admiti que tinha todas as condições para vencer muito rapidamente. Posso dizer-te - porque aqui a esta distância não verei o teu olhar sarcástico - que fui capaz, num relance, de me ver já num futuro bem sucedido e mesmo brilhante.
O que me destroçou foi o tom. Um tom monocórdico de bons-dias dados como que mecanicamente. Foi uma verdadeira martelada no sorriso franco com que saí à rua. Logo aqui, ali à porta, a primeira pessoa que passou, quase sem olhar para mim, disse aquele bom-dia mortal.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, outubro 27, 2006

Pérolas (XX)

Escrevendo direito por linhas tortas: a lei é dura mas é a lei!

quinta-feira, outubro 26, 2006

A dificuldade de ler (68- C6/P2)

Bom, mas isso era o que eu tinha pensado para mim próprio. Ou pelo menos é o que hoje penso que pensei na altura. Embora tenha que reconhecer que não me recordo com precisão se esta ideia me surgiu já aqui, quando a minha imaginação se sentiu defraudada pelo tédio e pela estranha vontade dos autóctones de olharem para o pormenor dos hábitos de quem chega de fora.
Não sou do meio. Estou aqui mas num certo sentido estou expulso. Não sei se te apercebes do que é estar num lugar e sentir que os que estão à tua volta te consideram um estranho. Faças o que fizeres o teu movimento será sempre rudimentar, incapaz de pertencer à harmonia de gestos do grupo. Eles, ao contrário de mim, conhecem os segredos que se foram aconchegando com o tempo à alma que os faz uniformes. Digo eu que conhecem, porque os observo de fora e me parecem mover-se com à vontade na irregularidade medonha dos caminhos, como se estivessem perfeitamente seguros, como se tivessem uma ciência própria capaz de interpretar as mais difusas ameaças.
Não quero que sintas, nem por instantes, que me pretendo colocar num patamar superior. Nem por sombras. Conheces-me, mais depressa faria precisamente o contrário. Mas aqui estou com um objectivo claro de ser justo e ao mesmo tempo consciente da habilidade do tempo para me surpreender. Este não é o meu meio e temo - temer é uma palavra exagerada - que faça o que fizer nunca virá a ser. Não será aqui que algum dia me vou sentir em casa.
Eu sei que me disseste que não me seria proveitoso sentir-me bem num lugar. As tuas teorias do desequilíbrio contínuo - que tu sabes bem me aborrecem continuamente - só fazem sentido ditas à mesa de um café, e mesmo assim depois de um almoço devidamente regado. Dirás - sei que dirás - que é nos meios hostis que as habilidades se revelam. Que é a ter adversários que se aprende a lutar, e outras barbaridades do mesmo calibre. Mas isso é aí no teu lugar onde ninguém te hostiliza e onde te sentes sempre em casa e com as costas quentes. Além disso, aqui ninguém é contra mim. Nem contra nem a favor. Indiferença pura.
Também sei que já estás a pensar que o que me perturba é ignorarem-me. É verdade que para eles eu não existo. Estou aqui mas não existo. Toleram-me, embora eu não saiba dizer a que poderia assemelhar-se um sinal qualquer que demonstrasse que não me toleravam. Sou eu que sinto que me toleram porque não sei dizê-lo de outra maneira. Não há nenhuma manifestação evidente de rejeição. O que eu queria dizer é que a maneira como me dão os bons dias é diferente da que usam para se saudarem uns aos outros. Isso faz-me sentir como não pertencendo ao meio. Tão simples como isto.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, outubro 25, 2006

A dificuldade de ler (67- C6/P1)

Capítulo VI (mono)

