sexta-feira, julho 21, 2006

A dificuldade de ler (24)

Capítulo I (retoma)

Quando conheci o Peter senti que era agora, que esta era a oportunidade, finalmente, de alguém que não era como se esperava que fosse, e que tinha, parecia-me a mim, um coração, assim uma coisa amável, que sentia em conformidade mas não estava preso a nada nem sentia com as situações do dia a dia relação ou remorso; vogava pela vida como se já soubesse da sua inutilidade e não parecia incomodado, e eu achei que esse poderia ser o formato adequado para encaixar as minhas sucessivas desilusões; parecia, e era, uma indolência benigna, uma condescendência com a evidente materialidade da vida; subia as escadas da casa que eu queria nossa e dizia ao chegar, com arrepiante sinceridade que já não tinha medo de se afogar no ar embaciado que respirávamos os dois ao mesmo tempo, dentro da mesma casa, e que o meu cheiro, que a princípio lhe tinha provocado algum temor, era agora uma coisa familiar que até podia ser benigno quando ele não sentia, pelo cheiro sim!, que me dominava a angústia e as moléculas da minha pele se escapavam pela pressão interna do desespero. Senti, com ele, outra vez, que era desta vez, que o quadro se compunha, que tinha aqui ao pé a dureza arrepiante do imponderável revestida de uma forma que sendo reconhecível não era da mesma espécie que várias vezes me quisera tornar pedaço humano morto e enterrado; acreditei, acredito, que qualquer expressão particular havia que me não enganava nesta ocorrência singular de homem que primava por não saber a que me referia quando não me referia a outra coisa que não ele próprio e assumia que entre nós, entre o corpo dele e o meu corpo, havia, de facto, uma união que não era tradutível em sinais universais e buscava nessa particularidade de único a suficiente harmonia de ser ao contrário do que até então eu conhecera que parecia sempre feito da matéria oscilante de um espelho que tenta reflectir em cada gesto um outro gesto já usado e aprovado pelas normas e pelas associações que impunemente governam e arregimentam o mundo. Só depois eu quis saber quem era o Peter, buscar pelo seu corpo marcas de identidade, encontrar nas suas palavras e nos seu tiques impressões digitais de um eu que escapava sucessivamente à lógica, à certeza, à prudência, à consciência, à posse...
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, julho 20, 2006

A dificuldade de ler (23)

Não é importante que eu diga os lugares onde as coisas aconteceram, nem os nomes das pessoas, nem o modo como se desvaneceu a minha raiva; não interessam as datas, a altura do ano ou que paixão me movia; não vale a pena referir os nomes, os apelidos, as alcunhas, os estilos de vida ou a falta de estilo das vidas, tirando agora o Peter que é o que agora interessa, porque é o homem que agora tenho ou é o homem que agora me tem ou não é uma coisa nem outra porque não sei que chamar a esta ausência de espaço entre nós quando estamos à distância e a angústia que se forma quando o vejo a dormir fora do meu tempo, fora da minha forma de ser, e não sei, Doutor, não consigo perceber o que o move agora, o que o leva para os seus amigos, para a sua noite, para a sua definição de mundo que não se aparenta a nada do que até aqui tive que cumprir; e fico à espera, Doutor, e não sei, não sei se vale a pena, outra vez...

Interrupção I (pequena intercalação no capítulo)

Há informações que levam a crer que o destino não está traçado. Disseram isso no noticiário das 18:00h. Baseados em estudos realizados nos últimos doze anos numa rede de universidades do país, os cientistas Edward Morgan Forster e Nadine Gordimer, apresentaram um extenso relatório onde confirmam tudo o que não se sabia nem estava demonstrado no relatório preliminar apresentado há cinco anos no décimo sétimo Congresso Internacional de Saúde Ambiental, Políticas Alternativas e Geriatria Animal. "Desta vez fomos ao fundo da questão e conseguimos dados surpreendentes que terão impacto imediato na perspectiva que o homem tem sobre si próprio" foram as palavras com que o Dr. Forster iniciou um longo discurso que poderá deixar o país em estado de choque. "A próxima fase da investigação - a que apenas falta o adequado financiamento para ter início - irá, esperamos nós, demonstrar a existência de Deus com o mesmo grau de confiança com que agora demonstrámos a fragilidade do destino". Wall Street reagiu mal ao anúncio e a generalidade das acções tiveram recuos da ordem dos sete por cento. A Dra. Gordimer, confrontada com a questão bolsista, reagiu de imediato declinando quaisquer responsabilidades uma vez que mais importante do que a vida económica é a vida espiritual e o conhecimento da verdade. Entretanto, todo o sistema hospitalar britânico entrou em alerta amarelo, no temor de uma súbita onda de tentativas de suicídio.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, julho 19, 2006

Cedo

Percebi cedo que é muito mais fácil quando não se quer.
Cedo demais. E cedo demais também.
Por não querer, cedo passei a ceder ao querer que não era meu.
Porque era mais fácil. Foi isso que percebi cedo demais.
Cedo demais quer dizer antes de poder perceber que o que é mais fácil cedo, pode não ser mais fácil mais tarde.
Cedo demais quer dizer que não oponho resistência às vontades por não encontrar outra vontade para lhes opor.
Mais cedo ou mais tarde acabamos por ceder.
E eu que percebi, cedo demais, que era mais fácil não querer, percebi, tarde demais, que cedi demais.

