sexta-feira, setembro 28, 2007

Ética comercial

O dilema ético de hoje pede-me que escolha entre um político demagogo, incompetente, vaidoso e ciumento, e uma estação de televisão presunçosa, cínica, inimputável e ridícula (ou vice-versa).

Por favor, poupem-me!

Ou, como diria um certo filósofo: "porque me pedem sempre, com tanta deferência, que escolha entre dois pedaços de trampa?"

quinta-feira, setembro 27, 2007

Descobrem cada coisa...

"Transparência (TI) diz que os centros de decisão financeiros mundiais, sedeados nos países ricos, jogam um papel central na corrupção dos mais pobres."

"O criticismo dos países ricos à corrupção dos pobres tem pouca credibilidade, quando as suas instituições financeiras assentam a sua riqueza no roubo das pessoas mais pobres do mundo", diz a vice-presidente da organização, Akere Muna.



Público de hoje

domingo, setembro 23, 2007

Sonhos

Roubei os sonhos do Paulo Moura no Público

domingo, setembro 16, 2007

Vácuo

Aceito que nos passos que descrevem um percurso há uma equação universal,
Nos pequenos pormenores de todos os dias sou capaz de ver teorias de tudo,
E nas dobras coloridas dos caminhos encontro referência a leis fundamentais.
Aceito que esse possa ser o campo de uma razoável crença.


Leio, na escuridão preenchida de estrelas, obscuros romances inacabados.
Sinto, no esforço muscular da subida, as marcas da escultura do tempo.
Percebo, na violência cinzenta do vento, a harmonia frágil da consciência.
Ouço, próximo da margem do rio eufórico, a atracção universal dos corpos.
Sonho, quando a força já não obedece, a equivalência entre a dor e a luz.


Acima das nuvens há um horizonte maior,
A distância sobre a verdade transforma todas as coisas em pequenos nadas,
O relativamente difícil torna-se relativamente fácil,
E os dons que suponho anteriores a cada gesto, tornam-se súbito acaso.


Descer de novo à terra e à sua vã esperança é um suave tormento.
Cada ciclo aproxima-me de distâncias cada vez maiores.
A mancha cinzenta do real revela-se em pormenores escurecidos,
E das paredes húmidas desce o aroma acre do sofrimento,
Enquanto se testam, sob os rochedos, formas dementes de destruição.


Não era isso que tínhamos pensado no início.
Queríamos saber apenas como esgotar nos poros a curiosidade;
Vasculhar a profundidade e o exagero, com prazer e delírio.


Queríamos encontrar uma razão que soubesse muitas razões.
Queríamos tomar connosco o tempo como companheiro de viagem;
Sacudir, na gargalhada ocasional, a certeza biológica do efémero.


Mas há, no discurso ambíguo da inteligência, lugares abandonados ao seu destino,
E o opaco medo de não ser, parece resistir a todas as tentativas de clarificar a natureza da matéria.


Sísifo (sobre a bomba de vácuo)

quinta-feira, setembro 13, 2007

quarta-feira, setembro 12, 2007

Público Embolado

Estamos mal de adjectivos. Há falta. Nota-se que a procura excede a oferta e, num certo sentido, pode mesmo falar-se em crise. Hoje em dia é difícil encontrar um bom adjectivo. Passam-se semanas sem que apareça um que nos faça olhar duas vezes. Mesmo aqueles que eram considerados adjectivos caros, passaram a ser usados no dia a dia e perderam o valor e o interesse. Gastaram-se. Eu já nem sei, quando me apercebo que estão a usar um adjectivo assim para o pesadote, se estão a adjectivar ou se estão a gozar comigo. Provavelmente é uma questão de gradação. Talvez haja falta de níveis (falta de nível há de certeza). Talvez o problema não esteja no adjectivo mas na força com que é usado. Que fazer quando uma frase, uma simples frase, escrita às três pancadas e deixada a correr num texto de prosa taxada à sílaba, pode ser apelidada de extraordinária? Suponho que não se pode fazer nada. Tem que se esperar que a poeira assente e a ganga hiperbólica se gaste com as múltiplas lavagens. Mas por enquanto há que aguentar. Parece que vivemos no topo do mundo. Tudo o que acontece, mesmo que banal, e temos que reconhecer que à vista desarmada é tudo banal, é adjectivado com o topo de gama da adjectivação. Nem seria mau se fosse por brincadeira. Se fosse uma sofisticada ironia (eu leio sempre como se fosse uma sofisticada ironia para me proteger dos efeitos secundários depressivos). Mas o colosso hoje pode não passar de um miserável engano sobre multidões. Um vermezinho que consiga o olhar simultâneo de uma multidão hipnotizada, é um monstro mediático. Como não há muitas coisas a serem propriamente alguma coisa que valha, há que adjectivá-las superlativamente para que passem a existir nos intervalos do seu próprio vazio. Daí o consumo excessivo de adjectivos. Daí a falta. Daí a sensação de irrealidade quotidiana de que já há uns anos o Eco fazia eco. Tive um amigo, que talvez ainda tenha se não se perdeu num comparativo de superioridade, que todas as vezes que me encontrava tinha para contar a melhor anedota que alguma vez ouvira. Como ele estava adiantado no tempo. Este agora é um tempo em que temos que viver aos saltinhos, com gritinhos de prazer à mistura. Cada momento superlativo do anterior.
Suponho que uma das razões para a crise de adjectivos é a proliferação de jornais gratuitos: muito em breve já ninguém estará disposto a pagar por um bom adjectivo, confundido pela mata densa de adjectivos menores. Soube há pouco que das redacções do Público e da Bola vão sair, até ao fim do ano, as notícias necessárias e suficientes para um novo gratuito. Não querendo deixar de colaborar em tão benemérita empresa, proponho daqui, para escolha de quem de direito, que o novo jornal se chame Bola Com Creme ou Público Embolado...


Ikivuku

domingo, setembro 02, 2007

Gente feliz com transgénicos

Ao que parece, entre os vários festivais de verão que este ano contribuíram gloriosamente para o aumento do consumo de cerveja e outras substâncias, ocorreu um que não colheu a unanimidade das aprovações e até indignou o nosso grande Vasco. Várias pessoas - que se costumam acotovelar a contestar a justiça de fecharem fábricas lucrativas, deixando dezenas ou centenas de pessoas no desemprego - ficaram desta vez escandalizadas por ter sido destruída uma área significativa de plantação de milho transgénico, sem que a polícia tivesse, pelo menos, feito correr um bocadito de sangue.
Dizia hoje um jornal que existem no mundo 102 milhões de hectares cultivados com plantas que sofreram alterações genéticas de laboratório. E os proprietários destes hectares cultivados são gente feliz que muito provavelmente morrerá próspera e de saúde. Com o apoio da ciência genética conseguiram contornar as Bíblicas pragas e produzem em cada metro quadrado quantidades tais que se garante a breve prazo o fim da fome no mundo... Pode ser que sim embora haja um curioso excedente mundial de alimentos que é destruído para não fazer baixar os preços...
Bom. Mas estávamos a falar de boas intenções e não vamos agora borrar a pintura.
Os malandros que destruíram a plantação estão convencidos - ou agiram como tal - de que os organismos geneticamente modificados (OGM) introduzem nos ecossistemas variáveis que não resultaram de uma adaptação natural e podem ter efeitos perversos a longo prazo. De uma maneira pouco ortodoxa e pouco eficaz, resolveram agir por conta própria, executando eles próprios o réu antes de ser declarado criminoso.
O que pensam estes malandros é o mesmo que pensam os cientistas genéticos, mesmo os que não se pronunciam para não estragarem o ganha pão: não se sabe nada seguro sobre os efeitos da generalização dos transgénicos. Sabe-se apenas que o famoso cancro resulta de uma modificação genética espontânea numa célula que é bem sucedida e ganha vantagem sobre as outras...
De um ponto de vista de crescimento económico e progresso, pode dizer-se que os OGM são um salto em frente... Se correr bem haverá pão com fartura, se correr mal haverá novas oportunidades para encontrar soluções fantásticas para os problemas que surgirem...
Se correr mesmo mal... bem... é assim... é melhor não pensar nisso, já não vou estar cá para assistir.

Torcato Matos

sábado, setembro 01, 2007

Quero ir para dentro de um átomo

Numa estatística apressada e sem base científica - não me peçam a ficha técnica - a questão que mais visitas traz a este blogue é saber "tudo sobre a água". A culpa é de um post do Artur, com o título "tudo é água". Não me parece que os incautos visitantes fiquem satisfeitos com o texto que lhes é proposto, mas não tenho maneira de evitar esta espécie de boa vontade que o Google tem em dar gato por lebre.

Logo a seguir, na mesma estatística, um outro equívoco: quem procura imagens com a palavra "voar" encontra a dada altura a injustiça deste link. Injustiça porque a mesma imagem poderia ser encontrada na casa do seu autor - Revelações... Avulsas - com o bónus de poder percorrer um histórico de igualmente belas imagens.

