quinta-feira, junho 22, 2006

A Samantha

Sabe-me bem esta ausência da Chris. Persiste um incómodo subterrâneo que tanto pode ter origem na preocupação com o seu paradeiro, como na angústia de a todo o momento ela regressar, como ainda na sensação de culpa pelo bem que a ausência me sabe. Os amigos dizem que ela não regressará antes do fim das férias, dando a entender benevolamente que ainda terei um enorme verão de paz. Não confio nos amigos quando têm o oblíquo propósito de me reconfortarem. Nestas coisas, como em outras, confio mais na minha intuição, apesar de apresentar um saldo profundamente negativo.

Sendo eu um céptico militante, concedi sempre à intuição um lugar marginal, e dei-lhe apenas as oportunidades em que não dispunha de métodos mais deterministas para me decidir. Hoje, uso a intuição numa forma desesperada: torna-se cada vez mais improvável que a intuição falhe outra vez!

Não foi a intuição que me levou a Samantha. Foi o desejo, foi a vontade, foi a força, o impulso interior, base da sobrevivência.

Não recordo a primeira vez que desejei Samantha. Nem serei capaz de recordar todas as vezes que a quis. Com algum esforço conseguiria lembrar todas as vez que foi minha, porque foram poucas... Mas é um esforço inglório. Samantha vive no seu próprio mundo, indiferente a mim e aos outros inúmeros que a desejam. Olha para cada um de nós com desdém, imune aos afectos, centrada apenas naquilo que considera valer a pena. Joga com o seu poder de sedução e sabe tornar-se a mais bela de todas, desviando aqueles que a querem dos seus caminhos seguros e banais. Pega no mais humilde de nós e, querendo ela, eleva-nos à figuração suprema da glória.

Corro o risco de que pensem que Samantha é uma mulher fácil - como é costume dizer-se das mulheres que não se fixam eternamente na exemplaridade de um macho. Seria lamentável porque Samantha é a mais difícil das mulheres. Dá-se, é certo, a quem ela quer. Mas estabelece para isso padrões de muita exigência e distribui os seus favores com o critério de uma deusa. É ela quem escolhe e decide. Invertem-se então as relações causa-efeito dizendo que o melhor é aquele que ela escolheu. Samantha define então o que é bem e mal e torna-se ainda mais desejada.

Amo Samantha desde que a vi pela primeira vez. Devo mesmo tê-la amado ainda antes, apenas pelas descrições que ouvi. Falava-se de Samantha - tal como se fala hoje - como o ser perfeito para fazer de um homem um deus e levar ao céu a cabeça coroada de um humilde. Amo Samantha ainda. Não com o impulso desregrado da juventude, nem com a pressa da inquietação, mas com a serenidade reflectida de dar sentido a cada dia.

Não é vergonha dizer que não fui, nem de perto nem de longe, o favorito de Samantha. Apesar do que cada um sente ser muito seu e exclusivo, e a mim ter Samantha dado bastas vezes o privilégio, sei ver de muitos outros a quem Samantha mais vezes e mais alto levou ao paraíso.

Continuo a amar Samantha. Persigo-a no dia a dia, já sem a imprudência de outrora e intuindo que só muito esporadicamente terei os seus favores. Mas também é verdade que antes parecia que só nela era possível sentir o mundo e hoje, aprendidos os truques que a natureza tem para nos moldar, sei que há mais e melhores lugares para viver.

Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

quarta-feira, junho 21, 2006

Bandeira

Não tenho que saber o lugar de onde vim.
Não tenho terra, não tenho a obrigação do regresso nem a justificação da sedentariedade.
Fico onde estou enquanto quero ou as circunstâncias são propícias.

Não tenho que saber quando cheguei.
Submeto-me aos relógios do instante e aí encontro abrigo
Parto logo a seguir ao amanhecer quando a luz já é firme.

Não tenho que dizer como me chamo.
Os sons que se propagam no ar trazem sempre um nome.
Não é aí, na denominação de origem, que seguro os meus mitos.

Não tenho que jurar fidelidade à evidência.
Procuro restos nos caminhos perdidos da invenção.
Faço o meu caminho pelos atalhos que tornam a certeza mais distante.

Não tenho que preocupar-me antecipadamente com a morte.
Voo todos os dias sobre penhascos e incandescências.
Flutuo placidamente em rios de lava e espanto-me com todo o vazio.

Não tenho que jogar às escondidas com o sentido.
Passo abertamente à frente do medo e defendo-me gritando.
Compro todos os dias o jornal para embrulhar e manter quentes os sonhos.

Não tenho que gemer os sofrimentos.
Quebro um elo de cada vez e fabrico a importância do desejo em golos doseados de líquido incolor.
Cubro o olhar com lágrimas para consumo interno.