Percebi, tarde demais também, que não era nada fácil não querer.
Embora em princípio, cedo portanto, parecesse que o mais fácil era não querer, percebi enfim, sem querer, que o não querer era difícil.
Se primeiro, e bem cedo, percebi ser muito mais fácil não querer, depois, muito depois, concedi que é muito difícil não querer.
Porque o que eu percebi já muito tarde foi que em todas as coisas há um antes e um depois e um antes e um depois antes e depois de cada antes e depois e assim sucessivamente.
E o que eu achei mais fácil tinha a ver com o depois porque ao não querer eu não tinha que me haver com as consequências de querer.
E ao querer, como percebi mais tarde - tarde demais - não cedo à vontade de não querer e fico, sem querer, indiferente ao fácil e ao difícil.

Percebi, concedo que nem tarde nem cedo, que antes cedia com facilidade e por causa disso era tudo demasiado difícil.
Parecia - e não posso dizer que perceba o que apenas parece - sempre demasiado cedo para dizer que bastava e sempre demasiado tarde para recomeçar.

Agora, enquanto não descubro coisas novas que possam, sem que eu o queira, alterar este desequilíbrio estável, agrada-me acreditar que não é cedo nem é tarde para tentar não ceder a esta vontade, que cedo percebi, de não querer por parecer mais fácil.
É uma questão de crer. Bom... mas isso de crer é outra história.

Prólogo

A dificuldade de ler (22)

Fugi, Doutor e fugi várias vezes. É próprio dos animais fugirem dos ambientes hostis, procurarem lugares que os aceitem ou, pelo menos durante algum tempo, lhes pareçam amigáveis, tolerantes, no mínimo lugares que os ignorem e os deixem em paz. E foi isso que eu fiz. Foi assim que andei de poiso em poiso, não propriamente à procura - o que é sempre uma maneira bonita de ilustrar o nómada - mas empurrada pela substância do acaso, ávida de corroer em cada humilde pausa, a textura delicadamente construída no interior de cada universo diferente que fui encontrando, e acreditando, e sonhando, e construindo, e perdendo... Mesmo no contínuo estado de perda acabei, sempre, por ser mãe, Doutor. Mulher com a matriz da maternidade, como se um poder superior determinasse ter que ser mesmo assim, com ou contra, em estádio de ser ou de parecer, em forma ou em conteúdo, em vontade ou em mera contradição de termos e de lamentações; sempre adiando o dia em que havia de ser por outra causa qualquer que não a de salvar, de trazer a vida na palma da mão, como uma planta que se cuida para ser outra vez razão nenhuma, outro arbusto a suportar os custos da sombra e a sentir ai, no desgosto de não ser e ao mesmo tempo não saber o que é ser, reservada a intenção para mais tarde, para quando fosse possível, para quando Deus quisesse, para depois de salvar tudo e todos, na impossibilidade flagrante de não continuar a dar apenas lágrimas como contributo à felicidade imaginada para todos.

Mas não é bem assim, Doutor. Estava a deixar-me ir pelas palavras. Por instantes pode ter parecido que estas fugas estiveram isentas de ódio e isso não é sequer pensável porque o que me moveu, juntamente com o medo e ao mesmo tempo que o medo, foi o ódio, puro e duro, firme de morte, revolta total contra a presença e contra a ausência, clima tonitruante de ira extrema e sangue enxameado de destruição, de veneno, de asco... Sabe como as emoções vão e vêm, sabe, somos todos assim, pesa-nos às vezes a alma com a importância que de repente um nada ganha e nos faz perder o sentido do real, e ficar o mundo inteiro pendurado pelo fio flácido de uma aranha mesmo à mão da nossa mão de justiça...
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, julho 18, 2006

A dificuldade de ler (21)