Hoje, cerca das 21 horas, alguém chegou aqui por ter dito ao Google: "quero ir para dentro de um átomo".

O sitemeter diz não saber a origem da pergunta, e eu acredito. Que é que nos impede de ir para dentro de um átomo?

Houve um tempo em que me dedicava a imaginar um limite para a divisão dos objectos. Cortar ao meio uma folha A4 dá duas folhas A5. Cortar ao meio uma folha A5 dá duas folhas A6. Cortar ao meio uma folha A6 dá duas folhas A7... Por aí afora... A dada altura nos meus dedos já só havia pó mas as contas diziam que eu deveria continuar a cortar o pó ao meio. Tinha que fechar os olhos para tentar chegar a ver essa pequenez que me desafiava, e não via senão o desejo de ver algo que já não estava ao meu alcance.

A ciência é uma fé que temos uns nos outros, e eu acreditava no que me diziam os livros, e confiava que aquelas pessoas que tinham imaginado mais longe, eram de uma casta que não mentia.

Havia um ponto em que já não era possível dividir mais: peças de lego que não havia maneira de poderem ser vistas a não ser agrupadas em grandes quantidades. Mais tarde soube que a história não acabava aí e que o indivisível não era assim tão indivisível.

Também me ocorreu a perplexidade de pensar que este terrivelmente grande universo em que vivemos, poderia não ser mais do que um electrão de um outro universo ainda maior. E que um electrão qualquer, dos que povoam a matéria aos magotes, poderia ele próprio ser um universo inteiro. Mas por muito encolhido que me fizesse, nunca ocorreu essa bela experiência de ir para dentro de um átomo.

Zumbido

sexta-feira, agosto 31, 2007

Postdezassete

Às vezes penso, como tu, que era bom que eu fosse outra pessoa. Era melhor que em vez de este eu que sou, fosse outro eu que não este. Em vez deste silêncio pouco amável, um outro silêncio ruidoso que enchesse o espaço e a razão. Em vez desta cor baça feita de cinzentos, tons vistosos de fogo e de céu nascente. Em vez deste movimento lento de tarde de verão, a vertigem ágil de perseguir o tempo. Em vez deste pacto insípido com o acaso, o prazer de decidir sobre as coisas e saber de todas elas o lugar certo.
Era assim não ser eu: identidade por identidade, corpo por corpo, sentido por sentido. Nenhum gesto ainda reconhecível: outro lado, outro lugar, outra sombra, outra certeza.
Provavelmente não serás só tu - e agora eu - a pensar assim, a pensar como seria melhor se em vez de ser eu aqui fosse outro aqui, outra imagem e outra verdade, outro riso e outra oportunidade. Haverá outras pessoas a chegar a essa conclusão difícil, de substituir uma função por outra e nenhuma intenção por alguma. Num plano muito pessoal essa até poderia ser uma forma de definir a escorregadia seta do tempo.
E eu agora, neste confuso mergulhar do verão, apenas consigo encontrar formas de concordância. As mais demonstráveis das verdades têm sido claras a denunciar que não é assim que se é. Há um mundo inteiro de razões, móveis e bem sucedidas, a dizer em voz alta que os caminhos se trilham de espada na mão e olhar no alto. E hoje, por estes dias, não me sobra energia para contestar a veemência dos que sabem e estão seguros de saber que sabem.
Uma casa é um buraco. Para os devidos efeitos uma casa é um buraco. Um lugar onde estamos supostamente protegidos do mundo e da sua gratidão. Mas numa casa, num buraco, não se muda uma vírgula ao discurso, nem se muda de pele, nem de medos, nem de desejos. É do exterior que nasce a diferença, é do exterior que pode surgir o impossível.
Concordo. Era bom que eu fosse outra pessoa. Teria outros pensamentos e escreveria outras coisas que talvez até fosse capaz de ler.
Concordo. Era bom que eu fosse outra pessoa.

Aibieme

sábado, agosto 18, 2007

Férias

Vêm aí as férias e já estou cansado das férias que aí vêm.
Também estou cansado de estar à espera das férias.
Cansa-me pensar em férias quase tanto como estar de férias.
Faço férias das férias de que estou cansado.
Faço de conta que faço férias, descansando das férias que fiz enquanto o trabalho esperava sentado.
Assim faço render as férias para que durem até às próximas férias.

Quando vou de férias espero ficar de férias para sempre, isto é, não voltar das férias.
Porque o regresso das férias é um verdadeiro tormento.
Passo as férias todas aborrecido com a ideia de que as férias vão acabar.
E cansa muito pensar que as férias têm um fim.
Fico cansado a pensar que dali a uns dias, as férias, que ainda não comecei, já acabaram.
É terrível pensar nisso.
Mas é nisso que tenho pensado.
Que daqui a dias vou estar de férias, mas numas férias que mais dia menos dia acabam.
E pensar que mais tarde ou mais cedo as férias que um dias destes vão começar, acabam, dá-me uma angústia mortal e uma vontade enorme de que não seja verdade.
Suponho que é por este cansaço acumulado de estar a pensar que as férias que ainda não comecei vão acabar que estou mesmo a precisar de férias.
Mas as férias de que estou a precisar não são estas férias que vou ter mas outras que não fossem, como estas, tão angustiantes.
Precisava de umas férias em que desde o primeiro dia não estivesse preocupado por saber que as férias que eventualmente me vão saber tão bem, não podem ser assim tão boas porque vão, a dada altura ter um fim.
E não há nada mais angustiante que um fim de férias.
Os dias finais, quando poderíamos estar a ficar realmente adaptados ao sabor pleno dos dias de férias e em que, numa boa hipótese, já nem pensássemos que as férias têm um fim, são, afinal, os dias em que o fim já se aproxima a passos largos e coloca o peso insuportável do fim das férias em cima das nossas costas juntamente com a bagagem.
Mesmo que as férias sejam em casa.
Mesmo sem sair de casa a bagagem pesa.
Porque ficando em casa sem sair, para ter efectivamente férias, aumenta ainda mais a angústia do fim das férias.
Porque no fim das férias é necessário ter uma memória qualquer de férias que possa preencher aquele espaço quadrado onde ficam inscritas as férias como definição.
Não tendo essa memória, as férias ficam indescritíveis, no verdadeiro sentido do termo.
E sendo assim não é possível ficar tranquilamente à espera das férias se não se tem a expectativa de as férias serem num lugar descritível qualquer.
O dilema torna-se verdadeiramente voraz:
Ter férias pressupõe uma carga de trabalhos.
Não ter férias é assumir uma estranha personalidade anti-social.
Ficar em casa nas férias corresponde a aniquilar um ano inteiro de tranquilidade.

Estou muito cansado de pensar nas férias.
Aproximam-se como um monstro, uma tempestade tropical.
Se eu estivesse empregado pelo menos teria menos tempo para pensar nisto.

Torcato Matos

sexta-feira, agosto 17, 2007

Longe

À distância, o cimo da montanha não se distingue da base da montanha.
Isso poderia ser uma razão suficiente para não me preocupar em estar num lugar ou noutro.
E foi assim que senti sempre o meu lugar, estivesse no topo ou na base do gigante megalítico.
Entre o alto e o baixo da rigorosa construção dos elementos, não seria eu a escolher ou dizer o melhor.
Para a natureza indiferente, uma e outra coisa têm um lugar que não permite hierarquias ou ordens.
E eu faço parte, queira ou não, dessa indiferença da natureza.

À distância, qualquer que ela seja, a diferença que se encontra entre as diferenças, é mínima.
À medida que a distância aumenta, as diferenças tendem rapidamente para zero.
E seria fácil rever as diferenças e pensar que as diferenças mínimas não chegam a ser diferenças.

Quando a montanha parece, assim como hoje, íngreme e cheia de impossibilidades, olhar para ela a grande distância, ainda que apenas pelo olhar da imaginação, tem esse efeito de colocar as diferenças numa medida que possa ser medida com o curto discernimento que acolho.
Vejo ao longe a altura imensa que transponho e o peso imenso que transporto, e tudo parece menor e mais leve, deixando ao passo o seu ritmo mais fácil e veloz.
Do olhar distante recolho ensinamentos dúbios que auxiliam por momentos a relatividade fortuita dos sentidos e das dores.

À distância, pode olhar-se para o outro lado da terra e não ver senão grãos de areia, e, semeadas nela, cores que encantam e disfarçam as abissais diferenças que para sempre ficam ocultas.

Mas é essa mesma indiferença que me arrasta para o largo horizonte.
Lá em cima vêem-se as mesmas estrelas, à mesma distância e com as mesmas cores.
Mas há mais estrelas e o céu é mais imponente.
Lá em cima a diferença é maior... e a indiferença também.

À distância este ocaso que me preenche é invisível excepto para mim.
Vejo os astros a moverem-se coordenados como se tivessem uma intenção e me ignorassem.
Penso que é o meu o olhar que lhes dá existência e com isso tento sobreviver.
A minha função de observador do céu, dá sentido ao mesmo céu - retira-o da inutilidade.

