sexta-feira, junho 01, 2007

"Palavras soltas"

"... escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa."

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Ácido

Nada tem que ser como eu tinha pensado.
Os frutos caem da árvore sem chegarem a perguntar porquê.
Circulam os afectos da mesma forma que a água pelos canais.
E nas sombras mais obscuras não se escondem monstros nem gemidos.

Aquilo que conta quando se fazem as contas sem fazer de conta, é o que se sente quando se sente.

Sobre o abismo que se avista do topo da montanha paira sempre a tonalidade húmida de um certo infinito.
O relativo abandono gera no coração uma vaga sensação de perda.
Como se nos confins onde custa a chegar fosse necessário um ar rarefeito.

Cada momento de azul que amanhece sobre o horizonte é uma dose suplementar de incerteza.
Vê-se, ao mesmo tempo que se ouve a monotonia dos passos a trilhar a areia, o rasto sistemático da repetição e a atracção sublime do espaço.
Não saber acaba por ser o destino mais natural.
Oculta sobre a névoa está a ambição e a prática corrente de comparar os sonhos.
Todos concorrem para afastar o pensamento do seu caminho.

Nem sempre chego ao topo com a mesma ansiedade.
Dias há que parecem claros e luminosos.
Aí, os sons são mais soltos e as verdades menos necessárias.
Cumprem-se os rituais e retoma-se o canto na dobra mais simples do mapa.

Um dia, quando, por acaso, se reunirem as condições especiais, vou pensar em todas as consequências de subir e descer esta montanha, sem que nada de sagrado me obrigue, a não ser esta genética que ocasionalmente conformou as moléculas emprestadas ao meu corpo.

Sísifo

quarta-feira, maio 30, 2007

domingo, maio 27, 2007

Pérolas (XXXIV)

Nem em pensamento sei explicar por que é que isto é uma pérola, mas é!

domingo, maio 13, 2007

Fatídica

Às vezes vem de fora a razão, pedaço de intrusão que semente e germe em árvores hierárquicas de sons iluminados pela lâmpada de Alá, digno denota quando detona a explosão de ar inchado de orgulho pátrio e mau trio admira que não saibas as últimas derradeiras invenções ocasionais da sociedade com sumo de fruta da época clássica. Eu vi, com estes olhos que a terra há-de temer por serem escuros de luz negra fechada no subterrâneo ruidoso minado de nome e nado vivo a treze desmaio cansado de tanta importância despedida por mau apartamento com duas ou mais atoalhadas combinações de certezas com rigor mortis e funeral combinado dois em um vitalício para sempre ou até que a sorte os separe nas fases orgânicas e angulosas do ritmo concêntrico, como é possível que não aconteça nada quando acontece alguma coisa que não esperamos que seja o que já aconteceu e então vemos que não. Foi assim de madrugada a cama destapada e o sol esfrangalhado dançando perdido pelo éter retumbante de ondas com vozes misturadas de imagens gastas e fartas de serem cera que derrete outra vez numa forma deformada e parada, sem olhos, sem mãos, sem carteira nem beira mar plantado de urgência numa viagem a pé ante pé até ao fim da linha âncora e corrente de lava mais branco que a neve que derrete o mais endurecido dos ruminantes enfiados contra as tábuas com dores de cabeça repetidas até o vermelho se embaciar de negro e derrubar outro ditador no ciclo infernal de casas alugadas aos seis meses de véspera por não saber que logo a seguir há uma nesga de céu por onde passa trincada às doze baldadas que se esqueceram que tinham marcado um encontro com o destino e o tino que se entregou à sorte grande para saber mais do que os outros que gostavam de se esquecer que viviam para lá do que era possível e não era possível aparecer nem ser na têvê que só vê o que é mais perto do que é aviltante e não esquece que é verdade o que já passou há muitos anos quando ainda aconteciam coisas bizarras à porta de cada casa e não era preciso importar galões de gasolina para peregrinar as ilusões. Mas, e há sempre um mastim que é fiel e por isso morde com precisão enquanto defende o seu bem e os bens dos que são bem e sabem bem onde está o bem e como está bem de ver não interessa onde se quer chegar quando não se quer chegar a lado algum mas se sabe por interposta pessoa que há quem conte à noite os contos que tinham ficado por contar na manhã anterior e com tudo isso se agradeça ao seu a seu dono do mundo e arredores e nós, que ficamos apegados às coisas fúteis da diversidade que há na cidade e da diversão que há na são tomamos com o olhar que não vê porque é melhor não ver do que nevar à noite quando ainda o frio do riso quente se sente a brilhar no modelo incontinente da tal razão que vem de fora e só estorva.

