quinta-feira, agosto 31, 2006

Pausa higiénica

Por motivo de inventário encerramos para balanço. Por motivo de balanço encerramos para descanso do pessoal. Por motivo de descanso do pessoal encerramos para desratização. Por motivo de desratização encerramos para greve geral. Por motivo de greve geral encerramos os serviços mínimos. Por motivo de serviços mínimos encerramos para inventar. Voltamos, se o Blogger quiser, a nove de setembro. Amen.

Postonze

Estes foram os dias de que no futuro me vou lembrar como felizes. Pouca coisa, movimentos apenas suaves, esboços de coisas maiores, alguma guerrilha de interesses, alguma atenção ao esforço de crescer, muito gesto desusado para querer impressionar e a voz alta a incomodar os vizinhos. Lá fora o sol caía com estrondo incendiando os matos e a indolência, e eu ouvia músicas que preenchem agora imaginações de doze anos.

Estes foram dias que daqui a alguns anos ecoarão no meu ocaso como aqueles que valeram a pena. E por nada, claro. Como é próprio das coisas boas não se apresentarem vestidas de cores garridas nem precisarem de publicidade institucional. Dias passados, portanto, a rever em câmara lenta doze anos de história que entretanto passaram a interpor-se entre hoje e o inicio das coisas. Rapa-se pela primeira vez o bigode ralo e escutam-se do corpo os primeiros sinais de exigência. Já há alguns estragos no coração e ciúmes por sms. Aos doze anos já se percebe mal o que o outro diz e não se quer perder nenhum dos movimento no tabuleiro. Os químicos sobem ardilosamente a determinar a vontade superior da natureza.

Soa bem dizer que amanhã recordarei estes dias como aqueles em que fui feliz. Como se tivesse agora uma boa razão para chegar a amanhã e assuntos estritamente pessoais para lembrar e dar volume à importância dos afectos. Ele tem agora doze anos e passa por mim nas férias enquanto caminha para o seu próprio e exclusivo rumo. E eu vejo, enquanto sigo o meu, e comovo-me, claro, porque vai ali um bocado de mim. Porque ressoam na imagem e nos actos memórias de mim que já tinha esquecido para sempre, arrumadas de vez com os calções e a boina.

Estes dias que agora já estão na reserva quente de se tornarem os meus dias felizes, puseram-me na frente o espelho de outros anos que também poderiam ter sido os mais felizes e não foram por nenhuma razão. Apenas porque não estava disponível para ter doze anos, porque não sabia como era e é difícil, perante um corpo que se quer erguer para passar a ser, de uma maneira abrupta e rebelde e entusiasmada e arrogante e determinada, resistir à tentação de exercer a autoridade de aligeirar a alegria e formatar o ego novo em réplicas amorfas do que se julga ser a evidência.

Fiquei bem desta vez ao vê-lo sair de novo para a rotina suave do dia-a-dia. Ficou comigo esta impressão estranha de os dias virem a ter a sua memória feliz. O olhar agora é o mesmo de há quinze dias e os braços prendem o afecto com a mesma força. Mas ficou por aqui a pairar pela casa oca um som de música para doze anos que ainda não sabe senão da superfície das coisas e brinca com isso como se fosse verdade. E não há como dizer que vai ser sempre assim, que os laços que prendem a certeza são frágeis e voam livres logo que podem.

Estes foram os dias de que no futuro me vou lembrar como felizes.

Aibieme

quarta-feira, agosto 30, 2006

Conselhos sensatos

Ao ler no límpido e sereno blogue "Por outro lado" o poema de Pablo Neruda, "Morre lentamente", ao que percebi muito conhecido, identifiquei não sei se definitivamente, o que me incomoda em determinada "poesia" que, como o "IF" de Rudyard Kipling, pretende ser um guia de comportamentos, cheio de boas intenções e espírito construtivo.
E o momento exacto em que se fez luz foi no verso "fugir dos conselhos sensatos". Que é este poema senão um conjunto de conselhos sensatos? Que faz Pablo Neruda neste poema senão indicar-nos aquilo que ele considera o caminho certo?
Ora o que eu estou à espera na poesia, e só assim consigo chamar-lhe poesia, é que não me dê conselhos, porque se o fizer vou considerá-los conselhos sensatos e fugir deles a sete pés.
O que eu estou à espera num poema é que não use nem a minha lógica, nem lógica nenhuma, para me dizer alguma coisa que eu tenha suficiente dificuldade em entender por ser nova para a minha interpretação corriqueira dos dias e ter a animação mental ou emocional adequada a corromper-me sem cheirar a chá de tília.
O que eu estou à espera num poema é que esteja lá outra pessoa que não tem a veleidade de querer pensar em mim e muito menos por mim.
Estou à espera que o poema seja um sítio selvagem onde talvez eu possa perder-me ou não. Um sítio em que até posso ter medo de entrar, não por ser pouco recomendável, mas porque me desafia nas minhas seguranças e nos meus instintos. E fujo logo que me acenam com um lenço branco.
Mas não estou à espera, e já vi que me aborreço, que o poeta tenha a intenção de me formar, ainda que use um discurso potencialmente subversivo e anime o texto derrubando com serenidade os lugares comuns.
Não estou à espera que o poeta saiba mais do que eu, embora eu saiba que ele sabe mais do que eu se for poeta.
Um poema assim, a ser poema, é uma oração, uma lista de projectos, o outline da mudança industrial. Ou um guia para escuteiros. Ou um decálogo para substituir outros decálogos tornando a vida uma revisão periódica de regras e de conselhos sensatos.
É um texto bonito e simpático, mais não seja porque casca na televisão. Mas não é um poema. Não será por isto que Pablo Neruda é poeta.