No topo da montanha falo com os astros que não me escutam.
Tento escutar os astros e ouço silêncio.
O que quer que eu diga esgota-se na curta distância da minha voz.
Passa-se qualquer coisa com a natureza que não se liga a nada nem a ninguém.
Deve ser isso que nos humanos é errado.

Pressupor que a distância pode apagar todos os ecos e todas as diferenças.
Gerar nas mentes o esquecimento.
Diluir com rapidez os sentidos e as formas.
Mas no fim persistir em algum lugar um vazio que só a natureza inorgânica é capaz de suportar.

Sísifo

quarta-feira, agosto 15, 2007

Verão?

Franca mente com todos os dentes e unhas cada vez que diz pensa logo que existe ânsia na distância da terra com o horror de coisas aos molhos a atafulhar o sótão dos macaquinhos de imitação grosseira, contra a facção que tinha o poder de ficcionar as histórias da caras ou chinas imperiais bem tiradas à noite no terreiro do passo lento do fulano de domingo que plácido clorídrico entra discreto pela montra da loja de porcelanas.
Franca mente todos os dias crónicos agudos, surdos de desespero temperado com saltos do alto da sua importância relativa, improvável sentimento de revisão da matéria dada a baixo custo, saldo de verão mesmo os cegos de nascimento e ocaso do colar roubado em pleno sarau de ginástica ri-te Mica de delgadas mil lâminas que barbeiam mais rápidas que a própria sombra da azinheira que zomba de tudo desde que se tornou ex-trela que prendia o gato e o rato à sua posição de firme convicção e propósito como se fosse sem crer em nada nem ninguém que, como todo-o-mundo, sabe tão pouco que não chega a saber que não sabe.
Franca mente orgulhosa mente feliz mente, uma família inglesa criada e nada que se aproveite no mar da ignorância resoluta a subir com o aquecimento glu-glu como o peru que morre no natal dos animais que nunca souberam falar de carne e de peixe e de outras formas rudimentares de vida extra-terrestre de aquém e de além marte da guerra dos sem ânus que por tal rebentariam de riso com a forma oca dos que sofrem por agosto e com sentimento, delirante de conteúdo e reforma que haverá quem pague uma excentricidadezinha do interior desde que não seja o meu próximo a saber de onde vem a sorte.
Franca mente deliberada mente oficial mente da noite para o dia, filha de mãe em código morsa de dentes afiados pela rebarbadora mor do treino, fogo fátuo de gala e gola comprida, beira alta, virada para a direita de prior, idade média a rondar os mil menos poucos e bons pais de família que se ficam bem à mesa do orçamento grátis pelo correio sentimental e físico imoral como todas a muralhas que seguram a legítima verdade do reino.
Franca mente de mente e corpo são domingos e dias livres da prisão de ventre que dança com lobos nossos irmãos pela parte da mãe natureza morta de tédio e boy de jogo electrónico sorteado num sem curso nem diz coisa com coisa nossa de cada diagnóstico que crê no que não vê à noite quando os gratos são parcos e na dízima infinita periódica se somam totais e notas de música trocada por miúdos com guitarras e lérias, trocadilhos e troca de ilhas e penínsulas conforme as estranhas doenças que pairam na frente genética que me perdoa os pecados da culpa molecular.
Franca mente social mente frontal mente como tem que ser para ser como deve ser e mostrar à exaustão as coisas que ela ainda não viu nem quis ver com medo de ter medo do que poderia ver.

Prólogo

quarta-feira, agosto 08, 2007

Comparação

Sabes? Não é possível chegarmos aos sonhos dos outros. Nem aos nossos. Mas ainda menos aos dos outros. Cada gesto que construímos na particularidade do nosso entendimento, pressupõe uma história, e medos muito próprios. E não sabemos nada dos sonhos dos outros.
No estado puro o pensamento talvez dispensasse a informação do tempo. Mas nunca sairia do seu lugar original. Vogaria em círculos sobre a mesma paisagem, e se não chegasse ao tédio seria por desconhecimento. Mas o estado puro é também ele um sonho, ou mais propriamente um pesadelo.
Na realidade, chamando realidade a este lugar que habitamos com os nossos sonhos, há em cima de cada desejo um peso extravagante de formas, sentidos e perdas. Tudo junto numa bola de trapos que permanece inquieta entre os dedos.
Mas aos sonhos dos outros não chegamos. Arquivamos as frases melhores e sorrimos quando a memória atraiçoa mais um momento que se perdeu. Sobre esse estrado de emoções constrói-se outro andar da torre da nossa Babel interior. Claro que o objectivo é o céu.
Que fazer quando, sobre o tabuleiro, parecem esgotados os movimentos que garantem a vitória? Como viver sem essa vital substância da comparação? Como permanecer no lugar em que não se é sempre o primeiro? Como sentir alguma coisa quando sobre o sentir paira sempre a ave abrupta da imposição?
Quando nasci não me questionei sobre a liberdade. Tinha outros propósitos, e alimentar-me era o que me tornava vivo. Ao pé de mim passou o tempo e houve um instante em que devo ter sentido que o vento era mais forte do que eu. Terá sido aí, pelo acaso de um momento, que me apercebi da estranheza do lugar. Nada do que tinha pensado era autêntico, e olhar para as coisas com atenção não era suficiente para as ver.
Haviam outras formas e outros mundos, outras idades e outras estranhezas, outras manchas e muitos outros sonhos. De cada lado da certeza surgia uma verdade diferente e a cada uma delas eu poderia designar suprema se isso fosse a minha vontade. Também porque em todos os sentidos a minha designação era inútil e a minha vontade etérea.
Nasci num tempo em que já todos os objectos tinham nome. Mesmo as coisas que não se sabia o que eram, eram coisas. E às coisas que eu ainda não sabia que eram coisas chamava aquilo. E o tempo passei-o eu todo a aprender os nomes das coisas, a saber de cor as cores e o números e a tentar arranjar outra coisa que o dicionário ainda não soubesse.
Tempo ganho é tempo perdido de outra forma. O passo que se dá para a frente já tem o seu ocaso no próprio passo. Mas nenhum sonho o distingue de outro. Nenhuma comparação.
Sabes? Não é possível chegarmos a sonho nenhum. Nem aos nossos nem aos dos outros. Este lugar onde ocorrem os nossos sonhos é tão irreal como os sonhos que temos deste lugar. Depois de virarmos uma esquina há sempre outra esquina para virar. E, por causa dos sonhos, as esquinas são sempre outras. Isto é o que se sabe. Haverá outras coisas que não se sabem. O que dói muito a dizer.
Aquilo que eu queria, aquilo que teria feito as coisas parecerem, segundo os meus sonhos, diferentes, era a hipótese, ainda que remota, de haver algum sentido oculto, coisa ainda sem nome, que valesse a pena procurar. Essa seria a razão mais que suficiente para andar por aí, no maior dos tédios, a alimentar o corpo.

ikivuku

quarta-feira, agosto 01, 2007

Por outras palavras...

Mil anos de trabalho precário

"Não existe um clima de medo. A precaridade no trabalho é que tornou as pessoas subservientes."


António Arnaut, Visão

quarta-feira, julho 25, 2007

domingo, junho 24, 2007

Surpresas

Neva no topo da montanha.
O frio e a sua mancha branca regressaram.
Os ciclos, desanimados com a rotina, preparam surpresas e tempestades.
Os caminhos tornam-se indiscerníveis e os passos marcam-se pesados.

Transporto um mundo às costas e com ele a minha vida.
Não é muito nem pouco, apenas o essencial.
Restos de coisas que foram restos de outras coisas.
Como o nosso corpo é o resto dos outros corpos que o fizeram.

Mesmo que eu não saiba ou não queira saber, houve alguém antes de mim e haverá alguém depois.
Os passos que ficam na neve serão tão efémeros como o meu medo.

Lá no topo, as horas são mais longas e o frio mais frio.
Agora que a temperatura é baixa ninguém lá vai, e a solidão é sólida.
Em nenhum caminho me cruzo com outra palavra.
Apenas o meu monólogo de louco que não quer ser.

Quando se fala é contra o silêncio.
É o único que perece perante a voz.
E o que digo, e digo porque penso, é mais do que penso e digo.

Há também a voz do vento.
Voz que diz o que sabe, como se soubesse.
E é o vento a coisa mais humana que encontro nos lugares altos onde me empurro.

Para todas as coisas é necessário estar preparado.
Mas há tanta variedade de coisas, que acontece sempre uma surpresa.
E depois, na surpresa que nos surpreende, não há nada de novo...

Esse não é o meu caminho.
Não estou à espera de surpresas.
Estou como se estivesse preparado para todas as surpresas.
Jogo com elas e esqueço todas as suspeitas.
O que vier a seguir é ainda uma daquelas coisas que podem ser.

