segunda-feira, julho 03, 2006

A dificuldade de ler (8- P/P8)

Lembro-me de já ter escrito esta mesma sequência noutra história e de ter apagado, um a um, os caracteres alternadamente localizados à frente e atrás do lugar original, fazendo surgir uma outra história com ainda menos sentido. Mas já percebi que é assim mesmo. De cada lado de uma narrativa, nascem várias que a completam ou destroem ou se tornam figuras autónomas de uma espécie de texto fundamental do universo. Eu não participo; estou aqui, por acaso, a servir de capacho aos reis e aos príncipes.

Ele tinha uma ponte muito longa para atravessar. No lugar marcado para o encontro não encontrara ninguém, porque estava lá, inesperadamente, gente a mais, gente de mais, mais do que gente. Ele não sabia justificar o que é que havia lá, mas não era um encontro assim que o movia e por isso removeu-se ao encontro de outro encontro do lado de lá da ponte que naquele momento, por razões que agora desconheço, se sobrepunha ao Tamisa. Os rios correm sempre acima do nível do mar, antes de morrerem, antes de naufragarem.

Não era previsível uma ponte extensa para atravessar um rio estreito. Para ele era uma agradável surpresa saber que demoraria mais do que o desejado e mais do que o necessário. Nada interessa se não tiver o seu tempo próprio, se não se medir pela dificuldade expressa com que se identifica na marca de água, no estrondo da queda de um corpo no líquido viscoso da noite. É provável que ele tenha pensado isto, ainda que não o fizesse com estas palavras.
(continua)

Torcato Matos

domingo, julho 02, 2006

A dificuldade de ler (7- P/P7)

É provável, até porque é costume, que tenha passado algum tempo entre o instante em que ele adormeceu e o instante em que acordou. Tinha anoitecido e ela já não estava presente. Também não estava presente em nenhum lugar da casa escura. A sala consultório estava envolta na penumbra de fumos já gastos e a cozinha emitia as manchas pálidas da televisão acesa, mais do que suficientes para encontrar às apalpadelas bolachas integrais sem colesterol e uma cerveja familiar.

A torre da igreja batia as horas mas eram demasiadas para ele perder tempo a contá-las. Mau a matemática, passara a também ser mau a contar coisas, a enumerar os objectos e os acontecimentos. De uma boca destas não saem factos nem interpretações.

Saiu pela porta para poder saber o estado do tempo no alpendre antes de se meter à estrada. Havia sombras de folhas no local onde, no dia anterior - melhor dizendo, num dia anterior - tinha depositado, sem grande entusiasmo os restos imortais de uma coisa estranha que tinha sentido.

Ao chegar ao local do encontro já se tinha esquecido da importância que tem a noite para esconder os desejos. Havia muita gente naquele lugar e isso tornava difícil distinguir o que era luz do que era reflexo e do que não era uma coisa nem outra mas o simples desejo de ver. Tinha dito a Elsa que o medo era apenas um instante; não durava mais do que o instante antes de saber: e antes de saber era necessário o medo, para que cada acto fosse mais do que um simples jogo de cartas.
(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 01, 2006

A dificuldade de ler (6- P/P6)

Perguntei-te apenas se me amavas, como se pergunta nos filmes, mas agora já percebi que não.” “O amor para mim sempre foi, só e apenas, o medo da ausência e o medo da presença. Todos os que amei até hoje foram os mesmos que eu magoei, e a todos eles receei magoar e a todos precisei de magoar. Não tive alternativa. Contigo não é diferente. Magoo-te todas as vezes que te digo alguma coisa e ficas magoado também quando ignoro o que me dizes e perguntas. É por isso que passei a ser absolutamente sincera sobre o que penso e sinto, mesmo quando não penso nem sinto nada. E se te digo que neste momento não sei dizer se te amo ou não, quase que te posso garantir que mal saias aquela porta sentirei o desejo absurdo do teu regresso e a angústia de não estares presente. É assim que eu sinto e é assim que eu sempre senti. Razão não tenho para sentir de outra maneira como não tenho para sentir desta.”

Ele, que não dorme nunca, entretanto adormeceu envolto no mistério de não saber se a amava, já que ela só o amava na ausência e ele na ausência nem se lembrava que ela existia. E as formas da existência e dos sonhos são sempre absurdas, inúteis em sentido lato, vertidas daquela intenção de sobreviver que vem de uma vontade interior inexplicável. Faça-se luz! E a luz fez-se.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, junho 30, 2006

Lilly Rose

Agora que parece inevitável a partida, deixo aqui uma última carta de amor.

Eu também não perdoo que se perca a Lilly pela falta de uma palavra. Porque pode haver sempre heterónimos que substituam heterónimos. Mas há heterónimos que se apaixonam por heterónimos e a seguir se perdem de dor pela ausência. Quem somos nós para nos metermos nesse mundo em que os heterónimos vagueiam? Que temos nós a ver com aqueles que não somos? Que poder é este de ser e não ser ao mesmo tempo? Não, não é justo que uma palavra faça desaparecer outra e que essa outra leve com ela as palavras que estavam a germinar num outro lugar imaginado. Porque há sempre a hipótese de não haver a certeza sobre quem se conforma no heterónimo. Há sempre a possibilidade de o heterónimo ser afinal o outro que tem o poder de se esquecer por não querer recordar. Não, não é justo que o heterónimo desanime o outro heterónimo, ou, parafraseando o Luís Filipe Cristóvão, nos contentemos em ser poucos lá em casa para o muito que há para fazer. Não desistas Lilly de encontrar a palavra certa para o espaço vazio. Há no feminino o dom de criar o espaço adequado à presença do masculino. Seja assim, então, a ausência de uma ‘password’ a castração da potência que dava a Lilly a hipótese de ser desejada. Espaço vazio que nada gera, que nada produz, que nada sofre e que nada goza. Não, não é justo que uma palavra elimine outra.

Ikivuku

A dificuldade de ler (5- P/P5)

Devo nesta altura reconhecer que os dados de que disponho sobre a verdade dos factos são tão fidedignos como quaisquer outros e esses outros de que não vou falar por não os reconhecer como legítimos nem legitimamente os conhecer, não farão parte da realidade que à vista de todos construo.

Ao dizer isto não quero forçar as coisas e meter-me numa história que já afirmei e confirmo não me tem como personagem. Eu limito-me – e a palavra é mesmo esta – a enquadrar os acontecimentos de maneira a que eles façam sentido ou estejam muito perto disso. Cada personagem tem a sua oportunidade e ela não podia deixar escapar o momento em que a atenção se concentra nas cartas.

Ao contrário do que pode parecer ele não dorme. Pergunta-lhe: “amas-me?” “Não sei. Tenho que perguntar às cartas. O mundo é dinâmico e o meu desejo escapa-se por entre os dedos. Amo-te quando estás ausente. Amo-te quando sais daqui em missão e te acompanho pensando nos perigos que corres, na violência que enfrentas, no medo terrível de que não voltes. Mas agora que estás cá, não sei. Tenho que perguntar às cartas, ler na tua mão e na minha e nas mãos do destino. Sei lá o que é o amor. Sei que contigo ausente me preocupo e contigo aqui ainda me preocupo mais. Amo-te como? A que te referes?”
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, junho 29, 2006

Pérolas (IX)

Carta? Poema? Incêndio? Intensidade... "... somos poucos para tudo o que há a fazer..."

A dificuldade de ler (4- P/P4)

Foi nessa altura ou um pouco mais tarde, não sei agora precisar, que ele saiu do carro e entrou em casa pela janela das traseiras como um ladrão que não tem nada a temer por saber a casa vazia. Nunca o prenderiam por roubar ar de respirar, por ser um ar como os outros e, bom ou mau, ser património mundial e não propriedade particular de um inocente qualquer.

Fechou a janela com cuidado para não ferir os cortinados que esvoaçavam com uma felicidade assustadora. Isto sou eu a dizer. Porque ele não pensava, nem pensa, em coisas tão banais como a felicidade. O efeito de cada segundo sobre o empilhar de energia nas células é, em si, causa mais do que suficiente para viver.

Havia no compartimento um cheiro a sono que contaminava todas as emoções e propunha ao instante que cedesse o seu tempo à ausência. Acendeu a luz para localizar a cama que todos os dias se mudava.

Depois apagou a luz para dormir. Dizem que os gatos vêem de noite e ele não sendo um gato via de noite os gatos pardos e dormia de dia para não saber o que se passava nem se preocupar com isso.

Ela - ainda não tinha dito que havia uma ela - a que cuidava dele, que era amante e cartomante e quiromante e às vezes adivinhava o futuro, tendo nisso uma percentagem razoável de sucesso, aproximou-se do repousado e sentiu-lhe a febre com a mão na testa de ferro.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, junho 28, 2006

A dificuldade de ler (3- P/P3)

Falava eu do pulso que neste caso pode ser o pulso dele. Estava deitado, sobre a perna direita o pulso direito e sobre o volante a mão esquerda mantinha o seu mais directo pulso suspenso das decisões do cérebro que bebia sangue dentro das catedrais. Pulsava, portanto, o pulso em ritmo de cruzeiro, sinal apropriado à via e à morte e ao mais que se quiser.

Há entre o suicida e o pulso uma relação de amor-ódio. Vários autores, todos experientes, sustentam que o pulso pode ser uma espécie de alter ego do inimigo. Outros autores, também experientes, dizem o contrário mas com menos veemência.

Ele acendeu um cigarro com o isqueiro do carro. Não sei se o renault quatro gtl tem isqueiro. Mas isso não é relevante porque poderá querer dizer que o carro não era um renault quatro gtl. Não me surpreenderia que não fosse porque nenhum outro nome de carro tem, neste momento, a musicalidade necessária.

Abriu a janela de correr com um gesto brusco mas o fumo não saiu. Estava frio cá fora depois das gotas de chuva deslavada. O fumo recusava-se a sair do carro porque tinha o objectivo genético de entrar nos pulmões dele ou de outro qualquer humano. Seria lamentável que uma molécula que fosse se perdesse da sua função primária, do seu destino inscrito nos genes. Lembrei-me que também ele poderia ter nascido para matar e por isso se conformou a comer o fumo como sobremesa de sangue.

