terça-feira, outubro 17, 2006

Postdoze

Houve um momento em que citaste, há muitos anos, com cínico prazer, que o amor é eterno enquanto dura. Eu, que ensaiava impossíveis, e tinha o desvario do rigor, não fui capaz de encaixar uma frase tão fora do contexto. Sei agora que te protegias das surpresas, como entretanto me apercebi ser comum entre as pessoas racionais. Se não tivesses vinte anos e, digamos assim, cumprisses os primeiros passos na hipótese do amor, talvez se justificasse a insistência no jogo defensivo. Mas a tua preocupação, a tua desconfiança, era sobre o que fizera eu nos cinco anos que tinha a mais e que, mesmo assim, não eram suficientes para me colocar à altura da tua sobriedade imaculada.

O tempo mostrou-me que as frases precisam de um contexto. Sorrio, com a minha própria ironia, quando vejo livros que reúnem frases famosas de gente famosa e as colocam à disposição do leitor preguiçoso comum que assim se municia sem tem que passar pelos caminhos agrestes da aventura de ler. Essa parece ser a nossa época: deixar que outros extraiam da ganga as pepitas e no-las sirvam em bandejas de comida rápida. Como contestar a benignidade do projecto? Negar apenas porque em dado momento fomos derrotados por um atirador furtivo de frases cínicas?

Surpreendem-me sempre as pessoas cheias de certezas. Umas agarram-se a deuses capazes de todas as respostas, outras aos objectos soltos que vão dando movimento aos dedos e às ilusões. Perante eles o nosso ponto de vista é sempre indefensável se não tirarmos partido de alguma forma de crença que sustente a parte imponderável da racionalidade.

Levei anos até aceitar que o amor só é eterno enquanto dura. Foi já no ocaso, quando já não era sustentável aceitar os precipícios que rondavam as tuas certezas. Só percebi quando já não havia no discurso da casa uma palavra que fosse minha, que não tivesse sido emprestada de fora para soletrar com cuidado o estranho equilíbrio dos afectos. Dei por mim e a eternidade tinha acabado; o tempo tinha-se esgotado e percebi que isso tinha acontecido anos antes de ter dado conta.

Desde então tenho tentado perceber o que mata o amor. O que torna efémero o que era para ser definitivo. O que retira dos corpos o prazer da cumplicidade. O que contamina, como uma bactéria, a suposta ligação entre dois seres.

Provavelmente já sei. Mas estou à espera que o tempo que passa me permita aceitar a volubilidade pragmática das células a sobrepor-se à dedução razoável de serem preferíveis duas derrotas a uma vitória.

Aibieme

sábado, outubro 14, 2006

Pérolas (XVIII)

Esta promoção do Windows Vista está brilhante!

sexta-feira, outubro 13, 2006

Pouco

Gosto de ser esta coisa pouca que não tem anseios de universo.
Parar por aqui, pelas curvas apertadas dos lugares sombrios, sem lamentos nem lágrimas, sem poder nem ambição.
Subir todas as manhãs a ladeira que leva ao tal lugar que nada tem.
Pousar o corpo à noite na escura tonalidade da enxerga sem que o sonho perturbe a mansidão do silêncio.

Gosto de pairar sobre a premonição das águas que dizem canções insignificantes.
Voltar alegre da minha dívida, sem temor de me perder em somas que não conheço.
Saltar imune sobre as chamas que dançam lúbricas à espera de gestos perdidos.

Gosto de vogar pela planície, cansado e ébrio, retendo o sono para sentir ao máximo a beleza.
Partir para cada viagem com o lastro apenas das imposições legais.
Sem perfumes nem medos, sem agasalhos nem vícios, sem preces nem sapatos.
Sentar-me à beira do caminho com o sol a pique e o suor a escorrer a pele.
Agarrar o rosto fresco da água que desce densa sobre a carne e a lava.

Gosto de ler nas folhas secas os pormenores do destino e jogar as cartas escritas pelo amor.
Vigiar de longe o prazer verdadeiro das crianças a brincar.
Procurar palavras que saibam dizer bem das coisas que ainda não existem.
Sentir o vento massajar o cabelo e arrefecer as preocupações e os sentimentos.

Gosto de ter este vazio das mãos como riqueza maior e usá-lo para me saciar.
Seguir ligeiro pelo caminho do meu acaso sem temer à frente o falcão da morte.
Entreter-me com o som dos passos a soletrarem ritmos sobre a calçada.
Olhar a noite mais escura à procura de sinais que sobrem da ofuscação do dia.

Gosto de acompanhar a pacífica resistência dos anos com gestos suaves e prudente entendimento.
Virar as páginas do caderno que comecei a escrever na infância.
Beber o café de aroma puro que traz de África o sabor e a excitação.
Antecipar o desejo e o gosto daqueles que conheço porque amo e que amo porque conheço.