O Doutor deve saber que não há muitos destinos possíveis para um mulher quando emerge nos vastos e maioritários espaços em que ainda se não deu forma a alguma desarrumação na geometria elementar das consciências, e quando digo que não há muitos destinos não consigo evitar pensar em apenas dois, na restrição binária do maniqueísmo nivelado pela morbidez mental de costumes - substâncias nauseantes a que se convencionou agregar sentido para justificar como justo tudo o que empalidece e esvai em nada o paradoxo da inteligência - que deixa como caminhos exclusivos e de sentido único, a perda sumária da dignidade no banquete dos prazeres ou a dor silogística da maternidade, Madalena ou Maria para sempre, rostos contraditórios nos extremos da fuga ao máximo terror de perceber e aceitar a diversidade do ser e do gesto, temor, sempre temor, terror, medo absoluto a vencer outro medo absoluto, luta constante com o aproximar da estranheza, culto dogmático da ignorância e da imposição, e medo, e medo, e humilhação, tudo por um pedaço de tempo próprio para sentir, sem nunca chegar a saber como; vida binária, ser e ter sem ser nem ter, e deixar o gosto inebriante da simetria, como na benevolência da rima e do gesto harmonioso, determinar a verdade, o belo, o bom, o sentido e a divindade. Foi por isso que fugi, que saí de lá, de ao pé dos lugares em que me sentia primitiva, desses lugares em que se acredita que a verdade é uma coisa que foi determinada num passado muito distante e onde agora nada mais nos resta que esperar que esse luxo abandonado regresse, sempre com este sentido de termos sido abandonados, deixados à nossa sorte por não termos sabido aproveitar o que valia a pena e termos optado não sei bem porque maus caminhos, mas certamente os mesmos limitados maus caminhos que uma humanidade fêmea pode tomar na sua essência de criatura a quem mais não resta do que perder-se ou cuidar devotamente da sua geração, dando-lhe por um lado razões externas para viver e alimentando por outro a sua amargura do resto que sobrou de uma intenção melhor que nunca se pode concretizar, ilibada mesmo assim de culpas se souber apreciar na dor o êxtase merecido e na dádiva da vida a vida como dádiva. Foi por isso que fugi, mesmo não sabendo que era por isso que fugia.
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, julho 17, 2006

A dificuldade de ler (20)

Nos desatinos de uma ocasião ficou o meu corpo preso à demência de gerar outro e só a sorte anónima de um habitat que fazia por se proteger do que era demais, segundo uma lei fatal que vinha de profundidades irracionais, ficou-se a meio do seu potencial num passe de dolorosa magia em que um gesto brusco e quase cirúrgico recolocou a vida na sua ensanguenta normalidade e me retirou a mim uma impureza que não podia ser por não estar prevista na lei a impunidade para os actos que não se deixam medir pela fraqueza ou pela força dos que podem e determinam. Fiquei também, e ao mesmo tempo, dispensada para sempre dos pesadelos do pecado como se o acto de morte tivesse sido ao mesmo tempo uma confirmação do meu baptismo de vida e uma carta de alforria para o prazer e para a isenção formal dos seus meritórios impostos. Mas eu era ainda demasiado jovem e já demasiado ressentida e tudo o que poderia vir a seguir estava contaminado de excesso e de negação e todo o passo que eu desse pelos caminhos que já estavam escrutinados de desrespeito por quem tinha ido além do que a moral pedia, como se cada acto feito à revelia da consciência fosse um teste mais à viabilidade orgânica de um ser que tinha que escolher na idade tenra o lugar social a que iria pertencer, colocando com a devida precisão a hierarquia elementar dos desejos e a formulação exacta das possibilidades - escolha portanto que não era escolha mas teste absoluto a uma natureza que era viável ou não, como aconteceu logo a seguir quando na fábrica aprendi a rejeitar, sem apelo nem agravo, o que não fosse de acordo com a norma e a aproveitar apenas o que encaixava no 'check list' rotineiro, deixando de lado, qual ditador desumano, o objecto em que um lapso milimétrico no erro de fabrico, tinha ensaiado uma condenável imperfeição - dizia eu, todo passo que eu desse, fosse por onde fosse, seria um falso alarme de outro passo que nunca seria capaz de dar.
(continua)

Torcato Matos

domingo, julho 16, 2006

A dificuldade de ler (19)

Tudo nesse passado se perdeu através de frinchas de portas que escutavam assobios repentinos de medo e da assombração pormenorizada que cada gesto de um pai que era ali rei para compensar as humilhações de um dia a dia desesperado e tinha para com o mundo que nos cercava e afogava, frases absolutas e inquestionáveis, leis divinas a somar às leis divinas que a mãe divulgava em provérbios assentes na verdade irrefutável da rima pobre que talvez se chame assim por ser rima de pobre ou se tenha tornado pobre por ser a rima das verdades que só interessam a quem deve permanecer pobre para todo o sempre a fim de que recicle habilmente os restos que vão caindo da soberba mesa de quem pode e eu não sabia que todo o destino está na infância e nada mais se pode acrescentar a esse pedaço de tempo em que as palavras ainda não se dividiram em múltiplos significados e que, mesmo o que sabemos é, antes de mais, o mais ineficaz dos conhecimentos a levar o sentido da existência para labirintos em que já se sabe que o caminho não tem saída mas mesmo assim se tenta na esperança de um milagre que também sabemos não existir, sendo um saber a que não damos importância porque temos de dar mais importância ao silvo embriagado da água que finalmente aqueceu e traz a potência de por momentos reduzir o desconforto de dias e dias em que não era possível senão encostar corpo contra corpo para sentir que o mundo não acabava ali naquele gelo que comprimia a difícil respiração e expulsava vapores nauseantes pela boca que no meio da tosse e dos fumos fabris ainda tinha um espaço mínimo por onde manter o sangue a correr, e o coração, coisa de textura mole e inadaptada, ousava admitir que havia um futuro reservado noutro corpo, sem saber como nem porquê, atento apenas aos esgares fortuitos das secreções e à movimentação estratégica das hormonas, inquietas de se fazerem sentir na formalidade doentia de quereres que não eram vontades mas pareciam, e que levavam a água ao seu moinho, isentas de responsabilidade e de medo de consequências, anestesiados os dons da moral e dos provérbios pobres de rima e requerida da altura de um abismo a urgência inestimável que dava para retirar do mundo o estado supremo da fascinação do instante e o arremedo instantaneamente gasto do prazer.
(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 15, 2006

Pérolas (XI)

É reincidente. Uma padeira que chama os bois pelos nomes.