E o que pode ser, o que está dentro do horizonte das possibilidades, faz parte do saco grande de surpresas que na infância soubemos estar à nossa espera.

Não sou eu que espero as surpresas no topo da montanha.
São elas que estão pacientemente à minha espera.

Sísifo

sábado, junho 23, 2007

sexta-feira, junho 22, 2007

Postdezasseis

No lugar onde moro há fantasmas. Passam de um lado para o outro a zunir, com um propósito que me ultrapassa. Suponho que os trouxe de outros lados, mergulhados no meio dos livros, agarrados ao pó dos objectos ou simplesmente embrulhados numa colecção de memórias mais ou menos oblíquas. Mesmo ouvindo mal, ouço-os à noite a roer o tempo, desprevenidos do súbito silêncio de uma casa oca de sentidos.
Como noutras ocasiões em que me adaptei ao ruído sombrio que vem do prólogo do universo, também se tornaram familiares as deambulações equívocas dos espectros. Há em todas as perturbações um carácter efémero que logo a seguir pode provocar a nostalgia da ausência. Deve ter sido isso que não percebeste.
Tinha-te dito, com alguma ênfase, que não há à minha volta lugares abandonados. Depois de algum tempo de espera o meu lastro cresceu e cada passo que dou é outra vez o primeiro dos últimos.
O que te assustou foram os fantasmas. Poderia dizer-te, como se soubesse, para te aquietar, que são seres inofensivos. Poderia ter falado deles com carinho e mostrar que estão aqui como outras coisas em que ninguém repara. Que sobrevoam as cabeças como se se divertissem e dão gargalhadas alarves que podem perturbar os incautos, mas não vão além da sua centelha de virtualidade. Poderia e deveria tê-los defendido para te defender a ti deles.
Mas eu não sei. Estabeleceu-se, temos de reconhecer, entre mim e o resto-do-mundo, para simplificar, um desentendimento que oscila vigorosamente entre o formal e o estrutural: não sabemos, nem eu nem o resto-do-mundo, se há alguma razão para nos salvarmos. Por isso, e por outras razões certamente, não sou capaz de dizer coisas positivas sobre os fantasmas que moram cá em casa, ainda que com o mero propósito de te fazer sentir mais confiante nas sombras que rasam em velocidades vertiginosas as cabeças que tentam aqui em casa descansar o tempo.
Terão sido eles a fazer-te ir embora abruptamente. Desentendidos das ciências dramáticas não souberam respeitar um rosto que já conheciam bem. E depois, há no gesto brusco de fugir uma mímica própria da libertação que os fantasmas não entendem, livres que são de saber sonhar.
Por outro lado, comigo não acontece nada de especial por sair de casa. Alguns fantasmas, quais anjos-da-guarda, seguem-me pelos caminhos, mesmo que não sejam os meus caminhos, e por isso acostumei-me a tê-los sempre presentes, o que espero, num futuro próximo, tenha o dom de em qualquer lugar, seja onde for, esteja onde estiver, me sinta sempre como se estivesse em casa.

Aibieme

terça-feira, junho 19, 2007

sexta-feira, junho 01, 2007

"Palavras soltas"

"... escrever é um exercício de investigação e de lógica; um exercício que obriga a definir, ordenar e desenvolver o que se pensa."

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje

Ácido

Nada tem que ser como eu tinha pensado.
Os frutos caem da árvore sem chegarem a perguntar porquê.
Circulam os afectos da mesma forma que a água pelos canais.
E nas sombras mais obscuras não se escondem monstros nem gemidos.

Aquilo que conta quando se fazem as contas sem fazer de conta, é o que se sente quando se sente.

Sobre o abismo que se avista do topo da montanha paira sempre a tonalidade húmida de um certo infinito.
O relativo abandono gera no coração uma vaga sensação de perda.
Como se nos confins onde custa a chegar fosse necessário um ar rarefeito.

Cada momento de azul que amanhece sobre o horizonte é uma dose suplementar de incerteza.
Vê-se, ao mesmo tempo que se ouve a monotonia dos passos a trilhar a areia, o rasto sistemático da repetição e a atracção sublime do espaço.
Não saber acaba por ser o destino mais natural.
Oculta sobre a névoa está a ambição e a prática corrente de comparar os sonhos.
Todos concorrem para afastar o pensamento do seu caminho.

Nem sempre chego ao topo com a mesma ansiedade.
Dias há que parecem claros e luminosos.
Aí, os sons são mais soltos e as verdades menos necessárias.
Cumprem-se os rituais e retoma-se o canto na dobra mais simples do mapa.

Um dia, quando, por acaso, se reunirem as condições especiais, vou pensar em todas as consequências de subir e descer esta montanha, sem que nada de sagrado me obrigue, a não ser esta genética que ocasionalmente conformou as moléculas emprestadas ao meu corpo.

Sísifo

quarta-feira, maio 30, 2007

domingo, maio 27, 2007

Pérolas (XXXIV)

Nem em pensamento sei explicar por que é que isto é uma pérola, mas é!

domingo, maio 13, 2007

Fatídica

Às vezes vem de fora a razão, pedaço de intrusão que semente e germe em árvores hierárquicas de sons iluminados pela lâmpada de Alá, digno denota quando detona a explosão de ar inchado de orgulho pátrio e mau trio admira que não saibas as últimas derradeiras invenções ocasionais da sociedade com sumo de fruta da época clássica. Eu vi, com estes olhos que a terra há-de temer por serem escuros de luz negra fechada no subterrâneo ruidoso minado de nome e nado vivo a treze desmaio cansado de tanta importância despedida por mau apartamento com duas ou mais atoalhadas combinações de certezas com rigor mortis e funeral combinado dois em um vitalício para sempre ou até que a sorte os separe nas fases orgânicas e angulosas do ritmo concêntrico, como é possível que não aconteça nada quando acontece alguma coisa que não esperamos que seja o que já aconteceu e então vemos que não. Foi assim de madrugada a cama destapada e o sol esfrangalhado dançando perdido pelo éter retumbante de ondas com vozes misturadas de imagens gastas e fartas de serem cera que derrete outra vez numa forma deformada e parada, sem olhos, sem mãos, sem carteira nem beira mar plantado de urgência numa viagem a pé ante pé até ao fim da linha âncora e corrente de lava mais branco que a neve que derrete o mais endurecido dos ruminantes enfiados contra as tábuas com dores de cabeça repetidas até o vermelho se embaciar de negro e derrubar outro ditador no ciclo infernal de casas alugadas aos seis meses de véspera por não saber que logo a seguir há uma nesga de céu por onde passa trincada às doze baldadas que se esqueceram que tinham marcado um encontro com o destino e o tino que se entregou à sorte grande para saber mais do que os outros que gostavam de se esquecer que viviam para lá do que era possível e não era possível aparecer nem ser na têvê que só vê o que é mais perto do que é aviltante e não esquece que é verdade o que já passou há muitos anos quando ainda aconteciam coisas bizarras à porta de cada casa e não era preciso importar galões de gasolina para peregrinar as ilusões. Mas, e há sempre um mastim que é fiel e por isso morde com precisão enquanto defende o seu bem e os bens dos que são bem e sabem bem onde está o bem e como está bem de ver não interessa onde se quer chegar quando não se quer chegar a lado algum mas se sabe por interposta pessoa que há quem conte à noite os contos que tinham ficado por contar na manhã anterior e com tudo isso se agradeça ao seu a seu dono do mundo e arredores e nós, que ficamos apegados às coisas fúteis da diversidade que há na cidade e da diversão que há na são tomamos com o olhar que não vê porque é melhor não ver do que nevar à noite quando ainda o frio do riso quente se sente a brilhar no modelo incontinente da tal razão que vem de fora e só estorva.

Prólogo

sexta-feira, maio 11, 2007

Cansaço

Todos os dias cumpro o meu plano.
O ritmo e a rotina confundem-se.
À distância, no leito do descanso, ocorre-me mesmo uma certa melodia.
Como se numa dada dimensão, às coisas sobrasse significado.

Na distância que se desenvolve repetida sob os meus pés, nos caminhos que vão sendo sempre o mesmo de outros dias, vejo, pela previsão própria de não esperar, o ciclo finito da importância.

No alto de cada dia há o cansaço adequado a eliminar promessas.
Tudo o que aprendi esqueço pelas mesmas razões.
E logo a seguir há o recomeçar do silêncio.

O recado de cada hora é a expressão do seu limite.
Sei, por querer saber, a curta vida das ilusões.
Aprendi, por ignorar, que se ousasse seguir, seguiria sempre.
Vi, por me ocultar, lugares mais além do horizonte.
Perdi, por desejar, uma boa ocasião de ser sentido.
Ouvi, pelo silêncio, o cântico orvalhado da servidão.
Fugi, emparedado, do medo que todos os dias me alimentou.

Todos os dias cumpro o meu plano.
Mesmo que o meu plano são seja meu.
Mesmo que não tenha feito nenhum plano de algum dia cumprir planos.