Ikivuku

A dificuldade de ler (49- C4/P1)

O sétimo congresso internacional de Literatura Inclusa (7CILI) reuniu este ano em Pexiligais, Sintra, um conjunto de especialistas que ultrapassou todas as expectativas tanto dos organizadores, como dos próprios especialistas, como dos restaurantes da zona pouco habituados a enchentes e a paladares apurados. Cátia Meleças, cozinheira estagiária da Casa de Pasto "O lameiro - especialidades de marisco e frango assado" apresentava umas enormes olheiras quando questionada sobre os hábitos gastronómicos do Dr. Isidro Medário, insigne autoridade nacional em Literatura Inclusa (LI). As olheiras não foram provocadas pelas questões mas pelo excesso de trabalho.
"Tinham-me dito que o estágio ia ser calminho mas passei a última semana a assar frangos." "O doutor Isidro é muito simpático, sempre bem disposto e mais de beber do que de comer." "Não, não tocou no frango, ficou-se pelas entradas e pelas sobremesas. Ainda lhe disse que eram frangos garantidos, com alimentação biológica e isentos de corantes e conservantes, mas ele disse que se estava a reservar para os cofee breaks do congresso e por isso não podia abusar." "É uma pessoa delicada, muito atenciosa e com muito bom gosto. Até disse que eu era muito bonita para estar metida numa cozinha." "Disse que um dia destes vem com mais tempo e talvez traga a família para apreciar estes ares do campo." "Espero ainda cá estar quando ele vier para lhe fazer um belo almoço. Ou jantar que nós também servimos jantares durante o verão." "Não, este ano tirando o congresso foi muito pequeno o movimento. É da crise, claro. As pessoas preferem ir passar as férias ao estrangeiro porque cá ficam muito caras." "Eu é que agradeço, se precisar de mais alguma informação é só dizer."
A inusitada multidão que se reuniu em Pexiligais obrigou a que as comunicações principais tivessem sido apresentadas ao ar livre por não haver lugar, nem cadeiras, nem ar, que chegassem, no interior da tenda relativamente gigante que tinha sido propositadamente montada para o efeito. A enchente teve ainda o efeito de pela primeira vez reunir num mesmo congresso as várias correntes da LI, que se opõem violentamente entre si, e só aceitaram estar presentes devido à proverbial neutralidade e inocuidade do nosso país e à garantia da presença permanente de uma batalhão da polícia de intervenção.
O tema central do 7CILI foi a Qualidade da Literatura Inclusa (QLI). A comunicação mais aguardada veio pela mão de Stalislav Oreky, poeta Estónio que nos anos noventa iniciou uma verdadeira revolução na LI, ao fazer acompanhar cada novo livro de um certificado de qualidade e de um manual de instruções.
(continua)

Torcato Matos

Infecção

Tenho medo de novos afectos. Protejo-me agora de ver mais além que o minuto imediato. Não preciso já de relógio porque o tempo não é importante para quem não espera senão uma coisa. Submeto qualquer súbita lembrança ao escrutínio de uma razão obsessiva para que não passe nenhum pó que emperre ainda mais a engrenagem. Interessa-me um caminho limpo e liso, regular e regulável, avesso às surpresas e às intrusões do acaso. Não olho para o que se passa à minha volta mais do que os minutos necessários para saber que me é indiferente. Persigo com as forças que me restam um horizonte em que as nuvens sejam apenas as necessárias para que o jardim se renove sem sede.

Disseste um dia, toldado pela demência de quem não sabe mais do que sente, que o meu rosto habitaria para sempre os teus sonhos. E eu que não acreditei porque tinha a habilidade de perceber que não sabemos dizer mais do que aquilo que achamos que devemos dizer, acreditei na mesma que isso queria dizer que sabias de mim e querias guardar-me junto com as tuas verdades. Já nessa altura lutava em mim a confusão de querer estar ao mesmo tempo em dois lados, no céu e no inferno, na alegria e na dor, no verão e no inverno, contigo e sem ti.

Não sei como é que te posso dizer agora isto quando já não estás e sei que não voltarás a estar porque, e isso nem sei como dizê-lo, me ocorre que nunca estiveste verdadeiramente mesmo sabendo que isso não tem significado nenhum. Cada hora tem a sua própria e individual razão, o seu próprio e individual ressentimento. Sigo os rituais, portanto. Acompanho o passar dos dias como se fossem diferentes uns dos outros e houvesse alguma coisa a desejar para além de que não doesse muito. É um desejo simples, como vês, esperar por nada sabendo que nada vem a seguir.

Eu poderia ter tido gestos mais eloquentes. Poderia ter representado melhor o meu papel, sem medo nem contradições, nem medo das contradições. Seria até motivador para mim ter alguém a quem enganar, uma espécie de objectivo de vida que me reformulasse o desejo para além da mente encalhada em monstruosas indecisões. Houve mesmo uma altura em que te pedi um gesto que pudesse parecer começar outra história.

Hoje é fácil ver que tudo o que aconteceu era premonitório. Confesso que me rio da chamada ironia do destino porque sempre me pareceu mais sarcástico que irónico. Mas este sempre é duvidoso: sei lá eu já o que pensava quando pensava outra coisa?! A memória vai-me acompanhando os novos ritmos e dentro dos possíveis poupando a minha consciência do peso das leviandades de outrora. Esquecimento santo mais do que cruel. Perder como forma de ganhar. Luto como forma de amor.