A dificuldade de ler (18)

- Este sabor, Doutor, faz-me regressar à menina de há muitos anos, ao amargor de saber que o que está para acontecer é sempre pior que o que já aconteceu e o som da broca, o agudo que entra pelos ouvidos, arrepio de vida a fugir por entre os dedos, dor insuportável antes do contacto, silvo de bala prolongado no tempo, à espera de um corpo que há-de encontrar mais tarde ou mais cedo, morto ou vivo, indiferente ao que não seja o próprio sofrimento e indiferente também à astúcia do tempo a recriminar os afectos e a perder as esperanças, abandonada já a infância, com uma certa pressa, não fosse o azar das questões internas provocar derrames alargados de lágrimas e de pensamentos na modesta casa em que as coisas só aconteciam motivadas por alguma pressão do exterior ou das bocas que se ouviam à passagem, ou que nem se ouviam mas ficavam nos ouvidos como se fossem ditas porque, para todos os efeitos, sentíamos que eram merecidas ou mesmo desejadas, que as questões que se punham a quem nem sequer tinha tido tempo para aprender a sonhar, quanto mais a soletrar as letras difíceis do alfabeto de uma virtude qualquer e em que, a cada momento que passava, parecia que o anterior tinha sido mais um degrau descido em direcção a um inferno ainda mais desumano, eram vagas emanações de uma retórica impiedosa, morta à nascença e deixada abandonada no caminho para que todos vissem a miséria como forma legal de dar à ilusão um espaço sensível e tributável, porque o problema maior era já termos visto o outro lado, sabermos, na nossa ignorância, que havia um lado de lá, rigoroso de promessas e ares misteriosamente limpos e de aparência salubre - atraentes esses lugares - mais não fosse porque eram outros lugares que não os do hábito da censura e da negação e de parecer, porque parecia, Doutor, que além do nosso casulo com cheiro a estrume, cercado de odores que carregavam a morte, havia lugares em que o nariz não se fechava na defensiva e aspirava como se se pudesse respirar realmente e sempre.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, julho 14, 2006

A dificuldade de ler (17- C1/P1)

Capítulo I

- Vamos lá então ver como vão essas miseráveis cáries.
- Doutor, preciso de lhe falar do Peter.
- Então porquê? Ele continua a não querer lavar os dentes?
- Não é isso, é o nosso casamento que está em risco.
- Vocês são casados? Pensei que ele fosse teu filho.
- Pareço assim tão velha?
- Não. Por amor de Deus. Ele é que parece um adolescente. Também não se cansa muito com o que faz... Abre lá a boca.
- Estive a ler as cartas. E fiquei assustada. Ele aparece ao lado de Deus. Não sei como interpretar.
- Hum... Não te preocupes. Todos estamos junto de Deus. Abre a boca.
- Não tenho nada nos dentes, Doutor. Tenho a alma dorida.
- Está bem. Mas já que estás aqui deixa ver.
- Preciso de falar consigo. Preciso de falar com alguém que me conheça um pouco mais do que como leitora de cartas. Preciso de ajuda, Doutor. O Peter...
- Acredito, Elsa. Mas eu sou dentista, não sou psiquiatra.
- Não tenho dinheiro para psiquiatras, Doutor. A única especialidade em que o serviço nacional de saúde me dá o direito de falar deitada a custo zero é a odontologia.
- Mas eu não percebo a não ser de dentes. Dentes e gengivas, estás a ver?
- As coisas estão todas ligadas Doutor. O meu tormento é na cabeça. Preciso de falar.
- A parte que eu conheço da cabeça é a mecânica. Não é a psíquica. Os meus instrumentos não interagem com a alma.
- Isso é o que o Doutor pensa. A estabilidade familiar é óptima para combater a cárie. Preciso que me ouça, que se sente aqui atrás de mim e tome atenção ao que eu digo.
- É ridículo, Elsa. Eu sou um cientista, pá. Tu é que lês cartas e mãos e fazes magias. Eu leio o passado nos dentes e tento alterar o futuro deles.
- Uma parte da história está nos dentes e a outra eu conto mas preciso da sua ajuda.
- Tenho mais pessoas lá fora à espera.
- Isso não tem importância. Tenho que falar do Peter.
- Fala lá, mas depressa.
- Só preciso de uma coisa antes.
- O quê?
- Umas gotas de desinfectante na boca e um bocadinho de som da broca...
- Estás doida?
- Vá lá, Doutor. É muito importante. Mesmo muito importante.
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, julho 13, 2006

Dever

Devemos esperar simplicidade nas leis da física.
Exactamente como esperamos no amor e na alegria.
Para cada acto improvável criam-se à volta dos pensamentos auréolas de insanidade.