Não tenho obrigação de acompanhar os tempos.
Faço o meu lugar como faço a barba pela manhã à procura do rosto que reconheço.
Subo um degrau de cada vez com a lentidão própria de ficar a saber como descê-lo.

Não tenho força para resistir ao vento forte.
Dobro-me inconstante à passagem da tempestade, ignorante dos objectivos supremos.
Uso o meu corpo para ser outra vez, outro lugar, outra coisa.

Não tenho que ter amor aos símbolos nem às divindades.
O meu cosmos é o maior e o menor de todos, e descreve-se a si próprio como lume herdado da natureza.
É vão discutir: importa apenas o lugar onde nasce a palavra.

Sísifo

segunda-feira, junho 19, 2006

Postnove

Como sabes, não adianta nada a submissão. Foi uma perda de tempo acreditar que as cedências de hoje poderiam ter compensações amanhã. Acreditar, como acontece nos jogos e nas batalhas, que um ligeiro recuo pode ser estratégico para a posterior vitória. A vida é um jogo, desde que não seja a nossa. Quando está em campo o sofrimento próprio, o cinismo enterra-se na sua inanidade.

Mas também sabes que não nos submetemos por estratégia. A inteligência, como o gozo, tem um horizonte temporal curto, sucumbe rapidamente ao sentimento, perdendo aí o confronto com a ilusão. Acreditar, como acontece no teatro e no comércio, que a simulação é uma táctica fecunda para obter do outro o benefício. A vida é um teatro, desde que não seja a nossa. A realidade coincide com aquilo que cada um sente.

Sabes que episodicamente consegui fugir da minha realidade. Cedi, fui ao encontro do que manifestava o teu desejo e a tua vontade. Ensaiei os modelos de destino que não subscrevia. E depois de uma cedência – depois de uma perda – aprendi que vem sempre outra e outra. Acreditar, como acontece nos sequestros e no dever, que há um resgate que compensa o valor do risco. A vida é uma prisão, desde que não seja a nossa. Do formato equívoco da vontade nasce o outro equívoco da liberdade.

Só muito mais tarde soube – e não sei se tu sabias - que com a experiência não aprendemos nada que antes não soubéssemos. Testamos a liberdade por descargo de consciência, para sentir que o tempo passa na direcção certa. Acreditar, como acontece nos laboratórios e no amor, que o acaso - ou Deus - pode ter um dado viciado a sortear números impossíveis. A vida tem um destino, desde que não seja a nossa. Não me interessa o que está escrito em nenhum livro que me nomeie.

Sei que não sabes que eu não sabia que não era possível.

Aibieme

quarta-feira, junho 14, 2006

Pérolas (VIII)

o fui ler muitas vezes mas ainda não o sei de cor.

terça-feira, junho 13, 2006

Vertigem

Fui avisado a tempo de que não deveria falar da verdade.
Disseram-me porquê e não esqueci, apesar de as razões serem absurdas e inqualificáveis.
É, portanto, com conhecimento de causa que minto.

Avisaram-me que não me aproximasse demasiado dos precipícios.
Que não olhasse o sol directamente nem me expusesse à fúria da tempestade.
Que não enfrentasse o mar nem o deserto sem instrumentos de navegação.
Que não me deslocasse para a beleza encantadora da neve sem me cobrir com agasalhos.

Há sempre alguém ao longo da estrada que me mostra no seu passado as feridas.
Dizem, com boas intenções, que devo aprender em vez de arriscar.
Há sempre alguém no içar incompleto da bandeira que diz saber do que fala.
Diz das dores que o corpo padeceu para encontrar o caminho de que se queixa e orgulha.

Eu oiço, por pensar que é possível que alguém saiba alguma coisa nova.
Tinham-me avisado que as palavras poderiam ser perigosas.
Tinham-me dito, quase em segredo, que constava não terem permanecido vivos os que tinham contactado com a verdade.

Hoje poderia ser, por tudo isto, uma pessoa avisada e consciente.
Pode dizer-se que se conjugaram os astros e as razões para que fosse um homem feliz.
Houve em todo o processo, em todo o andar da carruagem, sinais benignos e informações construtivas.

Hoje poderia estar aqui entretido a descrever as minhas vitórias e a queixar-me com o mesmo orgulho das derrotas.
Poderia estar aqui a enunciar conselhos e a mostrar caminhos.
Poderia estar a mostrar a voz da experiência e a zombar dos erros da ingratidão de cada um.

Mas a coisa correu bem.
Continuo a ser capaz de dizer que não percebo o que aconteceu.