Beatriz Teresa
(post anterior)

terça-feira, agosto 29, 2006

A dificuldade de ler (48)

A noite encontrou Verónica e Guilherme caminhando silenciosos à beira Tejo, cada um procurando resolver de maneira tão prática quanto possível o burocrático enigma da existência. Não há qualquer possibilidade de sabermos o que pensavam, e não é aceitável que sobre isso se especule perante seres que são, eles próprios, incapazes de saberem o que querem ou quererem o que sabem. Poderíamos sem remorsos deixá-los ir até que dessem a mão ou se beijassem ou, inadvertidamente ou de propósito, um deles atirasse o outro ao rio e lavasse daí as mãos. Poderíamos também deixá-los por ora e voltar a encontrá-los mais tarde num capítulo em que a acção deles tivesse necessidade. Há sempre muitas hipóteses para uma história. Mas como é de lei que este texto se constitua documento sobre as coisas que efectivamente se passaram, passamos para o dia seguinte que, como já vimos, traz juntamente com a aurora, a frescura das notícias e a boa-vontade das consciências.
Às dez da manhã dava entrada na esquadra da polícia de Belém a seguinte participação:
"Eu abaixo assinado Arsénio Dias Guilherme Nêutico, filho de Laurinda Dias e Hélio Guilherme Nêutico, nascido a 25 de Abril de 1974, na freguesia de Cabanelas, concelho de Vimioso, distrito de Castelo Branco, venho, por este meio, participar às autoridades competentes, ter sido vítima de um assalto de consequências ainda difíceis de avaliar para a minha integridade física, química, moral e emocional. Os factos a que se refere a minha queixa resultaram num conjunto de actos falhados que me colocaram em cerca de sete meses na situação de dependência emocional de palavras de proveniência não identificada. Apresento por isso a minha queixa contra incertos de quem apenas tenho um número de telemóvel e um endereço de correio electrónico. Suponho tratar-se de uma mulher com elevado nível cultural e intelectual, com escrita elegante e assertiva, convicta das suas opiniões, conhecedora da mente humana, atenta, perspicaz, informada e de uma inteligência extremamente cativante. Perigosa, portanto.
Passo a enumerar os artigos de cuja falta já posso dar conhecimento às excelentíssimas autoridades: 1 - o sono; 2 - o amor-próprio; 3 - a consciência; 4 - o desejo; 5 - a realidade; 6 - a certeza; 7 - o medo; 8 - o apetite; 9 - o emprego; 10 - a ideologia; 11 - o gosto; 12 - a vergonha; 13 - a identidade; 14 - o prazer; 15 - o sonho; 16 - a paciência; 17 - a integridade; 18 - o pudor; 19 - a alegria; 20 - a fé; 21 - a paz; 22 - os amigos. Poderão existir outros de cuja falta ainda não me apercebi devido à extrema confusão em que tudo ficou e por não haver um inventário actualizado de bens que possa ser confrontado com a actual situação.
Rogo o urgente empenho na resolução deste caso. (assinatura legível)".
(continua)

Torcato Matos

Plutão

Sabes, eu queria não saber o que sei, ter a certeza que o que sei não é certo, discordar de mim como se fosse uma frase mal dita.
Queria saber outras coisas que me dessem da verdade outra perspectiva e saber ao mesmo tempo que o que soubesse podia ser tão falso como outra coisa qualquer.
Era fundamental para o meu equilíbrio que aquilo que sei, mesmo quando digo que não sei e me ponho com audácias de pensamento a querer parecer que não acredito que sei alguma coisa, fosse esquecido, obliterado da minha memória, e, mais do que da memória, do automatismo dos meus movimentos e dos meus sentidos.
É uma questão de vida ou de morte.
Quando eu te digo que sei o que quer que seja, e mesmo que não saiba ou queira que penses que não sei, apesar de saber ou me parecer que sei, fico, inevitavelmente, retido no lado mais obscuro da minha dimensão desconhecida e oculto das certezas.
Eu digo-te que sei e espero que saibas ler naquilo que digo uma insegurança no meu saber que eu sei que não tenho mas não tenho a certeza se é uma insegurança real ou apenas uma maneira de te fazer saber que não deves confiar no meu conhecimento.
E ao dizer que não sei, como às vezes acontece, mesmo que saiba ou tenha a vaga impressão de saber, sei que o digo de uma maneira que espera que penses que sei, para que, apesar da minha emissão de ignorância, reste na tua mente a confiança de desconfiares de eu não saber.
Eu sei que quando te digo que sei, sabendo que não sei, corro o risco de ter de me defrontar com a demonstração do meu desconhecimento.
E sei que haverá um dia em que perceberás que há coisas que te disse que sei e afinal não sei e outras que reconheci não saber quando, sem querer, posso acabar por revelar saber.
E sei também que esse momento pode ser uma espécie de libertação de um nó de sabedoria que é demasiado apertado para transportar e partilhar em dias e dias de reconhecimento.
É como se esperasse que tu, lendo do meu saber aquilo que não o é, chegasses àquilo que de facto sei, contornando o meu saber pelo lado de fora e denunciando, ainda que intimamente, a fraude de o meu saber ser outro que não aquele que te digo ser.
E é por saber que queria afinal não saber daquilo que sei e, sabendo outras coisas, conhecendo outras vias paralelas ao meu real percurso, arriscar outro saber e outras certezas que pudesse dizer-te directamente sem necessidade de dizer que sei o não sei e que não sei o que sei.
Eu queria não saber o que sei, estar esquecido da história que se instalou na minha verdade e passar a saber outros gestos e outras poses, outros passados e outros destinos, outros que fossem afinal aqueles que soubessem aquilo que tu também sabes.

Prólogo

segunda-feira, agosto 28, 2006

Pérolas (XIII)

Confesso-me um fanático da Rosarinho. Nem que seja para me livrar das drogas...