Deve haver uma equação a várias incógnitas para a loucura.
Soma-se, subtrai-se, divide-se e multiplica-se o resto pelo desejo.
E as incógnitas permanecem à superfície de uma exactidão imoral.

Deve haver um sistema indeterminado para calcular a moral da história.
Cada equação traz a indiferença perante a hipótese do olhar.
Cada variável agarrada a uma constante indefinição.
Cada termo compondo um princípio básico para o fim.

Devemos buscar a ordem na finalidade.
Cumprir os rituais que levam a dignidade à morte e sentir esta manifestação opaca do querer como uma épica manobra do medo.

Devem o ter e o ser sobrepor-se na sua branca nulidade.
Afagar a dor como companheira para amansar a fera escura e pura.
Preparar a arma e a vontade para perecer com mágica alegria.

Devemos esperar simplicidade nos cálculos.
Exactamente como esperamos simplicidade na nuvem e nas estrelas.
Para cada pensamento improvável ocorrem poderosos actos de demência.

Deve haver um momento irresolúvel em que a paz se instala.
Antes, agora, depois, no acordar seco da aurora inquestionável, precipitam-se os cristais amorfos do que parecia possível.
Eleva-se no ar a força fraca de não saber ler, nem escrever, nem contar com o passado nem com o futuro para nada.

Deve haver um eficiente e dedicado professor que nos ensine a não perder, a colocar sobre o prato da balança a massa atómica das partículas elementares da existência, a ver pelo tubo óptico o disfarce continuado dos elementos, a misturar no copo todos os ilíquidos pensamentos nucleares, a sondar com infinita prudência a inércia fraterna da matéria.

Devemos passar os dedos com suavidade contida na textura fina da pele que amamos e procurar em cada poro esse infinito que se ausenta a cada momento do universo fluído de viver.

Prólogo

A dificuldade de ler (16- P/P16)

Ele, Peter, tinha agora uma missão de carácter algo indefinido. Digo eu que nada tenho de omnisciente e preciso de me socorrer das fontes para não meter água.

Peço desculpa. O meu editor já me informou que a minha posição como narrador é muito ambígua e que eu devo tomar cuidado para não aborrecer ninguém com devaneios que só a mim dizem respeito. Por isso decidi que neste momento - que me soa a trágico - vou morrer como personagem desta história, passando a dedicar-me exclusivamente à elevada função que, num certo sentido, me é mais familiar. Os milhares de cartas que recebi até hoje a encorajar o meu interesse pela verdade, são quase unânimes na identificação da minha função como mero elemento de transmissão - reparem na cacofonia involuntária do 'ão' - da informação. Assim se dirá, daqui em diante, que o narrador participante jaz morto e enterrado.

O encontro que ele, Peter, tinha marcado com um certo desconhecido, com uma intenção ainda por esclarecer, tinha afinal acontecido com outro desconhecido que ele sabia agora chamar-se Bill e que o tinha salvo de uma cilada, pois outra coisa não era o encontro que tinha marcado com o primeiro desconhecido. A vida tem estas estranhas coincidências e Peter seguia, com estes pensamentos e pouco mais, na expectativa de conseguir que o seu passo largo e enérgico o colocasse em casa suficientemente antes de o sol nascer.

Elsa esperava-o, como sempre, com uma chávena de chocolate quente e um cálice de Porto. Davam-se bem. Não fora aquela dessincronia entre o dia dela e a noite dele e poderia até dizer-se que formavam o par ideal. Peter sentiu um esboço de ternura ao beber o chocolate gelado enquanto via os vidros do cálice espalhados e a mancha doce de vinho do Porto no écran da televisão. Mais uma razão para não gastarem uma pipa de massa numa frágil televisão de cristais líquidos.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, julho 11, 2006

Pérolas (X)

Um ai de fazer perder a respiração.

A dificuldade de ler (15- P/P15)

Devo reconhecer que a história fugiu, por instantes, ao meu controlo. Há na estrutura do acaso elementos desconcertantes e eu não sou pessoa de tratar indelicadamente os visitantes inoportunos. Mas neste caso, não é o caso deste acaso. Bill é um velho conhecido. Está descrito na maioria dos bons compêndios e pode ser considerado o arquétipo do bom selvagem que não teve nunca a oportunidade de o ser. Tinha como sonho de infância ser o Robin dos Bosques, roubando os ricos para dar aos pobres, mas a inevitabilidade da intervenção estatal na economia levou-o, tal como é próprio de um bom estado, a roubar a classe média para distribuir equitativamente pelos ricos.

Teve sorte, temos de concordar. Vive na altura certa em que existe um vasto mundo ansioso por ser roubado e que ainda agradece por isso. Mas a distribuição da riqueza é um fenómeno de cariz erótico: não tem sentido quando aderente à rotina.