Há uma cadência própria nos passos que marcham a favor do seu destino.
Latente, na invisibilidade há uma presença rigorosa.
A harmonia é tão aparente como o desgosto de ficar de fora.
E lá fora, no erguer subtil da tempestade, queremos ainda que sejam sinais.

Cumpro o meu ciclo de verdades.
Arrisco apenas o ligeiro ardor dos olhos.
E à noite, enquanto se fazem fogueiras para acender desejos, ocupo o meu corpo a iluminar os limites que não quer.

Sísifo

segunda-feira, maio 07, 2007

Thinking Blogger Award

Nestas coisas dos blogues, como em tudo o mais, começa-se ao acaso e deixa-se que o acaso governe o estabelecimento da rede. É provável que nem outra coisa seja possível: o acaso é o deus único e nele repousa o destino. Eu deixo as coisas ao acaso por saber que mesmo que exerça o meu direito de escolha ele será ainda deturpado pela natureza rudimentar do desejo. Por acaso, por puro acaso, houve quatro blogues onde este modesto Zumbido foi incluído na lista "Thinking blogger award". Decididamente há pessoas capazes de tudo. A Elipse do poético Palavras em Linha diz que este é um lugar "onde a profundidade da escrita me faz pensar". A JP do enérgico Faz de Conta diz que há aqui uma escrita " que me deixa atenta às palavras fluídas e subentendidas". A MRF do interventivo Divas & Contrabaixos escolhe-me "por algumas 'velhas amizades' a que não faço referência há muito tempo". E a Maria do sereno Thornlessrose inclui-me nos "espaços que visito, admiro, e onde me detenho". Tenho que reconhecer que os próximos duzentos 'posts' que fizer vão ser a este propósito. Enquanto me lembrar dificilmente conseguirei falar de outra coisa.

Brinco, mas não brinco. Depois de descobrir que já não há tempo para criar um mundo novo, consola-me saber de lugares, pessoas e ideias que ainda conseguem ter a sua divergência em relação à norma. E que na sua marcha diária - ainda que virtual e simbólica - vão criando diferença e estando atentas a que o mínimo não seja um padrão. Pensam porque pensam e sabem pensar e se eu contribuo é apenas por acaso. E fazem-me criar afectos...

Por inerência de cargo devo agora indicar os meus favoritos. Mas não o vou fazer porque os meus favoritos são pessoas e só me ocorreria eleger aqueles que conheço e gosto pessoalmente. Ficam portanto excluídos esses e os que votaram em mim. Indico por isso, da lista aqui ao lado, aqueles que, além dos outros, já não dispenso nesse processo diário de nunca deixar de pensar: É um mundo mágico; Kitchnet; Mil nove sete nove; O livro no espaço triste; Voando sobre um ninho de dúvidas. De qualquer maneira isto fica só aqui entre nós. Eles não precisam de saber...

Zumbido

quinta-feira, maio 03, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Marcas de água

Vês? Agora o país está vazio. Bastou um momento e tudo debandou. Movem-se em bandos à procura de outros lugares. É sempre outro o lugar onde se esconde a salvação, e há que ir à procura dele, indefinidamente, sempre.

Um dia que seja de folga e aí vai a trupe, a toda a força, queimando alegremente a essência, indiferentes a um futuro que não seja o minuto já a seguir. Sábios de leis e de segredos da monarquia, da vida luminosa dos eleitos e preenchidos com os ícones que oferecem a volúpia na compra de modelos exclusivos.

Na corrida à procura do destino, na rápida sucessão dos passos decididos, estão entre as bagagens feitas à pressa e a velocidade do olhar, os sons ténues de uma fuga, ensaiada todos os dias na repetição cruzada de ideias simples conseguidas por empréstimo a juro reduzido.

Ver a correr tudo, para sentir que se toma posse de paisagens que outros contam como mágicas e indispensáveis. Passar pelos lugares e averbar os nomes na caderneta; fazer mais um risco na coronha do revólver das recordações. E ter sempre outra meta logo a seguir para não deixar aquecer o lugar nem arrefecer a emoção.

É fácil respeitar este cinema. Concordar com todas as razões brilhantes, mesmo que a revolta esteja ali mesmo, à tona da garganta. Há o cansaço e há a dúvida. A poderosa ofensiva da solidão, medida em milhares de pessoas juntas à volta do seu próprio ardor. Comunidade de ausências, concílio de desconsolos.

E custa parecer sempre o velho do Restelo, que tem razão de vez em quando, logo que cada vitória se torna um marco outra vez perdido, e as lantejoulas se gastam da sua alegria. Dizer outra vez o que já foi dito, apenas por descargo de consciência, ou por descargo de bílis, ou por outra pouco razoável razão.

Em todo o lado se carimba com êxtase a marca do desespero. De fora, da esquina a seguir àquela que se sonhava ontem, diz-se que algumas pessoas souberam derrotar o medo. E esse desejo, esse absurdo desafio de, de repente, por magia, passar a ignorar a traficância das emoções telúricas, empurra a alma para a nova terapêutica de esconjuro.

Mas eu sei que não há alternativa. No interior falta a pressão da vontade, e tecer caminhos próprios custa mais do que caminhar pelos carreiros eloquentes dos que sabem guiar. Mesmo que não seja assim, é o que me ocorre quando percebo que para não ter à noite a voz a ecoar nas paredes obtusas do vazio, tenho que ignorar a cantilena da razão e deixar como verdadeira a mímica festiva da liberdade.

Artur Torrado

quarta-feira, abril 25, 2007

Pérolas (XXXIII)

Nos 33 anos do 25 de Abril, a História como ela é...

segunda-feira, abril 23, 2007

Sedimento


Houve um tempo em que a luz parecia ser o lugar definitivo.
Todos os caminhos se lhe dirigiam e não havia dúvidas.
Cada passo que se dava tinha-a por projecto e o que ainda não era, haveria de ser.
Pela luz passavam todos os sinais e toda a esperança.
Era impossível admitir, sem luz, mais do que o inferno.

No meu rotineiro caminhar para o alto estava implícita a luz.
Lá de cima, do topo, da distância, emanava a luz e a clareza.
Era assim para mim e para todos, e não havia outro caminho.

No prosaico rolar da gravidade adivinhava-se o refluxo da escuridão.
Descia, e o deslizar inclinado do destino era o assombro.
Em baixo, no fundo da montanha, a escassa luminosidade era disputada com a morte.

Na pena de subir e descer, os deuses tinham engendrado o maior dos sofrimentos:
Conhecer a luz e ter de a abandonar pela escuridão.

Outras penas há em que a pena se reduz por não saber que se pode viver sem pena.
Ou, a pena só é pena quando se lhe conhece a ausência.
Reconhece-se, por isso, que a ignorância é uma sorte.

Mas não é por isso que os poderosos manipulam a luz.
Querem apenas o equilíbrio rudimentar que evita a violência da revolta.
Luz quanto baste para algum desejo.
Luz tão pouca quanto a necessidade.

Depois foi a catástrofe do ultravioleta.

A luz já não é luminosa e o topo da montanha já não salva.
Os passos que se dão para subir não se distinguem do descer.
Na profundidade das masmorras vêem-se os pormenores de um rosto com rigor atómico.
E o que se sabe tem o mesmo valor do que não se conhece.

Os homens sentam-se às escuras para combinar os assaltos e as orações.
Rebuscam no lixo, com as mãos nuas, e alegram-se da sua precaridade.
Soltam uma gargalhada rugosa e o solavanco bestial fá-los felizes.
Despedaçam com os dentes os mistérios, os segredos e as frustrações.
E dizem, sempre que podem, que é assim que a vida é.

Passo por onde posso com um sorriso, para que não me sigam.