Prólogo

sexta-feira, maio 11, 2007

Cansaço

Todos os dias cumpro o meu plano.
O ritmo e a rotina confundem-se.
À distância, no leito do descanso, ocorre-me mesmo uma certa melodia.
Como se numa dada dimensão, às coisas sobrasse significado.

Na distância que se desenvolve repetida sob os meus pés, nos caminhos que vão sendo sempre o mesmo de outros dias, vejo, pela previsão própria de não esperar, o ciclo finito da importância.

No alto de cada dia há o cansaço adequado a eliminar promessas.
Tudo o que aprendi esqueço pelas mesmas razões.
E logo a seguir há o recomeçar do silêncio.

O recado de cada hora é a expressão do seu limite.
Sei, por querer saber, a curta vida das ilusões.
Aprendi, por ignorar, que se ousasse seguir, seguiria sempre.
Vi, por me ocultar, lugares mais além do horizonte.
Perdi, por desejar, uma boa ocasião de ser sentido.
Ouvi, pelo silêncio, o cântico orvalhado da servidão.
Fugi, emparedado, do medo que todos os dias me alimentou.

Todos os dias cumpro o meu plano.
Mesmo que o meu plano são seja meu.
Mesmo que não tenha feito nenhum plano de algum dia cumprir planos.

Há uma cadência própria nos passos que marcham a favor do seu destino.
Latente, na invisibilidade há uma presença rigorosa.
A harmonia é tão aparente como o desgosto de ficar de fora.
E lá fora, no erguer subtil da tempestade, queremos ainda que sejam sinais.

Cumpro o meu ciclo de verdades.
Arrisco apenas o ligeiro ardor dos olhos.
E à noite, enquanto se fazem fogueiras para acender desejos, ocupo o meu corpo a iluminar os limites que não quer.

Sísifo

segunda-feira, maio 07, 2007

Thinking Blogger Award

Nestas coisas dos blogues, como em tudo o mais, começa-se ao acaso e deixa-se que o acaso governe o estabelecimento da rede. É provável que nem outra coisa seja possível: o acaso é o deus único e nele repousa o destino. Eu deixo as coisas ao acaso por saber que mesmo que exerça o meu direito de escolha ele será ainda deturpado pela natureza rudimentar do desejo. Por acaso, por puro acaso, houve quatro blogues onde este modesto Zumbido foi incluído na lista "Thinking blogger award". Decididamente há pessoas capazes de tudo. A Elipse do poético Palavras em Linha diz que este é um lugar "onde a profundidade da escrita me faz pensar". A JP do enérgico Faz de Conta diz que há aqui uma escrita " que me deixa atenta às palavras fluídas e subentendidas". A MRF do interventivo Divas & Contrabaixos escolhe-me "por algumas 'velhas amizades' a que não faço referência há muito tempo". E a Maria do sereno Thornlessrose inclui-me nos "espaços que visito, admiro, e onde me detenho". Tenho que reconhecer que os próximos duzentos 'posts' que fizer vão ser a este propósito. Enquanto me lembrar dificilmente conseguirei falar de outra coisa.

Brinco, mas não brinco. Depois de descobrir que já não há tempo para criar um mundo novo, consola-me saber de lugares, pessoas e ideias que ainda conseguem ter a sua divergência em relação à norma. E que na sua marcha diária - ainda que virtual e simbólica - vão criando diferença e estando atentas a que o mínimo não seja um padrão. Pensam porque pensam e sabem pensar e se eu contribuo é apenas por acaso. E fazem-me criar afectos...