Sísifo

Interesseiro

A mim interessa-me pouco o interesse. Interessa-me não me interessar por nada e ter com os outros interesses a relação calma e saudável de quem sobrevive. Porque não interessa nada a ninguém que eu tenha ou não tenha interesses. Num certo sentido é mesmo isso que me interessa. Que os interesses que tenho sejam tão pouco interessantes que, digamos assim, não haja interessados em interessar-se pelos mesmos interesses que eu. É nesse sentido que não tenho interesses. Claro que me interesso por coisas interessantes. Mas as coisas que considero interessantes não têm geralmente interesse nenhum. É por isso que quase sempre as outras pessoas acham desinteressantes os interesses que me interessam.
Poderia enumerar aqui uma série de coisas desinteressantes que me interessam muito particularmente. Mas como parto do princípio que não interessam a ninguém, não há interesse nenhum em divulgar de forma desinteressada os meus modestos interesses.
Não deixa de ser curiosa – ia dizer interessante – a ideia de considerar modestos os interesses particulares. Porque ao dizer modesto eu estava interessado em realçar o interesse que os modestos interesses têm. Interessa-me, portanto, que o que quer que eu diga dos meus interesses seja inferior ao interesse que deveras lhes atribuo. Por outro lado não me interessa rigorosamente nada que os meus interesses sejam muito particulares. Não é aí que vou buscar o seu interesse. Interessa-me sim que os meus interesses sejam mesmo interesses meus e não interesses que tomo emprestados dos interesses de outros apenas para que os meus interesses não sejam assim tão particulares. Interessa-me também que o interesse que as coisas que me interessam têm, seja um interesse bastante superior ao meramente interessante. Porque entre estar interessado em estar interessado e estar interessado em parecer interessado vai uma interessante diferença.
Se me interesso por alguma coisa - e seria interessante sabê-lo - e se esse interesse que sinto é um interesse muito particular - e desprezo por desinteressantes os interesses que não são particularmente particulares - então é interessante reconhecer - e cá está um interesse particular - que não é o interesse que me interessa mas o que há de interessante nas coisas que me interessam, mesmo que não interessem a mais ninguém.

Prólogo

domingo, junho 11, 2006

Efeméride

Parece haver uma boa razão para as religiões evitarem nomear o Deus que as define. Digo-o numa perspectiva científica, racionalista e razoável: acredito que há sempre uma causa para todo o efeito.
Em tempos, nas minhas investigações, explorei a hipótese de ser uma tentativa de evitar a banalização. Parecia-me que a sistemática enunciação de um Nome, ainda que divino, Lhe haveria de provocar um indesejado desgaste e consequentemente uma perda de valor de Mercado. Quando percebi que os valores de Mercado têm estranhos comportamentos retirei a hipótese: um Nome é muito mais valioso pelo nível de notoriedade do que pela qualidade percebida. O conceito de Bom Nome é pura retórica que não alimenta ninguém. Falem de mim, ainda que mal, mas falem.
Noutra fase acreditei – é inevitável o recurso à crença – que se omitia o Nome por respeito, por consideração pela Entidade cujo reconhecido mérito ultrapassava toda a contingência e toda a compreensão e deveria por isso, ser digno de permanente homenagem. Não foi difícil descartar esta hipótese através da simples observação da contabilidade das instituições. Enriquecer não é um direito mas um dever. O Mercado é o desejo de saciar todos os desejos.
Houve outras hipóteses irrisórias que nasceram e morreram sem mérito nem heroísmo, permanecendo a causa do efeito na sombra dos mitos. Se a ciência não sabe esqueçamos a ciência.
Sobrou, no entanto, a convicção de que a História tinha acumulado dados de experiência que conduziram ao tabu. Uma lei que não possa ser compreendida será imposta pelo medo. Ficou, por isso, para um não crente como eu, a crença de que o Nome não deve ser dito. Não é em vão que o tempo deixa Marcas. A omissão do Nome é uma marca da Evolução, como o oxigénio que respiramos; como a posição erecta do corpo; como a visão sobre a zona mais abundante do espectro solar; como o polegar oponível; como os nove meses de gestação...
É essa a razão porque omito os nomes. Não digo, não pronuncio os nomes de quem gosto. Evito os nomes das coisas. E daquilo que odeio tento nem pensar o nome. Ultimamente esforço-me por não memorizar os nomes que ouço. Os nomes das pessoas, os nomes das instituições, os nomes das empresas, os nomes das marcas, dos políticos, dos artistas, dos escritores, os títulos dos livros, das músicas, dos filmes.
A verdade é que agora não quero saber nenhum nome, nem apelido, nem alcunha, nem número de identificação...
Se eu dissesse o nome da coisa horrível de que estou a falar, estaria inadvertidamente a promovê-la e a aumentar o seu valor de Mercado.