Peter, ele próprio, nomeado Peter para o que der e vier, passou a sentir que tinha alguma coisa para fazer para além daquelas missões já gastas que de vez em quando lhe calhavam sem que percebesse porquê.

Mestre Bill tinha para ele uma missão que não era de rotina. Tudo indicava que desta vez o espírito revolucionário do Mestre iria transferir significativa informação do super-ego social para o id estatal. Tudo questões que transcendiam Peter mas, por isso mesmo, lhe davam um poderosa sensação de pertencer a algo mais do que a sua miserável evidência. Os passos eram agora lentos mas seguros. Tudo parecia fazer sentido e encaixar. A verdade histórica tinha, por uma vez, buscado uma concretização dentro do mais improvável dos seus membros.
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, julho 10, 2006

A dificuldade de ler (14- P/P14)

- Então como te chamas, pá?
- Diz-me tu o nome que hei-de ter.
- É justo. Vou nomear-te. Chamar-te-ás Pedro*!
- E tu, como te chamas?
- Eu? Boa! Nomeia-me tu. Dá-me um nome que passe a ser o meu. Ou adivinha o meu nome.
- Chamo-te chefe**.
- Hum... Não, muito convencional.
- Deus***?
- Eh pá, isso é uma blasfémia. Tenta outro. Imagina alguma coisa que a minha cara te lembre.
- Não consigo ver, está muito escuro. Apetecia-me chamar-te Bill****.
- Ok, ok. Bill, acertaste. Bill o rapaz do Filão Trópico. Que achas?
- Não percebo mas acho bem, Bill. Fica-te bem o nome.
- Vejo que nos entendemos. Pedro. Pedro Tocha *****! Este é um grande dia para nós e, terás de reconhecer, especialmente para ti.
- Agradeço-te a boa vontade Bill, és um cavaleiro****** às direitas.
- Como disse em tempos e com elevado sentido de estado um profeta do Apocalipse, “há males que vêm por bem”. A tua história era para ser outra. Sei de fonte segura - e eu sou um homem muito bem informado - que a tua história, a tua outra história, foi comida por um disco rígido. O sistema operativo******* falhou e da tua história ficou o que já estava escrito. Há portanto uma descontinuidade no espaço tempo e toda uma infinidade de possibilidades na tua mão.
- Perdi há pouco a oportunidade de ficar um homem rico por possuir um colar de diamantes.
- Estás a exagerar. Era apenas uma pulseira. Nada de especial, Pedro. Nada de relevante perante o futuro que te espera.
- Confesso que não te percebo.
- Por uma questão de relevância cósmica prefiro que me chames Mestre Bill********.
- Como queiras, Mestre Bill.

* Peter no original; ** Boss no original; *** God no original; **** Bill no original; ***** Peter Tosh no original;
****** Cavalheiro no original; ******* OS no original; ******** Master Bill no original

(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 08, 2006

A dificuldade de ler (13- P/P13)

Investigação, meus amigos, investigação. Pesquisa, pois claro, pesquisa. Insistência na procura das causas. Tentativas e erros. Muitas tentativas e menos erros. Persistência no alcance da verdade. É assim que se descobre. É assim que se vai em frente para chegar à essência das coisas. Especialização na recolha dos sinais relevantes, selecção dos cordelinhos determinantes e aí estamos nós na presença dos factos.

Ele acordou pela força nocturna da escuridão com a nádegas doridas e o pescoço torcido pela posição em que esperou pacientemente uma decisão adequada à estanha situação que vivera. Não fora eu um agente insuspeito da transmissão da verdade e arriscaria dizer que ele não se lembrava porquê. Mas não é esse o meu propósito.

Avançou de novo pela ponte ao encontro do encontro que marcara, esclarecida que estava a posição inadequada do sol. Escolhia aquela ponte em vez de uma das outras apenas porque anos atrás o vento lhe levara ali um boné hip-hop de estimação e havia sempre a hipótese... Estranhos são os caminhos por onde segue a realidade quando não sobram escapatórias para a consciência.

Tinha caído sobre Londres uma camada espessa de nevoeiro de baixa qualidade. Ele seguia o seu caminho com o mesmo à vontade de sempre, indiferente às circunstâncias especiais, indiferente à pressão atmosférica, à temperatura e à humanidade.
(continua)

