Roubei os sonhos do Paulo Moura no Público
domingo, setembro 16, 2007
Vácuo
Aceito que nos passos que descrevem um percurso há uma equação universal,
Nos pequenos pormenores de todos os dias sou capaz de ver teorias de tudo,
E nas dobras coloridas dos caminhos encontro referência a leis fundamentais.
Aceito que esse possa ser o campo de uma razoável crença.
Leio, na escuridão preenchida de estrelas, obscuros romances inacabados.
Sinto, no esforço muscular da subida, as marcas da escultura do tempo.
Percebo, na violência cinzenta do vento, a harmonia frágil da consciência.
Ouço, próximo da margem do rio eufórico, a atracção universal dos corpos.
Sonho, quando a força já não obedece, a equivalência entre a dor e a luz.
Acima das nuvens há um horizonte maior,
A distância sobre a verdade transforma todas as coisas em pequenos nadas,
O relativamente difícil torna-se relativamente fácil,
E os dons que suponho anteriores a cada gesto, tornam-se súbito acaso.
Descer de novo à terra e à sua vã esperança é um suave tormento.
Cada ciclo aproxima-me de distâncias cada vez maiores.
A mancha cinzenta do real revela-se em pormenores escurecidos,
E das paredes húmidas desce o aroma acre do sofrimento,
Enquanto se testam, sob os rochedos, formas dementes de destruição.
Não era isso que tínhamos pensado no início.
Queríamos saber apenas como esgotar nos poros a curiosidade;
Vasculhar a profundidade e o exagero, com prazer e delírio.
Queríamos encontrar uma razão que soubesse muitas razões.
Queríamos tomar connosco o tempo como companheiro de viagem;
Sacudir, na gargalhada ocasional, a certeza biológica do efémero.
Mas há, no discurso ambíguo da inteligência, lugares abandonados ao seu destino,
E o opaco medo de não ser, parece resistir a todas as tentativas de clarificar a natureza da matéria.
Sísifo (sobre a bomba de vácuo)
zunido por Anónimo at 10:00 p.m. 2 zunzuns
quinta-feira, setembro 13, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007
Público Embolado
Estamos mal de adjectivos. Há falta. Nota-se que a procura excede a oferta e, num certo sentido, pode mesmo falar-se em crise. Hoje em dia é difícil encontrar um bom adjectivo. Passam-se semanas sem que apareça um que nos faça olhar duas vezes. Mesmo aqueles que eram considerados adjectivos caros, passaram a ser usados no dia a dia e perderam o valor e o interesse. Gastaram-se. Eu já nem sei, quando me apercebo que estão a usar um adjectivo assim para o pesadote, se estão a adjectivar ou se estão a gozar comigo. Provavelmente é uma questão de gradação. Talvez haja falta de níveis (falta de nível há de certeza). Talvez o problema não esteja no adjectivo mas na força com que é usado. Que fazer quando uma frase, uma simples frase, escrita às três pancadas e deixada a correr num texto de prosa taxada à sílaba, pode ser apelidada de extraordinária? Suponho que não se pode fazer nada. Tem que se esperar que a poeira assente e a ganga hiperbólica se gaste com as múltiplas lavagens. Mas por enquanto há que aguentar. Parece que vivemos no topo do mundo. Tudo o que acontece, mesmo que banal, e temos que reconhecer que à vista desarmada é tudo banal, é adjectivado com o topo de gama da adjectivação. Nem seria mau se fosse por brincadeira. Se fosse uma sofisticada ironia (eu leio sempre como se fosse uma sofisticada ironia para me proteger dos efeitos secundários depressivos). Mas o colosso hoje pode não passar de um miserável engano sobre multidões. Um vermezinho que consiga o olhar simultâneo de uma multidão hipnotizada, é um monstro mediático. Como não há muitas coisas a serem propriamente alguma coisa que valha, há que adjectivá-las superlativamente para que passem a existir nos intervalos do seu próprio vazio. Daí o consumo excessivo de adjectivos. Daí a falta. Daí a sensação de irrealidade quotidiana de que já há uns anos o Eco fazia eco. Tive um amigo, que talvez ainda tenha se não se perdeu num comparativo de superioridade, que todas as vezes que me encontrava tinha para contar a melhor anedota que alguma vez ouvira. Como ele estava adiantado no tempo. Este agora é um tempo em que temos que viver aos saltinhos, com gritinhos de prazer à mistura. Cada momento superlativo do anterior.