Gosto de, no auge da subida, quando o esforço já ultrapassou o seu próprio limite, soltar, contra vontade, a esfera empedernida, e acompanhar a catástrofe da queda com o grito rouco que solta, enfim, do interior do corpo o milagre do reconhecimento.

Sísifo

Flores

Há flores, claro que há flores. Regam-nas todos os dias com a mesma persistência com que colocam um passo à frente do outro, na vã esperança de chegarem a andar ou, melhor dizendo, de chegarem a mover-se do interstício voraz onde caíram. Iluminam as fortalezas para que de longe pareçam monumentos e nem ocorra a quem passa, perto ou longe, o instrumento de tortura que foram. Ou por isso mesmo. Um dia se dirá que um monumento é ou foi em alguma idade um instrumento de tortura. Parece que não gostamos da tortura apenas quando está a ocorrer desperta e inteligível à frente dos nosso olhos quase abertos. Há espanto e há terror e há nojo. Os arquitectos que arquitectaram o monumento e que são os heróis que transcendem os heróis que utilizaram o monumento para se torturarem ou torturarem outros, num apego amador de profissionais do sofrimento, têm a honra de se anunciar como substitutos de Deus na terra. Dizem eles que desenharam antes de ser possível pensar aquilo que tinham pensado. Mas deram à beleza uma função. Neste lugar hão-de ficar retidos corpos que serão incapazes de ser livres. E terão tido um sorriso de vitória, os arquitectos, ao pensarem: daqui ninguém sai vivo. Tinham planos os arquitectos para se agradarem da beleza que podiam dar às pedras e ao mesmo tempo tinham planos de agradar a Deus - Aquele em vez de quem eles estavam - e ao mesmo tempo agradar a quem mandava, mais que Deus, menos que Deus, quase tanto como Deus, ou que, às vezes, se fazia passar por Deus. Não tiveram dó, os arquitectos, de fechar os caminhos a quem queria passar para ser - já não digo livre - decentemente visitado pela morte. A parede mais grossa, a que cercava a toda a volta o lugar dos imóveis, era inicialmente para reter seguros os que eram livres. Lá fora, contra as muralhas, estavam livres os que se queriam apoderar do monumento. Não há lugar melhor para sentir o frio de uma lâmina que o interior enegrecido de uma sala monumental. Nas paredes podem ser feitos os sinais mais enigmáticos que isso não tirará à dor o seu sentido inútil. Mas mesmo assim é bom que o desenho seja harmonioso para que se conjuguem as formas e todos os sentidos cantem na mesma nota de dó. Com o tempo cresce o afecto pelas pedras sobrepostas. Tinham sido desenterradas de lugares fundos e difíceis. Tinham as pedras, que entretanto aprisionaram, estado presas na profundidade onde um fogo primordial as tinhas esculpido. Pormenores do passado que se perderam por efeito sequencial das gerações de calamidades. Por isso, hoje apenas percebemos a beleza de um gesto que terá sido transformado em pedra metafórica: tempo que se gastou de uma mão que bateu num ritmo certo sobre o núcleo duro da insensibilidade até obter uma forma escondida que desse ao tempo um significado. A fortaleza quer, antes de tudo, interromper a indiferença da paisagem. Aqui estivemos nós e os nossos escravos a marcar no mapa do futuro uma mancha de morte. Mas a morte morreu entretanto. E sobrou o alicerce doloroso que marca a fragilidade de ser. Parece, e digo parece por defeito de voz, que não se consegue encontrar em nenhum destes volumosos embustes mais do que a força geradora do divino acaso. As células vitais organizaram-se para se torcer umas às outras com profissionalismo e arte. Cada vez que a história é contada tem que se começar do zero. Recomeçar, portanto. Não fica na estrutura orgânica nenhum sinal que a contingência não permita. Repetem-se as cenas e é necessário ir aos livros buscar a memória para preencher o vazio bronco de cada guerreiro imberbe. De tudo o que é belo acabam por ser apagados os sinais, assim que o corpo se aquece de medo e violência. Mas há sempre esperança de que, depois de abrigar por muitos anos a dor, a laje fria que define o perfil poderoso, regresse um dia à sua textura de espuma interestelar.

Artur Torrado

terça-feira, outubro 10, 2006

Pérolas (XVII)

Não são muitos mas ainda há quem pense antes de escrever...

Será verdade?