Sabes? Eu não sou do meio. Não respondo pelos mesmos nomes, não dou os bons dias aos da terra sem que eles o façam primeiro porque nem sequer sei se são da terra ou se são de fora. E eles dão muita importância a ser da terra. E quando me dizem bom dia é porque são da terra mas sabem perfeitamente que eu não sou de cá e por isso os bons-dias que me dão não são iguais aos bons-dias que trocam entre eles. As diferenças na entoação, no calor da voz, na firmeza que substitui o canto habitual. Eu sei que é assim porque os ouço trocar os bons-dias quando ainda estou em casa a fazer a barba e eles passam uns pelos outros do lado de fora da minha janela. Falam alto para que todos saibam que se cumprimentam uns aos outros com benignidade e se aceitam e frequentam as mesmas ambições há muito tempo.
Eu não sou do meio. Vim aqui parar por acaso, por força de determinações que me ultrapassam, o que para todos os efeitos tem o mesma importância que o acaso, o puro acaso. Também isso ajuda a que eu não seja do meio. Poderia ter acontecido ter aqui vindo parar por razões de vontade. Poderia ter um desejo há muito escondido no meu interior de vir para este lugar. Mas não foi o caso. Eu apenas tinha uma ideia muito ténue acerca desta existência e nem me passou pela cabeça tentar saber antecipadamente os lugares onde poderia ir parar, para antecipadamente me ir informando e até, quem sabe, começar a desejar estar em algum dos lugares possíveis. Por isso este lugar era como outro qualquer dos que eu não conhecia nem tinha, reconheço, nenhuma vontade especial de conhecer.
Isto aqui não me diz nada, sabes? Claro que cheguei a desejar estar num lugar vago. Mas nunca me parece que tenha sido este. A imagem que eu tinha na cabeça sobre o lugar para onde deveria ser mandado era muito incipiente, talvez um estereótipo daqueles que resultam de algum filme visto na infância ou de uma imagem que se tenha imposto num momento qualquer. Ou uma colagem. Isso, uma colagem de memórias, uma manta de retalhos a fazer de meu lugar futuro. Mas nenhum dos recortes dizia respeito a este lugar. Acho que não me passou pela cabeça que as pessoas dessem os bons-dias umas às outras todas as vezes que se cruzassem. Não isso não acontecia no meu lugar imaginado.
Também não tenho a certeza de no lugar que imaginei haver pessoas. Não que não houvesse lá pessoas, claro que havia, não faria sentido que um lugar fosse lugar se não tivesse pelo menos as pessoas necessárias para o chamarem pelo nome e lhe darem dignidade dizendo a quem as quisesse ouvir que pertenciam àquele lugar. Portanto, o lugar que eu imaginava tinha pessoas, mas não apareciam na minha imaginação. Não estavam à vista. Acho que é fácil de perceber quando as pessoas, ainda que imaginariamente, não querem aparecer. Pessoas tímidas que não se mostram. Ficam a espreitar pelas frinchas das janelas e pelo intervalo dos cortinados, mas não as vemos.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, outubro 24, 2006

Pérolas (XIX)

A magia de ouvir música sem ligar o som.

O travão intelectual

"... em Portugal não é possível ter uma boa discussão - nem sequer entre amigos. As pessoas fogem do confronto, sentem-se mal perante as diferenças de opinião e levam as opiniões tão a peito que sentem as diferenças como afrontas que ferem os sentimentos mais do que excitam a razão e que podem danificar amizades sem com isso aprofundar a verdade."

José Victor Malheiros no Público de hoje e desviado para aqui

segunda-feira, outubro 23, 2006

Vítimas

É verdade, talvez só me interessem as vítimas. Os vencedores, os degoladores, os que gritam da sua genialidade e da sua ligação especial a Deus, os que militam nos privilégios de que gozam e gozam dos privilégios que têm e que fazem com isso poses grotescas e incham a ponto de pensarmos que vão rebentar, esses, esses não me interessam.

Também não sei dizer a que ponto me interessam as vítimas porque não me interessam por serem vítimas. As vítimas apenas me interessam pelo facto de não conseguirem deixar de ser vítimas. É provável que me veja ao espelho e o reflexo me cegue. E logo a seguir pense que estou no meu lugar e poderia estar noutro lugar se tivesse querido ir à procura dele e soubesse enfrentar com a violência necessária os artifícios escabrosos da guerrilha.

É inevitável falarmos de nós próprios. Não me dói nenhuma esperança nem gosto de coisas insossas como solidariedade e outras palavras ainda mais compridas. O medo é simples; a solidariedade enrola-se na língua e fica sempre com uma parte comida dentro da garganta. Interessam-me as vítimas para tentar perceber porque suportam a dor em vez da morte. Porque ficam à espera sabendo, e eu sei que sabem, que nada vem a seguir a não ser tempo e mais tempo de sofrimento.