Suponho que uma das razões para a crise de adjectivos é a proliferação de jornais gratuitos: muito em breve já ninguém estará disposto a pagar por um bom adjectivo, confundido pela mata densa de adjectivos menores. Soube há pouco que das redacções do Público e da Bola vão sair, até ao fim do ano, as notícias necessárias e suficientes para um novo gratuito. Não querendo deixar de colaborar em tão benemérita empresa, proponho daqui, para escolha de quem de direito, que o novo jornal se chame Bola Com Creme ou Público Embolado...
Ikivuku
zunido por ikivuku at 11:11 p.m. 0 zunzuns
domingo, setembro 02, 2007
Gente feliz com transgénicos
Ao que parece, entre os vários festivais de verão que este ano contribuíram gloriosamente para o aumento do consumo de cerveja e outras substâncias, ocorreu um que não colheu a unanimidade das aprovações e até indignou o nosso grande Vasco. Várias pessoas - que se costumam acotovelar a contestar a justiça de fecharem fábricas lucrativas, deixando dezenas ou centenas de pessoas no desemprego - ficaram desta vez escandalizadas por ter sido destruída uma área significativa de plantação de milho transgénico, sem que a polícia tivesse, pelo menos, feito correr um bocadito de sangue.
Dizia hoje um jornal que existem no mundo 102 milhões de hectares cultivados com plantas que sofreram alterações genéticas de laboratório. E os proprietários destes hectares cultivados são gente feliz que muito provavelmente morrerá próspera e de saúde. Com o apoio da ciência genética conseguiram contornar as Bíblicas pragas e produzem em cada metro quadrado quantidades tais que se garante a breve prazo o fim da fome no mundo... Pode ser que sim embora haja um curioso excedente mundial de alimentos que é destruído para não fazer baixar os preços...
Bom. Mas estávamos a falar de boas intenções e não vamos agora borrar a pintura.
Os malandros que destruíram a plantação estão convencidos - ou agiram como tal - de que os organismos geneticamente modificados (OGM) introduzem nos ecossistemas variáveis que não resultaram de uma adaptação natural e podem ter efeitos perversos a longo prazo. De uma maneira pouco ortodoxa e pouco eficaz, resolveram agir por conta própria, executando eles próprios o réu antes de ser declarado criminoso.
O que pensam estes malandros é o mesmo que pensam os cientistas genéticos, mesmo os que não se pronunciam para não estragarem o ganha pão: não se sabe nada seguro sobre os efeitos da generalização dos transgénicos. Sabe-se apenas que o famoso cancro resulta de uma modificação genética espontânea numa célula que é bem sucedida e ganha vantagem sobre as outras...
De um ponto de vista de crescimento económico e progresso, pode dizer-se que os OGM são um salto em frente... Se correr bem haverá pão com fartura, se correr mal haverá novas oportunidades para encontrar soluções fantásticas para os problemas que surgirem...
Se correr mesmo mal... bem... é assim... é melhor não pensar nisso, já não vou estar cá para assistir.
Torcato Matos
zunido por Anónimo at 10:10 p.m. 1 zunzuns
zonas: ciência, inimputabilidade, torcato
sábado, setembro 01, 2007
Quero ir para dentro de um átomo
Numa estatística apressada e sem base científica - não me peçam a ficha técnica - a questão que mais visitas traz a este blogue é saber "tudo sobre a água". A culpa é de um post do Artur, com o título "tudo é água". Não me parece que os incautos visitantes fiquem satisfeitos com o texto que lhes é proposto, mas não tenho maneira de evitar esta espécie de boa vontade que o Google tem em dar gato por lebre.