(continua)

Torcato Matos

Caminho

Parte tudo dessa vontade de querer construir fora da realidade.
Começamos pelo rosto inocente, pela pele de bronze uniforme e pelo gesto contido dentro dos parâmetros da impunidade.
São inúmeros e insondáveis os caminhos do senhor.

Sei que me querem culpar de uma herança que recebi.
Tentação genética da sociedade com consumo mínimo obrigatório.
Cada ocasião de resistência só o é se for também ocasião de morte.

Não me defino no sentido obrigatório das consciências e por isso não me defino em lugar nenhum.
Passa-se do gesto obscuro ao inevitável consentimento do medo.
Cada facto é um momento desgarrado das potencialidades, limitando o futuro à evidência e reduzindo a zero a esperança.

São inúmeros e insondáveis os caminhos do senhor.
O meu caminho passa pela sombra; ilumina-se com claridades emprestadas pela indiferença.
Outros diriam que os caminhos onde nos cansamos são o outro lado das caminhas onde descansamos.
Mas isso seria um jogo erótico de conveniência de sons.

Ainda não é possível caminhar sobre as estrelas.
Ouvem-se os gritos como ecos da distância e baixa-se o volume para a perturbação ceder.
Todos os dias há loucas tempestades de areia a apagar o rasto da morte.


Pensa-se em algo para o futuro sabendo de antemão que o futuro já foi e nada sobrou do regozijo.
Escuta-se a utopia como exemplo e como preparação.
A seguir virá o nada e por ser menos, não é.
Ainda assim, suspiramos de alívio pelos riscos que não corremos...

Beatriz Teresa

(post anterior)

terça-feira, junho 27, 2006

A dificuldade de ler (2- P/P2)

Ele bebeu o sangue e voltou a sair, não pela porta por onde entrara, mas por outra que não sei dizer qual devido ao estado de agonia em que fiquei quando ele bebeu o sangue com a mesma passividade de quem bebe um copo de água - ou uma cerveja sem álcool para não parecer tão prosaico.

Na rua chovia. E o que chovia não era sangue. Água, um bocado suja, verdadeira lama por vezes que deixou os carros imundos, mesmo o dele que agora, já sem sede, se sentou no renault quatro gtl e pegou num livro que não era nada um livro normal daqueles que servem para ler ou pelo menos para colocar estética e estrategicamente numa estante, embora, bem vistas as coisas, também pudesse servir para enfeitar uma sala.

O livro, dizia eu, era uma caixa e tinha dentro dela uma pistola de cano curvo, e dento da pistola uma munição e dentro da munição uma potência de morte. Só muito mais tarde soube porque é que o cano da pistola era curvo.

No acto do suicídio a posição do pulso é muito importante. Já se escreveram vários tratados sobre o assunto e todos eles – a maioria, obras de gente experiente – referem o pulso como o elemento chave de todas as histórias que podem acabar mal. Por um lado há o impulso, a lei informal de trazer o destino para o lado menos optimista. E não há outro lado como, por lapso, possa ter parecido.

(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, junho 26, 2006

A dificuldade de ler (1)

Preâmbulo


Quando há no texto a impressão de não ter nada a dizer ficam dos dias passados ocasiões propícias a formas arredondadas de letras e números que se querem trágicos e arrebatados. Não é justo que todas as palavras sejam indiferentes ao sentido. Deixam-se cair como gotas de chuva sobre o chão preenchido de terra seca e tudo se esvai em cheiros de calor e perda. Na dispersão das letras formam-se ideias vagas sobre o vazio e tornam-se os pesos de consciência mais ligeiros e infinitos. Não há tragédia nenhuma na saída desfigurada do tempo. Teria sido mais claro se houvessem desígnios eficazes sobre a natureza da verdade.

Ele entrou pela porta do arco que está em frente ao lugar mais alto do pudor. Pediu, com voz um tom acima do exigido, que lhe dessem de beber um sangue qualquer. Não houve resposta, pelo menos que eu saiba, embora eu não faça parte desta história. Ele poderá ter ouvido qualquer coisa que nunca saberemos. Pelo menos eu nunca saberei, porque mesmo não fazendo parte desta história, tenho a minha opinião e se sei que naquela altura não houve resposta não será agora, esquecido o acontecimento, que ele irá dizer que ouviu o que quer que seja.

Mas confirmo, apesar de a minha confirmação poder não ser digna de confiança pelas razões já avançadas, que o vi beber um sangue qualquer. É bom que o diga aqui pois não teria interesse nenhum em falar deste assunto se não tivesse havido sangue. (continua)


Torcato Matos

sexta-feira, junho 23, 2006

Caminho

Gosto de estradas sinuosas; de não chegar nunca ao destino; de ficar pelo caminho e nunca ter de esperar pelo regresso.
Gosto, agora que o digo, e não sei o que diria ausente numa estrada sinuosa sem conseguir chegar ao destino.
Gosto por pensar que é bom gostar de coisas estranhas e querer que a estranheza se instale em qualquer lugar de mim, nem que seja à força.

Gosto de gostar, antes mesmo de pensar no que gosto.
Viro-me para o lado de onde vem o sol e espero que queime, que me dê uma indicação clara do lugar para onde vou e a que distância fica o norte.

Várias vezes me pergunto o que quero dizer deste gosto que tenho em gostar sem saber de quê e o que quero saber quando o sabor de um gosto me perturba o gosto de outro sabor que já não sabe como o sabor de outro gosto de que gostei.
Jogo, por isso, como o gosto e com a maneira de pensar o gosto.

Gosto de lugares onde ainda não fui; muito mais do que dos lugares onde já estive; e ainda mais do que dos lugares onde estou.
Já não é como era quando o que queria era chegar depressa ao lugar de ocaso.
Espero enquanto espero que a chegada se demore no caminho e aguardo o momento, que não ainda o momento final.
Sobre o tempo fica pendente a sua imperfeição; o seu andar levemente descaído para a indiferença; a bússola pousada no colo a pensar horizontes magnéticos de desejo.

Estamos parados agora no vale de lugar nenhum; ligeiramente à esquerda da fonte da sede eterna; próximos do oásis da desidratação; vigiados de perto pelos satélites da absoluta ausência.
Há setas a indicar o horizonte, erguidas sobre plataformas rotativas que giram com a penumbra e sigo com os olhos o risco altivo de um avião que regressa a casa.

Gosto de ficar por aqui pela parte norte do desejo.
Não monto a tenda porque isso já me pareceria uma concessão ao destino.
Fico à espera como se não esperasse, e com o tempo percebo que já não espero e monto novas teorias da existência, repelindo a fé e a intensidade dos sentidos, substituindo o arfar sagrado do cansaço por novas leituras da realidade, erguendo sempre a vista para uma verdade que já não está lá.

Não é forçoso que o mundo seja perfeito; não é forçoso que se mova; não é forçoso que seja como eu o quero às vezes, nessas vezes curtas em que eu o quero.
Gosto do que está antes, do que vem antes de o movimento ser excessivo, antes de a música ficar demasiado alta, antes de a bebida ter tornado os sentidos inoperantes e as cores serem todas uma, antes de ficar desiludido no lugar que procuro.
Sobre a marcha lenta que antecipa a rigorosa chegada à meta, adormeço as tempestades, arrumo os modelos reduzidos da minha intenção e preparo a partida para outra etapa em que os ventos tenham apagado os trilhos e enfeitiçado a paisagem de miragens.

Prólogo

quinta-feira, junho 22, 2006

A Samantha

Sabe-me bem esta ausência da Chris. Persiste um incómodo subterrâneo que tanto pode ter origem na preocupação com o seu paradeiro, como na angústia de a todo o momento ela regressar, como ainda na sensação de culpa pelo bem que a ausência me sabe. Os amigos dizem que ela não regressará antes do fim das férias, dando a entender benevolamente que ainda terei um enorme verão de paz. Não confio nos amigos quando têm o oblíquo propósito de me reconfortarem. Nestas coisas, como em outras, confio mais na minha intuição, apesar de apresentar um saldo profundamente negativo.

Sendo eu um céptico militante, concedi sempre à intuição um lugar marginal, e dei-lhe apenas as oportunidades em que não dispunha de métodos mais deterministas para me decidir. Hoje, uso a intuição numa forma desesperada: torna-se cada vez mais improvável que a intuição falhe outra vez!

Não foi a intuição que me levou a Samantha. Foi o desejo, foi a vontade, foi a força, o impulso interior, base da sobrevivência.

Não recordo a primeira vez que desejei Samantha. Nem serei capaz de recordar todas as vezes que a quis. Com algum esforço conseguiria lembrar todas as vez que foi minha, porque foram poucas... Mas é um esforço inglório. Samantha vive no seu próprio mundo, indiferente a mim e aos outros inúmeros que a desejam. Olha para cada um de nós com desdém, imune aos afectos, centrada apenas naquilo que considera valer a pena. Joga com o seu poder de sedução e sabe tornar-se a mais bela de todas, desviando aqueles que a querem dos seus caminhos seguros e banais. Pega no mais humilde de nós e, querendo ela, eleva-nos à figuração suprema da glória.

Corro o risco de que pensem que Samantha é uma mulher fácil - como é costume dizer-se das mulheres que não se fixam eternamente na exemplaridade de um macho. Seria lamentável porque Samantha é a mais difícil das mulheres. Dá-se, é certo, a quem ela quer. Mas estabelece para isso padrões de muita exigência e distribui os seus favores com o critério de uma deusa. É ela quem escolhe e decide. Invertem-se então as relações causa-efeito dizendo que o melhor é aquele que ela escolheu. Samantha define então o que é bem e mal e torna-se ainda mais desejada.