Artur Torrado

sábado, junho 10, 2006

Pérolas (VII)

Para um jornalismo decente não há como a imprensa independente!

quinta-feira, junho 08, 2006

Cleptomania

Aqui não há nada de novo!

terça-feira, junho 06, 2006

Por um partido político para a defesa dos tumores

- D. Yolanda, chamei-a aqui para a informar que tem um tumor no cérebro.
- Oh! Doutor! E é grave?
- Como tudo na vida depende do ponto de vista.
- Então o Doutor quer dizer que é benigno!?
- Bom. Seria pouco ético estar a tecer considerações sobre a bondade do tumor. Como sabe devemos manter-nos equidistantes e preservar a nossa independência em relação a tudo o que possa constranger a correcção dos nossos procedimentos.
- Não entendo Doutor. A minha vida está em perigo?
- Eu não queria ser muito literal porque certamente, mais tarde ou mais cedo, serei prejudicado quando me citar fora do contexto em que estou a produzir estas afirmações.
- O Doutor preocupa-me...
- Por quem é, não precisa de se preocupar comigo, D. Yolanda. A sua qualidade de minha paciente atribuída aleatoriamente pelos computadores do serviço nacional de saúde, é para mim um ponto de honra uma vez que foram as virtudes do acaso que nos juntaram neste momento histórico.
- Comove-me a sua dedicação...
- Analisando a sua questão sobre a 'gravidade' do tumor no cérebro eu penso que deveríamos chegar a um acordo sobre o conceito de 'gravidade' que vamos, neste caso concreto, partilhar. O que é que significaria para si ser grave?
- Porra, Doutor! Quero saber se vou morrer com isto!
- ...
- Peço desculpa...
- Eu compreendo a sua exaltação. Não é todos os dias que nos dão assim notícias que nos tornam uma situação excepcional. Devo entender que se preocupa com a morte...
- Claro, Doutor. Sou jovem. Tinha um futuro à minha frente...
- Em primeiro lugar quero que perceba que não sou eu o responsável por você ter essa coisa dentro da cabeça.
- Sim, eu sei... ninguém é responsável.
- Gostaria que compreendesse que do meu ponto de vista muito pessoal o seu caso não é grave.
- Não?!
- Se você fosse uma doente minha de catálogo, daquelas que chegam à minha procura de maneira activa e empenhada e procuram os meus serviços personalizados, eu até consideraria o seu caso como uma grande sorte para mim.
- Oh, Doutor...
- Mas não foi assim. Não há em si uma vontade explícita de ser minha doente. Chegou a mim por acaso. Não é provável que se entregue confiadamente nas minhas mãos. Depois de mim irá a correr procurar uma segunda e uma terceira opinião até que algum dos meus doutos colegas consiga tocar na corda da sua sensibilidade e determinar a sua crença.
- Eu estou a confiar em si. Só quero saber o meu destino.
- A D. Yolanda não consegue perceber que está na presença de um profissional. Eu não sou um amador. Faço umas horas aqui no hospital mas a minha vida não acaba aqui. Eu não posso considerar o seu caso grave quando ele tem o potencial de aumentar a minha conta bancária. Mas percebo que para si pode ser grave porque vai fazer baixar a sua.
- ...
- Do ponto de vista social é mais ou menos indiferente, apesar de a palavra tumor ser muito complexa, difícil e dolorosa, tem conotações à esquerda, traz alguma revolução, provoca alguma complexificação da coisa social. Mesmo assim é pouco relevante.
- ...
- Já do ponto de vista biológico é uma coisa do domínio do bem. Os tumores são uma espécie minoritária apesar de terem algum relevo social. Antes não se dava conta deles, estavam dentro dos sistemas socialmente aceites. O tumor era uma causa natural de morte. O que não é o mesmo que morrer atropelado por um eléctrico, ou como a morte química ou bioquímica ou radioactiva.
- Acha então que eu vou morrer?!
- Além da questão discriminatória. A perturbação das espécies. Um tumor é um objecto que tem em vista a diversidade biológica e por isso tem que ser preservado. Nesta minha faceta de funcionário público não liberal não vou querer tratar disso. Mas no meu consultório tenho que velar para que a ciência progrida.
- Vou morrer...
- Os concidadãos vão muito solidariamente pagar para tratar o seu tumor. Um tumor é um propriedade pessoal e portanto não deveria ter-se a preocupação de responsabilizar a solidariedade social com o seu problema. Como seu concidadão também não estou minimamente interessado em participar, ainda que modestamente, na resolução de um problema que é seu. A não ser que quisesse que a tratasse particularmente. Sem recibo. Sem provas. Eu não me posso envolver numa situação que me ultrapassa. Eu poderia ter-me dedicado à política. Poderia ser um autarca. Aí sim, a minha função seria preocupar-me com os problemas dos cidadãos.
- Vou morrer...
- Como médico estou preocupado com as variantes que vão florindo da natureza. Não tenho estrutura de açambarcamento moral. Interessa-me muito o ponto de vista do tumor. Uma forma de vida que deveríamos adequadamente proteger. Como médico sinto que o tumor tem muito mais a dizer-me, é muito mais atraente, do que a pessoa que o transporta.
- Já não tenho esperança...
- A D. Yolanda há-de reparar que há milhares de pessoas preocupadas com a vida de pessoas como a senhora. Agora diga-me: e os tumores? Quem se preocupa com os tumores? Que culpa têm os tumores para serem rejeitados por todos sem lhe darem sequer a oportunidade de se defenderem?
- Eu morro...
- Haverá um dia, D. Yolanda, em que os tumores hão-de mostrar a sua força e a sua importância. As pessoas vão perceber que têm estado a ser egoístas, que remeteram os tumores para um gueto e lhes retiraram direitos. É uma questão de tempo. A biodiversidade dos tumores, a ecologia dos tumores, os tumores como minoria marginal à sociedade. Incompreendidos, rejeitados, sem direitos, ...
- Adeus, Doutor.
- Isso, vai-te embora louca intolerante! Nunca perceberás. Esta gente é tão limitada que não enxerga os verdadeiros valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Como é que há gente que consegue ser tão insensível com os pobres dos tumores...