A dificuldade de ler (47)

- Que mal tinha para si, Verónica, ser você a mulher que eu amo?
- Que mal tinha?!
- Sim, repare, chego ao pé de si já completamente apaixonado, não precisa de fazer nada para conseguir o meu afecto, está tudo pronto, as partes difíceis da história, a necessidade de sedução, o encantamento, a dúvida sobre o interesse do outro, a pureza dos sentimentos, a absoluta gratuitidade da devoção, o envolvimento hormonal.
- Não estou à procura de namorado nem de paixão. Neste momento quero lutar contra o governo.
- Eu lutaria do seu lado, seria o mais feroz dos adversários do governo, por amor a si.
- Estás-me a propor um namorado pronto-a-vestir?!
- Estou a mostrar-lhe que tenho uma disponibilidade afectiva à procura de objecto. Sem a Verónica sou nada.
- Calma aí! Há uma hora nem sabias que eu existia, pá!
- Desculpe, digo a Verónica como diria outra mulher que estivesse aqui comigo.
- Ao dizeres isso não sentes que estás a colocar-me num plano muito pouco relevante?
- Estou a ser verdadeiro. Estou a dizer o que sinto. Tenho uma paixão deslocalizada e procuro um centro, uma imagem para a minha devoção.
- Não me estou a imaginar num amor pré-fabricado. Não é nada de pessoal contra ti. É o arrepio de entrar numa história que não é minha. Colher frutos que não semeei. Não! É demasiado aberrante. Suponho que não te será difícil encontrar alguém disponível, mas aconselho-te a mudares de método e de discurso.
- É angustiante esta situação. A Verónica não está a conseguir perceber a generosidade da minha oferta.
- Nem tu estás a perceber o que isso tem de humilhante. Tens um problema, por muito aberrante que seja é um problema, e queres alguém que to resolva. É apenas isso.
- Podemos ver este nosso encontro por uma perspectiva de acaso. Calhou-lhe a si receber a minha mensagem.
- Acho que foi azar...
- Do meu ponto de vista, que queria partilhar consigo, o acaso trouxe-a até mim, como se tivéssemos uma missão a cumprir, definida por instâncias superiores.
- Não me faças rir, Guilherme! As instâncias superiores não são o meu forte. Geralmente fazem-me subir a mostarda ao nariz.
(continua)

Torcato Matos

domingo, agosto 27, 2006

A dificuldade de ler (46)

- Compreenda, Verónica, que para mim você poderia ser a mulher com quem troquei palavras estes últimos meses. É uma hipótese a que eu me agarro agora na expectativa de este amor não se dissipar no vazio e me matar.
- Estás a esquecer-te que o meu número de telefone tem um digito diferente. Isso é uma prova de que não sou eu. O meu endereço de correio electrónico também é, certamente, diferente. São poucos dados mas são os suficientes para me ilibar dessa paixão.
- Eu sei. Eu sei. Mas não está a conseguir chegar ao meu ponto de vista. Tenho aqui um amor a que falta um corpo. Percebe?
- Não!
- O seu ponto de vista é o da Cinderela. Está a pensar que tenho um número de telefone e tenho que partir em busca do pé onde esse número encaixa...
- Não me pareces bem para príncipe... embora nos dias de hoje...
- Mas o que eu tenho é um texto, um longo texto, escrito em longas noites, trocado por fantasias, ficção, pura ficção que levei a sério - ou realidade que transformei em ficção - como um asceta que tem um visão no lugar onde não está nada. Eu nunca vi a pessoa que amo. E quando a quis ver evaporaram-se as palavras. Um anti-milagre, está a ver? Fixei o meu interesse num objecto sem corpo; apaixonei-me por uma mulher sem rosto; amo uma narrativa interrompida.
- Quem te garante que é uma mulher?
- As palavras. Eram palavras fêmeas. Palavras vestidas de seda, que roçavam no rosto como carícias de pele delicada.
- Poderia ser um homem disfarçado e por isso não se quis mostrar...
- Não, não pode ser. Não ponho sequer essa hipótese. Neste momento só quero pôr a hipótese de ser você, Verónica.
- Estás louco!
- Foi a Verónica que respondeu à minha mensagem.
- Claro, foi para mim que mandaste a mensagem. E eu vim apenas porque me estava a apetecer uma manifestação contra os chulos do governo. Apenas isso. Nunca me passou pela cabeça encontrar um delirante apaixonado pelo vazio.
- Está a ser cruel. O meu sentimento é verdadeiro. Estou realmente perdido. Não sei que fazer a seguir.
- Mandas a mensagem para o número certo, riscas-me do mapa, esqueces estes minutos e pode ser que tenhas mais sorte da próxima. E não te enganes em mais nenhum algarismo.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, agosto 25, 2006

A dificuldade de ler (45)

- Nem tudo o que parece é, Verónica. Nada do que parece é. Não sei. Não tenho a certeza. A Verónica pode saber mais do que eu. Embora ao mesmo tempo não me pareça. Não faça essa cara, eu não estou louco. Pelo menos não estou muito louco.
- Esta é a minha cara. Estou a ouvir-te. Faz um pouco de luz na minha mente. Diz-me em que lugar estou neste momento. E onde é que deveria estar.
- Não se impaciente. Vou tentar - não sei se conseguirei - proceder como se a Verónica não soubesse de nada. Porque isso até me parece verosímil. Em termos lógicos é a única coisa que é possível. Mas incomodam-me as coincidências. Incomoda-me não ter previsto esta situação. Parece que a realidade tem sempre um trunfo na manga.
- Tem de certeza. A realidade é sempre outra coisa.
- Acredita que eu nunca a tinha visto até hoje?
- Acredito. Faz sentido. Eu também nunca te tinha visto. E felizmente estou a ver-te aqui. em público, no meio de uma multidão, porque se estivesse sozinha contigo num outro lugar estaria assustada e preocupada.
- Não faço mal a uma mosca...
- Também acredito. Mas o teu discurso é demasiado misterioso para o meu gosto. Não é misterioso, é embrulhado. Que eu até gosto de mistérios...
- A minha namorada é um texto.
- ...