Amo Samantha desde que a vi pela primeira vez. Devo mesmo tê-la amado ainda antes, apenas pelas descrições que ouvi. Falava-se de Samantha - tal como se fala hoje - como o ser perfeito para fazer de um homem um deus e levar ao céu a cabeça coroada de um humilde. Amo Samantha ainda. Não com o impulso desregrado da juventude, nem com a pressa da inquietação, mas com a serenidade reflectida de dar sentido a cada dia.

Não é vergonha dizer que não fui, nem de perto nem de longe, o favorito de Samantha. Apesar do que cada um sente ser muito seu e exclusivo, e a mim ter Samantha dado bastas vezes o privilégio, sei ver de muitos outros a quem Samantha mais vezes e mais alto levou ao paraíso.

Continuo a amar Samantha. Persigo-a no dia a dia, já sem a imprudência de outrora e intuindo que só muito esporadicamente terei os seus favores. Mas também é verdade que antes parecia que só nela era possível sentir o mundo e hoje, aprendidos os truques que a natureza tem para nos moldar, sei que há mais e melhores lugares para viver.

Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

quarta-feira, junho 21, 2006

Bandeira

Não tenho que saber o lugar de onde vim.
Não tenho terra, não tenho a obrigação do regresso nem a justificação da sedentariedade.
Fico onde estou enquanto quero ou as circunstâncias são propícias.

Não tenho que saber quando cheguei.
Submeto-me aos relógios do instante e aí encontro abrigo
Parto logo a seguir ao amanhecer quando a luz já é firme.

Não tenho que dizer como me chamo.
Os sons que se propagam no ar trazem sempre um nome.
Não é aí, na denominação de origem, que seguro os meus mitos.

Não tenho que jurar fidelidade à evidência.
Procuro restos nos caminhos perdidos da invenção.
Faço o meu caminho pelos atalhos que tornam a certeza mais distante.

Não tenho que preocupar-me antecipadamente com a morte.
Voo todos os dias sobre penhascos e incandescências.
Flutuo placidamente em rios de lava e espanto-me com todo o vazio.

Não tenho que jogar às escondidas com o sentido.
Passo abertamente à frente do medo e defendo-me gritando.
Compro todos os dias o jornal para embrulhar e manter quentes os sonhos.

Não tenho que gemer os sofrimentos.
Quebro um elo de cada vez e fabrico a importância do desejo em golos doseados de líquido incolor.
Cubro o olhar com lágrimas para consumo interno.

Não tenho obrigação de acompanhar os tempos.
Faço o meu lugar como faço a barba pela manhã à procura do rosto que reconheço.
Subo um degrau de cada vez com a lentidão própria de ficar a saber como descê-lo.

Não tenho força para resistir ao vento forte.
Dobro-me inconstante à passagem da tempestade, ignorante dos objectivos supremos.
Uso o meu corpo para ser outra vez, outro lugar, outra coisa.

Não tenho que ter amor aos símbolos nem às divindades.
O meu cosmos é o maior e o menor de todos, e descreve-se a si próprio como lume herdado da natureza.
É vão discutir: importa apenas o lugar onde nasce a palavra.

Sísifo

segunda-feira, junho 19, 2006

Postnove

Como sabes, não adianta nada a submissão. Foi uma perda de tempo acreditar que as cedências de hoje poderiam ter compensações amanhã. Acreditar, como acontece nos jogos e nas batalhas, que um ligeiro recuo pode ser estratégico para a posterior vitória. A vida é um jogo, desde que não seja a nossa. Quando está em campo o sofrimento próprio, o cinismo enterra-se na sua inanidade.

Mas também sabes que não nos submetemos por estratégia. A inteligência, como o gozo, tem um horizonte temporal curto, sucumbe rapidamente ao sentimento, perdendo aí o confronto com a ilusão. Acreditar, como acontece no teatro e no comércio, que a simulação é uma táctica fecunda para obter do outro o benefício. A vida é um teatro, desde que não seja a nossa. A realidade coincide com aquilo que cada um sente.

Sabes que episodicamente consegui fugir da minha realidade. Cedi, fui ao encontro do que manifestava o teu desejo e a tua vontade. Ensaiei os modelos de destino que não subscrevia. E depois de uma cedência – depois de uma perda – aprendi que vem sempre outra e outra. Acreditar, como acontece nos sequestros e no dever, que há um resgate que compensa o valor do risco. A vida é uma prisão, desde que não seja a nossa. Do formato equívoco da vontade nasce o outro equívoco da liberdade.

Só muito mais tarde soube – e não sei se tu sabias - que com a experiência não aprendemos nada que antes não soubéssemos. Testamos a liberdade por descargo de consciência, para sentir que o tempo passa na direcção certa. Acreditar, como acontece nos laboratórios e no amor, que o acaso - ou Deus - pode ter um dado viciado a sortear números impossíveis. A vida tem um destino, desde que não seja a nossa. Não me interessa o que está escrito em nenhum livro que me nomeie.

Sei que não sabes que eu não sabia que não era possível.

Aibieme

quarta-feira, junho 14, 2006

Pérolas (VIII)

o fui ler muitas vezes mas ainda não o sei de cor.

terça-feira, junho 13, 2006

Vertigem

Fui avisado a tempo de que não deveria falar da verdade.
Disseram-me porquê e não esqueci, apesar de as razões serem absurdas e inqualificáveis.
É, portanto, com conhecimento de causa que minto.

Avisaram-me que não me aproximasse demasiado dos precipícios.
Que não olhasse o sol directamente nem me expusesse à fúria da tempestade.
Que não enfrentasse o mar nem o deserto sem instrumentos de navegação.
Que não me deslocasse para a beleza encantadora da neve sem me cobrir com agasalhos.

Há sempre alguém ao longo da estrada que me mostra no seu passado as feridas.
Dizem, com boas intenções, que devo aprender em vez de arriscar.
Há sempre alguém no içar incompleto da bandeira que diz saber do que fala.
Diz das dores que o corpo padeceu para encontrar o caminho de que se queixa e orgulha.

Eu oiço, por pensar que é possível que alguém saiba alguma coisa nova.
Tinham-me avisado que as palavras poderiam ser perigosas.
Tinham-me dito, quase em segredo, que constava não terem permanecido vivos os que tinham contactado com a verdade.

Hoje poderia ser, por tudo isto, uma pessoa avisada e consciente.
Pode dizer-se que se conjugaram os astros e as razões para que fosse um homem feliz.
Houve em todo o processo, em todo o andar da carruagem, sinais benignos e informações construtivas.

Hoje poderia estar aqui entretido a descrever as minhas vitórias e a queixar-me com o mesmo orgulho das derrotas.
Poderia estar aqui a enunciar conselhos e a mostrar caminhos.
Poderia estar a mostrar a voz da experiência e a zombar dos erros da ingratidão de cada um.

Mas a coisa correu bem.
Continuo a ser capaz de dizer que não percebo o que aconteceu.

Sísifo

Interesseiro

A mim interessa-me pouco o interesse. Interessa-me não me interessar por nada e ter com os outros interesses a relação calma e saudável de quem sobrevive. Porque não interessa nada a ninguém que eu tenha ou não tenha interesses. Num certo sentido é mesmo isso que me interessa. Que os interesses que tenho sejam tão pouco interessantes que, digamos assim, não haja interessados em interessar-se pelos mesmos interesses que eu. É nesse sentido que não tenho interesses. Claro que me interesso por coisas interessantes. Mas as coisas que considero interessantes não têm geralmente interesse nenhum. É por isso que quase sempre as outras pessoas acham desinteressantes os interesses que me interessam.
Poderia enumerar aqui uma série de coisas desinteressantes que me interessam muito particularmente. Mas como parto do princípio que não interessam a ninguém, não há interesse nenhum em divulgar de forma desinteressada os meus modestos interesses.
Não deixa de ser curiosa – ia dizer interessante – a ideia de considerar modestos os interesses particulares. Porque ao dizer modesto eu estava interessado em realçar o interesse que os modestos interesses têm. Interessa-me, portanto, que o que quer que eu diga dos meus interesses seja inferior ao interesse que deveras lhes atribuo. Por outro lado não me interessa rigorosamente nada que os meus interesses sejam muito particulares. Não é aí que vou buscar o seu interesse. Interessa-me sim que os meus interesses sejam mesmo interesses meus e não interesses que tomo emprestados dos interesses de outros apenas para que os meus interesses não sejam assim tão particulares. Interessa-me também que o interesse que as coisas que me interessam têm, seja um interesse bastante superior ao meramente interessante. Porque entre estar interessado em estar interessado e estar interessado em parecer interessado vai uma interessante diferença.
Se me interesso por alguma coisa - e seria interessante sabê-lo - e se esse interesse que sinto é um interesse muito particular - e desprezo por desinteressantes os interesses que não são particularmente particulares - então é interessante reconhecer - e cá está um interesse particular - que não é o interesse que me interessa mas o que há de interessante nas coisas que me interessam, mesmo que não interessem a mais ninguém.