Por inerência de cargo devo agora indicar os meus favoritos. Mas não o vou fazer porque os meus favoritos são pessoas e só me ocorreria eleger aqueles que conheço e gosto pessoalmente. Ficam portanto excluídos esses e os que votaram em mim. Indico por isso, da lista aqui ao lado, aqueles que, além dos outros, já não dispenso nesse processo diário de nunca deixar de pensar: É um mundo mágico; Kitchnet; Mil nove sete nove; O livro no espaço triste; Voando sobre um ninho de dúvidas. De qualquer maneira isto fica só aqui entre nós. Eles não precisam de saber...

Zumbido

quinta-feira, maio 03, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Marcas de água

Vês? Agora o país está vazio. Bastou um momento e tudo debandou. Movem-se em bandos à procura de outros lugares. É sempre outro o lugar onde se esconde a salvação, e há que ir à procura dele, indefinidamente, sempre.

Um dia que seja de folga e aí vai a trupe, a toda a força, queimando alegremente a essência, indiferentes a um futuro que não seja o minuto já a seguir. Sábios de leis e de segredos da monarquia, da vida luminosa dos eleitos e preenchidos com os ícones que oferecem a volúpia na compra de modelos exclusivos.

Na corrida à procura do destino, na rápida sucessão dos passos decididos, estão entre as bagagens feitas à pressa e a velocidade do olhar, os sons ténues de uma fuga, ensaiada todos os dias na repetição cruzada de ideias simples conseguidas por empréstimo a juro reduzido.

Ver a correr tudo, para sentir que se toma posse de paisagens que outros contam como mágicas e indispensáveis. Passar pelos lugares e averbar os nomes na caderneta; fazer mais um risco na coronha do revólver das recordações. E ter sempre outra meta logo a seguir para não deixar aquecer o lugar nem arrefecer a emoção.

É fácil respeitar este cinema. Concordar com todas as razões brilhantes, mesmo que a revolta esteja ali mesmo, à tona da garganta. Há o cansaço e há a dúvida. A poderosa ofensiva da solidão, medida em milhares de pessoas juntas à volta do seu próprio ardor. Comunidade de ausências, concílio de desconsolos.

E custa parecer sempre o velho do Restelo, que tem razão de vez em quando, logo que cada vitória se torna um marco outra vez perdido, e as lantejoulas se gastam da sua alegria. Dizer outra vez o que já foi dito, apenas por descargo de consciência, ou por descargo de bílis, ou por outra pouco razoável razão.

Em todo o lado se carimba com êxtase a marca do desespero. De fora, da esquina a seguir àquela que se sonhava ontem, diz-se que algumas pessoas souberam derrotar o medo. E esse desejo, esse absurdo desafio de, de repente, por magia, passar a ignorar a traficância das emoções telúricas, empurra a alma para a nova terapêutica de esconjuro.

Mas eu sei que não há alternativa. No interior falta a pressão da vontade, e tecer caminhos próprios custa mais do que caminhar pelos carreiros eloquentes dos que sabem guiar. Mesmo que não seja assim, é o que me ocorre quando percebo que para não ter à noite a voz a ecoar nas paredes obtusas do vazio, tenho que ignorar a cantilena da razão e deixar como verdadeira a mímica festiva da liberdade.

Artur Torrado

quarta-feira, abril 25, 2007

Pérolas (XXXIII)

Nos 33 anos do 25 de Abril, a História como ela é...

segunda-feira, abril 23, 2007

Sedimento


Houve um tempo em que a luz parecia ser o lugar definitivo.
Todos os caminhos se lhe dirigiam e não havia dúvidas.
Cada passo que se dava tinha-a por projecto e o que ainda não era, haveria de ser.
Pela luz passavam todos os sinais e toda a esperança.
Era impossível admitir, sem luz, mais do que o inferno.

No meu rotineiro caminhar para o alto estava implícita a luz.
Lá de cima, do topo, da distância, emanava a luz e a clareza.
Era assim para mim e para todos, e não havia outro caminho.

No prosaico rolar da gravidade adivinhava-se o refluxo da escuridão.
Descia, e o deslizar inclinado do destino era o assombro.
Em baixo, no fundo da montanha, a escassa luminosidade era disputada com a morte.

Na pena de subir e descer, os deuses tinham engendrado o maior dos sofrimentos:
Conhecer a luz e ter de a abandonar pela escuridão.