Logo a seguir, na mesma estatística, um outro equívoco: quem procura imagens com a palavra "voar" encontra a dada altura a injustiça deste link. Injustiça porque a mesma imagem poderia ser encontrada na casa do seu autor - Revelações... Avulsas - com o bónus de poder percorrer um histórico de igualmente belas imagens.
Hoje, cerca das 21 horas, alguém chegou aqui por ter dito ao Google: "quero ir para dentro de um átomo".
O sitemeter diz não saber a origem da pergunta, e eu acredito. Que é que nos impede de ir para dentro de um átomo?
Houve um tempo em que me dedicava a imaginar um limite para a divisão dos objectos. Cortar ao meio uma folha A4 dá duas folhas A5. Cortar ao meio uma folha A5 dá duas folhas A6. Cortar ao meio uma folha A6 dá duas folhas A7... Por aí afora... A dada altura nos meus dedos já só havia pó mas as contas diziam que eu deveria continuar a cortar o pó ao meio. Tinha que fechar os olhos para tentar chegar a ver essa pequenez que me desafiava, e não via senão o desejo de ver algo que já não estava ao meu alcance.
A ciência é uma fé que temos uns nos outros, e eu acreditava no que me diziam os livros, e confiava que aquelas pessoas que tinham imaginado mais longe, eram de uma casta que não mentia.
Havia um ponto em que já não era possível dividir mais: peças de lego que não havia maneira de poderem ser vistas a não ser agrupadas em grandes quantidades. Mais tarde soube que a história não acabava aí e que o indivisível não era assim tão indivisível.
Também me ocorreu a perplexidade de pensar que este terrivelmente grande universo em que vivemos, poderia não ser mais do que um electrão de um outro universo ainda maior. E que um electrão qualquer, dos que povoam a matéria aos magotes, poderia ele próprio ser um universo inteiro. Mas por muito encolhido que me fizesse, nunca ocorreu essa bela experiência de ir para dentro de um átomo.
Zumbido
zunido por Zumbido at 11:11 p.m. 2 zunzuns
sexta-feira, agosto 31, 2007
Postdezassete
Às vezes penso, como tu, que era bom que eu fosse outra pessoa. Era melhor que em vez de este eu que sou, fosse outro eu que não este. Em vez deste silêncio pouco amável, um outro silêncio ruidoso que enchesse o espaço e a razão. Em vez desta cor baça feita de cinzentos, tons vistosos de fogo e de céu nascente. Em vez deste movimento lento de tarde de verão, a vertigem ágil de perseguir o tempo. Em vez deste pacto insípido com o acaso, o prazer de decidir sobre as coisas e saber de todas elas o lugar certo.
Era assim não ser eu: identidade por identidade, corpo por corpo, sentido por sentido. Nenhum gesto ainda reconhecível: outro lado, outro lugar, outra sombra, outra certeza.
Provavelmente não serás só tu - e agora eu - a pensar assim, a pensar como seria melhor se em vez de ser eu aqui fosse outro aqui, outra imagem e outra verdade, outro riso e outra oportunidade. Haverá outras pessoas a chegar a essa conclusão difícil, de substituir uma função por outra e nenhuma intenção por alguma. Num plano muito pessoal essa até poderia ser uma forma de definir a escorregadia seta do tempo.
E eu agora, neste confuso mergulhar do verão, apenas consigo encontrar formas de concordância. As mais demonstráveis das verdades têm sido claras a denunciar que não é assim que se é. Há um mundo inteiro de razões, móveis e bem sucedidas, a dizer em voz alta que os caminhos se trilham de espada na mão e olhar no alto. E hoje, por estes dias, não me sobra energia para contestar a veemência dos que sabem e estão seguros de saber que sabem.
