quarta-feira, março 29, 2006

Fenomenologia

A morte é fácil mas morre-se a custo. O custo da morte é a soma dos custos fixos com os custos variáveis. Mas morre-se. Masmorra definitiva, a morte, ou liberdade final, não sei. Um dia teremos a morte a custo zero e não custará nada morrer, ainda que não seja uma experiência a repetir, no sentido individualista do termo. Ser social, o homem, como os outros animais e as plantas, morre sozinho.
Morrer a custo zero poderia ser um objectivo político. Tipo utilizador-pagador. A terra a quem a trabalha. A terra a quem a alimenta. Facilmente passamos de uma morte a custo zero para uma morte rentável, desde que encaremos a coisa numa perspectiva neoliberal e deixemos a porta aberta à livre iniciativa. Ninguém tem dúvidas que mesmo nas sociedades mais colectivistas a morte é actividade do sector privado.
Não é justo, no entanto, dizer que ninguém tem dúvidas. Já não estamos nesse tempo em que outros galos cantariam e o sol brilharia para todos nós. O assunto do momento é a morte e, potencialmente, a custo zero.
Estudos recentes concluíram que a vida tem um preço. Não está cotada na bolsa oficial nem no PSI 20 por razões de operacionalidade, mas tornou-se bastante claro que a vida, medida de todas as coisas, tem um preço. Está, por isso, no mercado e disponível para ofertas de aquisição, públicas e privadas. Por estarem no mercado, as vidas, a vida, a tal, tem um preço que é relativamente elevado para quem não tem pais ricos ou não teve sorte no euro-milhões...
O preço da vida humana, tal como os puros-sangues, é feito a partir do preço base com que sai de fábrica mais os custos de 'marketing' e promoção, que podem multiplicar largamente o preço base como acontece com qualquer produto agrícola ou industrial.
Se houver oportunidade para olhar para uma vida mais de perto, pode verificar-se que na formação do preço base as matérias primas não são muito relevantes, pelo menos para a maioria dos casos. Mais importante é o valor acrescentado, que hoje parece resumir-se à incorporação de tecnologia.
Falei de preços mas queria dizer custos, embora custe muito perceber como o preço é tão diferente do custo. É sempre necessário meter o mercado na história. O que é sempre muito mais fácil do que meter a História no mercado. É o mercado que decide o preço. É o mercado que decide tudo. E é tudo uma questão de percepção. O que interessa é o valor percebido pelo mercado. E o verdadeiro trabalho, o tal lugar da inovação e da criatividade, está em fazer perceber ao mercado a melhor relação custo-benefício. É por isso que a morte é cara apesar de o custo tender para zero.

Prólogo

terça-feira, março 28, 2006

Postseis

Poderia ter-te informado mais cedo da minha decisão. Poderia ter-te dito o mesmo dois anos antes. Talvez até três anos antes. Não é fácil determinar a data em que um elo se quebra. Gosto da imagem da grossa corda de sisal a que o tempo vai roendo um fio de cada vez e em que a decisão se espalha pela passagem ansiosa do tempo. Por isso não sei dizer-te quando se quebrou o primeiro dos fios. Nem sei se já se quebrou o último. Talvez haja uma espécie de erosão natural que leva a que em cada dia se quebre um elo.
Sabes como eu procuro obsessivamente o porquê das coisas. Faço-o apesar de saber que é um exercício inútil. Porque também já sei que não adianta saber: de uma ou de outra forma cometemos sempre os mesmos ou outros erros. Não me lembro já que palavras tinhas para esta maneira de ser que de início te soube bem e depois a pouco e a cada vez menos.
Não sei o que se passa com o amor. Uma coisa que parecia antes uma forma de magnetismo natural que atraía os seres, passou agora a ser um exercício esforçado com técnicas laboriosas, mecanismos de precisão e manual de utilização. Aquilo que parecia uma força interior firmemente inexplicável foi agora substituído por uma ginástica cheia de exercícios de manutenção que obrigam o amante a uma dedicação de estudo e prática digno de um 'entertainer' profissional que prende pelo apelo genial de cada gesto e de cada surpresa. Ora, essa atitude do amante substitui a marca pelo seu genérico e fica, por isso, disponível para qualquer bolsa.
Isto não é um queixume. É uma constatação. Eu podia ter-te informado mais cedo sobre a minha decisão se eu soubesse ler melhor os sinais exteriores de tristeza. Porque a imagem da corda é uma boa imagem mas não é mais do que uma imagem. Porque há momentos, de maior ou menor lucidez - não sei - em que, agora, tantos anos depois, me parece que houve um instante que não sei precisar, depois do qual tudo se tornou irreversível e em que os actos, a voz, o respirar, o pó dos livros, o miar do gato e o arrastar dos pés dos vizinhos, colaboraram todos para eliminar a robustez dos fios de sisal.

Aibieme

segunda-feira, março 20, 2006

Trio

É sempre legítimo dizer coisas horríveis acerca da humidade.
Faz-se o mesmo com as coisas altas e com as coisas baixas.
E com isso, sendo isso as palavras e os sons que se não percebem, arrumam-se de uma vez só várias questões fracturantes.

Mas eu não desdenho a humidade.
Nenhuma humidade.

Lá em cima, no lugar onde penso sempre ser o topo, é também o lugar onde as nuvens se formam.
Às vezes, com tempo, com bom tempo, fico no meio delas, oscilando entre o horror de não ter horizonte e o prazer de ser vivo.
Nesses dias sinto-me a água que como eu, desce a montanha a correr, e formo-me em gotas que tombam brincando com a gravidade dos factos.
Ser água é não ser mágoa, é escorrer pelos caminhos feitos de tempo e escolher sem escolher o lugar preferido para evaporar de novo.

Às vezes sou vapor.
E como vapor subo, ascendo ao topo, ao lugar onde as pressões já não me comprimem.
É como vapor que me vêem os olhos dos que olham para os textos e não lêem.
E é isso que é bom no vapor: ser a metamorfose de uma coisa que é o nada e nada é.

Como vapor sou sonho; como líquido sou intenção; como sólido sou morte.
Voar, andar ou morrer.

Um dia serei gelo.
Pedra partida e seca, morta, despenhada no caminho, veneno reversível.
E isso, isso de ser gelo morte e tudo, deixarei para depois, para quando já me tiver esquecido.
Também podia ser assim: sonhar, lembrar, esquecer.

Entretanto, entre tanto sonho, entretenho os dias mudando de estado, viagem à volta dos lugares e de volta aos lugares em que cristalizo sombras.
Desço rápido a montanha que me abriga; recupero o tempo dando-lhe outra forma; ascendo às alturas por força de um vento poderoso; e não me canso, não me canso, não me canso...