Outras penas há em que a pena se reduz por não saber que se pode viver sem pena.
Ou, a pena só é pena quando se lhe conhece a ausência.
Reconhece-se, por isso, que a ignorância é uma sorte.

Mas não é por isso que os poderosos manipulam a luz.
Querem apenas o equilíbrio rudimentar que evita a violência da revolta.
Luz quanto baste para algum desejo.
Luz tão pouca quanto a necessidade.

Depois foi a catástrofe do ultravioleta.

A luz já não é luminosa e o topo da montanha já não salva.
Os passos que se dão para subir não se distinguem do descer.
Na profundidade das masmorras vêem-se os pormenores de um rosto com rigor atómico.
E o que se sabe tem o mesmo valor do que não se conhece.

Os homens sentam-se às escuras para combinar os assaltos e as orações.
Rebuscam no lixo, com as mãos nuas, e alegram-se da sua precaridade.
Soltam uma gargalhada rugosa e o solavanco bestial fá-los felizes.
Despedaçam com os dentes os mistérios, os segredos e as frustrações.
E dizem, sempre que podem, que é assim que a vida é.

Passo por onde posso com um sorriso, para que não me sigam.

Sísifo

terça-feira, abril 17, 2007

Genérico


Não existe um amor genérico. O amor tem sempre marca, e marca por ser amor. O amor que existe, quando existe, declara-se a uma entidade concreta, material e insubstituível. É assim a natureza dogmática do amor. Não vai pela margem das coisas, encosta-se directamente ao centro e centra-se no concreto. Não é genérico o amor. Cola-se com veemência à pele e impede a regular respiração dos poros. Exige, como se não houvesse tempo, a urgência do tempo todo e esquece as prosaicas questões do real e do sentido. Para o amor o sentido é tão só aquilo que sente e que não traz à razão, e nunca a razão que, por qualquer razão, traz o sentir. Aquilo que o amor sente é sentido mas não tem sentido nem espera sentido porque por ser amor não espera. E não há nada de genérico no amor. É por isso que o que se diz do amor, como por exemplo isto que eu digo do amor, é sempre um disparate. Não é transmissível a ideia de amor. Só seria transmissível se se desse o caso de o amor ser genérico e poder, sujeito aos artifícios da comunicação, radicar em códigos que não fossem absolutamente únicos de cada vez. Um dia se descobrirá, se houver tempo, a incontornável descontinuidade do amor, e a forma unívoca como, qual um código genético, o amor se manifesta. Num certo sentido chamar amor ao amor já é uma facilidade de linguagem que pressupõe alguma espécie de afinidade entre coisas tão diferentes. Porque o amor é absolutamente unívoco. Tão unívoco que não é o mesmo que vai de A para B e de B para A. Funciona, às vezes, como uma vibração harmónica, descrita, quem sabe se por uma sobreposição absolutamente única de ondas sinusoidais perfeitas. Mas não tem nada de genérico. Fervilha de intensidade própria e, por vezes, basta-se a si próprio, ignorante de totalidades e forças transversais. Fica no centro de tudo e transforma o centro em margem, trazendo o paradoxo para a simetria dos dias. Genérico seria se se pudessem dizer coisas concretas que fossem capazes de englobar o amor sem nos estarmos sempre a contradizer. Isso sim, seria genérico. Dizia amor, e toda a gente sentiria a mesma picada na espinha. Para isso bastava uma palavra e ficava tudo dito. Como dizer água ou céu ou luz. Palavras genéricas para ideias genéricas para pessoas genéricas. Amor não. Há sempre uma outra coisa que ainda não se disse e não é bem assim, estão completamente enganados, não tem nada a ver com isso, nem penses, não é isso que eu sinto, nem pensar, está tudo ao contrário, que disparate. Não. O amor é uma doença do indivíduo. Doença sempre rara, sempre incurável, sempre mortal. Mas nunca genérica.

Prólogo

quinta-feira, abril 12, 2007

Mandamento

Talvez não valha a pena perceber.
Joga-se com o sentido e no fim cada um tem a sua boa razão.
Cada acto acaba a valer por si, e ao mesmo tempo por aquilo que não é.
O mérito está apenas em não perder; em não sentir nunca a derrota.