Uma casa é um buraco. Para os devidos efeitos uma casa é um buraco. Um lugar onde estamos supostamente protegidos do mundo e da sua gratidão. Mas numa casa, num buraco, não se muda uma vírgula ao discurso, nem se muda de pele, nem de medos, nem de desejos. É do exterior que nasce a diferença, é do exterior que pode surgir o impossível.
Concordo. Era bom que eu fosse outra pessoa. Teria outros pensamentos e escreveria outras coisas que talvez até fosse capaz de ler.
Concordo. Era bom que eu fosse outra pessoa.
sábado, agosto 18, 2007
Férias
Vêm aí as férias e já estou cansado das férias que aí vêm.
Também estou cansado de estar à espera das férias.
Cansa-me pensar em férias quase tanto como estar de férias.
Faço férias das férias de que estou cansado.
Faço de conta que faço férias, descansando das férias que fiz enquanto o trabalho esperava sentado.
Assim faço render as férias para que durem até às próximas férias.
Quando vou de férias espero ficar de férias para sempre, isto é, não voltar das férias.
Porque o regresso das férias é um verdadeiro tormento.
Passo as férias todas aborrecido com a ideia de que as férias vão acabar.
E cansa muito pensar que as férias têm um fim.
Fico cansado a pensar que dali a uns dias, as férias, que ainda não comecei, já acabaram.
É terrível pensar nisso.
Mas é nisso que tenho pensado.
Que daqui a dias vou estar de férias, mas numas férias que mais dia menos dia acabam.
E pensar que mais tarde ou mais cedo as férias que um dias destes vão começar, acabam, dá-me uma angústia mortal e uma vontade enorme de que não seja verdade.
Suponho que é por este cansaço acumulado de estar a pensar que as férias que ainda não comecei vão acabar que estou mesmo a precisar de férias.
Mas as férias de que estou a precisar não são estas férias que vou ter mas outras que não fossem, como estas, tão angustiantes.
Precisava de umas férias em que desde o primeiro dia não estivesse preocupado por saber que as férias que eventualmente me vão saber tão bem, não podem ser assim tão boas porque vão, a dada altura ter um fim.
E não há nada mais angustiante que um fim de férias.
Os dias finais, quando poderíamos estar a ficar realmente adaptados ao sabor pleno dos dias de férias e em que, numa boa hipótese, já nem pensássemos que as férias têm um fim, são, afinal, os dias em que o fim já se aproxima a passos largos e coloca o peso insuportável do fim das férias em cima das nossas costas juntamente com a bagagem.
Mesmo que as férias sejam em casa.
Mesmo sem sair de casa a bagagem pesa.
Porque ficando em casa sem sair, para ter efectivamente férias, aumenta ainda mais a angústia do fim das férias.
Porque no fim das férias é necessário ter uma memória qualquer de férias que possa preencher aquele espaço quadrado onde ficam inscritas as férias como definição.
Não tendo essa memória, as férias ficam indescritíveis, no verdadeiro sentido do termo.
E sendo assim não é possível ficar tranquilamente à espera das férias se não se tem a expectativa de as férias serem num lugar descritível qualquer.
O dilema torna-se verdadeiramente voraz:
Ter férias pressupõe uma carga de trabalhos.
Não ter férias é assumir uma estranha personalidade anti-social.
Ficar em casa nas férias corresponde a aniquilar um ano inteiro de tranquilidade.
Estou muito cansado de pensar nas férias.
Aproximam-se como um monstro, uma tempestade tropical.
Se eu estivesse empregado pelo menos teria menos tempo para pensar nisto.
Torcato Matos
zunido por Anónimo at 11:32 p.m. 1 zunzuns
sexta-feira, agosto 17, 2007
Longe
À distância, o cimo da montanha não se distingue da base da montanha.
Isso poderia ser uma razão suficiente para não me preocupar em estar num lugar ou noutro.