"Cavaco visita prostitutas, sem-abrigo e voluntários de Lisboa"

(diário digital, 10 de Outubro de 2006)

A dificuldade de ler (66- C5/P9)

- Agora ele dorme e eu posso pensar em voz alta que já não o quero, nem quero que ele me queira. Passou o tempo e o que parecia a fluidez plácida de um ribeiro tornou-se em tempestade ameaçadora. Queria recomeçar outra vez. Perder esta vontade de pertença e equilibrar-me sobre as ilusões que ainda tivessem sentido.
- Não sei se posso não pertencer a coisa alguma. Não sei se sou capaz. Há as noites em que a escuridão vem e traz com ela mensagens de significado difícil. Deve ser aí, nessa hesitação de sentido que o desejo de pertencer se materializa. Deve ser aí que se fica inocente e, sem culpa, o gesto deixa de ter razão e parte em busca de movimentos mágicos que justifiquem a continuação.
- Queria estar noutro lugar mas não sei qual. Os passos que dou são destemidos à luz e recolhidos quando as nuvens aparecem a negar o avanço da minha mão. Ele não percebe o que eu quero. Tal como eu. Mas era esperado que por ser diferente me dissesse o caminho, que soubesse outro termo para chamar ao sagrado, que soubesse não ter o mesmo medo que eu.
- Quando vim de boa vontade, quando cheguei para trazer o riso que ainda sobrava nos meus lábios, quando assomei à entrada do rectângulo onde se iria travar a batalha, estava tão certa de saber que era assim como agora estou em querer que me enganei de uma maneira ingénua e infantil. Por que é assim o soletrar do tempo? Por que temos que repetir a morte todas as vezes que sonhamos? Por que causa os sentidos não ficam apenas atentos à força iluminante do rosto?
- Agora sou perguntas. Os passos que dei em volta do pequeno espaço que me resta não me levaram para fora de nenhum lugar. Fiquei apenas com a difusa luz do dia presa no olhar e, mesmo assim, instalada a dúvida de saber se senti ou sonhei.
- Tudo isto é muito vago. Amanhã deverei acordar a querer outra vez sentir. Tenho que acreditar nisso. Tenho que acreditar que os momentos que me impus não tinham nada de irrelevante e os mistérios que ele procura são tão naturais como a minha sede de viver.
- Mas eu perdi. Sinto que perdi. Talvez não tenha perdido agora mas há muito tempo quando o meu corpo se formou no lugar errado, quando viajei para longe do que já não queria. Deve ter sido aí que as forças se trocaram. Não entendo como foi possível que a minha intenção tivesse derivado tão bruscamente para fora do recipiente que me continha. Mas aconteceu, e quando aconteceu eu passei para o lado das gaivotas e abandonei o bicar rotineiro na terra empobrecida pelas sucessivas secas.
- Pode acontecer que amanhã, quando acordar, o aconchego quente do lume me torne os olhos mais brilhantes e eu não veja e esqueça e nem me lembre de outros caminhos que poderiam não ser este. Pode acontecer que amanhã, ao acordar, eu consiga perceber como minha esta casa e este ressentimento. E aí estarei bem, não pensarei no que poderia estar em vez do que está e estarei outra vez bem, seguindo o caminho que foi escolhido muito antes de eu sequer ter pensado em ser.
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, outubro 09, 2006

A dificuldade de ler (65- C5/P8)

- O teu prazer pelo meu sucesso será tão grande ou maior que o meu. E assim laborarás para que nos meus momentos de incerteza eu continue, e serás o alimento suplementar do meu entusiasmo.
- Sim?
- É assim que a história se constrói. Todo o progresso é a ventania do macho que valentemente se atira contra a impossibilidade enquanto a fêmea mantém a retaguarda e conserva as conquistas. No desânimo do esforço que não é recompensado, é ela que aponta de novo o objectivo e recompõe o ânimo do guerreiro para que ele regresse à lide e consiga nova conquista.
- E isso não acaba? Há sempre mais conquistas?
- Para isso ainda não tenho resposta. Ou antes, tenho duas respostas. O processo de conquista acaba quando se encontra Deus. Mas ainda não sei calcular quanto tempo demora. Por isso não sei quanto tempo dura esse 'sempre' durante o qual há a necessidade de fazer mais e mais conquistas, mais e mais descobertas, mais e mais confrontos, mais e mais massacres. Podemos estar a chegar mesmo à porta de Deus. Mas também podemos estar muito distantes. O caminho já eu sei que é o estudo do pormenor, a especialização, a atenção minuciosa ao particular. Não sei é até onde teremos de ir nessa especialização. Não sei qual é a resolução da imagem.
- Queria deixar aqui um pensamento que tu não ouvisses.
- Como?!
- Preciso de dizer coisas que não quero que tu oiças. Como é que eu posso fazer isso?
- Não te percebo. Eu oiço-te. Enquanto estiver aqui oiço-te. Quando saio não sei o que dizes. Admitindo que falas sozinha. Não tenho escutas se é isso que temes.
- Não. É provável que não tenhas escutas. Referia-me a querer dizer coisas que não te interessa ouvir.
- Neste momento, como sabes, só me interessam assunto relacionados com os meus estudos. Tudo isto é uma perda de tempo. Sabes que eu não tinha que te estar a explicar nada. É uma deferência da minha parte que acaba por soar-te como uma fraqueza. Tudo porque estou há pouco tempo nesta posição de adulto emancipado e ainda tenho alguns tiques de adolescente inseguro. Restos que a pouco e pouco vão desaparecer. Mas fala à vontade. Fala como se eu não estivesse aqui. É provável que hoje ainda dê atenção às tuas palavras. Uma atenção vazia mas ainda uma atenção. É uma fase. Uma fase enquanto não me viro em definitivo e profundamente para a minha reflexão. Sei que a seguir, depois de ter estado a construir o meu meio seguro, vou recolher-me à invenção, vou retirar do escuro as forças que dão brilho ao universo, e aí, a esse oásis da criação, já não chegarão nem as tuas palavras nem os teus desejos.
(continua)