Cada viagem ao lugar central é um regresso.
Há ritmos inscritos nos materiais a contrariar as grandes opções.
Sobre os sonhos ainda se dirá serem eles a verdade.
E logo a seguir a morte ou a desistência.

A Lua, por exemplo, faz o seu ciclo como se não soubesse do tempo.
No horizonte há estrelas que se mostram nuas eternas.
Sob o manto pacífico da Terra movem-se massas imponentes de fogo.
E nas noites mais dóceis é possível olhar riscos de luz.
E os finos bordados do medo no escuro.

O nada que faço aqui é tão sério como a nuvem que se forma um instante.
Cada vez que o Sol nasce ainda, é uma primeira vez para sempre.
As rosas deixam cair as pétalas para depois.
Vazias.

Desço outra vez este caminho disfarçado de condenado.
O que sou, seja o que for, é tão pouco como o disfarce que uso.
As botas gastas do atrito do tempo são ao mesmo tempo que o meu rosto.
As gotas de água que transpiro já as bebi muitas vezes.
E o alimento que vai crescendo agreste na beira do caminho já de novo foi meu.
E eu já perdi da minha posse tudo o que outra e outra vez retive,

Nada é só uma vez para sempre.
Mas não é assim que se sentem as coisas.
O que se sente, o que ocorre no intervalo curto em que somos, é uma vontade desfocada de querer o que não é e fugir a todo o custo do que se mostra.

Talvez não valha a pena perceber.
Quando o vento já perdeu a força que tinha de mandar.


Sísifo

domingo, abril 08, 2007

Pérolas (XXXII)

A Paixão segundo Santa Fausta.

sábado, abril 07, 2007

Postquinze

Às vezes gostava de ser tão grande que fosse capaz de te dar guarida nas minhas mãos e acalmar assim esses teus medos de coisas imaginárias que tu sabes que são reais mas que também sabes que, tratadas como imaginárias, têm menos peso e causam menos perturbação. Seriam, então, as minhas mãos, lugares de paz em vez de prisões que contrariam a todo o instante os desejos e as ilusões e propõem com inabilidade o vazio como local habitável. Nas minhas mãos terias os momentos de serenidade e o local seguro onde habitar na incerteza.

Às vezes gostava de ser tão belo que sobre mim pudesses lavar os olhos da angústia e ter no horizonte a forma rebuscada de um deus que definisse emoções com clareza e luminosidade. Seria, então, o meu corpo, o lugar onde descansam os sentidos e se aquietam as insatisfações, mural tinto de padrões eternos e pólo de infinita sobriedade. No meu corpo se guardariam as artes abstractas de desejo e sob as rigorosas lajes se acharia a rigidez determinada do absoluto.

Às vezes gostava de ser tão alegre que ao gesto simples de um olhar a tua face explodisse de riso e o entusiasmo rosado tivesse a temperatura excessiva da felicidade. Seria, então, o meu rosto, o lugar de múltiplos significados, expressão potente de hipóteses, de céus, de infernos e de ambições. No meu rosto estaria a salvo o teu, do tédio, da suspeita e da ingratidão.

Às vezes gostava de ser tão rico que o preço das coisas perdesse significado e o desejo da posse já fosse menor que a posse do desejo. Seria, então, na limpidez clara de um espaço induplicável, que sentirias a liberdade de não ter que ter e o verde dos campos a bastar-se no seu significado de beleza efémera. Na minha voz estaria multiplicado um canto sem reflexos, isento de vez da necessidade e da ilusão.

Às vezes gostava de ser tão inteligente que as palavras ditas em surdina fossem em si claras e de uniforme entendimento e os teus olhos brilhassem entre a surpresa e o deslumbramento ao encontro do texto soletrado e da ideia que ilumina. Seria, então, um oráculo da verdade, intérprete furtivo de emoções complexas e construtor sublime do sagrado. No plácido argumento das minhas mãos, expostas à fantasia e ao devaneio, encontrarias o conforto elementar da tua memória e o descanso flutuante dos sentidos.