- Quero dizer que só a conheço por palavras que trocámos em conversas electrónicas. Namoramos através da internet e dos telemóveis. É na base do texto que passamos os nosso sentimentos. Nunca a vi. Não sei como é, como se veste, se é alta ou baixa, gorda ou magra. Não sei a que cheira, que cor tem, que idade tem ou aparenta. Não sei como se chama. Não lhe conheço o tom de voz. Falei com ela ao telefone, a meu pedido, mas do lado dela só chegou o som de uma respiração pesada e lenta. Sei de coisas que sente e que lê e que vê e que ouve e que toca e que teme e que deseja. E não sei nada. Ela sabe mais de mim porque eu fui dizendo como era. E ouviu-me. Sabe pelo menos como me vejo. Eu não sei como ela se vê. Não sei vê-la, nem sonhá-la, e porque a sonho os meus sonhos são fantasmas. Depois de algum tempo a insistir com ela para nos vermos, disse-lhe, há duas semanas, que não valia a pena continuarmos se fosse assim. E desde então não tive nem mais uma palavra dela. Nem uma. Não me responde ao correio electrónico, nem às mensagens por telemóvel, nem aparece na internet. Perdi-lhe o rasto. Tenho uma namorada, que já não tenho, com que sonho e de cujas palavras gosto, mas que não tem forma, nem existência, para além das palavras que lhe li. E agora que nem as palavras me dá, esta paixão deixou de ter objecto, está perdida no vazio, agora sem imagem nem palavras. Volto às palavras velhas que arquivei e vou quase sabendo de cor, e sinto que amo um espaço vazio, um lugar em que apenas a ausência está presente.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, agosto 23, 2006

A dificuldade de ler (44)

- Depois fiquei preocupado com a minha mensagem que não era bem a minha mensagem porque foi enviada com o propósito de confundir e tendo sido entregue em lugar impróprio tinha subitamente ganhado uma dimensão que me transcendia. Não é que se tivesse seguido o traçado inicialmente preconizado eu tivesse alguma espécie de plano lógico que conduzisse a alguma solução prática. Não. Eu sabia que uma vez recebida a mensagem pela destinatária eu teria que seguir de alguma maneira o acaso e arrancar de mim uma improvisação que não poderia em caso algum preparar. Mas a repentina modificação de trajectória fez-me pensar, e desculpe esta ingenuidade, que o carácter casuístico tinha começado um degrau abaixo do meu esboço de plano. Soube, num instante - e estas coisas das telecomunicações são hoje mecanismos mais rápidos que o pensamento - que outra pessoa tinha recebido a minha mensagem e poderia ter com ela uma reacção que de alguma forma me removesse do caminho liso que me estava a molestar. Eu não sabia, como há-de acreditar, quem era o receptor da minha mensagem. Era uma mensagem numa garrafa que eu atirara para fora da minha ilha por acidente. Hesitei. Hesitei bastante antes de, há pouco, enviar a segunda mensagem. Havia uma probabilidade muito pequena de a pessoa que recebera a garrafa ter lido a mensagem e estar no local que eu queria. Não era impossível mas muito improvável. Eu não queria dar esta imagem de ingenuidade. Ou mais, esta imagem de superstição. Mas tenho que dizer que estava à espera que a minha namorada, ou ex-namorada, ainda não sei, por uma manobra milagrosa do destino, aparecesse no momento em que a Verónica apareceu.
- Apareci eu em vez da tua namorada. Não é preciso muito para perceber isso. Mas como é que ela poderia aparecer aqui se eu é que recebi a mensagem? E voltaste a enviar a segunda mensagem também para mim...
- Eu sei. Eu sei desse grau de impossibilidade. A Verónica não está a seguir o meu raciocínio. Eu sabia que havia outra pessoa. Mas não sabia quem era essa pessoa. Não sabia se essa pessoa tinha ligado alguma importância à minha mensagem. Não sabia nada, Verónica! E esse é o estado mais angustiante que se pode viver. Havia sempre a hipótese de ser alguém com um fio diferente para a narrativa.
- E o que é que eu sabia? Que é que eu faço aqui?
- O seu ponto de vista é diferente. É por isso que apesar de não saber nada de si tenho que começar por convence-la da bondade dos meus propósitos.
- Já percebi a bondade dos teus propósitos. Só não percebo porque persistes no erro. Se te enganaste uma vez, porque queres prolongar o engano no espaço-tempo? Eu não sou a tua namorada. Ponto final. Tomamos a bica e adeus.
- Verónica, eu não tenho a certeza que não seja a minha namorada... ou ex-namorada, ainda não sei...
(continua)

Torcato Matos

domingo, agosto 20, 2006

A dificuldade de ler (43)

- É verdade, não tenho piercings. Nunca tive. Não gosto.
- Eu também só vinha à manifestação por ser contra o governo. Cada um manda no seu corpo e pode pôr os piercings que quiser e onde quiser.