Torcato Matos

domingo, outubro 08, 2006

A dificuldade de ler (64- C5/P7)

- Do que preciso é de terminar os meus escritos para impor ao mundo a boa-nova de haver uma solução.
- A solução final...
- O meu método é a especialização. Enfrentar o pormenor até à exaustão. Não deixar nada ao acaso no campo de estudo a que me dedicar. Isto até parece uma ideia geral mas é muito mais do que isso. O universo é fractal. Dentro de cada pormenor estão todos os pormenores. Dentro de cada ponto estão todos os pontos. Dentro de cada átomo está um universo. Dentro de cada ser estão todos os seres.
- Parte-me o coração a tua honestidade intelectual. Lamento ter que estar aqui a ouvir os teus segredos. Devias guardá-los sigilosamente até que fossem publicados com direitos de autor.
- Repara como uma ideia destas até pode explicar Deus! Temo-Lo procurado no céu, nas coisas grandes, nas estruturas macroscópicas e afinal Ele pode estar nos interstícios dos núcleos atómicos. É o pormenor que interessa. O dado elementar, tão elementar quanto possível, absolutamente elementar. O especialista recolhe-se ao estudo do seu pormenor mais particular e aí fica preocupado em que não lhe escape nada, que nada fique por descrever, que a nada falte a palavra que o nomeia e salva da inexistência.
- Esse Deus achará bem que me tenhas aqui engaiolada?
- Ainda não sei. Mas Ele sabe das minhas boas intenções. Sabe que acima de tudo O quero reconhecer e encontrar.
- Então deixa-me ir. Não estou aqui a fazer nada. Acabaste de dizer que é isso que te interessa acima de tudo.
- E disse bem. É Deus que me interessa acima de tudo. Imagina o impacto que teria eu demonstrar a existência de Deus no mais recôndito do infinitamente pequeno! Isso daria uma visibilidade total à minha investigação. O mundo inteiro está à espera disto. Mas é preciso que percebas que tu és eu. Essa questão nem se põe. Falar contigo é pensar em voz alta. É falar de mim para mim. O teu corpo e a tua alma, a tua memória e a tua imaginação são parte de mim. Eu escolhi-te. Provavelmente isso estava escrito no livro do destino mas para todos os efeitos foi uma decisão minha escolher-te. Se encontrar Deus, como espero, essa será uma das primeiras coisas que Lhe vou perguntar.
- Pergunta-lhe também porque te fez tão cretino...
- Estarás comigo. Poderás fazer as perguntas que quiseres.
- E se não encontrares Deus, deixas-me ir embora?
- Em breve deixarás de querer ir embora. Serás a primeira a sentir o prazer da glória e a não querer trocá-la por nada deste mundo. Em breve pensarás o que eu penso e anteciparás os meus desejos para que eu me sinta bem e seja produtivo e assim possamos viver os dois na nossa perfeição.
(continua)

Torcato Matos

sábado, outubro 07, 2006

Pérolas (XVI)

Um texto de tirar o fôlego!

Insustentabilidade

Para as 'claras em castelo' que consideram eterno o 'nosso' modelo de desenvolvimento, leia-se uma perspectiva que (ainda) não passa na televisão.