Sísifo

terça-feira, abril 17, 2007

Genérico


Não existe um amor genérico. O amor tem sempre marca, e marca por ser amor. O amor que existe, quando existe, declara-se a uma entidade concreta, material e insubstituível. É assim a natureza dogmática do amor. Não vai pela margem das coisas, encosta-se directamente ao centro e centra-se no concreto. Não é genérico o amor. Cola-se com veemência à pele e impede a regular respiração dos poros. Exige, como se não houvesse tempo, a urgência do tempo todo e esquece as prosaicas questões do real e do sentido. Para o amor o sentido é tão só aquilo que sente e que não traz à razão, e nunca a razão que, por qualquer razão, traz o sentir. Aquilo que o amor sente é sentido mas não tem sentido nem espera sentido porque por ser amor não espera. E não há nada de genérico no amor. É por isso que o que se diz do amor, como por exemplo isto que eu digo do amor, é sempre um disparate. Não é transmissível a ideia de amor. Só seria transmissível se se desse o caso de o amor ser genérico e poder, sujeito aos artifícios da comunicação, radicar em códigos que não fossem absolutamente únicos de cada vez. Um dia se descobrirá, se houver tempo, a incontornável descontinuidade do amor, e a forma unívoca como, qual um código genético, o amor se manifesta. Num certo sentido chamar amor ao amor já é uma facilidade de linguagem que pressupõe alguma espécie de afinidade entre coisas tão diferentes. Porque o amor é absolutamente unívoco. Tão unívoco que não é o mesmo que vai de A para B e de B para A. Funciona, às vezes, como uma vibração harmónica, descrita, quem sabe se por uma sobreposição absolutamente única de ondas sinusoidais perfeitas. Mas não tem nada de genérico. Fervilha de intensidade própria e, por vezes, basta-se a si próprio, ignorante de totalidades e forças transversais. Fica no centro de tudo e transforma o centro em margem, trazendo o paradoxo para a simetria dos dias. Genérico seria se se pudessem dizer coisas concretas que fossem capazes de englobar o amor sem nos estarmos sempre a contradizer. Isso sim, seria genérico. Dizia amor, e toda a gente sentiria a mesma picada na espinha. Para isso bastava uma palavra e ficava tudo dito. Como dizer água ou céu ou luz. Palavras genéricas para ideias genéricas para pessoas genéricas. Amor não. Há sempre uma outra coisa que ainda não se disse e não é bem assim, estão completamente enganados, não tem nada a ver com isso, nem penses, não é isso que eu sinto, nem pensar, está tudo ao contrário, que disparate. Não. O amor é uma doença do indivíduo. Doença sempre rara, sempre incurável, sempre mortal. Mas nunca genérica.

Prólogo

quinta-feira, abril 12, 2007

Mandamento

Talvez não valha a pena perceber.
Joga-se com o sentido e no fim cada um tem a sua boa razão.
Cada acto acaba a valer por si, e ao mesmo tempo por aquilo que não é.
O mérito está apenas em não perder; em não sentir nunca a derrota.

Cada viagem ao lugar central é um regresso.
Há ritmos inscritos nos materiais a contrariar as grandes opções.
Sobre os sonhos ainda se dirá serem eles a verdade.
E logo a seguir a morte ou a desistência.

A Lua, por exemplo, faz o seu ciclo como se não soubesse do tempo.
No horizonte há estrelas que se mostram nuas eternas.
Sob o manto pacífico da Terra movem-se massas imponentes de fogo.
E nas noites mais dóceis é possível olhar riscos de luz.
E os finos bordados do medo no escuro.

O nada que faço aqui é tão sério como a nuvem que se forma um instante.
Cada vez que o Sol nasce ainda, é uma primeira vez para sempre.
As rosas deixam cair as pétalas para depois.
Vazias.

Desço outra vez este caminho disfarçado de condenado.
O que sou, seja o que for, é tão pouco como o disfarce que uso.
As botas gastas do atrito do tempo são ao mesmo tempo que o meu rosto.
As gotas de água que transpiro já as bebi muitas vezes.
E o alimento que vai crescendo agreste na beira do caminho já de novo foi meu.
E eu já perdi da minha posse tudo o que outra e outra vez retive,

Nada é só uma vez para sempre.
Mas não é assim que se sentem as coisas.
O que se sente, o que ocorre no intervalo curto em que somos, é uma vontade desfocada de querer o que não é e fugir a todo o custo do que se mostra.

Talvez não valha a pena perceber.
Quando o vento já perdeu a força que tinha de mandar.


Sísifo

domingo, abril 08, 2007

Pérolas (XXXII)

A Paixão segundo Santa Fausta.

sábado, abril 07, 2007

Postquinze

Às vezes gostava de ser tão grande que fosse capaz de te dar guarida nas minhas mãos e acalmar assim esses teus medos de coisas imaginárias que tu sabes que são reais mas que também sabes que, tratadas como imaginárias, têm menos peso e causam menos perturbação. Seriam, então, as minhas mãos, lugares de paz em vez de prisões que contrariam a todo o instante os desejos e as ilusões e propõem com inabilidade o vazio como local habitável. Nas minhas mãos terias os momentos de serenidade e o local seguro onde habitar na incerteza.

Às vezes gostava de ser tão belo que sobre mim pudesses lavar os olhos da angústia e ter no horizonte a forma rebuscada de um deus que definisse emoções com clareza e luminosidade. Seria, então, o meu corpo, o lugar onde descansam os sentidos e se aquietam as insatisfações, mural tinto de padrões eternos e pólo de infinita sobriedade. No meu corpo se guardariam as artes abstractas de desejo e sob as rigorosas lajes se acharia a rigidez determinada do absoluto.

Às vezes gostava de ser tão alegre que ao gesto simples de um olhar a tua face explodisse de riso e o entusiasmo rosado tivesse a temperatura excessiva da felicidade. Seria, então, o meu rosto, o lugar de múltiplos significados, expressão potente de hipóteses, de céus, de infernos e de ambições. No meu rosto estaria a salvo o teu, do tédio, da suspeita e da ingratidão.

Às vezes gostava de ser tão rico que o preço das coisas perdesse significado e o desejo da posse já fosse menor que a posse do desejo. Seria, então, na limpidez clara de um espaço induplicável, que sentirias a liberdade de não ter que ter e o verde dos campos a bastar-se no seu significado de beleza efémera. Na minha voz estaria multiplicado um canto sem reflexos, isento de vez da necessidade e da ilusão.

Às vezes gostava de ser tão inteligente que as palavras ditas em surdina fossem em si claras e de uniforme entendimento e os teus olhos brilhassem entre a surpresa e o deslumbramento ao encontro do texto soletrado e da ideia que ilumina. Seria, então, um oráculo da verdade, intérprete furtivo de emoções complexas e construtor sublime do sagrado. No plácido argumento das minhas mãos, expostas à fantasia e ao devaneio, encontrarias o conforto elementar da tua memória e o descanso flutuante dos sentidos.

Às vezes gostava de ser tão ágil, tão vertiginosamente ágil, que o meu corpo voasse sobre o teu em acrobacias rasantes, e a música da tua voz fosse o motor feliz dos meus movimentos harmónicos. Seria, então, a encarnação desejada do ritmo e fluiria sobre o teu desejo com a voracidade do génio e a intensidade da primavera. Na eufonia dos meus sentidos, arrebatados pela pueril extravagância de existires, estaria volátil a elegância infinita dos teus mínimos gestos.

Às vezes gostava de gostar de ser como sou e mesmo assim saber de ti.

Aibieme

terça-feira, março 20, 2007

Mundança

No silêncio da noite há um insulto que se propaga ligeiro.
Sabem os que ouvem que não está próximo o fim.
Mesmo assim é aos ouvidos sensíveis que chegam os estrondos mais fortes.
Relativo é o senhor, doutor.

Não disse nada ao pai nem à mãe.
A casa já está vazia desde a outra infância, quando ainda não era possível.
Vogavam à volta da luz insectos de fraco carácter.
Eu não os via porque os olhos se tinham fechado de cansaço.

É provável, disse o angustiado, que não seja este o fim que todos esperávamos.
Ninguém lhe respondeu, imersos que estavam os rostos na sua desencantada morte.
O vento.
Sim havia o vento a divertir as árvores.

Por acaso, ainda que perverso, o silvo da fábrica acordou mais cedo.
As mãos estavam ávidas de saber coisas.
Nenhum preço tinha sido dado para o abandono e nem era preciso.
Paz à sua alma.

Cada vez que as nuvens voltam do mar trazem novidades.
Dizem que são coisas que já se sabiam mas tinham sido entretanto esquecidas.
As frases mais desastradas riem-se de si próprias, com propriedade.
Mas o que eu queria era o horizonte.

Durante quanto tempo vão ainda persistir os hábitos?
Dizem que será a vegetação a vencer.
Mas não esta que desta vez ainda nos vai comer.
Hão-de vir outras mais hábeis a saber viver em lugares nefastos.

Apesar de tudo não lamento.
Foi uma boa tentativa.
A matéria a pensar-se a si própria... que estupidez.
Não acaba nem bem nem mal.

Ainda queria tirar uma moral da história.
São os velhos hábitos: querer que as coisas tenham sentido.
Que coisa estranha este silêncio.
Que coisa estranha não se ler o significado das coisas.

Torcato Matos

quarta-feira, março 14, 2007

Corte

Quando se corta o corpo, o corte que fica no corpo é um corte que fica para sempre como memória do corte que cortou o corpo.
Cortado, o corpo reage ao corte, como se o corte que o cortou fosse um corte sentido.
Cada corpo reage ao seu corte, cortando as ligações do corte ao resto do corpo; cortando de si o corpo cortado e salvando o corpo de um corte que o poderia cortar.
Existe entre o corte e o corpo cortado uma relação de semelhança.
Espera-se entre o corpo e o corte uma relação de pertença.

Quando um corte corta um corpo, encontra na reacção do corpo ao corte uma razão para ser corte.
Antes de cortar um corpo, um corte ainda não é um verdadeiro corte.
Depois de cortar um corpo, um corte já não é um verdadeiro corte.
Antes do corte o corpo é um corpo sem corte e sem memória de ter tido um corte.
Depois do corte, o corpo que foi cortado, é um corpo que tem um corte porque se recorda de um corte que teve.