Torcato Matos

Segue o cego e vês a vez

Quando o artista fala, deita pela boca fora muitos paradoxos. Ficamos por isso desentendidos mas a comunicação rola sobre a relva enxuta. A bola sobe sempre acima da iluminação dos holofotes e deixa por momentos de se ver. Do Vouga vêm as almas mais pacíficas à procura da morte. Do artista então ninguém fala porque é sempre um homem que domina o verbo. Partir? Para onde iremos agora que as flores do paraíso já murcharam todas com a indecisão do ministro. De Deus, a Quem o respeito é devido, podem sempre ser dadas as melhores referências. Bíblias gráficas, cheias de iluminuras, foram local de aprendizagem para gerações de monges copistas que deram ao tempo novo a sua razão de cor. E salteadores houve que se apropriaram dos tesouros da humanidade e a pouparam de se perder. Com tanto lixo tóxico acumulado que até já se fazem exposições de partes de corpo humano. De Caim, que sempre foi tido como má rês, pode dizer-se que teve a arte de iniciar as trevas ao negar-se à obediência. Cega de inveja veio a virtude mais tarde a esclarecer que a história pode não ter sido escrita dessa maneira linear. Mente quem teima em negar a importância da arte. Factos são factos e quem vai ligar às vis afirmações dos que perdem? A semente que foi lançada há milhares de anos, na noite angustiante dos tempos e dos passatempos televisivos, medra agora sob as formas alongadas do buraco de ozono. E a zona onde as coisas correm mal é sempre a norte do equador. Porque a dor do cavalo cansado – também conhecida como sopa de burro – cai da cela em que esteve preso à vida por instantes. Momentos de fulgor, certamente, desprezados pela rotina e pela junta de freguesia. Da loja mandaram hortaliças e pão centeio para fazer um caldo verde à moda de Paris. Ou dais à luz, tanto faz, porque hoje já não é sinal dos céus a chegada de uma cegonha sem gripe ao seu poste de alta tensão. Alta é também uma maneira fácil de morrer ao sair do hospital quando não há mais entretenimentos que façam correr riscos calculados. Numa folha de Excel, com meia dúzia de comandos, pode fazer-se a contabilidade do mais valioso e do menos. Mal fica quem não tem onde cair morto, embora depois pouco importe. Do estrangeiro vêm sempre novas e esclarecedoras definições sobre o que vale a pena. E o castelo dos Mouros já não fica no deserto da Arábia mas nas areias da praia. Mar por onde escorrem os últimos fios de água de uma secura universal da garganta. Funda-se uma nação para impor um novo ideário à vida e à expressão do prazer. De ler tanta coisa ficamos perdidos do sentido e da direcção em que a história segue. Um olhar que se quer pleno e gregário e orientado para o plano da razão. Pura não será a arte por causa da contaminação dos riscos que sobem de não saber onde termina o quadro comunitário de apoio. Moral da história: a arte é o dom de quem queria seguir à risca o esforço do acaso. Ocaso.


Artur Torrado

sexta-feira, julho 07, 2006

A dificuldade de ler (12- P/P12)

Quando cheguei a casa - apesar de isto não ter interesse nenhum - não consegui pregar olho. Ainda peguei no martelo e num prego mas o meu coração mole impediu-me com razões piegas. O universo tem a habilidade natural para incorporar as excepções. Quando aparece um vencedor o resto do mundo agrupa-se contra ele para o derrotar. Talvez eu me tenha vindo embora para não o ver perder.

Não vale a pena termos qualquer ilusão sobre o desenlace das histórias. Já nada acontece de relevante. Para sentirmos alguma coisa, passámos, os mais corajosos, a perfurar a pele com estiletes à procura da essência do prazer e dos ovos de ouro. Mas o remate dessa história já toda a gente conhece e aqui, neste momento optimista, há que ter esperança de a história não se repetir nem a moral ser sempre a mesma.

Tahar Ben Jelloun, dezassete anos, nascido no Reino Unido de imigrantes sobre-sarianos, residente num número ímpar da Portobello Road, com a tatuagem de um Tuaregue na nádega esquerda, apoderou-se da pulseira de brilhantes que tinha em cima um homem de vinte e cinco anos, magro e alto, mais magro que alto, com enorme e genética dificuldade em tomar decisões repentinas, pelas dezassete horas e vinte e cinco minutos do dia treze de Maio de mil novecentos e noventa e nove. Tanto o jovem como a pulseira são dados como desaparecidos o que significa que estão em parte incerta.
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, julho 06, 2006

A dificuldade de ler (11- P/P11)

É curioso como a curiosidade procura a razão irracional. É curioso também como o processo de pesquisa parte sempre de pressupostos conservadores. O jogo de cintura que os olhos fazem ao fixarem-se num brilho que os fascina é também uma manobra erótica. Pelo menos pode ser vista desse prisma sem que as cores se difractem.

Um corpo sozinho, sentado no descampado de um parque sobre uma pulseira com gotas de carbono puro, torna-se um alvo que não está em movimento. Nestas alturas os humanos agrupam-se. Reúnem-se em clãs, em tribos, em matilhas e em sociedades secretas.

Ele pensou vagamente que saber as horas lhe poderia ser útil. Poderia ser muito cedo ou demasiado tarde, que as nuvens não deixavam ver onde dançava o sol. Tinha uma ideia, também ela vaga, de que o dia, primeiro ficava mais claro e depois a luminosidade descaía quase até ao zero da noite. Mas faltava-lhe a experiência do dia para poder sentir-se à vontade.