A dificuldade de ler (63- C5/P6)

- Vou à tua rua e pergunto por ti. Dizem que tens escrito a dizer que estás bem. Eles mentem a teu favor. Querem esconder-te de mim, mesmo não sabendo onde tu estás. E eu sei que não lhes tens escrito. Embora gostasse que lhes escrevesses a dizer que estás bem, que nunca estiveste melhor. Que te encontras junto ao teu amado e te sentes feliz como nunca antes tinhas pensado ser possível. Era assim que eu gostava que escrevesses para lhes dizeres que estavas o pé de mim. Sei que não é possível agora nem será possível nunca. Mas isso não me impede de o desejar e de o imaginar. Mesmo que não me interesse o que pensam de mim. Pois eu sei que pensam que te foste embora para fugires de mim e da paixão que me trouxeste.
- A tua imaginação é fértil como a tua voz é irritante.
- Não pensaste sempre assim.
- Nem tu me prendeste nunca desta maneira.
- Mas é isso que eu quero: ter-te presa a mim. Para sempre. Ultrapassar os gestos banais e materializar a posse. És minha. És desta casa. Este é o lar que aquele que te ama construiu para ti. Noutras eras terias, pela tua beleza, sido solicitada para as antecâmaras dos deuses. E nem te ocorreria rejeitá-los. Era o destino da tradição. Não se chamava tradição mas vida. Aqui és o que eu disser que és. Não que isso me dê prazer. Também eu cumpro a minha missão.
- As tuas desculpas sempre foram esfarrapadas. Caíste no teu próprio formalismo. Lamento ter sido eu a fazer-te perder a insegurança. Ao acreditares em ti tornaste-te num monstro. A fé é mesmo a mãe de todas as aberrações.
- Concordo que foste tu que me libertaste. Todos os humanos são produto das mulheres que os fazem. São vocês que recriam o passado no presente através dos meios próprios de renovação. E depois amparam os passos essenciais para que a estrutura se segure de pé por si. E esperam que o que criaram se torne forte e poderoso e possa medir-se com sucesso contra os filhos das outras mães. São vocês a génese da violência e da dor. Ainda que teimem em representar a vítima passiva.
- Nunca soubeste tu o que é ser vítima. Apenas corres por pensares que o caminho foi feito propositadamente para o pisares. Nunca olhas para o que tens como uma dádiva mas como um direito. E aceito que foi meu erro fazer-te acreditar que valias alguma coisa.
- Tentas desmoralizar-me Diana. Mas se é assim, fizeste um trabalho bem feito. Agora sou aquele que sabe que é capaz. Já esqueci como era isso de haver estranhos impedimentos nos meus trajectos prioritários. Agora sei que saber é saber bem aquilo que me sabe bem.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, outubro 06, 2006

A dificuldade de ler (62 - C5/P5)

- O que acontece todos os dias são surpresas. Milagres. Podes chamar-lhes milagres. Sonhos também. Rotinas de embriaguez.
- Porque me prendes?
- Não te prendo. Estás aqui pelo teu querer. Vieste pelo teu pé. Limitei-me a fechar o cadeado que tu colocaste em ti própria.
- Era uma brincadeira. Um gesto de submissão. Uma travessura, uma transgressão, uma tentativa de perversidade.
- Tocaste o meu prazer primordial. Não sei se se pode dizer assim. Claro que pode. Ah! Ah! Ah! Não estou adaptado ao poder. Ainda pergunto o que se pode dizer ou não. Deve haver um limite para a percepção que posso ter de mim próprio. Mas aqui existo apenas porque aqui estás.
- Estou cansada.
- É como imaginar que universo seria o universo sem ter quem olhasse para ele. Existiria na mesma? Não achas fabuloso que o universo tenha engendrado em si consciências capazes de o querer interpretar? Para quê isto tudo? Até para o homem olhar é demais.
- Agora parece-me que o universo apareceu apenas para tu olhares para ele.
- Mesmo que não estivesses a ser irónica não me seduzirias. Sei de quase todos os meus limites. Sei que, por exemplo, és a minha felicidade mas vais ser também a minha desgraça. Dois em um. Hoje sabemos da dualidade onda-corpúsculo. Nada é apenas uma coisa.
- Eu aqui sou nada. Em vez de dualidade sou nulidade.
- Complicas aquilo que é simples. Se me amasses e eu tivesse êxito o meu êxito seria também teu. Eu em glória serias tu em glória por interposta pessoa.
- Por trás de um grande homem uma grande mulher. Começo a conhecer-te agora. Ou talvez esteja a aperceber-me da tua dualidade. Ou da tua trialidade. Ou da tua teatralidade. Ou da tua trivialidade. É fácil rimar em idade.
- Há muitos exemplos na história. É uma prática milenar. Foi assim que o universo evoluiu e não devemos alterar a ordem natural das coisas. Não devemos mexer nos mecanismos internos da natureza, nem perturbar a inércia dos formalismos da matéria.
- Tens medo de quê?
- Não é uma questão de medo. É a sujeição à terra. Somos produto do acaso e de uma ocasião que não se repetirá.
- Que perdes por não obedecer? Que temes perder?
- Eu não temo nada a não ser a ti. Tu é que tens na mão o argumento da minha derrota. Só tu é que me podes fazer frente. Por isso é importante que fiques imobilizada num lugar que passa a ser o teu e a que te conformarás com o tempo.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, outubro 04, 2006

Sempre

Há quem pense que a montanha a que subo, perdendo-me na dor e na sombra, é o conhecimento.
Seria então a minha vida uma metáfora, um jogo de palavras.
E daí se concluía que a esfera que teimosamente faço rolar montanha acima, nada mais seria que o esforço necessário a todo o saber.
Nada disso é verdade a não ser o jogo de palavras.