Prólogo

domingo, junho 11, 2006

Efeméride

Parece haver uma boa razão para as religiões evitarem nomear o Deus que as define. Digo-o numa perspectiva científica, racionalista e razoável: acredito que há sempre uma causa para todo o efeito.
Em tempos, nas minhas investigações, explorei a hipótese de ser uma tentativa de evitar a banalização. Parecia-me que a sistemática enunciação de um Nome, ainda que divino, Lhe haveria de provocar um indesejado desgaste e consequentemente uma perda de valor de Mercado. Quando percebi que os valores de Mercado têm estranhos comportamentos retirei a hipótese: um Nome é muito mais valioso pelo nível de notoriedade do que pela qualidade percebida. O conceito de Bom Nome é pura retórica que não alimenta ninguém. Falem de mim, ainda que mal, mas falem.
Noutra fase acreditei – é inevitável o recurso à crença – que se omitia o Nome por respeito, por consideração pela Entidade cujo reconhecido mérito ultrapassava toda a contingência e toda a compreensão e deveria por isso, ser digno de permanente homenagem. Não foi difícil descartar esta hipótese através da simples observação da contabilidade das instituições. Enriquecer não é um direito mas um dever. O Mercado é o desejo de saciar todos os desejos.
Houve outras hipóteses irrisórias que nasceram e morreram sem mérito nem heroísmo, permanecendo a causa do efeito na sombra dos mitos. Se a ciência não sabe esqueçamos a ciência.
Sobrou, no entanto, a convicção de que a História tinha acumulado dados de experiência que conduziram ao tabu. Uma lei que não possa ser compreendida será imposta pelo medo. Ficou, por isso, para um não crente como eu, a crença de que o Nome não deve ser dito. Não é em vão que o tempo deixa Marcas. A omissão do Nome é uma marca da Evolução, como o oxigénio que respiramos; como a posição erecta do corpo; como a visão sobre a zona mais abundante do espectro solar; como o polegar oponível; como os nove meses de gestação...
É essa a razão porque omito os nomes. Não digo, não pronuncio os nomes de quem gosto. Evito os nomes das coisas. E daquilo que odeio tento nem pensar o nome. Ultimamente esforço-me por não memorizar os nomes que ouço. Os nomes das pessoas, os nomes das instituições, os nomes das empresas, os nomes das marcas, dos políticos, dos artistas, dos escritores, os títulos dos livros, das músicas, dos filmes.
A verdade é que agora não quero saber nenhum nome, nem apelido, nem alcunha, nem número de identificação...
Se eu dissesse o nome da coisa horrível de que estou a falar, estaria inadvertidamente a promovê-la e a aumentar o seu valor de Mercado.

Artur Torrado

sábado, junho 10, 2006

Pérolas (VII)

Para um jornalismo decente não há como a imprensa independente!

quinta-feira, junho 08, 2006

Cleptomania

Aqui não há nada de novo!

terça-feira, junho 06, 2006

Por um partido político para a defesa dos tumores

- D. Yolanda, chamei-a aqui para a informar que tem um tumor no cérebro.
- Oh! Doutor! E é grave?
- Como tudo na vida depende do ponto de vista.
- Então o Doutor quer dizer que é benigno!?
- Bom. Seria pouco ético estar a tecer considerações sobre a bondade do tumor. Como sabe devemos manter-nos equidistantes e preservar a nossa independência em relação a tudo o que possa constranger a correcção dos nossos procedimentos.
- Não entendo Doutor. A minha vida está em perigo?
- Eu não queria ser muito literal porque certamente, mais tarde ou mais cedo, serei prejudicado quando me citar fora do contexto em que estou a produzir estas afirmações.
- O Doutor preocupa-me...
- Por quem é, não precisa de se preocupar comigo, D. Yolanda. A sua qualidade de minha paciente atribuída aleatoriamente pelos computadores do serviço nacional de saúde, é para mim um ponto de honra uma vez que foram as virtudes do acaso que nos juntaram neste momento histórico.
- Comove-me a sua dedicação...
- Analisando a sua questão sobre a 'gravidade' do tumor no cérebro eu penso que deveríamos chegar a um acordo sobre o conceito de 'gravidade' que vamos, neste caso concreto, partilhar. O que é que significaria para si ser grave?
- Porra, Doutor! Quero saber se vou morrer com isto!
- ...
- Peço desculpa...
- Eu compreendo a sua exaltação. Não é todos os dias que nos dão assim notícias que nos tornam uma situação excepcional. Devo entender que se preocupa com a morte...
- Claro, Doutor. Sou jovem. Tinha um futuro à minha frente...
- Em primeiro lugar quero que perceba que não sou eu o responsável por você ter essa coisa dentro da cabeça.
- Sim, eu sei... ninguém é responsável.
- Gostaria que compreendesse que do meu ponto de vista muito pessoal o seu caso não é grave.
- Não?!
- Se você fosse uma doente minha de catálogo, daquelas que chegam à minha procura de maneira activa e empenhada e procuram os meus serviços personalizados, eu até consideraria o seu caso como uma grande sorte para mim.
- Oh, Doutor...
- Mas não foi assim. Não há em si uma vontade explícita de ser minha doente. Chegou a mim por acaso. Não é provável que se entregue confiadamente nas minhas mãos. Depois de mim irá a correr procurar uma segunda e uma terceira opinião até que algum dos meus doutos colegas consiga tocar na corda da sua sensibilidade e determinar a sua crença.
- Eu estou a confiar em si. Só quero saber o meu destino.
- A D. Yolanda não consegue perceber que está na presença de um profissional. Eu não sou um amador. Faço umas horas aqui no hospital mas a minha vida não acaba aqui. Eu não posso considerar o seu caso grave quando ele tem o potencial de aumentar a minha conta bancária. Mas percebo que para si pode ser grave porque vai fazer baixar a sua.
- ...
- Do ponto de vista social é mais ou menos indiferente, apesar de a palavra tumor ser muito complexa, difícil e dolorosa, tem conotações à esquerda, traz alguma revolução, provoca alguma complexificação da coisa social. Mesmo assim é pouco relevante.
- ...
- Já do ponto de vista biológico é uma coisa do domínio do bem. Os tumores são uma espécie minoritária apesar de terem algum relevo social. Antes não se dava conta deles, estavam dentro dos sistemas socialmente aceites. O tumor era uma causa natural de morte. O que não é o mesmo que morrer atropelado por um eléctrico, ou como a morte química ou bioquímica ou radioactiva.
- Acha então que eu vou morrer?!
- Além da questão discriminatória. A perturbação das espécies. Um tumor é um objecto que tem em vista a diversidade biológica e por isso tem que ser preservado. Nesta minha faceta de funcionário público não liberal não vou querer tratar disso. Mas no meu consultório tenho que velar para que a ciência progrida.
- Vou morrer...
- Os concidadãos vão muito solidariamente pagar para tratar o seu tumor. Um tumor é um propriedade pessoal e portanto não deveria ter-se a preocupação de responsabilizar a solidariedade social com o seu problema. Como seu concidadão também não estou minimamente interessado em participar, ainda que modestamente, na resolução de um problema que é seu. A não ser que quisesse que a tratasse particularmente. Sem recibo. Sem provas. Eu não me posso envolver numa situação que me ultrapassa. Eu poderia ter-me dedicado à política. Poderia ser um autarca. Aí sim, a minha função seria preocupar-me com os problemas dos cidadãos.
- Vou morrer...
- Como médico estou preocupado com as variantes que vão florindo da natureza. Não tenho estrutura de açambarcamento moral. Interessa-me muito o ponto de vista do tumor. Uma forma de vida que deveríamos adequadamente proteger. Como médico sinto que o tumor tem muito mais a dizer-me, é muito mais atraente, do que a pessoa que o transporta.
- Já não tenho esperança...
- A D. Yolanda há-de reparar que há milhares de pessoas preocupadas com a vida de pessoas como a senhora. Agora diga-me: e os tumores? Quem se preocupa com os tumores? Que culpa têm os tumores para serem rejeitados por todos sem lhe darem sequer a oportunidade de se defenderem?
- Eu morro...
- Haverá um dia, D. Yolanda, em que os tumores hão-de mostrar a sua força e a sua importância. As pessoas vão perceber que têm estado a ser egoístas, que remeteram os tumores para um gueto e lhes retiraram direitos. É uma questão de tempo. A biodiversidade dos tumores, a ecologia dos tumores, os tumores como minoria marginal à sociedade. Incompreendidos, rejeitados, sem direitos, ...
- Adeus, Doutor.
- Isso, vai-te embora louca intolerante! Nunca perceberás. Esta gente é tão limitada que não enxerga os verdadeiros valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Como é que há gente que consegue ser tão insensível com os pobres dos tumores...


Lino Centelha

(ocorreu-me este diálogo ao saber que se tinha formado na Holanda um partido para legalizar a pedofilia, a pornografia infantil e a zoofilia...)

sábado, junho 03, 2006

Pérolas (VI)

Este texto investe em várias frentes.

sexta-feira, junho 02, 2006

A Fhelícia

Voltei a casa. A Chris não está. Há muitos vestígios da sua presença mas não sei dizer há quanto tempo saiu. Não deixou nenhum recado.
Estou inquieto. Não sei que pensar desta ausência da Chris. Tinha-me preparado para chegar a casa e encontrá-la no sofá predilecto em frente à televisão, respirando pesadamente ao ritmo do zapping, e comentando as imagens com a voz arrastada e rouca de fumo. Há um efeito de estranheza quando uma ausência desejada se concretiza. Não sei da Chris, sei que não está, mas sinto-lhe uma presença próxima, como uma doença de que um medicamento apagou os sintomas por algum tempo.
No estendal da varanda há uma bandeira. Apercebi-me quando as costuras das pontas soltas bateram contra o vidro da janela. Pensei no patriotismo da Chris. No seu apego às pernas musculadas e aos abdominais dos rapazes que fazem da bola a sua profissão.
Não mudou muita coisa na minha ausência. Os lugares vazios continuam a ser os mesmos. Agora volto para o lugar vazio que é o meu e deixo de ser o sem-abrigo que realmente nunca fui. Perdi peso e ganhei olheiras com este tempo que errei pelas margens da cidade fugindo ao mesmo tempo da Chris e de mim próprio.
Agora que repousei e tenho a mente mais lúcida, ocorre-me o nome Fhelícia. Há dias, na rua ainda, tinha-me lembrado dela. Das suas formas, da sua habitual roupa espampanante, do seu aroma a violeta, da voz profunda e rouca, do rosto belo e estático em que a expressão permanecia inalterável, da solidez do andar, do cabelo longo e negro, do peito acolhedor e firme, da surpreendente força do seu abraço. Não me lembrei do nome. Terá sido por não me lembrar do nome que voltei para casa. Fiquei perturbado por não saber como chamar a um todo que me enchia a mente e que, por instantes, se tinha tornado tão real que parecia estar em condições de lhe tocar. Voltei a casa, penso agora, com a intenção de me lembrar de um nome cuja ausência me assustou.
Lembro-me agora do nome Fhelícia. Exactamente com a mesma nitidez com que lembrei as suas formas.
Fhelícia foi uma mulher de que fugi. Não da maneira que fujo de Chris pela infelicidade que me provoca. Fugi de Fhelícia quando descobri que nunca seria capaz de amá-la. Deixei-a, aumentando sistematicamente a distância que me separa dela e não olhando para trás a não ser para ter a certeza que havia tempo a passar. Fugi de Fhelícia numa época de fugas. Aproveitei para fugir de muitas coisas ao mesmo tempo incluindo este rosto que me tentava com paraísos impossíveis.
Não sou capaz de recordar com pormenor os primeiros tempos. A aproximação foi fácil como é fácil conciliar ingenuidades, mas nunca foi total. Havia sempre um mas, um excesso de promessas que faziam hesitar um pobre desconfiado. Durou alguns anos o idílio, demasiados, enfim, para o que hoje me parece uma decisão inevitável.
Fhelícia seguiu o seu caminho - muito maior que o meu - hoje é uma estrela, brilha e alimenta milhares de fantasias, multiplica-se na sua versatilidade de mulher que tudo consegue. Constrói o seu império e reconheço-lhe agora uma frieza que então me iludiu. Cheguei a temer que me faltasse alguma coisa que me tornava incapaz de me deixar encantar por ela.
Hoje sei que na rua, longe do abrigo, distante do equilíbrio de um nome, corre-se o risco de Fhelícia aparecer nos sonhos.


Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

quarta-feira, maio 31, 2006

Ofensas (1)

Em mil novecentos e oitenta e dois disse-lhe, já não me lembro por que razão, que lhe queria emprestar o "Escuta, Zé Ninguém!" de Wilhelm Reich. Ela recusou dizendo que não se sentia o público alvo do livro.
Ikivuku

sexta-feira, maio 26, 2006

Brancura

Constrói-se uma dor na ausência. O espaço do vazio é lugar onde há uma coisa que não está. Há, então, para o vácuo, uma história. Um antes e um depois. E uma memória.

Vejo, quando vejo, o que está e o que não está. Leio, sobre a superfície opaca, letras de dimensão nula que a cor das superfícies identifica com a diferença.

Não quero enganar ninguém: o meu tema hoje é o nada. Não quero que se pense que há aqui alguma coisa escondida que se não percebe. De facto não quero que se pense.

Por vezes, em textos menos claros, aparecem palavras que parecem ter coisas para dizer e que criam a ilusão de haver alguma coisa por detrás. Dessas vezes o meu propósito, algo infantil, é enganar, fazer ver coisas que não existem nem sequer na minha imaginação. Aparece, nesses casos, um vulto ténue, que se insinua nos pensamentos e faz crer - pura crença, portanto - que é alguma coisa, que respira, que age, que mente e saltita na forma pouco perspicaz da velocidade.

Hoje é diferente. Falo da própria entidade que não existe e que, por isso, está mesmo por detrás da palavra que se omite. Não querendo dizer nada que não seja, digo, desde já, que o que digo não é.

Percebe-se que o meu obscuro mito é a honestidade. Percebo eu, pelo menos, quando, como agora, quero justificar-me de não saber. Não há justiça nenhuma no acaso. O que é o mesmo que dizer que a única entidade justa é a contingência.

Se eu tivesse um pouco mais de génio - e deixo em aberto a sua conexão com a inexistência - ousaria subtrair das palavras, aquelas que de uma maneira ou de outra já estão mortas.

Eu revelo: a minha frase fundadora é: no princípio era o verbo. De cada vez que digo, ou que o verbo se diz em mim, estou a substituir nada por vazio absoluto. Vazio dissoluto.

Gosto do verbo. Gosto de absurdas categorias gramaticais, códigos usados para esconder o que se quer mostrar. Gosto que sobre os lábios ocorram súbitas oclusões que fazem dar ao gesto sinais já antes perdidos.

Não há solução para o problema da ausência. Pede-se a um objecto que permaneça no seu lugar dando-se-lhe com hipótese de vida uma prisão. Espera-se portanto, deseja-se, que o que está continue e não se ausente de ser verdade.

Há objectos rebeldes. Decidem por si o lugar onde não estar. Criam lacunas no empilhamento regular dos horizontes. Fluem sempre a uma certa distância do olhar.

Hoje era dia de não afirmar. Também não era dia de negar. O meio termo ficou perdido no lugar estranho e o avanço foi confirmado por uma carta anónima.

Mais tarde ou mais cedo tudo se sabe. Essa é a esperança repartida em múltiplos de sete pelo olhar opaco da insistência. Não interessa nada que nada tenha interesse. No fim, seja isso o que for, não há-de restar nada também.

Consegue sempre provar-se o impossível. Existe, dizem que existe, um processo fiável de olhar para o passado e reconhecê-lo. E aquilo que não é, tanto pode estar no passado como no futuro. Digo eu que hoje tinha a intenção de me deitar cedo sobre uma metamorfose de que há muito deixei de gostar.

Há quem diga que nada se propaga à velocidade da luz. Poderia ser um mero jogo de palavras. Mas não é um mero jogo de palavras: é um jogo de palavras.


Prólogo

quarta-feira, maio 24, 2006

Pérolas (V)

Não sei se é perceptível. Mas esta pérola fez-me lembrar este texto:

"...

Saio depois da cozinha e vou até ao quintal dar de comer à Pequena. Chegou trazida pelo Fernando, que a encontrou num jantar de Natal na vila há alguns anos, a vaguear por entre as mesas do restaurante, ainda pequena. E Pequena ficou em mim, mesmo que tenha acabado por crescer. Vejo nela o coração aberto que o meu filho Fernando sempre teve, trazendo-a para casa e dando-lhe um tecto onde se proteger e onde, ainda hoje, enrolada na mesma manta de há anos, dorme

- Dorme, Pequena.

digo-lhe eu todas as noites quando fecho a porta do barraco e a protejo do breu que a noite traz.

..."
(pág. 96 de "Todos os Dias" de Jorge Reis-Sá)

sexta-feira, maio 19, 2006

Saliva

O meu único ódio é o vento.
Talvez seja exagero chamar-lhe ódio.
É uma impossibilidade de entendimento.
Não o escuto, não lhe dou ouvidos, não o atendo.
Não o quero nem compreendo porque me persegue.

No esforço rotineiro de subir a encosta, no complicado sistema de satisfação que construí, rola uma inconsequência em que acabo sempre por descortinar o vento.
Sopra sobre as árvores à procura de distâncias que não compreende e arruma os meus sentidos em lugares de exaustão e de impaciência.

Um dia, há muitos anos, provavelmente há muitos séculos, perdi o sentido do gosto.
Num rasgo de impossibilidade, morreu-me o prazer de saborear.
Não foi num momento mas em vários.
O sabor das coisas passou a ser uma paisagem visível a cada vez maior distância.

Poderia ter ficado cego ou surdo.
Mas as bárbaras ocorrências da sorte viraram-me contra o vento e contra mim.
De cada lado de uma fortuita sombra surgiram então memórias de sabores que já não sabia.

Não é justo que culpe o vento, eu sei.
E sei também que nunca serei justo para além de uma pequena proximidade do ódio.

Soube em tempos que o ódio nascia do medo.
Depois esqueci e preferi que o medo nascia do ódio.
Depois, muito depois, procurei razões e justiça e braços abertos que se fechavam sem razão nem justiça.

Só odeio o vento.
Embora seja menos do que ódio isto que sinto pelo vento.

Inevitavelmente procuro uma gradação nas palavras.
Comparo-as, reduzo-as a significados menores ou a espaços vazios que possam entusiasmar-me.
Odeio o vento mas amo a palavra vento que soa bem aos meus ouvidos e parece querer cantar.
Respiro a palavra vento.

Seria bom que as palavras existissem sem aquilo que dizem.

Sísifo

quinta-feira, maio 11, 2006

Vagas

Poderia pensar que o sol me incomodava. Torcidos que estavam os dias e os sentimentos parecia que a escuridão haveria de proteger os sentidos.
Mas não aconteceu assim.
Não voltaram os fantasmas e o sono foi calmo, a própria consciência adormecida, encolhida na suavidade fácil da almofada. Não tenho ainda notícias claras de que o medo fez a viagem de regresso. Sinto-me acompanhada nas minhas teorias da pobreza. Não percebo porque isso me anima tão pouco. Deveria ser agradável sentir a proximidade.
Mas procuramos desesperadamente a popularidade, a aprovação da maioria, mesmo sabendo que a maioria aprova por não pensar, apenas pela vaga sensação de que deve seguir nesse sentido. Custa que a sintonia se faça com tão poucos.
É dramática a ilusão que vou encontrando nas maiores certezas. Tudo o que vai fluindo é apenas o rasgo aproximadamente inútil de um gesto que se perdeu em flagrante delito de impaciência. Não me restam muitos caminhos no meu desengraçado processo de ilusão. Passo os dias e as noites embriagada de potenciais. Tudo assente na vaga solução de nada poder acontecer ainda que venha a ser uma agradável surpresa.
Nem me engano nem desengano. Supero cada instante como se fosse heroína, sabendo de antemão que é apenas a letra garrafal que ofusca o fracasso, pensando ao mesmo tempo que esse fracasso é de facto um sucesso inacessível às maiorias e aos acasos do momento.
Não adianta muito - não adianta nada - toda esta lamentação - admitindo que isto é uma lamentação.
O pormenor é sempre um desgosto. A alegria é a coisa global e abstracta, a coisa pública, a fachada do edifício que morre lentamente. A alegria é a potência do tempo, sinal apenas de ocasiões inexistentes, forma a conformar aspectos de inegável vazio.
Não tenhamos ilusões, a perda, o lado da desgraça, é a essência, o detalhe que encobre cada superfície pintada de fresco, macrocosmos do nada, envolto em ilusões vagamente alicerçadas em desconfiança e pudor.
Nada se é fora do incómodo de ser. Difusas luzes podem, por momentos, questionar o nada e a decadência. Outra vez o potencial de não ser. Divagações entrecortadas de legitimidade e afirmação. Nadas que se sobrepõem à sensação e à certeza.
Não adianta querer reforçar o medo, tudo é informe e destroçado na origem da própria confirmação.
Já não me peço significados nem decisões. Limito-me a despachar cada dia como se fosse um dejecto e pego no segundo seguinte com luvas esterilizadas.
Não há forma de o desejo permanecer coisa desejável. Vira-se o olhar para o lado e lá está, de novo e ainda, o peso de uma consciência perdida.
Ignoro. Agora ignoro tudo. Agora quero que me não digam nada do que se está a passar. Quero a ignorância, a ideia vaga de que poderia ser de outra maneira. Prefiro ficar só com a minha difusa imaginação. Fecho os sentidos. Encerro a actividade para um inventário infinito.