- A minha mensagem foi para o seu telefone por engano.
- Por engano?
- Sim, enganei-me num algarismo. O seu telefone tem um algarismo de diferença do telefone da minha namorada. Ou ex-namorada. Ainda não sei bem.
- Então eu entro nesta história por causa de um algarismo trocado?! É isso que me leva para dentro da tua história?
- Os números são importantes. Eu acho que os números são importantes. Mas eu posso dizer o mesmo: por um algarismo trocado entrei na sua história.
- Falta-te dizer, para o teu caso ser perfeito, que tudo é relativo...
- Não iria tão longe. Sou uma pessoa simples, Verónica, apesar de ter um nome complicado.
- O teu nome não é complicado... mas tu não pareces nada simples... e eu estou aqui a tomar um café quando o meu objectivo era participar de uma manifestação contra as abjectas políticas do governo.
- ...
- Mas se te enganaste no número porque é que estamos aqui? O que é este prolongamento de uma troca de algarismos? Confesso que não percebo. O lapso aconteceu e deveria ter terminado, não deveríamos estar aqui. Que continuação é esta?
- Tenho de lhe confessar, Verónica, que também não estou em condições de sustentar teoricamente o facto de estarmos aqui a confessar. O lapso foi meu. Ontem enviei a mensagem para a minha namorada, ou ex-namorada, ainda não sei, e percebi, logo no momento a seguir que tinha enviado a mensagem para outro número. Tinha sido difícil tomar a decisão de enviar a mensagem para a minha namorada, ou ex-namorada, ainda não sei, porque estava a empurrar-me para uma ficção que não é minha e não tenho jeito para ficções, e por isso tinha recorrido a um suplemento de coragem para enviar uma mensagem de um número que não era o meu. Depois de perceber que me tinha enganado já não tive mais coragem para repetir o gesto. O meu corpo traíra-me fazendo-me escrever um digito errado. Suponho que o corpo faz o que quer. Reconheço que eu poderia ser o tipo de pessoa que perante a adversidade faz tudo para que prevaleça a sua vontade. Poderia. Não sei como se faz mas reconheço que poderia ser dessa maneira e talvez tivesse vantagens. Mas neste caso não fui capaz de voltar a enviar a mensagem para o número que de facto me interessava. Digamos que o meu plano fora interrompido por um erro de operação e era necessário voltar a repensar toda a questão.
(continua)

Torcato Matos

sábado, agosto 19, 2006

Postdez

Entre 85 e 99 acreditei que só eu é que perdia se as coisas corressem mal. Era assim que parecia. Acostumara-me desde cedo a aceitar que a minha interferência no andar da carruagem era um factor de descarrilamento e por isso não fui capaz de pensar outra coisa senão que o que quer que sofresse seria consequência dos meus actos. Ainda hoje não sei se fingias ou não, que para ti não tinha importância. No jogo que fazíamos, os trunfos pareciam todos teus e em caso algum a emoção venceria do teu lado, deixando para mim as sobras e a ideia de perda irreparável. Em algumas conversas, em que se colocavam hipóteses hipotéticas, em que brincávamos com as possibilidades como quem brinca com a sorte, em que dizíamos, para parecermos adultos e seguros, que o amor é eterno enquanto dura, em que, em suma, tentávamos ser cínicos sem saber muito bem como é que se fazia, a angústia que aflorava na sombra das palavras sentia-a eu em silêncio para não dar parte de fraco.

Pode ter sido esse medo de perder que empurrou a decisão até ao limite de já não ser decisão. E foi embaraçoso perceber, quando me vim embora, que afinal não havia sobras nenhumas e todo o sentimento tinha sofrido uma tal erosão que já não era senão a película fina da aparência. Digamos que joguei cobardemente pelo seguro, deixando sempre que um medo se sobrepusesse a outro até já não saber que medo primordial era esse de que fugia.

Agora que os anos passaram e foram nivelando o acidentado do terreno, penso essas hesitações de novo como se fossem hoje. E vem outra vez à ideia a irremediável assimetria dos afectos. Não bastava eu gostar de ti. Nenhuma relação se pode esgotar na unidireccionalidade. Era preciso que o teu afecto fosse tão grande como o meu; que te doesse tanto a ti como a mim falar de roturas, ainda que hipotéticas; que te angustiasse como a mim dizer frases inteligentes e cínicas acerca da brevidade da eternidade; que fosses incapaz de me ofender mesmo que te sentisses ofendida por outros; que me pusesses num lugar suficientemente elevado que se equilibrasse com o lugar onde eu te punha.

Descobri que, tal como gostei de ti, posso gostar de outra pessoa. Não outra pessoa qualquer, nem por ser outra pessoa qualquer, mas porque é fácil gostar de uma pessoa quando se gosta dessa pessoa. Porque o afecto vem, toma conta de nós e leva-nos para o outro como um reflexo e uma dádiva. O que é difícil, o que descobri que é mesmo difícil e emperra a linearidade, é a simetria, o haver no outro lado um sentimento idêntico, uma busca semelhante.

Pode ser uma dificuldade minha, pode ser uma consequência e não uma causa, pode ser um mero efeito de não saber como ressoam no outro as palavras que em nós dominam. Entre 85 e 99 acreditei que só eu é que perdia se as coisas corressem mal. Agora já não acredito, mas continuo a não gostar de perder e a gostar ainda menos que os que amo percam.

Aibieme

sexta-feira, agosto 18, 2006

Retornos

Deverá haver um termo intermédio entre existir e desistir. Ou mesmo um degrau acima e outro abaixo. Uma gradação que deixe escolher a quem escolhe - a quem quer e tem vontade - a área de serviço que não existe, nem desiste. Haverá mesmo, assim acredito, um não existir nem desistir para os que não têm vontade, nem vontade de ter vontade.

Começa-se, digo eu, por saber de um lugar e sobre o lugar de que nada se sabe inventar um nome - provisório como todos os nomes - um nome inicial para sabermos do que falamos quando falamos daquele lugar sobre o qual nada sabemos. Do lugar que desconhecemos podemos chegar a todos os outros lugares também incógnitos e com eles fazer uma geografia do desconhecido. Dizemos então que estivemos neste lugar em data incerta, muito antes de outros, primeiros no lugar e no nome e perfeitos por isso e por não sabermos.

Depois, sabido o nome, que é sempre um nome provisório, partimos em viagem. Basta saber o nome para que a seguir já seja possível partir, porque agora já sabemos o nome de um lugar de regresso e, mais ainda, sabemos de um lugar que ninguém sabe e que pode ser anunciado como tesouro particular.

Numa viagem, enquanto o nosso olhar pousa sobre lugares que já não são os mesmos do andamento anterior, dizemos aos desconhecidos que sabemos de um lugar que eles não sabem e deixamo-los com desejo, também eles, de viajar, de partir, de sair do lugar onde estão para verem os lugares onde nunca estiveram. O lugar de nome provisório será assim divulgado para que conste de outros inconscientes colectivos e solicite mistério e magia na imaginação crispada de quem segue todas as setas salivares e ignora o som cavo do interior.