Tal como as espécies que não se adaptam, extinguiram-se os deuses há muito tempo.
Inadaptados também, postos à margem, numa memória apenas evocada pelo poder, os deuses saíram de cena abandonando o mundo à sua sorte.

O tribunal que me condenou já não existe.
Caducou juntamente com a esperança e a justiça.
Finou-se por falta de condições de aplicabilidade.

Quem fiscalizaria a dor do condenado?
Quem daria ordem de liberdade?
Quem premiaria os bem-comportados?
Quem enterraria os mortos?

Foram-se embora os deuses com a sua autoridade e levaram também a razão do medo e a força da obediência.
Levaram consigo as trevas mais evidentes e o cheiro inebriante do Olimpo.
Saíram daqui mergulhados no próprio tédio, incapazes de saber o que fazer com tanta força.
Abandonaram os deuses os erros que criaram e esconderam a cara de vergonha.

Eu fiquei o erro que sou.
Cumpro a minha pena como sempre fiz.
Subo à montanha empurrando a esfera e lá em cima deixo-a rolar testando a constância da gravidade.

A minha condenação foi para sempre.
Não é preciso esperar que venha o carcereiro e me solte.
Nada é mais solitário que a eternidade.

Sísifo

terça-feira, outubro 03, 2006

Entretanto

Tretas, dizes tu com toda a razão do teu lado e eu sozinho, aqui, em vez de mal acompanhado como no inferno cheio de boas intenções a empinar o melodrama até a trama das coisas quentes que caem do céu aos trambolhões como a casa em que não há pão nem vinho nem o céu do nosso descontentamento desviado para o lado pela força de segurança regressiva, uma fonte que planeia a todo o custo reservar o lado de si própria para a força oculta que se mostra com timidez cor de laranja ainda verde nas ocasiões mais impróprias para consumo, pontífice de lado a lado como a cobra que se cobre de pele de vaca morta num acidente de viciação consentida e desmaiada da pior maneira virgem de oliveira cruzada sobre a vinha que ia até ao fim da estrada apagada do mapa genético pelas horizontais praias lusitanas prenhes de areais cinzeiros destapados pela gula ululante dos gládios envelhecidos como cascos de cavalos a vapor decididos a revelar a história mal contada e mal curada pela árvore que dos tamancos fez alpercatas dominadas por tudo o que é razão de não ser nem pensar para quê se não sabes o que tens a não dizer, e então porque não, se é assim que todos fazem não vamos agora melhorar o mundo do pé para mão só porque nos apetece por um egoísmo malvado e manipulado por mãos de vime e fui-me embora outra vez desolado, desossado, desobrigado de obedecer à colecção do arquivo central da torre do tombo dado às escuras sobre o planalto uniforme da morte que tudo leva democrática como a prática do aprendiz que tudo faz para não fazer nada e assume perante todos que o que sabe a ele o deve e nunca mais lhe vai pagar porque não tem crédito na banca de jornais onde mais tarde ou mais cedo o lume se apaga em tochas de carvão activado para carbono puro diamante polido e valente de espadas e cardos ordenados ao longo da estrada para pagamento adiantado das folhas de eucalipto que tu, barão somas a seguir ao acordo em que estavas depois de ter adormecido na forma de bolos atrás da cruz quebrada de pedra que nunca mais é desconcertada pelas palavras inconvenientes que ocorrem ou andam de vagar que se vai ao longe na distância da Terra à tua casa com um solteiro velho e rico de intenções de ouro amarelo canário a piar à noite na cadeia de vontades que faz crescer o pão que o diabo comprou no supermercado das fraldas descartáveis de pano de abertura de palco com pó de talco tal e qual como te tinha dito antes de saber que havia um lugar remoto controlado pelo dedo de Deus.

Prólogo

segunda-feira, outubro 02, 2006

Pérolas (XV)

Uma teoria incómoda, incompreensível como um espelho...