Às vezes gostava de ser tão ágil, tão vertiginosamente ágil, que o meu corpo voasse sobre o teu em acrobacias rasantes, e a música da tua voz fosse o motor feliz dos meus movimentos harmónicos. Seria, então, a encarnação desejada do ritmo e fluiria sobre o teu desejo com a voracidade do génio e a intensidade da primavera. Na eufonia dos meus sentidos, arrebatados pela pueril extravagância de existires, estaria volátil a elegância infinita dos teus mínimos gestos.

Às vezes gostava de gostar de ser como sou e mesmo assim saber de ti.

Aibieme

terça-feira, março 20, 2007

Mundança

No silêncio da noite há um insulto que se propaga ligeiro.
Sabem os que ouvem que não está próximo o fim.
Mesmo assim é aos ouvidos sensíveis que chegam os estrondos mais fortes.
Relativo é o senhor, doutor.

Não disse nada ao pai nem à mãe.
A casa já está vazia desde a outra infância, quando ainda não era possível.
Vogavam à volta da luz insectos de fraco carácter.
Eu não os via porque os olhos se tinham fechado de cansaço.

É provável, disse o angustiado, que não seja este o fim que todos esperávamos.
Ninguém lhe respondeu, imersos que estavam os rostos na sua desencantada morte.
O vento.
Sim havia o vento a divertir as árvores.

Por acaso, ainda que perverso, o silvo da fábrica acordou mais cedo.
As mãos estavam ávidas de saber coisas.
Nenhum preço tinha sido dado para o abandono e nem era preciso.
Paz à sua alma.

Cada vez que as nuvens voltam do mar trazem novidades.
Dizem que são coisas que já se sabiam mas tinham sido entretanto esquecidas.
As frases mais desastradas riem-se de si próprias, com propriedade.
Mas o que eu queria era o horizonte.

Durante quanto tempo vão ainda persistir os hábitos?
Dizem que será a vegetação a vencer.
Mas não esta que desta vez ainda nos vai comer.
Hão-de vir outras mais hábeis a saber viver em lugares nefastos.

Apesar de tudo não lamento.
Foi uma boa tentativa.
A matéria a pensar-se a si própria... que estupidez.
Não acaba nem bem nem mal.

Ainda queria tirar uma moral da história.
São os velhos hábitos: querer que as coisas tenham sentido.
Que coisa estranha este silêncio.
Que coisa estranha não se ler o significado das coisas.

Torcato Matos

quarta-feira, março 14, 2007

Corte

Quando se corta o corpo, o corte que fica no corpo é um corte que fica para sempre como memória do corte que cortou o corpo.
Cortado, o corpo reage ao corte, como se o corte que o cortou fosse um corte sentido.
Cada corpo reage ao seu corte, cortando as ligações do corte ao resto do corpo; cortando de si o corpo cortado e salvando o corpo de um corte que o poderia cortar.
Existe entre o corte e o corpo cortado uma relação de semelhança.
Espera-se entre o corpo e o corte uma relação de pertença.

Quando um corte corta um corpo, encontra na reacção do corpo ao corte uma razão para ser corte.
Antes de cortar um corpo, um corte ainda não é um verdadeiro corte.
Depois de cortar um corpo, um corte já não é um verdadeiro corte.
Antes do corte o corpo é um corpo sem corte e sem memória de ter tido um corte.
Depois do corte, o corpo que foi cortado, é um corpo que tem um corte porque se recorda de um corte que teve.

Fotógrafos de todo o mundo procuram o retrato do corte no momento em que é corte.
Acreditam, aqueles que acreditam, que há um instante, disponível para um instantâneo, em que o corte é.
Perseguem então, os fotógrafos de todo o mundo, os que acreditam e os que não acreditam, o instante dinâmico em que sobre o corpo se manifesta o corte no seu esplendor insubstituível.
Esperam, os fotógrafos, que o corte se confunda com a imagem do corte.
Desejam, os fotógrafos, que o corpo ilumine a imagem do corpo.