Sísifo

sexta-feira, março 17, 2006

Sete anos de pastor Jacob

Uma tarde há dez anos, por recomendação de uma voz que vinha de um alto qualquer, fiquei a pensar, perdido e desgostoso, no que estivera a fazer dez anos antes. Palavra puxa palavra e pensamento esconde pensamento, já estava a imaginar-me dez anos ainda mais atrás, a ficar cansado deste exercício decimal e a culpar os dedos por serem tantos e organizarem o mundo tão eficazmente. De sete em sete anos não sobra no meu corpo um átomo anterior. Dizem. E eu acredito porque esqueço tudo, mesmo as coisas que terei feito distraidamente para me distrair.
E o que faço para me distrair é contar o tempo. Mais um segundo, mais um minuto, mais uma hora, mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais uma ano. O ano passado, por esta altura, a Terra - o planeta Terra - estaria, grosso modo, neste mesmo lugar relativamente ao sol, se é que se pode dizer assim. Mas eu sinceramente não me lembro. Talvez tenha acordado bem disposto nesse dia porque foi uma fase - nessa altura eu estava a atravessar uma fase - em que as coisas me correram bem, não querendo com isto dizer que houve uma maior velocidade na passagem dos segundos mas apenas que não aconteceu nada de extravagantemente mau, de que certamente me lembraria.
Não vem a propósito mas não gosto de 'snacks' nem de 'snakes'. No tempo em que andava diariamente por Lisboa era essa a fome que passava, mas era outro, esse tempo de vacas gordas. Ainda assim preferia a pastelaria ao 'snack'. Em todos os aspectos. Ou será um pastel de nata um 'snack'? Não deve ser porque comida que se veja, comida para pôr nome em alguma coisa, comida que se escreva, há-de ter um nome estrangeiro que se diz remodelando a posição dos lábios e franzindo a testa.
São muitas as músicas de que sei a letra de cor. Foi hábito de infância. Habituado a cantar sozinho cantava com as vozes da rádio. Sim da rádio. A minha infância ouviu rádio e estreou as cassetes. Fui aprendendo assim a letra de "Also sprach Zarathustra" do Strauss, a de "A truta" de Schubert, a do "Zero tolerance for silence" do Pat Metheny, a da "Copélia" do Delibes, a do "Clair de lune" de Debussy e as letras inesquecíveis das "Lieder ohne worte" de Mendelssohn.
Talvez por isso não me preocupasse em arranjar uma orquestra só para mim no caso improvável de me tornar milionário. Provavelmente nem teria tempo para isso. Suspeito das terríveis preocupações que me envolveriam se me tornasse milionário. Embora esteja disposto a fazer a experiência - sempre é melhor do que testar medicamentos novos - é provável que tivesse de passar grandes provações nesse imponderável estado. A primeira preocupação seria a de me manter milionário. Porque estas coisas Deus dá com uma mão e tira com a outra. E tenho para mim que o que Deus dá já é, por assim dizer, um envolvimento numa certa forma de corrupção. Um curto circuito, pelo menos. Uma movimentação de influência. Mas estamos só no domínio do suponhamos porque me parece que as conversas com Deus, ainda que aparentadas a 'lobbying', não são objecto de escutas telefónicas. A segunda preocupação seria uma espécie de corolário da primeira: como ficar ainda mais milionário. Como em tudo, a ideia de que roubar é proveitoso, uma vez comprovada, só terá tendência a repetir-se. A terceira preocupação seria o perfil a adoptar: manter o 'low profile' de pobre com experiência ou a extravagância de novo rico. Ambas têm vantagens e dificuldades mas não quero começar já a preocupar-me com isso. No entanto a minha quarta preocupação seria consequência da terceira e certamente se optasse por continuar a parecer pobre haveria de tentar candidatar-me ao rendimento mínimo garantido. Deveria haver outras coisas que eu faria se fosse milionário mas a partir daqui a minha imaginação já não consegue acompanhar.
No essencial não gosto de fazer nada. Ou dito com mais propriedade: gosto de fazer nada. Mas trata-se de um projecto utópico. Há uma espécie de compulsão para fazer sempre qualquer coisa mesmo que seja um disparate. E aqui não me estou a referir a actividades primárias. Tenho que respirar, evidentemente, e faço isso bastante bem. Posso mesmo dizer que é uma das coisas que me agrada significativamente. Mas talvez devesse pensar em coisas mais elevadas. Gosto de andar na beira dos passeios ou a equilibrar-me em cima de carris de comboio. Gosto de implodir centros comerciais. Nunca o fiz, mas também nunca fui milionário, portanto... Gosto de deixar cair televisores de uma varanda de um quinto andar. Gosto de ver equipas pobres a ganhar a equipas ricas - um trauma de origem neo-realista. Gosto de parar nas passadeiras para deixar passar velhinhos de bengala muito lentos. E não pensem que é por bondade. É mesmo por maldade, para sentir a fúria dos outros automobilistas atrás de mim.
Eu não tenho nenhuma máxima utilizável assim em circunstâncias difíceis. Mas há sempre um momento em que, por evidente superstição, penso "nunca digas desta água não beberei". E por isso não serei muito taxativo a dizer que não voltarei a usar uma babete. Farei o que me for possível para não voltar a vestir um fato de treino, a colocar uma gravata, a usar um fato de casamento e ainda menos um fato de madeira. Mas não passa de uma intenção. Sei lá o que a sorte me reserva. E Deus. Imaginem que, só para me chatear, Ele me faz milionário. Fico-me pelas intenções.
É claro que agora deveria enumerar uma série de brinquedos que mostrassem a minha jovialidade, que demonstrassem o espírito jovem que está dentro da carcaça velha. Ficava-me bem, eu sei. Mas defendo que uma criança nunca brinca com brinquedos. Brinquedos são depois, são a memória, são os objectos que usávamos antes com toda a seriedade. Quando deixamos de levar a sério esses objectos passamos a chamar-lhes brinquedos. Daqui a dez anos talvez esteja capaz de falar do que hoje foram brinquedos. Hoje não. Hoje poderia falar dos brinquedos de há dez anos... se me lembrasse.
Seria engraçado que agora nomeasse outras vítimas para este processo de tortura. A minha luta pela defesa dos direitos humanos não o permite. Fica por aqui, à minha responsabilidade, certo de que vou com isto sofrer as naturais consequências de quebrar uma corrente. A vida é isto mesmo: interromper as coisas enquanto estão a correr bem, sete anos antes ou sete anos depois.

(Agradeço à Sem Cantigas a oportunidade que me deu de desmerecer um cobiçado Óscar)


terça-feira, março 14, 2006

A Lilith

Várias pessoas me têm perguntado pela Chris. Perguntam assim como se costuma perguntar pela úlcera ou pelos ataques de asma. E perguntam por perguntar. Porque todos parecem saber da Chris e da maneira como ela condiciona a minha vida e, também, estão todos pouco interessados com o que se passa com a Chris, comigo e comigo com a Chris. E, já agora, também devo realçar que estes todos que eu digo que perguntam são, na realidade, muito poucos.
De facto, não sendo capaz de viver com a Chris em minha casa e percebendo que ela não iria embora tão depressa, saí eu. Eu sei que foi uma atitude irreflectida. A casa é minha e portanto ela é que teria que sair. Eu sei isso tudo. Há dez milhões de pessoas a dizerem-me a mesma coisa todos os dias. Mas foi assim que eu fiz. Tive uma reacção ilógica, instintiva, irracional, etc. etc. Mas fui eu que a tive e por isso não me estou a queixar.
Se eu já era um sem-abrigo mental, tornei-me um sem-abrigo total. Foi uma experiência nova e, como se costuma dizer, enriquecedora. Estrago tudo dizendo que estou a ser irónico mas se quiser ser honesto direi que a minha experiência de alguns meses de sem-abrigo me enriqueceu no aspecto de me tornar facilmente irónico. No momento em que digo que estou a ser irónico deixo de ser irónico.