Beatriz Teresa

segunda-feira, maio 08, 2006

Dinâmica

Primeiro aprendemos que as histórias começam pelo princípio.
Fica, desde então, o vício paciente de esperar.
Sabe-se, por que sei, que mais tarde ou mais cedo haverá um momento em que tudo começa.
Alinham-se por isso as frases de uma maneira que possa parecer diferente.

Antes de tudo, interessa saber como foi que as coisas começaram.

Dizem que foi no mar.
Há muito tempo, depois de tempestades incompreensíveis.
Dizem que foi por acaso.
Num momento em que nada diria que havia coisas para acontecer.
Dizem que foi num instante.
Ninguém estava lá para apreciar a dor dos protagonistas.
Dizem ainda que não houve milagres.
Dizem também que só há milagres onde alguém os espera.

É fácil passar do particular ao geral.
Difícil é permanecer no particular e sentir contentamento com a prosaica realidade.
Fácil é correr velozmente pela simplicidade concertada da abstracção.

Agora que estamos aqui a olhar para a complexidade inútil das ondas e a medir o sentimento, que admitimos ter começado algures, num momento em que não estávamos atentos ao contador de histórias, façamos um amigável brinde a todos os princípios que ainda não sabemos mas sabemos que nos esperam, ainda que seja numa qualquer espécie de fim.

São válidos todos os caminhos para regressar.
Os sonhos já foram todos apagados pela incerteza.
Há vestígios comuns nos lugares onde já não conhecemos.

Voltámos, como sempre, sem saber aonde.
Nada interessa do que a memória conserva a não ser os desejos.
Dizem que os desejos começam todos no princípio...


Prólogo

domingo, maio 07, 2006

quinta-feira, maio 04, 2006

Postoito

Não, não é culpa. Volto atrás apenas com a ideia de aprender. Procuro entre os erros que cometi, aquele ou aqueles que foram mais importantes. Sinto que tenho o direito de saber. Procuro entre os erros aquele ou aqueles que melhor possam assumir significados e ser razões. Mas não é culpa. Como sabes, decidi abolir a culpa. Sentia-me demasiado só, demasiado carregado, ao assumir as culpas de tudo e de todos como se apenas eu tivesse errado. Era demais para um corpo só, para um corpo frágil, sem estrutura para ficar soterrado nas toneladas de resíduos que todos deitavam fora com a maior da volubilidades. Era demais. Não era eu que tinha de ter a culpa toda de tudo. Fiz, por isso, o mesmo que os outros: renunciei à culpa. Primeiro à culpa, depois à responsabilidade. Por uma questão de justiça. Por uma questão de sobrevivência.
Sim, eu sei que tu estás convencida que a culpa foi toda minha. Mas até aí ainda não cheguei. Ainda não sou capaz desse grau de pureza de te considerar a culpada de tudo. Isso ainda não consigo. Mas continuo a tentar. Sei que perco bastante tranquilidade em não conseguir essa ausência. Sei que estaria num outro degrau da realidade se conseguisse olhar para ti como causa única de tudo o que é mau e, assim, descansar de vez a minha consciência. Mas, por enquanto, tenho de conceder essa limitação da minha personalidade. Talvez venha daí o meu esforço em querer perceber o que se passou. Busco nos erros, epifanias. Busco nas falhas, sensibilidade. Busco nos desvios, reorientações. Busco nos desastres, o acaso. Busco nas fugas, a tua mão.
Disseram-me que era uma questão de tempo. Como o peixe que continua a crescer na imaginação do pescador que o apanhou, assim é o meu entendimento da história. Virá um dia em que não seremos mais do que estranhos. Estranhos mais estranhos que os que nunca se conheceram. É isso que esperamos do tempo, mais do que a cura das feridas ou a redução do medo. O que faço agora no passado, é espreitar cuidadosamente as gavetas nunca abertas e tentar apanhar os sonhos que voaram. O mais estranho é nunca te encontrar nesses lugares...

Aibieme

quinta-feira, abril 27, 2006

O Princípio da Tangência (I)

Vozes que não a minha deram em tempos recuados origem ao Princípio da Tangência. Os primeiros elementos que a história recolhe ligam-no a verticalidade e a sustentação. Só no século III da nossa Era o Princípio da Tangência se passou a definir nos padrões da intransigência, da filantropia e da exactidão. Hu In Tau, célebre pelas suas reflexões cósmicas, laborava sobre todas as funções que poderiam ser retiradas da mente sem que se perdesse o sentido da realidade.
Nem sempre as vozes fundadoras são as mais fecundas. Por vezes enredam-se na própria vaidade e vêem o que não está em lugares onde o que está não é visível. Se hoje vamos tão atrás à procura da essência - como se no passado remoto houvesse mesmo uma fulgurante explosão de ideias, de sonhos e de verdades - é apenas porque precisamos de acreditar num fundamento que se sustente em desconhecimento plausível.
Hu In Tau negava o paraíso. Para ele o progresso era o sentido do tempo e nada havia antes que fosse acima do agora.
Houve vários séculos que passaram até haver tempos e homens que de novo vertessem a sua orgânica atenção sobre a Tangência e os seus princípios. Por vezes é necessária uma catástrofe para que se desvie o olhar do correr complacente do rio. Mas não foi assim com a Tangência. Fa Tchu Min, poderoso Senhor de exércitos e cavalos, decidiu, aos trinta anos de idade, depois de uma tarde a esgrimir a sua preciosa espada, percorrer os mesmos caminhos de que nenhum dos contemporâneos se lembrava.
Não há registo das razões que levaram Fa Tchu Min a abandonar o aconchego de um lar poderoso para se dedicar à via zelosa do espírito e da indolência. Fora Fa Tchu Min um homem de letras e teria escrito pesados volumes de poderosa argumentação. Mas a potência dos dias tinha-lhe legado artes menos sublimes e de difícil entendimento. Logrou por isso - o, quiçá, mais envolvente dos arautos da Tangência - inscrever na sua mente e perante o obtuso desconhecimento de todos os que o rodeavam e seguiam, a mais completa e elaborada corporização do Princípio da Tangência.
Só no século XIX há notícia de outro caso de competência semelhante ter ocorrido, desta vez num indivíduo de origem e nome desconhecidos que, a partir do nada e de nenhuma evidência, construiu - se assim se pode dizer - a derradeira das versões do Princípio da Tangência. Vários estudiosos se têm dedicado nas últimas décadas a tentar identificar esta estranha e oculta personagem, no intuito de melhor a revelar aos olhos do nosso tempo. Mas tudo indica que terão de passar alguns séculos para que ele possa ter um nome.

Artur Torrado

Pérolas (III)

Quando é que não é Dia da Mãe?

domingo, abril 23, 2006

Determinismo

Não é totalmente verdade que eu procure a totalidade. Por vezes procuro apenas uma parte e espero que o todo venha depois, como consequência, como evidência. Quando digo tudo, e tenho consciência que não tenho consciência de estar sempre a dizer tudo, faço-o como um reflexo, não por reflectir mas por agir reflexamente, sem chegar a pensar, sem chegar a saber o que digo. Em tudo o que nos cerca - e este nos é sintomático de eu não querer ficar sozinho - há tudo o que a maior parte das vezes consideramos nada. Se eu procurasse a totalidade - se eu só me contentasse na ausência de exclusões - teria dito que há tudo o que todas as vezes consideramos nada.

É verdade que me incomodam as sobras. É verdade que antes de tudo procuro que tudo tenha uma explicação que não deixe pontas de fora. É verdade também que de tudo o que encontro me preocupam mais as coisas que não estão ainda inscritas na minha totalidade.

Mas não é totalmente verdade que eu procure a totalidade. Até porque não me resigno aos totalitarismos. Até porque fico sempre à espera de mais. Até porque nunca aceitaria a completude nem o fim.

Interessa-me sim o todo. Assim como me interessam as partes. Mas quando vejo uma parte, quando se amontoam à minha frente partes e mais partes, peças e mais peças, elementos e mais elementos, o olhar e o pensamento desesperam de encontrar um significado que os integre, sem sobras, sem excedentes, sem restos.

Mas não é totalmente verdade que eu procure a totalidade. Há a pulsão de montar o lego, e tirar do caos tudo o que ele possa ter escondido. Há a pulsão de criar significado onde ele quer estar oculto ou inexistente. Não interessa, então, como se chega à totalidade, da mesma maneira que não interessa reconhecer a totalidade.

Um total é sempre um sub-total. Depois de concluir continua tudo por acabar. Uma peça mais e o espaço continua vazio. Tudo o que se soma, tudo o que se multiplica, tudo o que se acumula, tudo o que se deseja, é apenas e sempre o início.

Prólogo

sábado, abril 22, 2006

Pérolas (II)

O ponto de vista de Judas. Fica-se com a consciência encurralada...