A dificuldade de ler (61- C5/P4)

- A preocupação com a intimidade é um dado relevante da evolução. Saber os pormenores da solidão do outro. Aceder aos gestos mais particulares e conseguir tirar daí regularidades, padrões, sintomas coincidentes.
- Podias matar-me já. Escusava este sofrimento.
- A mim interessa-me a essência. O pormenor levado à sua expressão mais atómica. Conhecer os sinais mínimos da interacção entre os objectos mais singulares da natureza.
- E eu? Onde entro eu nessa história?
- Tu sabes, Diana. Vocês, mulheres, têm sentidos que nós não temos e podem aperceber-se das coisas antes de elas acontecerem. E não é intuição. É premonição. Antecipam o tempo e por isso não dão importância à ciência. Não percebem, ou fingem não perceber o esforço que é necessário a um homem para saber as mesmas coisas.
- Continuo sem perceber onde entro nessa história...
- Não discuto contigo. Não tem lógica discutir contigo. Sei, aprendi, aprendi de ti, que não posso confiar nas tuas palavras. Só poderia confiar se me amasses. Assim, nada feito, estamos de lados opostos da barricada. Tenho que exercer o poder como é de regra. Seguir as instruções claras de um corpo que quer sobreviver sem aliados. Tu do teu lado, eu do meu. Tu preocupada em reproduzir os teus genes. Eu preocupado em produzir génio. Tu precisas de mim para te ajudar no teu objectivo, embora o pudesses fazer com qualquer outro. Eu preciso de ti para me concentrar na criação e sei que nenhuma outra servia para esse propósito.
- Sempre te achei um pouco louco mas pensei que fosse uma loucura benigna. Agora vejo que já estás noutra realidade. Já te disse milhares de vezes: não me podes ter aqui presa! Solta-me!
- O especialista entra dentro do seu objecto de especialização e ignora com suprema arrogância todos os outros objectos que não digam respeito à sua legítima obsessão. O especialista constrói o seu sistema sobre a prática rotineira, procurando passo a passo aproximar-se de uma visão total e integrada do seu objecto de estudo. Na realidade, o especialista, consegue transformar o seu mundo pequeno - o seu pequeno mundo - num universo que contém toda a verdade e que é, numa perspectiva literária, a metáfora do cosmos.
- E tu és a metáfora chapada da estupidez!
- Interessa ao especialista unir os pontos do seu quebra-cabeças com tal exaustão que no fim - ou a cada nova e subtil iteração - se define cada vez melhor uma imagem amada, o seu prazer primordial feito matéria, a luz do seu pensamento a brilhar no cristal da obra produzida.
- Não consigo acreditar que isto me está mesmo a acontecer!
(continua)

Torcato Matos

domingo, outubro 01, 2006

A dificuldade de ler (60- C5/P3)

- És louco, completamente louco.
- Quero falar-te do texto que estou a escrever. Gosto de falar sobre ele. Sobre a intimidade e a especialização. Sobre a especialização na intimidade.
- Não quero saber.
- Tens-me ajudado. É justo que saibas como as ideias avançam. És a minha musa. A minha razão de ser.
- Então liberta-me. Deixa-me sair daqui.
- Não é essa a questão. Aqui estás bem. Sei que é o melhor para ti. Só ganhas em estar à minha guarda. Não sei se sabes mas o mundo está perigoso. Durante algum tempo criou-se a ilusão de que era possível converter as mulheres em seres livres. Mas isso foi um erro. Um erro grave e caro.
- Deixa-me em paz. Não te quero ouvir.
- Essa rebeldia fica-te bem. É motivadora. A princípio receei que te acomodasses, que ficasses do meu lado, que cooperasses sem resistência. Tinha a ideia que se isso acontecesse a minha atenção redobraria.
- És uma besta imunda.
- "Mais servira, não fora para tão longo amor tão curta a vida." Deve haver no cérebro uma zona qualquer onde se define a paisagem interior de cada um. Num determinado dia da nossa infância ocorre um disparo que vincula definitivamente a nossa essência a um trajecto repetitivo que transporta um prazer primordial.
- O teu prazer primordial é manteres-me aqui presa.
- Não. Não. De maneira nenhuma. Eu não sei qual é o meu prazer primordial. Nem interessa. Até pode ser contraproducente conhecê-lo. Admitindo que isso pode acontecer. As teorias nascem assim, Diana. Lapsos de luz. Depois podemos passar milhares de anos a dar consistência a esse instante.
- Consegues perceber que eu não tenho nada a ver com as tuas teorias?!
- Ah! Enganas-te! O processo é complexo. Muito complexo. Tinha que te ter aqui para ousar. É preciso um clima especial; condições psicológicas, percebes. Tu és o meu factor de transgressão. Sem estas condições especiais não me seria possível avançar.
- Não tens o direito de me ter aqui presa!
- Vá lá! Não recomeces com esse discurso. Toda a ciência obriga a sacrifícios. Toda!
- Sacrificas-me a mim!
- O conceito de sacrifício é muito complexo também. Já me estou a repetir. E não gosto de me repetir a não ser no meu hipotético prazer primordial. Mas eu posso esclarecer essa questão do sacrifício. Como sabes. Basta que eu me dedique. Basta que eu me dedique. Que eu me encontre a sós com a dificuldade...
- Isso. Encontro a sós. Tira-me daqui. Deixa-me ir. Deeeixaaaa-me iiir!
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, setembro 26, 2006