Ao contrário de outras mulheres que amei, que já conhecia da infância, a Lilith começou a aparecer-me nos sonhos já da idade adulta. E digo sonhos porque não me parecia possível a existência de seres assim próximos de uma espécie de verdade universal. Existências que parecem sobrenaturais mas de quem, ao aproximarmo-nos, ficamos a ver leves flutuações de orgulho, brisas de dominada harmonia, flocos muito brilhantes de intenção e um cálido e envolvente saber. Levei meses a acreditar, como um ateu que forçado por um milagre incontestável tivesse que, roendo os seus instintos racionais, aceitar uma realidade que o transcendia.
Revelação ou não, ser real ou imaginário, Lilith, introduziu-se no meu destino como margem definitiva para os mitos e tradições, para os paradigmas e para as ilusões. Soube, nesse tempo e para sempre, que Lilith teria sido o traçado exclusivo para a evidência. Soube mas não quis. Temi, pelo exagero da oferta, estar a cair num logro. E, apesar de cravada no eterno, fiz como se esquecesse, fiz como se não tivesse sido.
É fácil nos dias de hoje, em que já poucas coisas se podem gabar de se nos impor pela materialidade, encarar o virtual como virtuoso, a rede como teia, o 'link' como ligação, o endereço de 'mail' como carne, o écran como universo. Lilith apareceu-me antes deste apelo programado à ilusão e trouxe-me, de uma forma quase incorrecta, um método impossível de olhar para o que se passava à minha volta. Lilith deu-me o passo único do que podia ser, em vez de me tentar, como é bem, iludir-me com a diversidade da inconstância.
Ainda hoje quando a vejo - como aconteceu há dias quando procurava um vão de porta onde encostar os ossos para mais uma noite - me ocorre a presença de uma dimensão diferente a que não posso ter acesso sem perder o respeito pelos meus respeitáveis preconceitos. Porque é que as formas hão-de ser melhores umas que as outras? Porque é que uma circunferência, a que foi dado um nome pela sua peculiaridade, é mais figura que um traço irregular que o dedo traça na poeira de um vidro? Porque é que seleccionamos da imensidade estes lugares comuns como eleitos e eternos?
A Lilith não me viu naquela noite. A minha prudência levou-me a caminhar indefinidamente para outro bairro. Não era suposto encontrar próximo do fim da linha uma palavra mágica capaz de remeter para o início. Não era suposto que no fundo das coisas houvesse ainda uma imagem, um reflexo capaz de iluminar um gesto já perdido e terminal. Não era suposto.

Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

domingo, março 12, 2006

Queda

(relativamente a uma bela fotografia do Revelações Avulsas)

Houve um tempo em que eu quis voar.
Estava aberta a porta e eu saí, como se fosse ali fora apenas para respirar outro ar e saber novidades.
Não sei bem se é assim que se começa a querer voar mas foi assim que aconteceu comigo.

Do lado de lá da porta - e a mim interessa-me aquilo que está do lado de lá da porta - sentia que o espaço era mais largo, fosse isso o que fosse.
Porque eu não sabia.
O que eu sabia era apenas o resultado de uma operação de elementar inteligência: não há abismos; nada acaba abruptamente; a seguir há sempre mais e mais.
Dir-se-ia que o meu horror ao vácuo era pura descrença.

A primeira palavra que terei dito, fora do expectável da criança que aprende a falar, foi 'aquilo'.
Mas isso foi muito antes de ter essa impressão de que poderia voar.
Muito antes de pensar que havia um lado de lá desejável e promissor.
Mas gosto de pensar - pura vaidade - que aquilo a que o meu 'aquilo' se referia, era já a incógnita de um lugar que ainda não sabia.
Era já o espaço onde tudo existe em potência.

Os gatos raramente se preocupam com o que vêem.
As ansiedades que os tomam são sempre estranhezas e ausências - o que se não vê mas está presente na forma oculta ou disfarçada.
O meu voo, naquela ocasião de porta aberta, naquele desejo de um lugar de estranheza e sobreposição, nascia inocente, do querer olhar para trás e conseguir ver a totalidade.
Voar seria então, estar à altura do impensável, coabitar com o infinito, ver o invisível.

À tarde o avô levava-me ao jardim e os pombos vinham comer as migalhas das bolachas aos meus pés, antes de ousarem bicar com perícia a palma da minha mão.
Estranhava que podendo eles voar, podendo eles seguir um rumo de excesso para a distância em que se vê um largo horizonte, preferissem ficar ali comigo, na magreza de uma migalha.
Embora não compreendesse agradava-me aquela dedicação.
Num momento, infância, é-se o centro, a importância, o filho, o neto, a causa.

Só mais tarde dei conta de as novidades durarem apenas um instante.
Só muito mais tarde percebi que o mundo é uma metáfora de si próprio.
Só ainda mais tarde acreditei que acabamos sempre trocando voos por migalhas.

Sísifo

quinta-feira, março 09, 2006

Fim de um circo...


Num certo sentido só hoje se completa o processo democrático iniciado no 25 de Abril. A promessa era a de que o povo decidisse sobre todas as questões do país, mas por uma razão ou outra, houve sectores que, no meio político, resistiram à ideia de que até nos seus redutos, o povo poderia meter o pé. Acreditava-se que o povo saberia escolher entre os seus, os melhores para cada uma das diversas posições que era necessário ocupar no sistema.
E assim foi. Sempre que pôde o povo soube procurar entre os seus, aqueles que melhor considerava para estarem nos melhores lugares de relevo e de decisão. A longo de trinta anos o povo foi, por aquisição de conhecimento, por amadurecimento, por dedicada postura de aprendizagem e esforço, recompensando os melhores, primeiro nas suas esferas de proximidade, depois em círculos mais alargados, até que hoje consegue colocar um dos seus na mais elevada cadeira de representabilidade.
Suponho que só nos resta comemorar o facto. Admitindo que existem mesmo ciclos, temos que admitir também que depois de se atingir um ponto máximo, mais tarde ou mais cedo se começará a descer. Claro que poderá ser desagradável pensar que tempos melhores só virão depois de nós cá não estarmos, e que por isso, para o bem e para o mal, este é o tempo que vai ser para sempre o nosso.
Reconheço: vivo na clandestinidade. Não compreendo como é possível reconhecermo-nos com tanto empenho, nesta mediocridade. Como é possível termos deixado de nos questionar sobre o valor das coisas e como aceitamos com tanta facilidade o banal. Como substituímos com prazer, o valor do esforço pelo da futilidade. Agora, durante anos, muitos anos, vamos mergulhar ainda mais numa idade de trevas, de pensamento manietado ou ausente, uma Idade Média de ideias laminares, de espessura nula, de frivolidade e vaidade, de zero, de vazio de conteúdo. Terão de passar várias gerações para que este efeito de ausência mental se perca e possa ser substituído por alguma coisa parecida com identidade e indivíduo, por uma sociedade de seres pensantes, apaixonados, razoáveis e sem uniforme. Eu sei que isso é um sonho. Foi sempre um sonho.