Durante a viagem que fazemos à procura de lugares de que não ouvimos falar, propomos aos desconhecidos desses lugares os nossos, para os deixarmos ansiosos e desanimados. Ficamos assim na posse, não só de um lugar novo com nome provisório, como também de pessoas provisórias, divididas entre existir e desistir, ignorantes como nós, como eu, de alternativas, mas mais ignorantes do que nós, do que eu, por ainda acreditarem em lugares que nunca viram.

As viagens acabam por acabar. Mesmo que logo a seguir comecemos outras, mesmo que o fim de uma etapa seja o início de outra, há um momento em que dizemos, em que digo, esta viagem chegou ao fim. Estou cansado, acabo aqui a viagem que comecei no lugar que descobri com nome provisório. E mesmo que eu continue a caminhar enquanto falo do fim da minha viagem, é aí nesse curto espaço de uma frase que se delimita o fim e o início da frase seguinte.

Há a meio de qualquer viagem um momento de desânimo. Do lugar com nome provisório incluído avulso na carta de navegação, fica, com o tempo, a imagem nítida de ter sido uma miragem. Chora-se então pelo lugar perdido e diz-se aos desconhecidos dos novos lugares da viagem, que havia um lugar que era mais lugar do que este, em que entre existir e desistir, muito para além do possível, havia outras nuanças.

Depois, depois do meio da viagem, depois do momento de desânimo, o corpo incorpora a pouco e pouco a miragem e dá ao real o colorido novo da consciência.

Prólogo

quinta-feira, agosto 17, 2006

Bens essenciais

Países pequenos fazem guerras curtas, rápidas, com poucas baixas militares e algumas baixas civis, prosaicos danos colaterais. Morrem também jornalistas de países estranhos à guerra, que recebem à palavra ou ao fotograma e trocam imagens de sangue por um futuro melhor para os seus. Não é fácil dizer-te, irmão, que o teu corpo é a matéria de que preciso para melhorar o meu nível de vida. Eu fotografo-te e fotografo a tua miséria para que me salves da minha. Não estás por isso em guerra só com os teus inimigos. Também eu estou em guerra contigo. Preciso da tua morte para que os meus filhos possam ir à escola descansados. Preciso da tua morte para que o meu carro ande e as minhas magras posses de trabalhador assalariado dêem para ter alguns prazeres na vida. E custa-me este trabalho. Dói-me. É um trabalho duro. Repara, és tu ou eu. Não lutamos corpo a corpo porque há entre mim e ti toda uma estrutura de poder muito complexa.

Por outro lado - há sempre outro lado outra vez - ao levar a tua imagem ensanguentada para o meu jornal, ao pegar em ti e tornar-te ícone de um mistério que se filtra pela minha voz - e se não for este o mistério outro será - dou uma mão adulta e limpa a uma luta que é tua e me serve como serviria qualquer outra luta que tivesse um rosto torturado para poder mostrar. Sou, neste caso, teu cúmplice; parte activa de um recontro com a verdade; mão amiga que pega na tua imagem bandeira para obter a atenção volátil de consumidores vorazes e importantes.

É muito raro um camponês matar um general. Do mesmo modo que é muito raro um general matar um camponês. É raríssimo um camponês matar um clérigo. Mais raro ainda um clérigo matar um camponês. O que é normal e aceitável é que um camponês mate outro camponês. É uma questão de proximidade mental. Inimigos da mesma espécie, carnes do mesmo calibre, pés com o mesmo apego a caminhar.

Cumprimos assim, neste arfar solene de um planeta que morre, um concubinato de interesses: tu dás o sangue e eu dou a tinta; distribuímos pela incandescência dos sentimentos, avisados sinais de bruma e de cansaço; largamos, numa associação de interesses, napalm ideológico e caridade comercial; bebemos, no mesmo deserto, infusões amargas de ignorância e ganância.

Agradeço-te, amigo, a tua morte à frente da minha objectiva; esse gesto de extrema coragem e abnegação. Morres pela tua pátria, pelo teu povo, pela tua religião, pelo teu chefe, pela tua incomensurável honra, pelo vazio absoluto da tua esperança. E morres também por mim, para que nada falte em minha casa...

Ikivuku

quarta-feira, agosto 16, 2006

Pérolas (XII)

Ecce Homo vale bem o tempo que leva a ler!

A dificuldade de ler (42)

- É uma boa combinação. Pelo menos parece-me uma boa combinação.
- O quê? O que é uma boa combinação?
- Os nossos nomes. O meu e o seu. Guilherme e Verónica. Soa a heróis de uma ópera. O Lher combina com o Ver, o Gui com o Ni.
- És engraçado Guilherme. Onde é que estão os teus piercingsI?

- Ah! Os meus piercings. Pois. Podia dizer-lhe que não estão à vista. Talvez até fosse uma boa estratégia. Não sei bem para quê. Desculpe. Um descafeínado morno com adoçante. E para si Verónica?
- Um café duplo em chávena escaldada.
Durante alguns minutos faz-se silêncio (temos de descontar neste silêncio o ruído de cadeiras a arrastar, a máquina a moer o grão de café, o ruído subliminar do ar-condicionado e dos frigoríficos, as chávenas e os pires a serem empilhados com violência, uma criança a berrar, muitos adultos a tentarem falar mais alto uns que os outros, o trivial portanto) e em três ocasiões Verónica e Guilherme esboçam em simultâneo uma primeira sílaba que é interrompida para dar a vez ao outro. Na quarta tentativa que ia ser ganha por Guilherme chegou à mesa a empregada que colocou com estudada delicadeza o pedido trocado na frente de cada um deles.
- Desculpe, mas o café duplo é para a senhora...
- Eu sei, foi ela que pediu!