Há sempre uma vítima a abençoar a glória de um vencedor. Não uma vítima mas várias, porque estas coisas medem-se pela quantidade. A qualidade de um vencedor mede-se pela quantidade de vítimas que provoca. O riso é tanto mais profundo quantos mais forem os súbditos que se rendem ao ridículo.

Por detrás de um homem de sucesso estão, a grande distância, é certo, um punhado equivalente de miseráveis a quem, evidentemente, faltou o querer, a inteligência, o génio, a ambição, a educação, a força e a ganância pare reter junto de si o pouco a que tinham direito.

O interessar-me pelas vítimas, e como já disse nem é bem pelas vítimas mas pelo que as leva a ser vítimas, não quer dizer que goste delas. Não gosto delas nem mais nem menos do que dos abutres que as comem - sem querer ofender os abutres cujo carácter a ciência tem aos poucos reabilitado.

E quando falo das vítimas que me interessam, ou desse jogo estranho que leva as vítimas a procurarem a dor e a encaminharem os seus corpos ordeiramente para a deglutição macabra dos poderosos, refiro-me às vítimas mesmo e não àquelas que soltam queixumes estridentes por estarem ainda na escalada ascendente da usurpação e se sentirem por isso injustiçadas pela lei e pelos que as atiçam.

Este passatempo não tem limites. Depois de um ardiloso comedor morrer, vem outro que lhe fica com a carcaça e nos ombros dos seus iluminados amigos há-de subir ainda mais uns degraus na escala da filantropia. Há dois tipos de degoladores: os que se fecham no silêncio dos seus castelos onde não chegam os rumores pesados da carnificina e aqueles a quem o sangue ferve com mais vigor perante a visão ululante da chaga aberta.

Beatriz Teresa

domingo, outubro 22, 2006

Descolagem

Terapia de grupo

"Hoje não é um bom dia para perceber como isto funciona. Sempre que há futebol, são poucos os doentes. Devia ter vindo a uma segunda-feira..."

Público 22/10/2006

sexta-feira, outubro 20, 2006

POLÉMICA !!!

O Jakim está contra o sim!

quinta-feira, outubro 19, 2006

Desconhecido

Às vezes fico a pensar como seria se eu gostasse das mesmas coisas que é costume dizer que se gosta. Andar pelos mesmos lugares que é costume andar. Ver os mesmo filmes, ler os mesmos livros - aqueles de que todos falam dizendo que gostam muito ou pouco, tudo ou nada. Fico a pensar que seria interessante poder também dizer que segui exactamente os mesmos passos que alguém recomendou; alguém por quem todos temos muita consideração e nós mesmos recomendamos aos outros, assegurando-lhe que perdem muito em não saber desse lado da realidade que toda a gente conhece. Como seria se também eu fosse àqueles mesmos lugares ver aquelas mesmas exposições, mostrando o meu assentimento e a minha discordância, falando alto e bom som de como era irrespirável um determinado autor e outro, meu Deus, indispensável, absolutamente indispensável. Dizendo, portanto, do meu gosto e da minha sensibilidade pelas imagens que fluem e fazem este lugar onde me encontro e onde me movo. Se eu gostasse das mesmas coisas que os outros gostam e as seguisse pelas mesmas razões e pelas mesmas faltas de razão, pelas mesmas emoções, à espera de uma ressonância idêntica, ouvindo os mesmos sons, vibrando nos mesmos espectáculos, fazendo assim comunidade, comunicando, passando a impressão de estar em consonância, ainda que por vezes discordante, mas alinhada no fundamental de ter uma espécie de mesmo Deus e mesma liberdade.

Às vezes fico a pensar como seria se não me desse esta preguiça de pegar em livros aparentemente esquecidos e que eu também não quero que mais alguém leia e levo para casa com a capa voltada para dentro receoso que de repente algum jornal, alguma rádio, alguma televisão, algum ministro cultural, reclame a sua essência de obra prima e quebre o encanto de estar na presença de um inútil que não foi capaz de vender adequadamente o que escreveu, nem antes nem depois de morto e ficou, por isso, à margem, dispensado da grandeza exuberante do número, recolhido à intimidade da inexistência. Fico a pensar como seria se não fosse este egoísmo de ficar frente ao mar a ver ondas únicas e a escutar-lhes o rumor estando à minha volta o deserto de uma praia fria onde não se aventuram os lugares comuns e as certezas absolutas. Se não me desse esta preguiça de não querer ouvir outra vez as mesmas razões porque um vinho, ou preciosidade do mesmo calibre, que nasceu atrás da protecção de uma marca e colhe a benção de uma autoridade, é tão melhor que outro que foi pisado na pequenez de um segredo familiar.