Artur Torrado

Rugosidade

Eu sei que não sei contar histórias. Sei que só falo de acontecimentos em que nada aconteceu. O meu propósito é, quase sempre, que não haja propósito nenhum e espero da maioria das coisas que de facto não existam.
Quando pego num assunto, digamos assim, é sempre na perspectiva que o assunto não tenha tema e não se ligue a nada que possa parecer verdade. É uma perspectiva e é uma expectativa. Apesar de, acima de tudo, eu não esperar nada e não ter, por isso, de sentir que perco o meu tempo com estas coisas.
Pressinto que o meu pensamento é rugoso. Assim como uma papel amassado. Não digo um papel amassado furiosamente, e por isso de maneira superficial, mas um papel amassado com intenção, com método, com vontade. E um pensamento rugoso, de volume variável e superfície baça, não reflecte, não transmite, não passa, nem no tempo nem no espaço, para além dos limites vagamente definidos do presente.
Não se trata de um jogo de palavras. Ou trata-se, na medida em que a tudo se pode dar o título de jogo. Mas só nesse caso, só nessa rugosa acepção. Porque de outra maneira não gosto de jogo. Não por a alguns parecer que durante um jogo acontece alguma coisa. Que não acontece. Nada acontece num jogo.
Um dia, com mais tempo, também farei a minha teoria dos jogos. Por agora direi apenas da perplexidade perante o relato de um jogo. Pela fantasmagórica atitude de ouvir com atenção alguém que descreve - eles dizem narra - um jogo. De que é que falam esses narradores?
Mas falar disso já seria narrar a narrativa de um jogo, ou descrevê-la, dar-lhe um volume, uma cor, uma intensidade, uma emoção. E no jogo que chega a nós por interposta pessoa, isto é, num jogo em que não jogamos, em que não somos intervenientes, em que somos, como se diz, espectadores ou receptores secundários de narrativas, materializam-se emblemáticas formas de ficção que, como sempre, dão a quem especta a imortal sensação de sentir e viver.
E eu não sei contar histórias. Ocasionalmente apercebo-me que acontecem coisas. Mas não as percebo. Não as consigo inscrever numa convergência de rectas e, pelo tempo que as une, parece sempre que há um lugar a mais, uma direcção que falhou, um gesto de indecisão que foi levado a sério.
Um dia, talvez depois de fazer a minha teoria dos jogos, hei-de tentar, para me entreter, perceber porque é que o tempo passa como se fosse uma ave migratória, voando sobre nós como se não fizéssemos parte da história. Sei que não é tema que dê para contar uma história. Mas talvez esteja aí o sublime da situação: uma história que não faz parte da história e que por isso não se conta a não ser que possa ser relatada como um jogo em que ninguém joga e todos são espectadores.

Prólogo

terça-feira, março 07, 2006

Postcinco

Sabes que eu tenho que estar a uma certa distância das coisas para as saber olhar. Faço isso como ninguém, e não estou à espera de conseguir libertar-me deste peso e reconsiderar a direcção que os meus passos levam.
Também sabes que à distância a que percebo as coisas há apenas ecos e não ouço nada do que é som próprio do momento. Os gritos chegam já tarde à minha imaginação e eu não espero que eles tenham sentido. Não espero nada. Mesmo que não seja bem assim como me ocorre agora dizê-lo, porque há sempre estas palavras que não chegam, que não são suficientes para que me percebas.
Não, não tenho gestos bruscos. Não procuro na impaciência a razão que sei ter ficado escondida num quarto escuro da infância. O que sobra de cada momento não chega para ocultar esse vício que tenho de chamar verdade ao que vejo. E não oscilo. Não mudo o meu papaguear apenas para que possas por momentos ouvir o meu silêncio.
É certo que houve um tempo em que gostavas das minhas palavras. Eu tinha aberto o sótão das tristezas e a brisa nova parecia levantar a cabeça para o alto das transgressões e dos movimentos aleatórios. Vinha-me o riso, assim de repente, conflito de interesses entre o meu rosto fechado e a vontade de saltar com gritos de adolescente.
Preparei-me para quase tudo. Era esse o meu entretenimento favorito: ficar à espera de surpreender o acaso com uma mostra de conhecimento antecipado de tudo o que ele me pudesse trazer. Obsessão minha. Erro. Há demasiada diversidade na imaginação do tempo. Por mais seguro que estivesse vinha sempre uma vaga inesperada. E as ocasiões de voar eram poucas. O sentido da voz vinha sempre deturpado e o gesto oculto era revelado como parte integrante do dia e da moda.
Que é que me fez parar? Pergunto às vezes o que é que me fez parar. Porque eu sabia tudo. Sabia o resto de todas as histórias e as surpresas tinham ficado todas no passado, na angústia do passado.
Falta-me distância para perceber. Falta-me estar já noutro lado para compreender o erro de não estar aqui. Deve ser este o melhor método para perder sempre.

Aibieme

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O computador de Detroit

Assustei-me com o carácter industrial das letras. Vêm de todo o lado. Caem no meu acaso como formas começadas mas afinal já estão completas e justas ao tempo. A minha função seria embrulhá-las em cores vistosas. Ou nem isso. Apenas teria que olhar e aplaudir. Ler seria já um excesso, uma redundância. Então é isso: estou assustado. A terra treme com a intensidade com que as letras caem do ânimo das mentes. Parece agora que a combinatória esgotou as formas belas e já vale tudo desde que o arranjo pareça novo e se distinga do já visto por uma unha negra. E negro não é por acaso. É porque diz tudo sobre a ausência de luz. Mas não é isso, eu sei e sei que me dizem que não é isso. Esgotou-se a combinatória. Um computador com milhares de processadores a trabalharem em paralelo jurou a pés juntos que todas as combinações de caracteres com algum significado já foram feitas: umas por humanos e outras por máquinas programadas para combinar dia e noite todos os padrões que ainda restassem virgens. Agora acabou. O que quer que se faça há-de ser uma repetição. Isto é uma repetição. Até eu já disse isto milhares de vezes, talvez no humilde propósito de me convencer a parar. Cada vez que alguém nasce sente-se no direito - e suponho que tem o direito - de reservar para si um grão razoável de novidade. Não, não sou eu que distribuo esses direitos. Tenho até a minha justificada repugnância a querer dizer seja a quem for o que deve fazer. Assustei-me foi com a dimensão. O carácter monstruoso do que vem chegando e inundando todos os canais, todos o percursos, todos os olhares.
"Olha aqui o que eu tenho, o que eu produzi. Dá atenção a este texto, a esta música, a este quadro, a esta cuspidela para o ar. Olha pra mim, porra! Não consegues perceber que não tenho tempo para falar com pessoas que não me ouvem?"
Um computador em Detroit com milhares de processadores a trabalhar em paralelo combinou em segundos todas as letras de todas as formas possíveis e determinou que a partir desse instante toda a escrita passava a ter direitos de autor. Depois fez o mesmo com todos os sons, com todas as cores, com todas as formas, e toda a música, toda a pintura, toda a arte passou a ter direitos de autor. "Faças o que fizeres já foi feito por um computador em Detroit que registou, num outro computador em Detroit, a autoria de todas as variantes da natureza que ainda não tinham sido feitas até hoje."
Sobre a minha secretária, há uma pilha de revistas que comprei já desactualizadas. Não consigo comprar revistas actualizadas. Quando chego a casa, o tempo do percurso do comboio faz com que ao pousar a revista em cima da secretária ela já não seja actual, já tenha sido ultrapassada em actualidade por milhares de outras revistas que ainda não comprei.
Ligo o computador. Demora. É um aparelho mono-processador. Peça de museu, ele próprio. Ao aceder a um 'site' há uma demora assinalável. O que recebo está desactualizado. Refresco e vem outra página que também já não é actual. Há trinta e sete milhões de pessoas a actualizar aquela página. Cada uma das trinta e sete milhões de pessoas copia a velocidades vertiginosas o conteúdo de outros quarenta e nove milhões de 'sites' que estão cada um deles a ser actualizados por dezenas de milhões de utilizadores ávidos de mostrar o mundo tal e qual ele é.
Chega o meu momento de actualidade. Informação em primeira mão. Sou o primeiro a saber e comunico. Escrevo rapidamente: "Estou a dar um tiro nos cor..." Porra! Esqueci-me do 'enter'.

