domingo, março 12, 2006

Queda

(relativamente a uma bela fotografia do Revelações Avulsas)

Houve um tempo em que eu quis voar.
Estava aberta a porta e eu saí, como se fosse ali fora apenas para respirar outro ar e saber novidades.
Não sei bem se é assim que se começa a querer voar mas foi assim que aconteceu comigo.

Do lado de lá da porta - e a mim interessa-me aquilo que está do lado de lá da porta - sentia que o espaço era mais largo, fosse isso o que fosse.
Porque eu não sabia.
O que eu sabia era apenas o resultado de uma operação de elementar inteligência: não há abismos; nada acaba abruptamente; a seguir há sempre mais e mais.
Dir-se-ia que o meu horror ao vácuo era pura descrença.

A primeira palavra que terei dito, fora do expectável da criança que aprende a falar, foi 'aquilo'.
Mas isso foi muito antes de ter essa impressão de que poderia voar.
Muito antes de pensar que havia um lado de lá desejável e promissor.
Mas gosto de pensar - pura vaidade - que aquilo a que o meu 'aquilo' se referia, era já a incógnita de um lugar que ainda não sabia.
Era já o espaço onde tudo existe em potência.

Os gatos raramente se preocupam com o que vêem.
As ansiedades que os tomam são sempre estranhezas e ausências - o que se não vê mas está presente na forma oculta ou disfarçada.
O meu voo, naquela ocasião de porta aberta, naquele desejo de um lugar de estranheza e sobreposição, nascia inocente, do querer olhar para trás e conseguir ver a totalidade.
Voar seria então, estar à altura do impensável, coabitar com o infinito, ver o invisível.

À tarde o avô levava-me ao jardim e os pombos vinham comer as migalhas das bolachas aos meus pés, antes de ousarem bicar com perícia a palma da minha mão.
Estranhava que podendo eles voar, podendo eles seguir um rumo de excesso para a distância em que se vê um largo horizonte, preferissem ficar ali comigo, na magreza de uma migalha.
Embora não compreendesse agradava-me aquela dedicação.
Num momento, infância, é-se o centro, a importância, o filho, o neto, a causa.

Só mais tarde dei conta de as novidades durarem apenas um instante.
Só muito mais tarde percebi que o mundo é uma metáfora de si próprio.
Só ainda mais tarde acreditei que acabamos sempre trocando voos por migalhas.

Sísifo

3 comentários:

sem cantigas disse...

desafio em http://semcantigas2.blogspot.com/2006/03/o-blog-grande-e-gordo.html
para ti o óscar de melhor argumento

João Villalobos disse...

Muito belo! Eu fazia o mesmo com o meu avô, mas em vez de migalhas de bolacha eram grãos de milho :)

luisnaves disse...

Concordo com o João. O texto é muito belo. Parabéns e um abraço.