Lino Centelha

(ocorreu-me este diálogo ao saber que se tinha formado na Holanda um partido para legalizar a pedofilia, a pornografia infantil e a zoofilia...)

sábado, junho 03, 2006

Pérolas (VI)

Este texto investe em várias frentes.

sexta-feira, junho 02, 2006

A Fhelícia

Voltei a casa. A Chris não está. Há muitos vestígios da sua presença mas não sei dizer há quanto tempo saiu. Não deixou nenhum recado.
Estou inquieto. Não sei que pensar desta ausência da Chris. Tinha-me preparado para chegar a casa e encontrá-la no sofá predilecto em frente à televisão, respirando pesadamente ao ritmo do zapping, e comentando as imagens com a voz arrastada e rouca de fumo. Há um efeito de estranheza quando uma ausência desejada se concretiza. Não sei da Chris, sei que não está, mas sinto-lhe uma presença próxima, como uma doença de que um medicamento apagou os sintomas por algum tempo.
No estendal da varanda há uma bandeira. Apercebi-me quando as costuras das pontas soltas bateram contra o vidro da janela. Pensei no patriotismo da Chris. No seu apego às pernas musculadas e aos abdominais dos rapazes que fazem da bola a sua profissão.
Não mudou muita coisa na minha ausência. Os lugares vazios continuam a ser os mesmos. Agora volto para o lugar vazio que é o meu e deixo de ser o sem-abrigo que realmente nunca fui. Perdi peso e ganhei olheiras com este tempo que errei pelas margens da cidade fugindo ao mesmo tempo da Chris e de mim próprio.
Agora que repousei e tenho a mente mais lúcida, ocorre-me o nome Fhelícia. Há dias, na rua ainda, tinha-me lembrado dela. Das suas formas, da sua habitual roupa espampanante, do seu aroma a violeta, da voz profunda e rouca, do rosto belo e estático em que a expressão permanecia inalterável, da solidez do andar, do cabelo longo e negro, do peito acolhedor e firme, da surpreendente força do seu abraço. Não me lembrei do nome. Terá sido por não me lembrar do nome que voltei para casa. Fiquei perturbado por não saber como chamar a um todo que me enchia a mente e que, por instantes, se tinha tornado tão real que parecia estar em condições de lhe tocar. Voltei a casa, penso agora, com a intenção de me lembrar de um nome cuja ausência me assustou.
Lembro-me agora do nome Fhelícia. Exactamente com a mesma nitidez com que lembrei as suas formas.
Fhelícia foi uma mulher de que fugi. Não da maneira que fujo de Chris pela infelicidade que me provoca. Fugi de Fhelícia quando descobri que nunca seria capaz de amá-la. Deixei-a, aumentando sistematicamente a distância que me separa dela e não olhando para trás a não ser para ter a certeza que havia tempo a passar. Fugi de Fhelícia numa época de fugas. Aproveitei para fugir de muitas coisas ao mesmo tempo incluindo este rosto que me tentava com paraísos impossíveis.
Não sou capaz de recordar com pormenor os primeiros tempos. A aproximação foi fácil como é fácil conciliar ingenuidades, mas nunca foi total. Havia sempre um mas, um excesso de promessas que faziam hesitar um pobre desconfiado. Durou alguns anos o idílio, demasiados, enfim, para o que hoje me parece uma decisão inevitável.
Fhelícia seguiu o seu caminho - muito maior que o meu - hoje é uma estrela, brilha e alimenta milhares de fantasias, multiplica-se na sua versatilidade de mulher que tudo consegue. Constrói o seu império e reconheço-lhe agora uma frieza que então me iludiu. Cheguei a temer que me faltasse alguma coisa que me tornava incapaz de me deixar encantar por ela.
Hoje sei que na rua, longe do abrigo, distante do equilíbrio de um nome, corre-se o risco de Fhelícia aparecer nos sonhos.


Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

quarta-feira, maio 31, 2006

Ofensas (1)

Em mil novecentos e oitenta e dois disse-lhe, já não me lembro por que razão, que lhe queria emprestar o "Escuta, Zé Ninguém!" de Wilhelm Reich. Ela recusou dizendo que não se sentia o público alvo do livro.
Ikivuku

sexta-feira, maio 26, 2006

Brancura

Constrói-se uma dor na ausência. O espaço do vazio é lugar onde há uma coisa que não está. Há, então, para o vácuo, uma história. Um antes e um depois. E uma memória.

Vejo, quando vejo, o que está e o que não está. Leio, sobre a superfície opaca, letras de dimensão nula que a cor das superfícies identifica com a diferença.

Não quero enganar ninguém: o meu tema hoje é o nada. Não quero que se pense que há aqui alguma coisa escondida que se não percebe. De facto não quero que se pense.

Por vezes, em textos menos claros, aparecem palavras que parecem ter coisas para dizer e que criam a ilusão de haver alguma coisa por detrás. Dessas vezes o meu propósito, algo infantil, é enganar, fazer ver coisas que não existem nem sequer na minha imaginação. Aparece, nesses casos, um vulto ténue, que se insinua nos pensamentos e faz crer - pura crença, portanto - que é alguma coisa, que respira, que age, que mente e saltita na forma pouco perspicaz da velocidade.

Hoje é diferente. Falo da própria entidade que não existe e que, por isso, está mesmo por detrás da palavra que se omite. Não querendo dizer nada que não seja, digo, desde já, que o que digo não é.

Percebe-se que o meu obscuro mito é a honestidade. Percebo eu, pelo menos, quando, como agora, quero justificar-me de não saber. Não há justiça nenhuma no acaso. O que é o mesmo que dizer que a única entidade justa é a contingência.

Se eu tivesse um pouco mais de génio - e deixo em aberto a sua conexão com a inexistência - ousaria subtrair das palavras, aquelas que de uma maneira ou de outra já estão mortas.

Eu revelo: a minha frase fundadora é: no princípio era o verbo. De cada vez que digo, ou que o verbo se diz em mim, estou a substituir nada por vazio absoluto. Vazio dissoluto.

Gosto do verbo. Gosto de absurdas categorias gramaticais, códigos usados para esconder o que se quer mostrar. Gosto que sobre os lábios ocorram súbitas oclusões que fazem dar ao gesto sinais já antes perdidos.

Não há solução para o problema da ausência. Pede-se a um objecto que permaneça no seu lugar dando-se-lhe com hipótese de vida uma prisão. Espera-se portanto, deseja-se, que o que está continue e não se ausente de ser verdade.

Há objectos rebeldes. Decidem por si o lugar onde não estar. Criam lacunas no empilhamento regular dos horizontes. Fluem sempre a uma certa distância do olhar.

Hoje era dia de não afirmar. Também não era dia de negar. O meio termo ficou perdido no lugar estranho e o avanço foi confirmado por uma carta anónima.

Mais tarde ou mais cedo tudo se sabe. Essa é a esperança repartida em múltiplos de sete pelo olhar opaco da insistência. Não interessa nada que nada tenha interesse. No fim, seja isso o que for, não há-de restar nada também.

Consegue sempre provar-se o impossível. Existe, dizem que existe, um processo fiável de olhar para o passado e reconhecê-lo. E aquilo que não é, tanto pode estar no passado como no futuro. Digo eu que hoje tinha a intenção de me deitar cedo sobre uma metamorfose de que há muito deixei de gostar.

Há quem diga que nada se propaga à velocidade da luz. Poderia ser um mero jogo de palavras. Mas não é um mero jogo de palavras: é um jogo de palavras.


Prólogo

quarta-feira, maio 24, 2006

Pérolas (V)

Não sei se é perceptível. Mas esta pérola fez-me lembrar este texto:

"...