Artur Torrado

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Secreto

Não me interessam essas coisas que se andam a dizer por aí sobre mim.
Eu percorro as minhas noites com os meus passos e dispenso guias e conselhos.
E não se trata de arrogância ou egocentrismo mas apenas de identidade.

Não. Eu não tenho questões por resolver.
E também não é verdade que tenha decidido limitar-me a aceitar.
Até porque aceitar não é uma coisa a que se possam pôr limites ou que os defina.
O meu patamar, se se pode dizer, permanece infinito e o meu desejo autónomo.
Vou pelo caminho que existe e não pelo caminho que escolhi.

Claro que não sei explicar esta percepção de não dar grande importância à escolha.
Poderia chamar-lhe acomodação mas sei que é bastante mais do que isso.
Não tenho agenda, não procuro sistema de interpretação, não arrumo os objectos deslocados do seu lugar, não sei que lugar têm os objectos.

Se eu pudesse dizê-lo de outra maneira talvez acabasse por confessar que deixei de levar a sério todas as palavras que teimam em fazer-se anunciar pelo sofrimento.
Do meu ponto de vista são palavras a evitar.
Prometem tudo para depois.
Fazem pensar: um dia, sim, um dia esta palavra há-de ser minha, e eu serei ela.

Não. Eu não quero essas palavras a rondarem a minha casa.
Parecem ter a ideia fixa de preparar o mundo para a tortura.
Lidam com os humanos como lixo e fazem sangrar os soldados e a voz.
Agarram-se à garganta e aí ficam, adereços de uma força eternamente adiada.

E talvez seja isso, essa impaciência para com as palavras mais poderosas, que me faz percorrer caminhos que não escolhi.
E deixei de entrar no jogo, a não ser que seja mesmo um jogo, de saber o que é que esta ou aquela palavra quer mesmo dizer; qual é o seu verdadeiro significado; como a usavam originalmente; que segredo e mito esconde a sua carapaça.

Sei que está travestida, mas permanece no ar a ideia de ser nas origens que se encontra a verdade.
Saltei por cima.
O meu paraíso há-de ser esse caminho que não escolhi e que certamente me matará por atravessá-lo.
É só isso que me interessa ser.

Sísifo

sábado, fevereiro 18, 2006

Jakob von Gunten

Talvez fosse desejável que entre cada livro que se lê, como entre cada pensamento encadeado, houvesse uma ligação lógica que permitisse, numa espécie de investigação policial, fazer o rebobinar da história e chegar à origem primordial das coisas. Isto por na passada semana, antes de absurdamente me ter voltado para os contos de Franz Kafka escolhidos por Jorge Luis Borges, ter lido com impaciência infantil o Jakob von Gunten do Robert Walser.
Ao Robert cheguei atrasado por não encontrar o livro que sabia editado, mas ninguém, nesses lugares onde agora se podem encontrar livros, o tinha disponível. Está bem, eu sei, mas a minha pessoa não compra livros na ‘internet’. Mais não fosse porque ninguém me passa um cartão de crédito.
Entretanto consegui encontrar o Jakob von Gunten e através dele tive acesso ao Instituto Benjamenta. Bom, talvez não seja bem assim. Eu tinha tido um pequeno acesso ao Instituto Benjamenta n’o mal de Montano do Enrique Vila-Matas. Coisa pouca mas bastante intrigante, embora o Enrique tenha essa estranha capacidade de tornar intrigante um objecto só porque lhe faz referência. Nem sei dizer se isso é bom ou é mau.
Mas a verdade é que não saltei directamente d’o mal de Montano para o Jakob von Gunten. Existe cerca de um ano de intervalo entre os dois. E um ano nestas coisas dos livros não é nada. Mas um ano nesta coisa da vida é muito tempo; demasiado tempo. Talvez a paciência seja a grande diferença entre os livros e a vida.
Antes de Jakob apenas posso referir, por isso, uma certa impaciência em encontrar o livro. Até porque não consigo estabelecer nenhuma relação entre ele e Paris nunca de acaba também do Enrique, mas onde nem tenho a certeza de haver alguma referência ao Robert, e que foi mais próximo.
Fui ver. Retiro o que disse. Enrique, fala de Robert assim: O golpe de misericórdia deu-mo Arrieta oferecendo-me o romance Jacob von Gunten de Robert Walser. Abri-o na primeira página, comecei a ler: “Aqui aprende-se muito pouco, há falta de professores e nós, os rapazes do Liceu Benjamenta, nunca viremos a ser nada, quer dizer, de hoje para amanhã seremos todos gente muito modesta e subordinada.”
O caso assim muda de figura. Fui literalmente empurrado pelo Enrique para cima do Robert! Não gosto de dizer estas coisas mas acho que valeu a pena. Isto para mim é um esforço terrível, enviar para o éter a notícia dos amigos que cultivo e aprecio.
Afinal, quem leio eu quando leio um autor estrangeiro traduzido para a minha língua? Não há nada a fazer, estou na mão do tradutor. Nem posso dizer, por que não sei, se traduziu bem ou mal. Posso apenas dizer que o Jakob parece escrito directamente em português. E também isso me soube bem.