Fotógrafos de todo o mundo procuram o retrato do corte no momento em que é corte.
Acreditam, aqueles que acreditam, que há um instante, disponível para um instantâneo, em que o corte é.
Perseguem então, os fotógrafos de todo o mundo, os que acreditam e os que não acreditam, o instante dinâmico em que sobre o corpo se manifesta o corte no seu esplendor insubstituível.
Esperam, os fotógrafos, que o corte se confunda com a imagem do corte.
Desejam, os fotógrafos, que o corpo ilumine a imagem do corpo.

Não é seguro que nenhum fotógrafo tenha alguma vez guardado o corte sobre o corpo no momento em que o corte se faz sobre a pureza elementar do corpo.
Divergem as opiniões e as certezas acerca da autenticidade dos cortes que dizem ter sido já impressos preto no branco.
Divergem também as certezas e as opiniões, sobre os corpos que foram cortados e que mostram a memória dos cortes que tiveram.
Nenhum corpo sabe, perante a evidência de um corte, onde ocorreu o corte que o separou de si próprio e cortou, para sempre o corpo dividido.
E se o corte que o corpo insiste é um corte que apenas cortou a superfície aveludada dos sentidos, pode acontecer que seja apenas um corte rudimentar, magra marca de um tempo que adiante se verá não ter acontecido.

Prólogo

terça-feira, março 13, 2007

Fronteira

Não tenho contacto com o infinito: imagino-o.
Naquilo que posso, tolero-o.
Mas o que eu vejo e sinto,
o que preenche os interstícios urgentes do vazio,
o que marca todos os passos que dou e submete a minha identidade,
são os limites.

A partir de um ponto, o abismo.
A partir de um momento, a indiferença.
A partir de um fogacho, a luz.
A partir de um sonho, a verdade.

Localizo-me, por isso, na fronteira.
É aí que mudo as minhas vestes
e me enredo nos dilemas de ser.
De um lado está, pouco nítida, a serenidade,
do outro, atormentada, a beleza.
Apenas um efémero fio
entre o apelo da trágica alegria
e o macilento olhar do náufrago.

A lebre e a tartaruga perseguem os meus paradoxos.
Há quem saiba que não sabe
e há quem não saiba que sabe.
Cada passo pode aproximar ou afastar e nunca saberemos.
Há um lado de dentro e um lado de fora que se conhecem
e uma luta permanente por não haver luta permanente.

Não sei nada do infinito.
Os meus encontros diários são com o limite das coisas.
E falam-me de potência e de futuro,
de dignidade e de subtileza.
Engrossam em cada instante novas redomas
onde guardam os testemunhos do esquecimento.

Vivo e convivo com os limites que não entendo.
E percebo tão bem esse infinito que me escapa...

Ikivuku

quarta-feira, março 07, 2007

segunda-feira, março 05, 2007

Importância

Há, nos gestos do dia a dia, um apelo muito forte ao esquecimento.
Enquanto se sobe a intransigente montanha, os pensamentos revesam-se até já não terem sentido.
O esforço de levar outra vez o pé para a frente do outro, esgota a sensibilidade e o entendimento.
É difícil que no topo ainda haja energia para fruir a paisagem.
Nada é comum quando os músculos se retesam para um último balanço.

Se eu tivesse um deus a que não chamasse acaso, di-lo-ia uma combinatória.
O meu olimpo tem uma fauna própria que não me aquieta.
Diverte-se a mitificar o número e a diversificar os caminhos.
Mesmo assim, o tédio é o patrono mais poderoso.
Acima do correr das nuvens já não mora a ameaça ou a salvação mas o vazio.

Nenhum acto é tão autêntico como o trabalho.
Quando queremos ser sérios e profundos dizemos que trabalhamos.
E é nesse gesto mágico e económico que se suportam os nossos sonhos.
A labuta como método de render homenagem à existência.
Culto do que não é oculto nem ficcional.

Nenhum passo é tão autêntico como o que não se deu ainda.
A energia potencial cresce enquanto as expectativas sobem aos lugares mais altos.
Há muito de irremediável na convivência com a solidão.
Diz-se a palavra e ela não chega a lugar audível.
Nem regressa.
Os sons atravessam o tempo como neutrinos.

Cada pensamento que se forma na escalada perde-se a seguir agarrado à gota de suor.
As melhores das intenções formam-se em nuvens de chuva ácida.
Neste olimpo não há nenhum deus a quem pedir clemência.
Não há também vontade de pedir, porque os que podem dar é porque roubaram.
O desequilíbrio equilibra os sentimentos.

Não fora a certeza de o poder poder não ser outra coisa que o acaso, e o ódio seria o atalho certo para a existência.
Não é aqui nesta montanha, mas é noutras em que se faz da vontade escravatura.
Lá em cima a vista é bonita.
Há muita beleza para escutar e sentir.
Mas antes disso há sempre um medo de perder qualquer coisa importante que não se sabe o que é...

Sísifo

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Simtoma

Disse que sim podendo dizer que não, digamos assim, como se dizer sim ou dizer não fosse o meu degrau de liberdade. Disse que sim porque sim, podendo dizer não porque não, ou dizer não porque sim, ou mesmo dizer sim porque não. As razões do sim e as razões do não à espera de eco nos hemisférios cerebrais, no norte e no sul da consciência e na ligeireza de ir ali e já vir, à procura outra vez de mais razões para os porquês de sentir.
Disse que sim, querendo dizer sim porque sim, e logo a seguir, assim, sem mais nem menos, descobrir que dizer que sim, agora, aqui, assim, é quase o mesmo que dizer que não, porque se pode dizer sim querendo dizer não, e se pode dizer não querendo dizer sim. Também se pode dizer sim dizendo que se disse não ou dizer não dizendo que se disse sim. Nada é assim simples.
Disse que sim, assim, sem mais nem menos, para depois saber, como já antes sabia, que hoje, nestes dias assim, dizer que sim e dizer que não - deitar mais uma gota de água no mar - é a mesma coisa, assim mesmo. Porque manda a verdade, a tal verdade de que se fala, que nada seja diferente de não ser nada e tudo seja igual a ser tudo, sendo o nada e o tudo tão iguais como o sim o não e o mais e o menos e tudo aquilo que já supus serem coisas opostas.
Disse que sim, sem vontade de dizer não, mas já me dizem que o sim que eu disse era não e o não que outros disseram era sim. Dizem-me que ao dizer sim não era bem sim que estava a dizer porque quem quer que dissesse não também sabia que o seu não era, ainda assim, um sim que não se dizia como sim mas como não. Foi assim que o meu sim é agora olhado como um não que eu não disse mas que me garantem que é exactamente igual ao não que outros disseram e igualmente igual ao nem sim nem não dos que não disseram nada.
Disse que sim mas sei agora que o meu sim era muito diferente de outros sins que foram ditos por outros e que, muito provavelmente, o sim que eu disse nem sequer era igual ao sim que eu queria dizer. A verdade, sei agora, é que muitos sins e muitos nãos são iguais a outros sins e a outros nãos sem que alguém seja capaz de distinguir os sins dos nãos e os nãos dos sins.
Disse que sim mas já não tenho a certeza de ter dito o sim que queria, ou mesmo se disse sim ou não, ou se não cheguei a dizer nem sim nem não na expectativa que outro qualquer soubesse dizer por mim esse sim que eu queria dizer. É assim que agora fico com o sim atravessado na garganta como já estava antes, quando me apercebi que era um sim que queria para subir mais um degrau na liberdade de poder cada um dizer não quando se tratasse da sua própria vontade.