Saio depois da cozinha e vou até ao quintal dar de comer à Pequena. Chegou trazida pelo Fernando, que a encontrou num jantar de Natal na vila há alguns anos, a vaguear por entre as mesas do restaurante, ainda pequena. E Pequena ficou em mim, mesmo que tenha acabado por crescer. Vejo nela o coração aberto que o meu filho Fernando sempre teve, trazendo-a para casa e dando-lhe um tecto onde se proteger e onde, ainda hoje, enrolada na mesma manta de há anos, dorme

- Dorme, Pequena.

digo-lhe eu todas as noites quando fecho a porta do barraco e a protejo do breu que a noite traz.

..."
(pág. 96 de "Todos os Dias" de Jorge Reis-Sá)

sexta-feira, maio 19, 2006

Saliva

O meu único ódio é o vento.
Talvez seja exagero chamar-lhe ódio.
É uma impossibilidade de entendimento.
Não o escuto, não lhe dou ouvidos, não o atendo.
Não o quero nem compreendo porque me persegue.

No esforço rotineiro de subir a encosta, no complicado sistema de satisfação que construí, rola uma inconsequência em que acabo sempre por descortinar o vento.
Sopra sobre as árvores à procura de distâncias que não compreende e arruma os meus sentidos em lugares de exaustão e de impaciência.

Um dia, há muitos anos, provavelmente há muitos séculos, perdi o sentido do gosto.
Num rasgo de impossibilidade, morreu-me o prazer de saborear.
Não foi num momento mas em vários.
O sabor das coisas passou a ser uma paisagem visível a cada vez maior distância.

Poderia ter ficado cego ou surdo.
Mas as bárbaras ocorrências da sorte viraram-me contra o vento e contra mim.
De cada lado de uma fortuita sombra surgiram então memórias de sabores que já não sabia.

Não é justo que culpe o vento, eu sei.
E sei também que nunca serei justo para além de uma pequena proximidade do ódio.

Soube em tempos que o ódio nascia do medo.
Depois esqueci e preferi que o medo nascia do ódio.
Depois, muito depois, procurei razões e justiça e braços abertos que se fechavam sem razão nem justiça.

Só odeio o vento.
Embora seja menos do que ódio isto que sinto pelo vento.

Inevitavelmente procuro uma gradação nas palavras.
Comparo-as, reduzo-as a significados menores ou a espaços vazios que possam entusiasmar-me.
Odeio o vento mas amo a palavra vento que soa bem aos meus ouvidos e parece querer cantar.
Respiro a palavra vento.

Seria bom que as palavras existissem sem aquilo que dizem.

Sísifo

quinta-feira, maio 11, 2006

Vagas

Poderia pensar que o sol me incomodava. Torcidos que estavam os dias e os sentimentos parecia que a escuridão haveria de proteger os sentidos.
Mas não aconteceu assim.
Não voltaram os fantasmas e o sono foi calmo, a própria consciência adormecida, encolhida na suavidade fácil da almofada. Não tenho ainda notícias claras de que o medo fez a viagem de regresso. Sinto-me acompanhada nas minhas teorias da pobreza. Não percebo porque isso me anima tão pouco. Deveria ser agradável sentir a proximidade.
Mas procuramos desesperadamente a popularidade, a aprovação da maioria, mesmo sabendo que a maioria aprova por não pensar, apenas pela vaga sensação de que deve seguir nesse sentido. Custa que a sintonia se faça com tão poucos.
É dramática a ilusão que vou encontrando nas maiores certezas. Tudo o que vai fluindo é apenas o rasgo aproximadamente inútil de um gesto que se perdeu em flagrante delito de impaciência. Não me restam muitos caminhos no meu desengraçado processo de ilusão. Passo os dias e as noites embriagada de potenciais. Tudo assente na vaga solução de nada poder acontecer ainda que venha a ser uma agradável surpresa.
Nem me engano nem desengano. Supero cada instante como se fosse heroína, sabendo de antemão que é apenas a letra garrafal que ofusca o fracasso, pensando ao mesmo tempo que esse fracasso é de facto um sucesso inacessível às maiorias e aos acasos do momento.
Não adianta muito - não adianta nada - toda esta lamentação - admitindo que isto é uma lamentação.
O pormenor é sempre um desgosto. A alegria é a coisa global e abstracta, a coisa pública, a fachada do edifício que morre lentamente. A alegria é a potência do tempo, sinal apenas de ocasiões inexistentes, forma a conformar aspectos de inegável vazio.
Não tenhamos ilusões, a perda, o lado da desgraça, é a essência, o detalhe que encobre cada superfície pintada de fresco, macrocosmos do nada, envolto em ilusões vagamente alicerçadas em desconfiança e pudor.
Nada se é fora do incómodo de ser. Difusas luzes podem, por momentos, questionar o nada e a decadência. Outra vez o potencial de não ser. Divagações entrecortadas de legitimidade e afirmação. Nadas que se sobrepõem à sensação e à certeza.
Não adianta querer reforçar o medo, tudo é informe e destroçado na origem da própria confirmação.
Já não me peço significados nem decisões. Limito-me a despachar cada dia como se fosse um dejecto e pego no segundo seguinte com luvas esterilizadas.
Não há forma de o desejo permanecer coisa desejável. Vira-se o olhar para o lado e lá está, de novo e ainda, o peso de uma consciência perdida.
Ignoro. Agora ignoro tudo. Agora quero que me não digam nada do que se está a passar. Quero a ignorância, a ideia vaga de que poderia ser de outra maneira. Prefiro ficar só com a minha difusa imaginação. Fecho os sentidos. Encerro a actividade para um inventário infinito.