Artur Torrado

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Desagrado

Hoje apetecia-me falar de sagrado. Assim, sem mais nem menos.
Pegar naquelas palavras que às vezes tememos dizer, olhar, sentir e dissertar sobre elas, brincar com elas, deitar-me com elas. Tudo isso sem atentar nunca contra o sagrado.
Mas não me apetece ir pegar agora em livros e procurar essas tais palavras, dizê-las em voz alta e meter-me pela noite dentro à procura dos lugares comuns que elas encobrem.
Até porque este apetite que hoje tenho de falar do sagrado pode ser contra-producente. Porque há um estado de espírito próprio para falar e pensar o sagrado e dado que me apetece falar do sagrado não estou provavelmente com o melhor espírito para o fazer.
Não podia, no entanto, deixar de deixar registado este apetite.
Mas não. Hoje não é um dia que me apeteça meter o nariz no meio do pó dos livros onde com grande certeza se encontra o sagrado no seu estado mais puro. Eu sei que o sagrado é sempre puro mas mesmo a pureza mais refinada tem os seus altos e baixos. Em termos modernos até poderíamos falar de uma certa qualidade que o sagrado pode ter.
Cheguei aqui e reparo que o sagrado saiu sempre escrito com letra minúscula. E agora tenho a dúvida se devo ou não voltar atrás e pôr um 's' grande em todos os sagrados. Será sagrada a palavra 'sagrado'?
Vou admitir que não e se houver alguém para quem a palavra 'sagrado' seja sagrada, peço desde já desculpa porque a minha intenção era não ofender. Talvez eu devesse, pelo sim pelo não, pôr um 's' grande porque certamente ninguém ficaria ofendido se a palavra 'sagrado', mesmo não sendo sagrada, tivesse uma inicial maiúscula. Mas não sei.
Pode acontecer que alguém mais modelar nestas coisas, ache que já constitui uma ofensa usar uma marca de sagrado numa palavra que não é sagrada. É assim um pouco como deitar comida fora sabendo que há tanta gente a passar fome.
É estranho como afinal o sagrado se meteu no meu texto quando eu já tinha desistido de aqui o meter. Acaso eu não posso excluir o sagrado de um texto só porque me apetece? Eu sei que comecei por dizer que me apetecia falar do sagrado. Mas era uma mera hipótese. Também me apetecia agora ir para a praia e não está, evidentemente, tempo para isso. Pelo menos a esta latitude. Do apetecer ao fazer vai uma certa distância.
Mas quando dou por mim tenho o sagrado metido com toda a força e impertinência pelo meu texto adentro. A minha consciência diz-me que não devo considerar a palavra 'sagrado' como sagrada. Mas os dados da realidade permitem acreditar que em algum lugar haverá alguém para quem a palavra 'sagrado' é sagrada e que, por consequência, poderá considerar ofensiva a minha falta de respeito por uma palavra que, eu reconheço, não me pertence.
Talvez eu pudesse pôr uma advertência no início do texto: "se para si a palavra 'sagrado' é sagrada não continue a leitura deste texto pois poderá considerar-se ofendido e essa não é, em caso algum, a minha intenção". Mas, mesmo aqui, não posso evitar a escrita da palavra 'sagrado', podendo estar, extemporaneamente, a atiçar contra mim o ódio de alguém que desprevenidamente acede ao meu texto.
Se ponho uma advertência mais genérica, do género, "cuidado este texto pode ter um carácter ofensivo" estou por um lado a excluir a hipótese de ser lido por alguém que se possa sentir ofendido com o meu texto, mas estou, rigorosamente a propor o meu texto exclusivamente a dois tipos de leitores.
Os primeiros são os que pensam "ena, coisas ofensivas, era mesmo disto que eu estava à procura", que vão, não tenho dúvidas, ficar terrivelmente ofendidos e capazes de me matar por não encontrarem no meu texto nada de suficientemente ofensivo para a sua gula coprófila.
Os segundos são os que pensam "olha! deixa lá ver o que é que este gajo não quer que eu veja" e que hão-de encontrar alguma coisa realmente ofensiva para alguém, a quem, muito solicitamente, farão ver aquilo que de outra maneira não veriam e que, por isso, os não ofenderia.
O melhor mesmo seria apagar isto tudo e ir dormir. Ou então tirar o 's'.

Prólogo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Postquatro

Tinha que te falar hoje das impressões que o passar do tempo foi deixando de ti na minha memória. Imagens, sempre imagens, múltiplas de si e indiferentes. Pensar-te é o mesmo que pensar milhões de outras coisas diversas. Mas quando te penso, penso-te a ti. E quando penso milhões de outras coisas diferentes, procuro nelas o que tu lá deixaste.
Não é por uma questão de comemoração. Não sou solidário com a translação da Terra. É por uma questão de marca que se apôs a todos os movimentos e a todas a células de que o meu corpo é capaz. Os dias são para mim, há muito tempo, o ritmo ocasional do teu rosto e as frases que uso para me cumprimentar de manhã ao espelho têm sempre um nome que começa por ti.
Sei que tu sabes que eu sei que isto não é nada de importante. As escalas de importância são como a escala da música. Há notas que nos tocam e outras que projectam indiferença. Mas também sei que sabes que eu sei que já não cedo facilmente ao destino e olho para o caminho com a mesma sobriedade com que marco os meus pés na areia da praia.
Anos depois ainda não encontrei as palavras certas. Embora eu saiba que tu sabes que eu sei que não existem essas palavras certas, é sempre por elas que persisto nesta procura de um ocasional tom de milagre que um dia faça parecer harmonia o movimento fortuito de duas cordas que tentam ocasionalmente vibrar em conjunto.
Agora que se tornou fácil de dizer que sentir ou não sentir é uma questão de moléculas e em que uma paixão pode ser afinal não mais que uma hormona impertinente a desestabilizar a ordem, eu deixo à ciência as suas materiais certezas e continuo a fantasiar o desejo como música que não se explica. Nada acorda da matéria inanimada o acorde solitário que faz arrepiar uma emoção inesperada. Há um salto quântico entre essa indiferença perante o tempo e o espaço, e a entropia caótica que se gera ao fixar os teus olhos.
Hoje, por acaso, lembrei-me que há planos do saber que me interpelam sobre ti. Lembrei-me que há ocasiões em que estamos e outras em que é a ausência que marca o passar dos segundos. Lembrei-me também que os dados das experiências são muitas vezes contraditórios.
Mas, apesar da química, da genética e da matemática, continuo sem explicação para nada, como se nenhuma descoberta me movesse do meu irredutível amor. Mas há, apesar de tudo, muitas diferenças em relação ao tempo em que as perguntas eram um peso constante sobre a identidade dos sentidos. A maior dessas diferenças é, agora, ser capaz de sorrir trocista de todas essas explicações de que já não preciso.

Aibieme

domingo, fevereiro 12, 2006

Sangue

Há gotas de sangue no caminho que leva ao topo da montanha.
Escassas, são já demais, porque surgem como marcas num caminho antes difícil mas sereno.
Perturbam então quem passa e quer apenas que o seu pensamento se dirija para as palavras que ainda faltam inventar.

Tinha sido dito aos filhos que nos seus passos a perturbação seria cada vez menor e os percalços do insondável seriam reduzidos à medida do tempo.
Não seriam mais necessárias as filas de gente seguindo o critério da cegueira.
Tinha sido dito com alguma fé, como se lavadas as mãos das sujidades vadias o passado perecesse e os sonhos fossem novos.
A ninguém seria pedido o sacrifício de se fortificar de terror.

Confesso que houve momentos em que, por desejo, acreditei.
Sabia que do lado de lá havia múltiplas formas de contaminar a linearidade do pensamento.
E sabia, ainda melhor, que do lado de cá se encavalitavam as ambições em movimento frenético para extrair de cada instante sucos cada vez mais verdes e sem sabor.
E sabendo tudo isso permanecia esperançado.