Prólogo

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Postcatorze

Não me lembro quantas vezes não te disse que o caminho que seguíamos não era o melhor. O que recordo é o silêncio dessas vezes que o não disse porque o som se esgotou na garganta ou porque afinal não sabia que caminho era esse que seguíamos. Recordo também a tua voz a insistir na importância da tua voz e do meu silêncio a reconhecer a importância da tua voz.
Não sobram nestes momentos outras recordações para desassombrar a incerteza que ocupou os dias e me preenche agora a memória. Tinha sobre os meus ombros uma insensatez militante e o espelho devolvia-me um olhar estranhamente pálido e demitido. Eu quis que não fosse como tinha de ser e por isso infringi todas as regras do jogo, quebrei todas as virtudes avulsas da derrota.
Não sei como, ao mover-me ao teu encontro, aceitei perder a face e a vontade, e ainda mais me surpreende, agora, ter regulado o meu impulso para um delicada forma de inexistência. Quis, para além de toda a vontade, não querer. Logrei encontrar em ti, nessa manifestação de medo violento que te fazia, uma antítese do rosto que me fora prometido, mas que uma estranha fé me levava a saber latente.
Não esqueço o teu raro sorriso. Com ele apagavas as horas de angústia que eu supunha infinitas e diluías no morno caldo das ilusões o terror de me saber condenado. Havia na forma como as palavras travestidas percorriam o discurso, um feitiço próprio de sociedade secreta que à margem da cidade constrói um mundo novo, prudente, potente e mágico.
Não sei porque volto agora a estes inúteis pensamentos, quando já tudo se passou para o ramo enigmático das miragens. Deve ser apenas um passeio inofensivo sobre as ocasiões em que a dor venceu todas as possibilidades. Um sorteio inevitável de trajectos que delimitou para mim a pragmática obscuridade a que me acostumei.
Não deixo de pensar que por vezes, como tu disseste depois, tudo estava previamente traçado, e as revistas guardadas nas caixas eram um sinal de estarem prontas para a inevitável partida. Mas eu não sabia. Não teria tido coragem de saber que o que tinha construído não era para sempre. Medo estranho este de querer alguma coisa que não é o que se quer mas que se quer sem saber. Admito apenas que o acaso fez o seu trabalho e levou cada passo para o lugar que depois se tornou evidente.
Não sei o que somos agora um ao outro para além do texto que escrevemos a duas mãos numa noite efémera. Mas esse pouco não é pouco porque agora é tudo. E já não és tu nem eu mas outra coisa que emergiu do lugar oculto em que por uma vez dissemos algumas palavras que explodiram em magia.

Aibieme

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Lei

São os fantasmas que governam.
Vivem na escuridão, na sua nocturna providência, e mandam.
Regulam os gestos e os olhares, encaminham os desejos e dissimulam.

São os fantasmas que governam.
Dirigem os passos de maneira subtil.
Sorriem sobre o modo ausente de ser.
Empurram com elegância cada pensamento para o abismo.

Não deixam nada ao acaso, a não ser a aparência de que é o acaso que comanda.
E é o acaso que comanda, logo no nível acima.
Mas os fantasmas ficam contentes por sentirem que no nível em que se movem, e fazem mover toda a gente, são eles que determinam.
Ficam contentes no seu papel de senhores da vontade.

É curto o tempo da existência.
E inconsequente também.
Mais quente ou mais frio, para o planeta tanto faz.
Um homem e uma galinha apenas diferem no grau de destruição.
E na dimensão dos dejectos.
Para o planeta.

Sobre o planeta mandam os fantasmas.
Tiraram o poder aos deuses que primeiro inventaram para isso.
E condenam tudo o que lhes tenta sair debaixo da sola aveludada.
Marcam com um ferro em brasa o tresloucado.
Dão como exemplo o súbdito menor.

Estranha linhagem esta que não partilha o sangue mas o tilintar das moedas.
A montanha onde subo e em que cumpro a minha pena não tem ainda tributo.
Mas virá o dia em que, para o meu bem de condenado, será necessário que a minha pele se entregue para leilão.

São os fantasmas que governam.
Encostados uns aos outros, de liturgia em punho, defendem-me de mim.
Traçam do destino as linhas principais e ajudam-me a identificar o ouro e a lama.
Aquecem os meus neurónios para que se alegrem com a felicidade dos fantasmas.

Digo-lhes que a minha pena é antiga e sobreviveu a multidões como eles.
Depois deles virão outros.
E eu permanecerei aqui, feliz por não ter razão.

Sísifo

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Tudo é água


Está de chuva. As estradas enchem-se de água. É um subúrbio mas a maior parte das pessoas movem-se de carro. Depois de anos na lama o conforto chama-se automóvel. Há quem fale, vagamente, em reduzir as emissões de cê-ó-dois. Seja qual for a razão, ainda há pessoas a circular pelos passeios, a lutar com um guarda-chuva penoso. Eu vou no meu carro, claro. É uma espécie de direito adquirido depois de trinta e oito anos a partilhar transportes públicos. No passeio, à direita, vem uma mulher pendurada no guarda-chuva. À minha frente, outra mulher enfrenta sem abrandar uma generosa poça de água e dá um banho de lama à derradeira pedestre da zona. Ensopada, a transeunte limita-se a temer que eu e o meu bólide lhe façamos o mesmo.
Xis é a mulher do automóvel e Ípsilon a mulher peão (peã?). Vamos supor, por instantes, que Xis vota sim no referendo. A preocupação dela é com as mulheres que têm direito ao seu próprio corpo e que, por isso, podem fazer com ele o que quiserem. Respeito pela mulher, portanto. De facto, quando falamos de respeito pela mulher, estamos a falar de uma mulher abstracta. Em alguns casos talvez se pense em mulheres concretas, mas genericamente não será em mulheres que vão no passeio da rua tentando proteger-se da chuva intensa, ela própria uma abstracção num país que tem quase sempre sol.
Mas também podemos supor, por instantes, que Xis vota não no referendo. A preocupação dela será, então, com o aglomerado de células chamado embrião. Preocupa-se, portanto Xis, talvez enquanto conduz, com uma abstracção invisível mas cheia de direitos. Numa daquelas hipóteses muito 'estrambólicas' - típicas da argumentação em referendos deste tipo - posso imaginar que Ípsilon, a transeunte, está grávida, e graças ao inesperado banho, apanha uma pneumonia, não está em condições de ir votar no dia certo e para cúmulo perde a criança. Aqui estou eu a criar a abstracção com que gostamos de viver quando não temos de tomar decisões sobre o nosso próprio problema.
Um filósofo qualquer da antiguidade, caiu num buraco enquanto olhava preocupado para as estrelas (estão aqui a dizer-me que foi Tales de Mileto). Esta é a abstracção simples, em que a concentração em objectivos distantes provoca o alheamento em relação ao que está ao alcance da mão. Mas a história tem mostrado muitas situações em que a criação de abstracções tem como único objectivo focar o olhar num problema marginal para o afastar dos lugares concretos onde o poder é decidido. É o método do ilusionista.
O concreto, o próximo, o pouco mediático elemento que está ao nosso lado todos os dias, tem muito menor importância que um vago feto nas entranhas de uma mulher abstracta.
Mas quem entra nos caminhos da abstracção, quem se comove essencialmente com o que é mediático, global ou de grande escala - o maior português, as sete maravilhas, o melhor jogador, o prédio mais alto, a batalha mais mortífera, ... - não tem hipótese de regresso, ficará para sempre refém do gigantismo e do número e não conseguirá olhar para o buraco onde vive.
Com tanto gosto pela abstracção os portugueses deveriam ser mais hábeis a matemática, mas, provavelmente, gastam toda essa capacidade nas peculiares relações humanas.

Artur Torrado

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Sim ó não

O assessor Jakim é a favor dos que são contra o sim e é contra os que são contra o não. Por isso já decidiu o seu sentido devoto e está a fazer campanha. Finalmente há alguém que apresenta bons argumentos.

domingo, janeiro 28, 2007

Pérolas (XXVIII)

O gajo que open, close and play e não compreende as mulheres (só em pensamento)!

Aparência


Não é fácil aceitar o vazio.
Olha-se para o horizonte e fica-se à espera que surja qualquer coisa.
No silêncio da noite, os sentidos aguardam a negação do nada.

É uma expectativa milenar, herdada e legada para fazer de conta que há alguma coisa.
Foi ficando da ignorância dos tempos, um rasto firme da alergia à inexistência.
Toda a razão, toda a informação intimamente acumulada, choca com um passado todo poderoso onde se definiram as verdades eternas.
O homem, esquecido que é o pó das estrelas, prefere ser o bolor da história.

Os tempos novos são de recuo.
A evolução, fosse o que fosse, parou perante a manipulação orgânica da consciência.
A protuberância do umbigo, deixou de acreditar na terra como centro do universo e ficou orfã de centralidade.
O Deus que tudo justificava, continua a servir, metido no bolso da conveniência.
O homem passou a ser uma deficiência fatal do planeta.

Não é fácil aceitar o vazio.
Como não é fácil aceitar a contingência.
Melhor seria que tudo estivesse previsto, e uma potência qualquer determinasse cada movimento.
Melhor porque mais fácil.

O músculo cresceu e evoluiu para agora ficar parado, desajeitado e inútil, a definhar na sua preguiça inconsequente.
Mandam, então, os que têm a ambição de mandar.
Determinam sobre a inércia própria dos que não se querem aborrecer.
Quem diga duas palavras seguidas sobre um pedestal suficientemente elevado, receberá os aplausos da multidão perdida de tédio.

Não é fácil aceitar o vazio.
Na infância iludem-nos com espaços, tempos e estômagos bem cheios, repletos.
Esgotam-se nos primeiros anos os terrenos da maravilha, e todo o resto do tempo se passa a ignorar.

A paz da morte há-de ser mantida.
Nenhum esforço será exigido.
É preciso que nada desperte emoções lúcidas.
É preciso que cada palavra nova seja isenta de surpresa.

Beatriz Teresa

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Pérolas (XXVII)

Para o bem e para o mal são as mulheres que determinam o mundo...