E foi assim que senti sempre o meu lugar, estivesse no topo ou na base do gigante megalítico.
Entre o alto e o baixo da rigorosa construção dos elementos, não seria eu a escolher ou dizer o melhor.
Para a natureza indiferente, uma e outra coisa têm um lugar que não permite hierarquias ou ordens.
E eu faço parte, queira ou não, dessa indiferença da natureza.
À distância, qualquer que ela seja, a diferença que se encontra entre as diferenças, é mínima.
À medida que a distância aumenta, as diferenças tendem rapidamente para zero.
E seria fácil rever as diferenças e pensar que as diferenças mínimas não chegam a ser diferenças.
Quando a montanha parece, assim como hoje, íngreme e cheia de impossibilidades, olhar para ela a grande distância, ainda que apenas pelo olhar da imaginação, tem esse efeito de colocar as diferenças numa medida que possa ser medida com o curto discernimento que acolho.
Vejo ao longe a altura imensa que transponho e o peso imenso que transporto, e tudo parece menor e mais leve, deixando ao passo o seu ritmo mais fácil e veloz.
Do olhar distante recolho ensinamentos dúbios que auxiliam por momentos a relatividade fortuita dos sentidos e das dores.
À distância, pode olhar-se para o outro lado da terra e não ver senão grãos de areia, e, semeadas nela, cores que encantam e disfarçam as abissais diferenças que para sempre ficam ocultas.
Mas é essa mesma indiferença que me arrasta para o largo horizonte.
Lá em cima vêem-se as mesmas estrelas, à mesma distância e com as mesmas cores.
Mas há mais estrelas e o céu é mais imponente.
Lá em cima a diferença é maior... e a indiferença também.
À distância este ocaso que me preenche é invisível excepto para mim.
Vejo os astros a moverem-se coordenados como se tivessem uma intenção e me ignorassem.
Penso que é o meu o olhar que lhes dá existência e com isso tento sobreviver.
A minha função de observador do céu, dá sentido ao mesmo céu - retira-o da inutilidade.
No topo da montanha falo com os astros que não me escutam.
Tento escutar os astros e ouço silêncio.
O que quer que eu diga esgota-se na curta distância da minha voz.
Passa-se qualquer coisa com a natureza que não se liga a nada nem a ninguém.
Deve ser isso que nos humanos é errado.
Pressupor que a distância pode apagar todos os ecos e todas as diferenças.
Gerar nas mentes o esquecimento.
Diluir com rapidez os sentidos e as formas.
Mas no fim persistir em algum lugar um vazio que só a natureza inorgânica é capaz de suportar.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Verão?
Franca mente com todos os dentes e unhas cada vez que diz pensa logo que existe ânsia na distância da terra com o horror de coisas aos molhos a atafulhar o sótão dos macaquinhos de imitação grosseira, contra a facção que tinha o poder de ficcionar as histórias da caras ou chinas imperiais bem tiradas à noite no terreiro do passo lento do fulano de domingo que plácido clorídrico entra discreto pela montra da loja de porcelanas.
Franca mente todos os dias crónicos agudos, surdos de desespero temperado com saltos do alto da sua importância relativa, improvável sentimento de revisão da matéria dada a baixo custo, saldo de verão mesmo os cegos de nascimento e ocaso do colar roubado em pleno sarau de ginástica ri-te Mica de delgadas mil lâminas que barbeiam mais rápidas que a própria sombra da azinheira que zomba de tudo desde que se tornou ex-trela que prendia o gato e o rato à sua posição de firme convicção e propósito como se fosse sem crer em nada nem ninguém que, como todo-o-mundo, sabe tão pouco que não chega a saber que não sabe.