A ideia de milagre nasce com cada ser.
E mesmo quando o número irrompe como coisa próxima do infinito, erguemos a taça sugerindo ao tempo uma atenção especial à nossa condição de privilégio umbilical.
Sorte de nascer.
Sorte de viver.
Sorte de sentir.

Tinha sido dito aos filhos dos que morreram em inexplicável sofrimento que a história não se repetiria.
Que um erro acontece uma vez no tempo e depois se esquece a maneira de errar.
Tinha sido dito aos filhos que não importavam nada as evidências de o barco ter uma desmedida inclinação para estibordo.
Que a força das águas dispensava coisas abstractas como justiça e igualdade.

Há gotas de sangue no caminho.
Os deuses estão de novo preparando o ventre para lauto banquete.
Há no ar pólenes soprados com violência que perturbam a respiração de quem passa.
Os deuses querem de novo o medo.

Sísifo


sábado, fevereiro 11, 2006

Software bug


Em tempos quis um mundo perfeitamente racional. Parecia que todas as oscilações do tempo haveriam de ser enquadradas pela consciência e cada passo a dar poderia ser, do ponto de vista interior, um passo certo, claro e determinado. Das equações da vida bastava conhecer as variáveis mais relevantes para que o destino se tornasse uma brincadeira de risos e cânticos. Era assim que parecia que iria ser o futuro. Como em todas as situações técnicas era uma questão de domínio do saber que determinaria o longe que se conseguiria ir.

Posso dizer que durante anos mergulhei na perplexidade de o sistema não funcionar. Revia os cálculos, reavaliava as equações, tomava de novo o peso às variáveis... Com falta de tempo, deixava para mais tarde a angústia de perceber o que é que falhava.

O choque veio aos poucos. Instalou-se primeiro como dúvida, depois como incerteza, mais tarde como desvio. O modelo inicial estava errado. Não havia lugar onde chegar percebendo o mundo como ocasião definitiva e clara. Afinal, aquilo que desde o início parecia limitar a comunicação e a linguagem, era uma espécie de névoa que tudo encobria e a tudo tirava a definição límpida que as equações prometiam.

Ainda assim, perante a evidência, levei tempo a aceitar que teria que ser eu a mudar. O mar de racionalidade que eu me tinha proposto, o esquema mental que dava a cada coisa o seu lugar e a sua significação, não correspondia a mais do que uma simplificação para consumo infantil. Era belo, sim, como as construções puras, formal, arrumado, liso. Inviável também. Provavelmente aborrecido.

Não sei dizer agora se foi uma perda de tempo porque entretanto tento aprender que todo o tempo se perde ou que nenhum tempo se perde, o que é o mesmo. Por enquanto, e tornei-me assim céptico ao definitivo, vou olhando à volta e evitando os raios demasiado intensos do sol. Digamos que espero pacientemente e não me deixo impressionar sabendo, no entanto, que é nesses lugares em que nos deixamos impressionar que decorre sem solenidades a vida.

Há, então, um fôlego desconhecido que sobrevoa as explicações e que não depende delas. Posso construir um elaborado conjunto de conceitos para determinar a minha vida, mas o seu valor será apenas o entretenimento que me deu fazê-los.

Como o 'software' de um computador, a 'alma' é um conjunto de camadas. Umas mais próximas do corpo - o 'hardware' - outras mais distantes e capazes de comunicar com o exterior - a 'interface' - a que chamamos consciência. A razão é uma aplicação que tenta pôr ordem nos processos de comunicação entre as camadas. Mas a sua acção apenas se faz sentir nas camadas mais exteriores, e o corpo, que tem programação autónoma e independente, segue o seu caminho indiferente ao polícia racional.

Quando há desacordo entre o 'hardware' e o 'software', há sofrimento. E não há nenhuma razão que o previna. Porventura há que deixar o corpo dizer o que quer.


Artur Torrado

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Regresso

Talvez tenha acabado de vez o inverno. Talvez estes dias que agora parecem mais longos e mais quentes tenham vindo para ficar.
Quero que sim porque este lugar que tenta desesperadamente ser moderno e desempoeirado é deprimente e só me pode servir de teste ao estado de espírito.
Passar por aqui de manhã para tomar o café e sobreviver é sinal de que se instalou no peito uma força e uma resistência inultrapassáveis.
Tem muitas janelas este café.
Por uma vê-se o correr de lojas por onde não passa ninguém e cujos negócios, a existirem, serão virtuais, por telefone e, quem sabe, negócios escuros.
Pela janela a seguir vê-se o longo tapete de relva que esforçados ucranianos, recrutados pela câmara nos centros de desemprego, vão mantendo ilusoriamente verde.
Pela terceira janela vejo os carros a passarem; num outro plano aparece de vez em quando uma bola de basquetebol a tentar as tabelas e os cestos; noutro plano ainda, passa, às vezes, o comboio vermelho.
Outra janela mostra mais relva e o sinal luminoso que detém os carros quando alguém quer atravessar a rua.
Antes desta janela havia uma outra mais pequena, mas maior porque tem marca - sony - e mostra, hoje, o habitual desespero da tvi a tentar prender-me a atenção.
Depois há uma janela que é também a porta e por onde se vê o lado de lá e as escolas com os miúdos que, adivinho, gritam a energia dos intervalos.
Há ainda mais duas janelas que me são oblíquas e que não me apetece fazer o esforço de ver o que se vê por elas.
No ar há um som reverberante contínuo de chávenas e pires e pratos a baterem furiosamente uns nos outros. Às vezes as empregadas - de sotaque brasileiro - vêm arrumar as mesas e atiram energicamente com as cadeiras para o seu lugar. A televisão grita a sua razão definitiva e salta por cima das vozes, pobres vozes, tristes vozes que saem esganiçadas das poucas mesas ocupadas. Por vezes irrompe o moinho de café no seu rugido que nem chega a ser aromático, por defeito, certamente, dos sentidos.
A televisão mostra agora as bichas a entrar em Lisboa. Seja como for a televisão está sempre a mostrar bichas e as pessoas, estranhamente, dão audiência às bichas fazendo desconfiar que não são só dez por cento.
As mães contam a plenos pulmões, tentando sobrepor-se às chávenas, à televisão, às cadeiras, ao moinho de café e às outras vozes, os disparates dos filhos, dando um ar muito engraçado à sua perda de autoridade. Uma filha bate ritmadamente os calcanhares contra a madeira ressonante do banco onde está sentada.
Talvez tenha acabado de vez o inverno.
Consegui permanecer aqui o tempo de um 'post' sem ter saído a meio emitindo terríveis blasfémias contra o resto da humanidade.
Agora posso ir: hoje passei no teste.

Artur Torrado

terça-feira, janeiro 31, 2006

Indeterminação

Quando escrevemos uma frase esperamos que ela seja a última.
Sabemos por isso, por essa espera, que não será a última.
A frase que esperávamos fosse a última, e ao escrevê-la, naquele preciso instante mágico em que ela surge do nada é mesmo a última, parece não o querer ser.