- Então porque não o pôs do meu lado em vez do descafeínado que deve também saber que foi o cavalheiro que pediu?
- Faço sempre isso. Troco sempre os pedidos dos clientes.
- Troca?
- É um método de os pôr a conversar. Dá resultado. A maioria dos clientes chega aqui num elevado estado de tensão. Entram broncos e saem brutos. Se lhes troco os pedidos, mal me afasto já estão a conversar. Mesmo que comecem por falar mal de mim e do serviço e tal, descongelam a conversa e a seguir nunca mais se calam. Pessoas complicadas, sabem. Muito complicadas. Precisam de assuntos comezinhos para desencalhar. São fenómenos físicos perfeitamente naturais que acontecem com toda a espécie de matéria. Agora tenho que ir trocar pratos para outras mesas.
- Simpática.
- Atrevida!

Também desta vez houve simultaneidade nas palavras de Guilherme e Verónica e a ordem que escolhi é perfeitamente arbitrária ou só não é arbitrária na medida em que nada do que fazemos se pode considerar nem perfeito, nem arbitrário. Achei mais convincente considerar o simpática de Guilherme anterior ao atrevida de Verónica por me parecer que Guilherme não teria a deselegante ousadia de considerar a empregada simpática depois de Verónica a ter considerado atrevida.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, agosto 15, 2006

Encanto

Vi-te agora, montanha, ainda mais bonita.
O sol e a lua brilham sobre ti como olhos tornados ainda maiores.
A intensidade absoluta da tua luz despoleta o desejo.
Como uma cor, um corpo, um rosto que enche o sonho.

E ao mesmo tempo a distância.
A rigidez que as palavras tomaram por um não sei quê que as tornou resistentes, hesitantes.
Palavras que foram minadas por outras palavras e ficaram no seu lugar a usurpar significados.

Há muito tempo que sei não te merecer, horizonte.
Não é nada de mal comigo nem nada de mal contigo.
É uma questão de classe; uma questão de casta; uma questão de poder.

O meu plano está resvés a base entediante do nível do mar.
O teu, rasga as nuvens e iça-se até lugares que eu não sei.
O meu movimento é lento, hesitante, inseguro e teórico.
O teu, estremece de emoção e tempestade, sempre à espreita de outro lugar.
O meu sonho é vago, retirado a ferros de uma infância piedosa.
O teu, derruba a realidade e alcança com fulgor o impossível.
O meu olhar é destrutivo, analítico e complacente.
O teu, quer beber dos bens divinos a sua generosa parte.

Não há maneira de dar aos afectos as suas formas perfeitas.
Subo pelos caminhos mais rotineiros para evitar o que penso abismos.
Levo o meu mito comigo para que se cumpra a vontade inconsciente.
E sobre os ombros pesa sempre uma fórmula maldita de mágoa.
Como se em cada caminho que bifurca se pudesse perder uma vida inteira.

Desde o longe dos anos e do longe das distâncias tornei-me súbdito de ti.
Condenação dos deuses ou benefício dos céus que diferença faz?!
Fiquei assim consolado na tua margem, pendente das tuas alvoradas.

E é assim que ficarei agora, venham as tormentas que vierem.
Olhar fixo no único horizonte que me encanta.

Sísifo

A dificuldade de ler (41)

Nenhum dos numerosos aglomerados que se acoitavam nas escassas sombras do Rossio, parecia a Verónica concordar com a sua expectativa de um grupo de militantes pró-piercings e, à medida que as seis da tarde se aproximavam, instalava-se na sua mente literal a dúvida sobre a veracidade da mensagem que recebera. O que a frustrava, digamos assim, não era a hipótese de ter sido enganada, mas a desilusão de não se manifestar abertamente contra o governo integrada num número suficientemente numeroso para não sentir que estava a gritar sozinha.
Cogitava em juntar-se a outro grupo qualquer que lhe parecesse adequadamente anti-governo quando tocou, no saco que trazia a tiracolo, a Cavalgada das Valquírias, indicadora de nova mensagem. "Tá pur aki alguém prá manifa dos piercings. Todus á porta da Suissa." O sorriso de Verónica abriu-se. Afinal ia haver protesto.

À porta da pastelaria com ar de quem procurava alguém, apenas estava um barbudo de óculos muito grossos e roupa demasiado pesada para o calor que estava. Vendo o ar inquiridor de Verónica perguntou-lhe se vinha para a manifestação.
- Venho para a manifestação contra o governo. Não têm nada que proibir os piercings.
- Ainda bem que a encontro.
- A mim?
- Tomamos um café?
- Então e não esperamos pelos outros?
- Não há outros. Posso saber o seu nome? Eu chamo-me Guilherme.
- Verónica, muito prazer. Mas que história é essa?
Guilherme entra na Suissa à procura de uma mesa e tem sorte de ver uma mesa a vagar, mas tem o azar de, na pressa de não perder o lugar, derrubar com a mochila, um galão a ferver para cima do colo de uma velhinha. Teve sorte porque a velhinha tinha a mala no colo e a maior parte do líquido resvalou para o chão de maneira inofensiva. Teve algum azar porque a velhinha não aceitou as desculpas sem interpor um conjunto de denominações de origem a propósito de Guilherme que não seria decoroso para nós e para os intervenientes pôr aqui preto no branco.
Sentou-se finalmente Guilherme e à sua frente Verónica ainda irrecuperável da portentosa cena de acção a que não estava habituada devido a uma inabilidade visceral para processar a lactose.
- Tiveste azar Guilherme.
- Não foi mal. Costuma ser pior. Tenho um fundo de maneio para estas situações. Já me aconselharam a fazer um seguro. Mas tenho resistido porque se as coisas correm mal com o seguro fico sem saída. Assim apenas vão acontecendo acidentes de pequena monta.
(continua)

Torcato Matos