Franca mente orgulhosa mente feliz mente, uma família inglesa criada e nada que se aproveite no mar da ignorância resoluta a subir com o aquecimento glu-glu como o peru que morre no natal dos animais que nunca souberam falar de carne e de peixe e de outras formas rudimentares de vida extra-terrestre de aquém e de além marte da guerra dos sem ânus que por tal rebentariam de riso com a forma oca dos que sofrem por agosto e com sentimento, delirante de conteúdo e reforma que haverá quem pague uma excentricidadezinha do interior desde que não seja o meu próximo a saber de onde vem a sorte.
Franca mente deliberada mente oficial mente da noite para o dia, filha de mãe em código morsa de dentes afiados pela rebarbadora mor do treino, fogo fátuo de gala e gola comprida, beira alta, virada para a direita de prior, idade média a rondar os mil menos poucos e bons pais de família que se ficam bem à mesa do orçamento grátis pelo correio sentimental e físico imoral como todas a muralhas que seguram a legítima verdade do reino.
Franca mente de mente e corpo são domingos e dias livres da prisão de ventre que dança com lobos nossos irmãos pela parte da mãe natureza morta de tédio e boy de jogo electrónico sorteado num sem curso nem diz coisa com coisa nossa de cada diagnóstico que crê no que não vê à noite quando os gratos são parcos e na dízima infinita periódica se somam totais e notas de música trocada por miúdos com guitarras e lérias, trocadilhos e troca de ilhas e penínsulas conforme as estranhas doenças que pairam na frente genética que me perdoa os pecados da culpa molecular.
Franca mente social mente frontal mente como tem que ser para ser como deve ser e mostrar à exaustão as coisas que ela ainda não viu nem quis ver com medo de ter medo do que poderia ver.
zunido por prologo at 11:38 p.m. 0 zunzuns
quarta-feira, agosto 08, 2007
Comparação
No estado puro o pensamento talvez dispensasse a informação do tempo. Mas nunca sairia do seu lugar original. Vogaria em círculos sobre a mesma paisagem, e se não chegasse ao tédio seria por desconhecimento. Mas o estado puro é também ele um sonho, ou mais propriamente um pesadelo.
Na realidade, chamando realidade a este lugar que habitamos com os nossos sonhos, há em cima de cada desejo um peso extravagante de formas, sentidos e perdas. Tudo junto numa bola de trapos que permanece inquieta entre os dedos.
Mas aos sonhos dos outros não chegamos. Arquivamos as frases melhores e sorrimos quando a memória atraiçoa mais um momento que se perdeu. Sobre esse estrado de emoções constrói-se outro andar da torre da nossa Babel interior. Claro que o objectivo é o céu.
Que fazer quando, sobre o tabuleiro, parecem esgotados os movimentos que garantem a vitória? Como viver sem essa vital substância da comparação? Como permanecer no lugar em que não se é sempre o primeiro? Como sentir alguma coisa quando sobre o sentir paira sempre a ave abrupta da imposição?
Quando nasci não me questionei sobre a liberdade. Tinha outros propósitos, e alimentar-me era o que me tornava vivo. Ao pé de mim passou o tempo e houve um instante em que devo ter sentido que o vento era mais forte do que eu. Terá sido aí, pelo acaso de um momento, que me apercebi da estranheza do lugar. Nada do que tinha pensado era autêntico, e olhar para as coisas com atenção não era suficiente para as ver.
Haviam outras formas e outros mundos, outras idades e outras estranhezas, outras manchas e muitos outros sonhos. De cada lado da certeza surgia uma verdade diferente e a cada uma delas eu poderia designar suprema se isso fosse a minha vontade. Também porque em todos os sentidos a minha designação era inútil e a minha vontade etérea.
Nasci num tempo em que já todos os objectos tinham nome. Mesmo as coisas que não se sabia o que eram, eram coisas. E às coisas que eu ainda não sabia que eram coisas chamava aquilo. E o tempo passei-o eu todo a aprender os nomes das coisas, a saber de cor as cores e o números e a tentar arranjar outra coisa que o dicionário ainda não soubesse.