Principício

O princípio só se vê depois, quando a calma devastadora do tempo se ampara mansamente na memória. Voam, nessa altura, os pássaros sobre os ninhos rotineiros e aí aprendem a submissão ao passado. Ainda assim, encontra-se beleza na perspicácia insolente da intuição e acredita-se, através de variáveis ocultas, na bondade de um criador insuportável.

Vi, em tempos, horizontes melhores, mais apetecíveis. Tinha neles a esperança de que o fim não fosse logo a seguir à ilusão. Era tempo de construir e eu não sabia, porque a lava quente ainda queimava a superfície assombrada pelos exemplos ocultos. Não tinha medo nem método. Ingeria o acaso como se fosse alimento espiritual e subia às alturas apoiada em moléculas quimicamente belas. Saltava sobre o real porque a verdade era tão evidente como o riso que soltava impune no fim da noite, ao nascer do sol, antes de adormecer.

O princípio é o que se marca na memória como sagrado. Nem se sabe o que se sabe ou se o que se sabe aconteceu. É princípio por necessidade; para marcar o tempo e o espaço; para relativizar e proteger do desconhecido. É esta a prática absurda do tempo: esquecer. Porque a prática absurda do homem é lembrar.

Quis, lembro-me que quis, guardar de cada instante da vida uma marca que provasse que eu tinha estado lá. Quis vestígios para proteger a memória da sua volubilidade. Sinais que soubessem em cada nova leitura localizar as formas transversais da certeza. Documentos capazes de reconstruir na sua dimensão própria o esvair anárquico dos sentidos.

O princípio percebe-se tarde demais. Cai sobre nós pelo temor do seu oposto e conserva-se como talismã da oposição ao caos. O princípio chega à noite, quando a escuridão cega as vozes que deixaram de saber, e bate levemente na janela fechada. Pergunta, com um sotaque desconhecido, a causa da desgraça e o feitio arrepiado dos sonhos. Parece mesmo interessado em saber o que se passou entretanto.

Não é verdade. Ele não quer saber o que me aconteceu. Procura apenas a sua glória. Procura outra vez o naco de carne apodrecida que traduz em manjar. Ele não sabe que deixei no meu caminho pedaços de luz que não é capaz de ver. Torço a razão das coisas e penso-as para meu gozo. Jogo. E é com o jogo que ultrapasso o tempo e cumpro a missão que não me deram.

Beatriz Teresa
(post anterior)

segunda-feira, setembro 25, 2006

Outro

No lado de lá da montanha já começou a chuva.
Sei, por que me chegou o cheiro novo da vida a sair da toca.
Também ouvi os trovões e as frases curtas das aves.
Senti até na pele o efeito de uma certa razão profunda para desejar.
Provas demais de que esteja já a chover no lado de lá da montanha.

Os passos pesam mais na lama.
Não é ainda mas sei que em breve o percurso será mais doloroso.
É assim e assim será.
Como as manhãs e o vento e a sombra e o efeito anímico de um corpo belo - belo pelo efeito anímico que provoca num corpo.
Mecânica do cosmos e mecânica dos sentidos.
Química da mão que dobra sobre si e ampara o corpo no bordão.

Poderia ter-me ocorrido não aceitar.
Poderia ter-me ocorrido procurar outro destino, outra perturbação.
Poderia ter-me negado a permanecer no meu caminho, na minha solicitude.

Sei que não o pensei porque não quis.
Tive ao meu alcance outra forma de liberdade e outra forma de dor.
Era apenas uma ligeira mudança na bifurcação dos caminhos e teria ido para outro céu.
Sei que não o pensei porque não quis.

Seria agradável dizer agora, com a forma arrogante que mereço, que escolhi o melhor.
Seria agradável porque talvez o meu rosto perdesse por momentos a sisudez da indiferença.
E eu sei, por ter aprendido na infância, que os músculos chocalham soltos quando nos rimos.
E também sei que poderia dizer tudo o que quisesse, fosse ou não verdade, fosse ou não aquilo que sentia.

Acontece, e os factos são os meus guias, que estar aqui, nesta sequência solitária de passos, é apenas resultado da forma arredondada como a chuva cai, hoje do outro lado da montanha, amanhã aqui sobre mim, gelada e desconfortável, à espera de de novo ser alguém numa figura viva qualquer que a beba.

Sísifo