Postsete

Claro que me assusta o excesso. Dizes isso como se fosse natural que eu atirasse a minha vida pela janela só porque um impulso, um mero impulso, me deitou, por instantes - sabes o que são instantes - as mãos ao pescoço e me quis, não sei se o deva dizer assim, subitamente perdido, subitamente ausente, destino para outro lado, para outra questão, para outra finalidade. Claro que me assusta não saber que passo é o próximo. Não estou a falar em aventuras no espaço virtual, no espaço protegido do não me toques, do agora mato-te eu e depois matas-me tu a mim. Falo da realidade, do pouco de realidade que ainda existe, pelo menos para nós que nos habituámos a ter tudo, mesmo tudo, mesmo que estejamos sempre a gemer por nos faltar alguma coisa. Ignorância, ignorância consentida, ignorância querida. Claro que me assusta exagerar os meus gestos e perder depois disso a respeitabilidade. Que é isso de respeitabilidade? Também não sei. Sei que hoje é uma coisa feia, fora de moda, mas é também isso que me impede de embarcar totalmente em gestos irreversíveis. Está bem, a palavra certa pode ser esta: irreversibilidade. Sei de coisas irreversíveis, sei de ir e não voltar, sei de sonhar e depois cair em buracos que não têm fim e ficar, por isso, aterrado, enterrado no lodo de uma falsa sensação. Há lugares na terra, muitos lugares, talvez a maior parte dos lugares, em que todos os dias as pessoas que lá estão desafiam a irreversibilidade dos momentos e esperam, apenas esperam, que haja um momento de sorte e isso basta-lhes, parece-me a mim que isso lhes basta. Aliás, não têm oportunidade de saber sequer que existem outros mundos em que o desafio do instante é inventar desafios para o instante seguinte; em que está tudo previsto do nascimento até à morte e cada instante vale apenas o tédio de um capricho mal sucedido ou o difuso prazer de acrescentar mais um objecto à lista da fortuna. Ainda assim, ocasiões supremas de sofrimento, as falhas do elevador e do aquecimento central. Não, não sou capaz de arriscar fora dos parâmetros porque o meu risco é sempre um risco mascarado, uma imitação para consumo confortável na comodidade dos aposentos reais. Sei que te ofendo porque sentes que não estou a falar de mim mas de ti. O problema de conversarmos é sempre esse: cada palavra é uma ofensa; cada frase é um insulto; cada gesto é uma imprecação. Sei das tuas aventuras, sei que corres o risco todos os dias de te matares, pelos venenos que ingeres, pela maneira como vais pelas estradas, pelos lugares selvagens que visitas suspenso do confortável cartão de crédito. Sei das maravilhas da natureza que visitas nos lugares onde às vezes se contam sangrentas batalhas, aventuras uma imprevidência convencido da tua impunidade. Mas a mim o excesso assusta-me. É o meu sangue que teima em sentir que é igual ao daqueles que se debatem no lamaçal, no pântano - lembras-te? - que sustenta esta nossa animada fartura. Sabes bem a que me refiro. E eu sei que não adianta. Argumentas que tens apenas uma vida e esperas dela tirar tudo o que puderes, e depressa. E nada serei capaz de dizer que tenha qualquer sentido contra isso. Porque para me defender teria que ir buscar razões completamente fora de moda; razões que já demonstraram estar erradas como errado está tudo o que não se pode medir pela acumulação de mais e mais valor e poder. Como vês não gosto de excessos e por isso sou incapaz de dizer tudo o que pode ser dito, todo o excesso das palavras que possa falar abertamente do excesso que há neste excesso de ter.

Aibieme

Rastilho

Em toda a tua vida cometeste apenas um erro.
Em toda a tua vida houve apenas uma vez em que escolheste o caminho errado.
Um desvio apenas.
Um lapso.

Não sei quando nem o quê.
Não estava lá, no momento, a lucidez nem a vontade.
Ocorreu apenas o passo dado, no lado distinto do que devia ser.
Foi um pouco ao lado nunca saberei de quê.

Fizeste o teu momento, encaminhaste os passos para o plano que sobrava.
Viraste à esquerda quando era para virar à direita.
Subiste num momento em que era imperioso descer.

Nada é claro no desenvolver dos instantes e dos mistérios.
Nunca se propõe que o destino seja uma coisa pré-definida.
Mas está lá sempre o caminho projectado por um desenhador louco no início dos tempos.

O teu erro poderá ter sido um sonho.
Um pensamento que por desatenção vagueou fora do propósito.
Estiveste, por momentos, ausente da consciência histórica e trocou-se o efeito físico pelo metafísico.

Lado a lado seguem o destino e a consciência, alinhados no pudor e na insistência.
Há uma certa clareza no desejo, mas há também as regras e a estabilidade do sol.
Voam sempre os edifícios distantes no real e na sensibilidade.

Caminhaste sempre na tua recusa da imobilidade.
O erro foi apenas um, definitivo por isso, inevitável porque submisso aos tremores da consciência.

Não há ciclos.
Tudo emerge novo de novo.
Pálidas flores que agora brotam são diferentes das pálidas flores dos anos passados.
E a chuva - estas gotas inocentes de vida - é a que agora cai e que agora molha.

Tiveste o teu tempo de fraqueza.
Falhaste a ocasião em que o teu olhar estava ocupado em vão.
É mesmo assim.
É sempre um erro que nos traz a liberdade...


Sísifo

domingo, abril 09, 2006

Escritor gasoso

sexta-feira, abril 07, 2006

Amor?

Nitrato

- Parasitismo? ................................... (jp)
- Sufoco? ........................................ (elipse)
- Frio? ................................................. (MRF)
- Quando o verde acontece. ................... (bastet)
- Oposto de (isto). ........................... (semcantigas)
- Ó mas ele liga-me! ........................... (semcantigas)
- És feio, atreve-te! ..................... (escárnio e maldizer)
- ... qual é que era a pergunta? ............... (fausta paixão)
- Temos parada nupcial!!! ........................ (fausta paixão)
- Enleios na fibra? ....................................................... (jp)

Roleta russa

(para o Escritor Famoso V)

A cena passa-se num dado perfeito. Há um cubículo cúbico em reconstrução. Paredes sem estuque nem escuta, caídas e recuperadas de um ataque.
Uma mesa verde num chão plano. Além do dado, um baralho de cartas escritas a toda a volta com versos e infiéis. Far-se-á uma contabilidade dogmática.
Duas câmaras e várias freguesias, ou uma apenas se for bem gerida, focam alternadamente os rostos sombrios de duas personagens que podem ser dois homens, duas mulheres ou, preferencialmente, por uma questão de cotas, um homem e uma mulher ou uma mulher e um homem, para ser tão correcto quanto possível.
Admitindo que as personagens sejam capazes de dizer alguma coisa, escondem-se microfones e a câmara aproxima-se lenta mas continuamente de um rosto de cada vez. A não ser que aconteça alguma coisa inesperada. Nesse caso, os protagonistas devem ser devolvidos a instâncias superiores.
A foca deve estar imóvel e o móvel deve estar focado. Se isso não for possível, usar uma foca de plástico e deixá-la na sombra. Há uma expectativa mística.
Acima de tudo que ninguém se aperceba que existe um realizador. Para ele a câmara deve olhar de lado sem pestanejar. Só é oculto o que está à vista.
Um pouco mais abaixo ficam as luzes, junto a iluminuras do século treze. Não usar romanos nem romãs. Se não houver iluminuras disponíveis evita-se que as câmaras se desloquem acima do olhar humano. Não esquecer de desenrolar um novelo de lã de uma cor barata.
A mesa verde é pentagonal. As duas personagens esperam mais três. Ninguém sabe se vêm. É provável que isso não interesse. Tudo depende do ónus da prova.
Acima de tudo, no mesmo lugar do realizador, espera-se um acontecimento inesperado. Há cadeiras para todos: umas são genuínas, outras feitas em segunda época. A cadeira do realizador não conta mas terá escrito rodazilaer ao contrário nas costas para ser lido no espelho, como se fosse uma ambulância. Pode ser necessária. Um acontecimento extraordinário aponta para necessidades urgentes de socorro.
No nível imediatamente inferior, um pouco acima das cabeças sentadas, baloiça um pêndulo metálico de grandes proporções. Não sei para quê. Há-de ser uma metáfora difícil. Há-de haver na minha infância um pêndulo capaz de o justificar. Na superfície curva da esfera pendular estará colado um cartaz de uma promoção turística. O cartaz não deve ter mulheres nuas embora por instantes possa parecer que o cartaz tem mulheres nuas. Convém ter a sala aquecida.
Ao nível dos olhos de quem está sentado formam-se sombras oscilantes. As sombras sobrepõem-se por vezes aos rostos sombrios, tornando-os, por instantes, rostos sóbrios. Movem-se devagar imitando a câmara lenta.
À cota do plano do pano da mesa há fumo. Nada de cigarros. Apenas incenso chinês genuíno com cheiro a brócolos cozidos. A dada altura há-de cheirar a carne queimada. Talvez isso faça comover as personagens. Cheirar é como ver. Mas é mais envolvente porque é químico.
Sobre a mesa há duas garrafas de água exactamente iguais. Luso, Vitális, Serra da Estrela, Evian, Perrier, Pedras Salgadas, tanto faz. Tanto faz porque uma delas tem ácido clorídrico. A dúvida maior é se as personagens devem ou não saber qual o conteúdo da garrafa. Se souberem o drama é antes. Se não souberem o drama é depois.
Os cigarros estão no chão sob a forma de beatas pisadas. Mas as câmaras não olham para o chão. As câmaras olham sempre na horizontal: nem sobranceiras nem submissas. Fitam o horizonte à procura do tal inesperado. O perigo raramente vem de cima ou de baixo. É melhor as beatas não entrarem na história. Tudo pela dignidade.

A acção decorre a uma hora morta. A decisão é deixada ao acaso. Cada um age segundo a sua vontade. A protagonista poderá ser uma garrafa de água. Mas também pode ser o pêndulo. Ou o dado. Um dado novo é sempre perfeito. É muito improvável que depois do riso não ocorra um drama.

Diálogo exemplar:

PA é a personagem A; PE é a personagem E.

PX - O meu médico recomendou-me riso.
PX - O meu patrão recomendou-me produtividade.