Às vezes fico a pensar como seria bom que tivesse na minha infância e na minha adolescência e na minha juventude e mesmo depois, estado atento àquilo que foi a marca de cada época, e tivesse visto, lido e ouvido os marcos e as marcas que foram eleitas, e tivesse absorvido os mesmos clássicos e as mesmas ideias e os mesmo padrões, e tivesse, no fundo, passado pelo lugar certo à hora certa, em vez de ter perdido o meu tempo a ver, ler e ouvir, objectos absolutamente inconfessáveis, irremediavelmente desviados do significado activo do meu tempo.

Às vezes fico a pensar que não sei estar aqui com a atenção necessária para perceber a importância dos mestres e a polidez dos seus gestos. De facto, que adianta andar por andar sem ter em mente a mágica função de ser luz? Às vezes fico a pensar que não sei ainda o elementar para perceber sequer a importância daquilo que é importante.

Artur Torrado

quarta-feira, outubro 18, 2006

Requerimento

Eu, abaixo assassinado, venho por este meio requerer aquém e além mar de gente vulgar mente com os dentes postiços todos os dias santos e domingos de ramos altos castelos, verdes e amarelos canários na gaiola das malucas mulheres perdidas em série e mulheres sérias perdidas no labirinto de Creta novas leis para abortar o pensamento que o machado corta pela raíz cúbica no volume elevado do som da voz do dono da bola azul cobalto está alto mora todos o vêem e ninguém o atura a gemer imprecações sobre o futuro e o passado desastrado em partes de leão na selva de cimento armado cavaleiro para libertar a avenida de Ceuta das convulsões mecânicas e satânicas sublinhadas com marcador verde eléctrico no Cais do Sodré e não te magoas por levares capacete de aço inoxidável adaptável à evolução dos tempos mortos das pausas para o café esplanada nicola com erros de português e de castelhano a comprar uma aljuba rota por tuta-e-meia volta-volver e devolver o que é nosso a quem não tem nada na profundidade da barragem de fogo preso à lei contra os incêndios das escadas e das almas-penadas e dos corações ao lado esquerdo de quem vê de frente para os olhos de água salobra de santa Engrácia no Carmo ou na Trindade divina da vinha e do vinho que faz uma civilização e depois se corrói com outras drogas estranhas de psicotrópicos ilegais como os imigrantes que chegam como nós carregados de ilusões e ficam satisfeitos com a sopa dos pobres por se estar bem aqui a sobreviver como quem aprende a não ter que saber mais do que a conta da água e da luz e do dinheiro que falta para um euro por dia ou um dólar, tanto faz para atravessar o limiar da fome que acorda o impulso que há em si de investir na bolsa e na energia e na diferença que faz a indiferença perante o movimento uniforme que mente acelerado no vácuo absoluto do Deus único e de serviço permanente sem horário de trabalho e de descanso, tirando um escasso dia em toda a eternidade e é pouco para quem se levanta cedo e não se deita, não chega, anda cansado, deveria tirar férias a alguém, passar uns tempos noutro universo paralelo que pudesse dar-Lhe descanso eterno e ideias brilhantes e com a experiência adquirida fazer nova tentativa, com novos modelos, mais sofisticados, mais ousados, menos agachados às instâncias do poder e menos passíveis de corrupção e de medo e não sei que outras coisas porque a minha profissão, graças a Deus, é não ser Deus e, por isso, não tenho que pensar nem no meu futuro nem no futuro inebriante dos outros que estão aqui ao lado e, por enquanto, não sei quem são nem o que querem, admitindo que querem alguma coisa mas, admito, tem sido difícil chegarmos a um acordo e por isso o melhor é dormir pelo que peça de ferimento.

Prólogo