Digo que esperamos querendo dizer uma espera muito particular, muito individual.
Eu com a minha frase; a minha última frase; a frase definitiva.

Suspeito haver neste processo de escrita da derradeira frase um desvio de intenções.
Anos depois, muitos anos depois, dou-me conta ainda do fracasso de acreditar.
Culpem a memória; culpo a memória; culpo.
Suspeito de suspeitos e culpo uma culpa mas não sei o que os une.

Depois da última frase, da tal, surge, do mesmo nada, outra frase.
Cada frase é, na sua essência exactamente igual à anterior mesmo que teimem em dizer coisas diferentes ou mesmo opostas.

Há um agente infiltrado.
Há alguém, em mim ou noutro lugar qualquer, que não quer que a última frase seja mesmo a última.
Há alguém, aqui ou a distância significativa, que não gosta da ideia de última frase.
Há alguém, agora ou no futuro, que teima em não esquecer.

Faria com prazer o retrato 'robot' desta personagem usurpadora de ilusões.
Mas vou passar sobre esse aspecto prazenteiro e ater-me aos factos.
Porque é que tão dedicadamente procuramos ilusões?
Quando digo nós é uma maneira de falar, porque é de mim que se trata.

Antes o mundo era muito mais claro.
Eu não estava cá para ver, mas assim à distância, no tempo e no espaço, é claro que o mundo era claro.
Sabíamos quem eram os bons e quem eram os maus.
Sabíamos o que era realidade e o que era ficção.
Sabíamos olhar para o lado e ver imediatamente onde estávamos, que nome as coisas tinham, e as vozes, todas as vozes eram audíveis.
Sabíamos então que, mais tarde ou mais cedo, o mundo além de claro haveria de ser compreensível.

Quando escrevo uma frase espero que ela seja a última.
Agora que me falam de infinito e que parece que não sabemos de que falamos se não falarmos de infinito, não consigo ter a certeza de que uma frase será a última.

Há dias, talvez pelo frio exagerado que não me deixava mover as mãos sobre o teclado plástico, nem pegar na esferográfica gelada, tive tempo para pensar e concluir que, como todos os outros, padeço da doença da comparação.

Sísifo

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Brainstorm

Hoje tinha uma proposta para brincarmos. Brincávamos como se fôssemos pessoas crescidas. Eu fingia, tu fingias, nós fingíamos... Eu sei que não é a mesma coisa porque quando eu finjo que finjo, é como se já fosse eu outra vez e tu, quando finges, e finges muito bem, ficas outra pessoa que, se finge, ainda fica mais outra pessoa.

O meu fingimento é binário. Oscilo entre dois lugares opostos e discretos. Tu, no teu fingimento, multiplicas a tua multiplicação por estados que parecem não acabar e me deixam perplexo na singularidade dos meus dois lugares comuns.

Mas também podíamos fingir que ainda éramos crianças e fingir então que éramos adultos, e talvez assim a brincadeira já resultasse. Era mais fácil. Não tínhamos que inventar personagens complicadas, porque como crianças não tínhamos que saber exactamente como eram os adultos e, por isso, não tínhamos que complicar.

Agora íamos ser adultos que brincavam a ser crianças para então brincarem de adultos que tinham filhos crianças e as compreendiam por serem como elas, embora não fossem como elas a não ser porque fingiam que eram adultos.

Não. Não digas que é complicado. Tu às vezes finges tão bem que és criança. Outras finges que és adulto, outras que és velho. Sabes fingir todas essas idades e sair a correr delas como se fossem tuas e as não quisesses.

Agora não era suposto que chorasses. Não sei o que finges quando choras. Sabes que esse teu fingimento incomoda. Estás mesmo a sentir? E quem é que está a sentir? És a criança ou já és o adulto que a criança está a fingir que é? Não te percebo.

Queres brincar ou não? Tínhamos combinado - ontem lembras-te? - que hoje brincaríamos. Chegávamos do trabalho e brincaríamos. Mas depois tu telefonaste e disseste que preferias passar o dia a brincar em vez de ir trabalhar. Embora para ti o trabalho seja uma brincadeira. Nem percebo se estavas a fingir quando me telefonaste. Nem sei quem eras quando me telefonaste.

Eu confesso que hoje não me apetecia brincar. Fingi que me apetecia para não te desagradar. Mas agora percebo que a ti também não te apetecia. Também fingiste.

Então afinal estamos aqui os dois a fingir que fingimos que queremos brincar. E eu não sei se o teu choro é fingido ou se finges que não é um choro fingido. Eu finjo, tu finges, nós fingimos...

Não. Agora não sei como voltar a pegar em mim e ser eu. Preciso de algum tempo para pensar em quem não é a personagem. Suponho que há alguém aqui que não é uma personagem. E se houver hei-de descobri-la.

Prólogo

terça-feira, janeiro 24, 2006

Posttrês

Tinha-te dito, sem segundas intenções, que as tuas palavras tinham um certo fogo que as tornava ao mesmo tempo apetecíveis e perigosas. Percebeste, parece-me a mim que percebeste, que eu tinha alguma coisa escondida contra as tuas palavras, mas hesitava em ser claro, hesitava em dizer coisas que te parecia a ti que eu tinha para dizer e que eu não dizia por pensar que com elas te iria magoar.

Digo parece-me, e faço-o por redundância, porque o que digo é o que me parece e outra coisa não seria de esperar.

Pensei que agora poderia dizer exactamente o que te queria dizer quando te disse que as tuas palavras tinham um certo fogo que as tornava ao mesmo tempo apetecíveis e perigosas. Mas fazê-lo, agora, seria reconhecer que quando o disse tinha outra coisa para dizer. E não o tinha. Ou, se quiseres, parece-me que não o tinha.

O que quer que possa dizer agora, sobre o que disse ou sobre outra coisa qualquer, é um remendo sobre um rasgão que não sei de onde veio.

Eu sei que poderia tentar. Poderia tentar dizer a mesma coisa por outras palavras. Como se tivesse que explicar um conceito difícil e para isso usasse de analogias, comparações, metáforas, imitações que ficam no lugar onde estava outra coisa como se fossem ela, não sendo ela e não sendo já senão o esforço de reconstruir ou segurar de pé uma ruína que morreu.

Fico a pensar que já havia alguma coisa antes das minhas palavras. Talvez já houvesse mesmo qualquer coisa antes das tuas palavras.

Um esforço que eu fizesse para traduzir o que te disse, ou o simples dizer que não queria dizer outra coisa senão o que disse, parece levar-te a pensar que, outra vez, por detrás das minhas palavras, ditas sobre as tuas palavras, em consequência de ter sentido, estava uma intenção oculta que nem tu descobres, nem eu, do teu ponto de vista, quero dizer.

Seria melhor se eu tivesse dito que as tuas palavras eram belas. Não é mentira. Mas não percebo porque é que agora digo que 'seria melhor' se disse naquele momento as palavras que eram as palavras daquele momento. E o que quer dizer 'seria melhor'? A que 'melhor' me refiro? Dizer que as tuas palavras eram belas terá menor probabilidade de ter segundas intenções? E porque seria 'melhor' dizer essas palavras menos prováveis?

Não adianta. Nunca saberei conviver com a morte.

Aibieme