Beatriz Teresa

segunda-feira, maio 08, 2006

Dinâmica

Primeiro aprendemos que as histórias começam pelo princípio.
Fica, desde então, o vício paciente de esperar.
Sabe-se, por que sei, que mais tarde ou mais cedo haverá um momento em que tudo começa.
Alinham-se por isso as frases de uma maneira que possa parecer diferente.

Antes de tudo, interessa saber como foi que as coisas começaram.

Dizem que foi no mar.
Há muito tempo, depois de tempestades incompreensíveis.
Dizem que foi por acaso.
Num momento em que nada diria que havia coisas para acontecer.
Dizem que foi num instante.
Ninguém estava lá para apreciar a dor dos protagonistas.
Dizem ainda que não houve milagres.
Dizem também que só há milagres onde alguém os espera.

É fácil passar do particular ao geral.
Difícil é permanecer no particular e sentir contentamento com a prosaica realidade.
Fácil é correr velozmente pela simplicidade concertada da abstracção.

Agora que estamos aqui a olhar para a complexidade inútil das ondas e a medir o sentimento, que admitimos ter começado algures, num momento em que não estávamos atentos ao contador de histórias, façamos um amigável brinde a todos os princípios que ainda não sabemos mas sabemos que nos esperam, ainda que seja numa qualquer espécie de fim.

São válidos todos os caminhos para regressar.
Os sonhos já foram todos apagados pela incerteza.
Há vestígios comuns nos lugares onde já não conhecemos.

Voltámos, como sempre, sem saber aonde.
Nada interessa do que a memória conserva a não ser os desejos.
Dizem que os desejos começam todos no princípio...


Prólogo

domingo, maio 07, 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

Postoito

Não, não é culpa. Volto atrás apenas com a ideia de aprender. Procuro entre os erros que cometi, aquele ou aqueles que foram mais importantes. Sinto que tenho o direito de saber. Procuro entre os erros aquele ou aqueles que melhor possam assumir significados e ser razões. Mas não é culpa. Como sabes, decidi abolir a culpa. Sentia-me demasiado só, demasiado carregado, ao assumir as culpas de tudo e de todos como se apenas eu tivesse errado. Era demais para um corpo só, para um corpo frágil, sem estrutura para ficar soterrado nas toneladas de resíduos que todos deitavam fora com a maior da volubilidades. Era demais. Não era eu que tinha de ter a culpa toda de tudo. Fiz, por isso, o mesmo que os outros: renunciei à culpa. Primeiro à culpa, depois à responsabilidade. Por uma questão de justiça. Por uma questão de sobrevivência.
Sim, eu sei que tu estás convencida que a culpa foi toda minha. Mas até aí ainda não cheguei. Ainda não sou capaz desse grau de pureza de te considerar a culpada de tudo. Isso ainda não consigo. Mas continuo a tentar. Sei que perco bastante tranquilidade em não conseguir essa ausência. Sei que estaria num outro degrau da realidade se conseguisse olhar para ti como causa única de tudo o que é mau e, assim, descansar de vez a minha consciência. Mas, por enquanto, tenho de conceder essa limitação da minha personalidade. Talvez venha daí o meu esforço em querer perceber o que se passou. Busco nos erros, epifanias. Busco nas falhas, sensibilidade. Busco nos desvios, reorientações. Busco nos desastres, o acaso. Busco nas fugas, a tua mão.
Disseram-me que era uma questão de tempo. Como o peixe que continua a crescer na imaginação do pescador que o apanhou, assim é o meu entendimento da história. Virá um dia em que não seremos mais do que estranhos. Estranhos mais estranhos que os que nunca se conheceram. É isso que esperamos do tempo, mais do que a cura das feridas ou a redução do medo. O que faço agora no passado, é espreitar cuidadosamente as gavetas nunca abertas e tentar apanhar os sonhos que voaram. O mais estranho é nunca te encontrar nesses lugares...

Aibieme