Não é seguro que nenhum fotógrafo tenha alguma vez guardado o corte sobre o corpo no momento em que o corte se faz sobre a pureza elementar do corpo.
Divergem as opiniões e as certezas acerca da autenticidade dos cortes que dizem ter sido já impressos preto no branco.
Divergem também as certezas e as opiniões, sobre os corpos que foram cortados e que mostram a memória dos cortes que tiveram.
Nenhum corpo sabe, perante a evidência de um corte, onde ocorreu o corte que o separou de si próprio e cortou, para sempre o corpo dividido.
E se o corte que o corpo insiste é um corte que apenas cortou a superfície aveludada dos sentidos, pode acontecer que seja apenas um corte rudimentar, magra marca de um tempo que adiante se verá não ter acontecido.

Prólogo

terça-feira, março 13, 2007

Fronteira

Não tenho contacto com o infinito: imagino-o.
Naquilo que posso, tolero-o.
Mas o que eu vejo e sinto,
o que preenche os interstícios urgentes do vazio,
o que marca todos os passos que dou e submete a minha identidade,
são os limites.

A partir de um ponto, o abismo.
A partir de um momento, a indiferença.
A partir de um fogacho, a luz.
A partir de um sonho, a verdade.

Localizo-me, por isso, na fronteira.
É aí que mudo as minhas vestes
e me enredo nos dilemas de ser.
De um lado está, pouco nítida, a serenidade,
do outro, atormentada, a beleza.
Apenas um efémero fio
entre o apelo da trágica alegria
e o macilento olhar do náufrago.

A lebre e a tartaruga perseguem os meus paradoxos.
Há quem saiba que não sabe
e há quem não saiba que sabe.
Cada passo pode aproximar ou afastar e nunca saberemos.
Há um lado de dentro e um lado de fora que se conhecem
e uma luta permanente por não haver luta permanente.

Não sei nada do infinito.
Os meus encontros diários são com o limite das coisas.
E falam-me de potência e de futuro,
de dignidade e de subtileza.
Engrossam em cada instante novas redomas
onde guardam os testemunhos do esquecimento.

Vivo e convivo com os limites que não entendo.
E percebo tão bem esse infinito que me escapa...

Ikivuku

quarta-feira, março 07, 2007

segunda-feira, março 05, 2007

Importância

Há, nos gestos do dia a dia, um apelo muito forte ao esquecimento.
Enquanto se sobe a intransigente montanha, os pensamentos revesam-se até já não terem sentido.
O esforço de levar outra vez o pé para a frente do outro, esgota a sensibilidade e o entendimento.
É difícil que no topo ainda haja energia para fruir a paisagem.
Nada é comum quando os músculos se retesam para um último balanço.

Se eu tivesse um deus a que não chamasse acaso, di-lo-ia uma combinatória.
O meu olimpo tem uma fauna própria que não me aquieta.
Diverte-se a mitificar o número e a diversificar os caminhos.
Mesmo assim, o tédio é o patrono mais poderoso.
Acima do correr das nuvens já não mora a ameaça ou a salvação mas o vazio.

Nenhum acto é tão autêntico como o trabalho.
Quando queremos ser sérios e profundos dizemos que trabalhamos.
E é nesse gesto mágico e económico que se suportam os nossos sonhos.
A labuta como método de render homenagem à existência.
Culto do que não é oculto nem ficcional.

Nenhum passo é tão autêntico como o que não se deu ainda.
A energia potencial cresce enquanto as expectativas sobem aos lugares mais altos.
Há muito de irremediável na convivência com a solidão.
Diz-se a palavra e ela não chega a lugar audível.
Nem regressa.
Os sons atravessam o tempo como neutrinos.

Cada pensamento que se forma na escalada perde-se a seguir agarrado à gota de suor.
As melhores das intenções formam-se em nuvens de chuva ácida.
Neste olimpo não há nenhum deus a quem pedir clemência.
Não há também vontade de pedir, porque os que podem dar é porque roubaram.
O desequilíbrio equilibra os sentimentos.

Não fora a certeza de o poder poder não ser outra coisa que o acaso, e o ódio seria o atalho certo para a existência.
Não é aqui nesta montanha, mas é noutras em que se faz da vontade escravatura.
Lá em cima a vista é bonita.
Há muita beleza para escutar e sentir.
Mas antes disso há sempre um medo de perder qualquer coisa importante que não se sabe o que é...

Sísifo