Tempo ganho é tempo perdido de outra forma. O passo que se dá para a frente já tem o seu ocaso no próprio passo. Mas nenhum sonho o distingue de outro. Nenhuma comparação.
Sabes? Não é possível chegarmos a sonho nenhum. Nem aos nossos nem aos dos outros. Este lugar onde ocorrem os nossos sonhos é tão irreal como os sonhos que temos deste lugar. Depois de virarmos uma esquina há sempre outra esquina para virar. E, por causa dos sonhos, as esquinas são sempre outras. Isto é o que se sabe. Haverá outras coisas que não se sabem. O que dói muito a dizer.
Aquilo que eu queria, aquilo que teria feito as coisas parecerem, segundo os meus sonhos, diferentes, era a hipótese, ainda que remota, de haver algum sentido oculto, coisa ainda sem nome, que valesse a pena procurar. Essa seria a razão mais que suficiente para andar por aí, no maior dos tédios, a alimentar o corpo.
quarta-feira, agosto 01, 2007
Por outras palavras...
Mil anos de trabalho precário
"Não existe um clima de medo. A precaridade no trabalho é que tornou as pessoas subservientes."
António Arnaut, Visão
zunido por Zumbido at 1:44 p.m. 2 zunzuns
zonas: inimputabilidade
quarta-feira, julho 25, 2007
domingo, junho 24, 2007
Surpresas
Neva no topo da montanha.
O frio e a sua mancha branca regressaram.
Os ciclos, desanimados com a rotina, preparam surpresas e tempestades.
Os caminhos tornam-se indiscerníveis e os passos marcam-se pesados.
Transporto um mundo às costas e com ele a minha vida.
Não é muito nem pouco, apenas o essencial.
Restos de coisas que foram restos de outras coisas.
Como o nosso corpo é o resto dos outros corpos que o fizeram.
Mesmo que eu não saiba ou não queira saber, houve alguém antes de mim e haverá alguém depois.
Os passos que ficam na neve serão tão efémeros como o meu medo.
Lá no topo, as horas são mais longas e o frio mais frio.
Agora que a temperatura é baixa ninguém lá vai, e a solidão é sólida.
Em nenhum caminho me cruzo com outra palavra.
Apenas o meu monólogo de louco que não quer ser.
Quando se fala é contra o silêncio.
É o único que perece perante a voz.
E o que digo, e digo porque penso, é mais do que penso e digo.
Há também a voz do vento.
Voz que diz o que sabe, como se soubesse.
E é o vento a coisa mais humana que encontro nos lugares altos onde me empurro.
Para todas as coisas é necessário estar preparado.
Mas há tanta variedade de coisas, que acontece sempre uma surpresa.
E depois, na surpresa que nos surpreende, não há nada de novo...
Esse não é o meu caminho.
Não estou à espera de surpresas.
Estou como se estivesse preparado para todas as surpresas.
Jogo com elas e esqueço todas as suspeitas.
O que vier a seguir é ainda uma daquelas coisas que podem ser.
E o que pode ser, o que está dentro do horizonte das possibilidades, faz parte do saco grande de surpresas que na infância soubemos estar à nossa espera.
Não sou eu que espero as surpresas no topo da montanha.
São elas que estão pacientemente à minha espera.
zunido por Anónimo at 11:11 p.m. 2 zunzuns
zonas: frio
sábado, junho 23, 2007
sexta-feira, junho 22, 2007
Postdezasseis
No lugar onde moro há fantasmas. Passam de um lado para o outro a zunir, com um propósito que me ultrapassa. Suponho que os trouxe de outros lados, mergulhados no meio dos livros, agarrados ao pó dos objectos ou simplesmente embrulhados numa colecção de memórias mais ou menos oblíquas. Mesmo ouvindo mal, ouço-os à noite a roer o tempo, desprevenidos do súbito silêncio de uma casa oca de sentidos.