Frases de reserva

PX - O meu pai recomendou-me juízo.
PX - O meu advogado recomendou-me prudência.
PX - O meu massagista recomendou-me actividade.
PX - O meu padrinho recomendou-me investimento.
PX - O meu tutor recomendou-me sexo.
PX - Na televisão recomendaram calma.
PX - Os meus professores recomendam-me estudo.
PX - O meu gestor de conta recomendou-me boas acções.
PX - O meu maior amigo recomendou-me viajar.
PX - O meu arrumador recomendou-me cocaína.
PX - O meu padre recomendou-me comunhão.
PX - O meu porteiro recomendou-me um alarme.
PX - O meu jardineiro recomendou-me água.


Artur Torrado

quinta-feira, abril 06, 2006

Pérolas (I)

Quem gostar de contos de fadas vá aqui. Quem não gostar também...

segunda-feira, abril 03, 2006

Divagação

Sobre o topo da colina há hoje um nevoeiro denso.
Nada se vê para além do alcance dos passos e o retorno da minha voz chega abafado pela cegueira da humidade.
Temo por isso que o meu trabalho hoje me não deixe chegar à satisfação.

São muitos os truques que o tempo inventa para tirar dos meus gestos o sorriso.
Ardiloso é o tempo.
Dá-se, para que nos lembremos das coisas antigas, mas espera que a ignorância chegue sempre primeiro.
Compra cada elemento da nossa memória a um preço de saldo e devolve apenas o que lhe convém para os seus inconfessáveis desejos.

Paciente é o tempo.
Está antes de nós e fica depois de nós e esquece-se de nós e continua sempre.
Não se pode confiar nele.
Em nenhum tempo.
Seja ele qual for há-de tentar que sejamos, mais tarde ou mais cedo pura ilusão.

Hoje fez-se um nevoeiro denso como que a tentar que eu desistisse.
É penosa a subida e o esforço duplica para vencer a dureza do caminho.
Partilho as gotas de água do meu rosto com as gotas do tempo, vítima e algoz lado a lado como velhos e inseparáveis amigos.
Mesmo no topo desta montanha, quase no topo, portanto, pomos o barco a velejar; por tão pouco.

Gosto de percursos teoricamente perfeitos.
É aí, nessa linearidade que o pensamento encontra atravessando os caminhos mais complexos, que sinto o valer a pena do existir.
Pega-se em símbolos, em artefactos rigorosamente inúteis, que não se comem, nem se bebem, nem nos dão continuidade, e constrói-se uma forma, ainda ausência, mas metamorfose sentida do nada.
Aos artifícios do tempo respondo com um sabor de sonho.

Haverá sempre muitos caminhos possíveis.
Todos bons e todos maus.
Todos inúteis e todos perfeitos.
Todos rigorosamente certos e todos caoticamente errados.
No fim, seja qual for, estará sempre uma frase a dar-me alento, um pássaro a sobrevoar impossíveis, uma nota de música a acomodar contrastes, um fio de aranha a sustentar-me, uma estranha ordem a desafiar-me, um incompreensível infinito...
Sei que nada disto vale a pena, mas sei que é isto que vale a pena.

No meio do nevoeiro, que eu olho em vez de ver, está o objectivo.
Não o vejo e por isso não sei se está lá, mas avanço, avanço sempre, fazendo do avanço o meu desejo.
Sigo cauteloso, temente à surpresa de um instante que quebre a magia de querer.
À frente, lá à frente, está o tal lugar que presumo meu destino.
Mas o meu destino só o saberei depois.
E...

Sísifo

quarta-feira, março 29, 2006

Fenomenologia

A morte é fácil mas morre-se a custo. O custo da morte é a soma dos custos fixos com os custos variáveis. Mas morre-se. Masmorra definitiva, a morte, ou liberdade final, não sei. Um dia teremos a morte a custo zero e não custará nada morrer, ainda que não seja uma experiência a repetir, no sentido individualista do termo. Ser social, o homem, como os outros animais e as plantas, morre sozinho.
Morrer a custo zero poderia ser um objectivo político. Tipo utilizador-pagador. A terra a quem a trabalha. A terra a quem a alimenta. Facilmente passamos de uma morte a custo zero para uma morte rentável, desde que encaremos a coisa numa perspectiva neoliberal e deixemos a porta aberta à livre iniciativa. Ninguém tem dúvidas que mesmo nas sociedades mais colectivistas a morte é actividade do sector privado.
Não é justo, no entanto, dizer que ninguém tem dúvidas. Já não estamos nesse tempo em que outros galos cantariam e o sol brilharia para todos nós. O assunto do momento é a morte e, potencialmente, a custo zero.
Estudos recentes concluíram que a vida tem um preço. Não está cotada na bolsa oficial nem no PSI 20 por razões de operacionalidade, mas tornou-se bastante claro que a vida, medida de todas as coisas, tem um preço. Está, por isso, no mercado e disponível para ofertas de aquisição, públicas e privadas. Por estarem no mercado, as vidas, a vida, a tal, tem um preço que é relativamente elevado para quem não tem pais ricos ou não teve sorte no euro-milhões...
O preço da vida humana, tal como os puros-sangues, é feito a partir do preço base com que sai de fábrica mais os custos de 'marketing' e promoção, que podem multiplicar largamente o preço base como acontece com qualquer produto agrícola ou industrial.
Se houver oportunidade para olhar para uma vida mais de perto, pode verificar-se que na formação do preço base as matérias primas não são muito relevantes, pelo menos para a maioria dos casos. Mais importante é o valor acrescentado, que hoje parece resumir-se à incorporação de tecnologia.
Falei de preços mas queria dizer custos, embora custe muito perceber como o preço é tão diferente do custo. É sempre necessário meter o mercado na história. O que é sempre muito mais fácil do que meter a História no mercado. É o mercado que decide o preço. É o mercado que decide tudo. E é tudo uma questão de percepção. O que interessa é o valor percebido pelo mercado. E o verdadeiro trabalho, o tal lugar da inovação e da criatividade, está em fazer perceber ao mercado a melhor relação custo-benefício. É por isso que a morte é cara apesar de o custo tender para zero.

Prólogo

terça-feira, março 28, 2006

Postseis

Poderia ter-te informado mais cedo da minha decisão. Poderia ter-te dito o mesmo dois anos antes. Talvez até três anos antes. Não é fácil determinar a data em que um elo se quebra. Gosto da imagem da grossa corda de sisal a que o tempo vai roendo um fio de cada vez e em que a decisão se espalha pela passagem ansiosa do tempo. Por isso não sei dizer-te quando se quebrou o primeiro dos fios. Nem sei se já se quebrou o último. Talvez haja uma espécie de erosão natural que leva a que em cada dia se quebre um elo.
Sabes como eu procuro obsessivamente o porquê das coisas. Faço-o apesar de saber que é um exercício inútil. Porque também já sei que não adianta saber: de uma ou de outra forma cometemos sempre os mesmos ou outros erros. Não me lembro já que palavras tinhas para esta maneira de ser que de início te soube bem e depois a pouco e a cada vez menos.
Não sei o que se passa com o amor. Uma coisa que parecia antes uma forma de magnetismo natural que atraía os seres, passou agora a ser um exercício esforçado com técnicas laboriosas, mecanismos de precisão e manual de utilização. Aquilo que parecia uma força interior firmemente inexplicável foi agora substituído por uma ginástica cheia de exercícios de manutenção que obrigam o amante a uma dedicação de estudo e prática digno de um 'entertainer' profissional que prende pelo apelo genial de cada gesto e de cada surpresa. Ora, essa atitude do amante substitui a marca pelo seu genérico e fica, por isso, disponível para qualquer bolsa.
Isto não é um queixume. É uma constatação. Eu podia ter-te informado mais cedo sobre a minha decisão se eu soubesse ler melhor os sinais exteriores de tristeza. Porque a imagem da corda é uma boa imagem mas não é mais do que uma imagem. Porque há momentos, de maior ou menor lucidez - não sei - em que, agora, tantos anos depois, me parece que houve um instante que não sei precisar, depois do qual tudo se tornou irreversível e em que os actos, a voz, o respirar, o pó dos livros, o miar do gato e o arrastar dos pés dos vizinhos, colaboraram todos para eliminar a robustez dos fios de sisal.

Aibieme

segunda-feira, março 20, 2006

Trio

É sempre legítimo dizer coisas horríveis acerca da humidade.
Faz-se o mesmo com as coisas altas e com as coisas baixas.
E com isso, sendo isso as palavras e os sons que se não percebem, arrumam-se de uma vez só várias questões fracturantes.

Mas eu não desdenho a humidade.
Nenhuma humidade.

Lá em cima, no lugar onde penso sempre ser o topo, é também o lugar onde as nuvens se formam.
Às vezes, com tempo, com bom tempo, fico no meio delas, oscilando entre o horror de não ter horizonte e o prazer de ser vivo.
Nesses dias sinto-me a água que como eu, desce a montanha a correr, e formo-me em gotas que tombam brincando com a gravidade dos factos.
Ser água é não ser mágoa, é escorrer pelos caminhos feitos de tempo e escolher sem escolher o lugar preferido para evaporar de novo.

Às vezes sou vapor.
E como vapor subo, ascendo ao topo, ao lugar onde as pressões já não me comprimem.
É como vapor que me vêem os olhos dos que olham para os textos e não lêem.
E é isso que é bom no vapor: ser a metamorfose de uma coisa que é o nada e nada é.

Como vapor sou sonho; como líquido sou intenção; como sólido sou morte.
Voar, andar ou morrer.

Um dia serei gelo.
Pedra partida e seca, morta, despenhada no caminho, veneno reversível.
E isso, isso de ser gelo morte e tudo, deixarei para depois, para quando já me tiver esquecido.
Também podia ser assim: sonhar, lembrar, esquecer.

Entretanto, entre tanto sonho, entretenho os dias mudando de estado, viagem à volta dos lugares e de volta aos lugares em que cristalizo sombras.
Desço rápido a montanha que me abriga; recupero o tempo dando-lhe outra forma; ascendo às alturas por força de um vento poderoso; e não me canso, não me canso, não me canso...

Sísifo