Como noutras ocasiões em que me adaptei ao ruído sombrio que vem do prólogo do universo, também se tornaram familiares as deambulações equívocas dos espectros. Há em todas as perturbações um carácter efémero que logo a seguir pode provocar a nostalgia da ausência. Deve ter sido isso que não percebeste.
Tinha-te dito, com alguma ênfase, que não há à minha volta lugares abandonados. Depois de algum tempo de espera o meu lastro cresceu e cada passo que dou é outra vez o primeiro dos últimos.
O que te assustou foram os fantasmas. Poderia dizer-te, como se soubesse, para te aquietar, que são seres inofensivos. Poderia ter falado deles com carinho e mostrar que estão aqui como outras coisas em que ninguém repara. Que sobrevoam as cabeças como se se divertissem e dão gargalhadas alarves que podem perturbar os incautos, mas não vão além da sua centelha de virtualidade. Poderia e deveria tê-los defendido para te defender a ti deles.
Mas eu não sei. Estabeleceu-se, temos de reconhecer, entre mim e o resto-do-mundo, para simplificar, um desentendimento que oscila vigorosamente entre o formal e o estrutural: não sabemos, nem eu nem o resto-do-mundo, se há alguma razão para nos salvarmos. Por isso, e por outras razões certamente, não sou capaz de dizer coisas positivas sobre os fantasmas que moram cá em casa, ainda que com o mero propósito de te fazer sentir mais confiante nas sombras que rasam em velocidades vertiginosas as cabeças que tentam aqui em casa descansar o tempo.
Terão sido eles a fazer-te ir embora abruptamente. Desentendidos das ciências dramáticas não souberam respeitar um rosto que já conheciam bem. E depois, há no gesto brusco de fugir uma mímica própria da libertação que os fantasmas não entendem, livres que são de saber sonhar.
Por outro lado, comigo não acontece nada de especial por sair de casa. Alguns fantasmas, quais anjos-da-guarda, seguem-me pelos caminhos, mesmo que não sejam os meus caminhos, e por isso acostumei-me a tê-los sempre presentes, o que espero, num futuro próximo, tenha o dom de em qualquer lugar, seja onde for, esteja onde estiver, me sinta sempre como se estivesse em casa.
terça-feira, junho 19, 2007
sexta-feira, junho 01, 2007
"Palavras soltas"
Vasco Pulido Valente, no Público de hoje
zunido por Zumbido at 11:11 p.m. 6 zunzuns
zonas: roubarte
Ácido
Nada tem que ser como eu tinha pensado.
Os frutos caem da árvore sem chegarem a perguntar porquê.
Circulam os afectos da mesma forma que a água pelos canais.
E nas sombras mais obscuras não se escondem monstros nem gemidos.
Aquilo que conta quando se fazem as contas sem fazer de conta, é o que se sente quando se sente.
Sobre o abismo que se avista do topo da montanha paira sempre a tonalidade húmida de um certo infinito.
O relativo abandono gera no coração uma vaga sensação de perda.
Como se nos confins onde custa a chegar fosse necessário um ar rarefeito.
Cada momento de azul que amanhece sobre o horizonte é uma dose suplementar de incerteza.
Vê-se, ao mesmo tempo que se ouve a monotonia dos passos a trilhar a areia, o rasto sistemático da repetição e a atracção sublime do espaço.
Não saber acaba por ser o destino mais natural.
Oculta sobre a névoa está a ambição e a prática corrente de comparar os sonhos.
Todos concorrem para afastar o pensamento do seu caminho.
Nem sempre chego ao topo com a mesma ansiedade.
Dias há que parecem claros e luminosos.
Aí, os sons são mais soltos e as verdades menos necessárias.
Cumprem-se os rituais e retoma-se o canto na dobra mais simples do mapa.
Um dia, quando, por acaso, se reunirem as condições especiais, vou pensar em todas as consequências de subir e descer esta montanha, sem que nada de sagrado me obrigue, a não ser esta genética que ocasionalmente conformou as moléculas emprestadas ao meu corpo.