Confesso que me aborrece ficar aqui à espera que o dia acabe para que então ele tome uma decisão qualquer que o tire da imobilidade. Adormeço de tédio estando aqui mais um segundo. Às vezes temos que saber desligar-nos das coisas mesmo que não gostemos delas.

Ele ficou bem. Deixei-o sentado, vigilante, atento aos movimentos ondulatórios dos outros, com um súbito interesse na vida, uma luz no olhar.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, julho 05, 2006

A dificuldade de ler (10- P/P10)

Pode ter sido por associação de ideias que, de repente, a ponte acabou, abruptamente, como se um arquitecto louco - outra vez - tivesse concebido uma ponte louca para homens sãos usarem para mudarem de estado físico e psíquico.

Ele saltou os vários metros que separavam a plataforma elevada do passeio-margem que seguia entre as árvores, à beira da preguiça ensopada do rio, e caiu de pé sem ter rodado sobre si com um mortal à retaguarda. Falta sempre algum dote artístico aos heróis, que perdem por isso o respeito dos belos e ficam entregues à lágrima fácil das sopeiras.

Aos pés dele, sobre a dureza castanha da terra repisada, estava em reluzente abandono um pulseira de diamantes. Olhou à volta. Várias pessoas olhavam disfarçadamente, na expectativa de que ele percebesse que eles tinham visto mas ninguém mais percebesse o que cada um tinha visto. Porque o brilho era muito e atraía a atenção do mais desprevenido. Uma jovem loura que tinha os cabelos pintados de preto, seguiu o seu caminho na direcção dele, querendo parecer natural que não se desviasse nem um milímetro do seu caminho em linha recta, porque se se desviasse isso quereria dizer que tinha visto o mesmo que os outros, apesar de ela não saber que os outros também tinham visto e desejar que os outros não soubessem que tinha visto o brilho que viu.

Ele sentou-se no chão, as pernas pernas cruzadas e o olhar meditativo, sobre o incómodo da pulseira que tinha as pedras mais duras da terra. Sentado, nervoso, impaciente, dramático, tirou os óculos escuros e percebeu que afinal era dia. Alguns factos e algumas ideias poderiam ter feito sentido naquele instantes se o sentido fosse o que ele procurava.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, julho 04, 2006

A dificuldade de ler (9- P/P9)

Ele pensa com palavras. A ponte do rio é demasiado longa para se atravessar numa noite de verão. Ele pensa, com palavras, em voltar para trás, para o aconchego das pontes que se atravessam num ápice e devolvem o outro lado das coisas sem o gosto avermelhado da ira. "Um homem não desiste" murmura entre dentes apertados contra o esforço de seguir em frente numa ponte que ainda sobe por tardar em chegar ao apogeu da travessia.

Enquanto ele atravessa a cada vez mais longa ponte, ocorre-me que os ventos, a humidade, o cheiro poluído da água, a transpiração do esforço, o andar do relógio, a presença de um olhar inquiridor, o fantasma imperioso da torre, a força inconstante do vento, todas essas mudanças desconexas de contexto que desamparam o herói, podem desgraçadamente transformar um homem normal num louco imprevisível. Ou o contrário. Mas isto é apenas uma hipótese, uma opinião, uma achega à perplexidade que a cena propõe. E é preciso que ao sair do contexto não me perca em formalidades nem apanhe demasiado frio.

A ponte, como qualquer ponte, há-de chegar ao fim. Ele não tem pensamentos que cheguem para tão extensa travessia. Há certezas que se vão no caudal do rio e outras que se formam ou regressam do momento em que já tinham morrido. Ressurge nele uma vontade de outra margem e, no desespero, naquela proporção destemperada de gestos em que se esquecem os valores da lógica, pronuncia com delicada propriedade uma oração da infância que para todos os efeitos estava dada como perdida, morta e enterrada no lugar mais escuro da submissão.
(continua)

Torcato Matos

Esfera

É verdade que no cimo da montanha há uma miragem.
De lá, do cansaço da subida e do ar rarefeito, vê-se o universo como se fosse logo ali.
De lá, da pele áspera do frio e da secura, ouve-se a terra com se fosse paz.
De lá, da febre e do prazer da conquista, sente-se o corpo como se voasse.

Há na repetição dos gestos, louváveis secreções de sonhos.
Movimento balanceado do ritmo de ir sabendo do regresso e de voltar para não permanecer.
Sobem as certezas na flecha do tempo e da ambição.
Crescem como vulcões os sentidos da posse, da vontade, da insistência...

Todos os dias o mar entra alegre pela nesga apertada da rocha.
Baba-se de prazer com a espuma de estar a cumprir uma missão.
O mar sabe.
O mar sabe há muito tempo qual é a sua ordem e o seu destino.
Faz o que tem a fazer e não pede desculpa a ninguém.
Segue a sua vocação de saber ir e saber voltar.
Segue a sua intenção de ser livre porque imprevisível e insensato.

Quando, no cimo da montanha, as estrelas ficam ali próximas, à mão de semear, dispostas em formas clássicas e dispostas a serenar o espírito, penso que sou o mar, a desfrutar da praia onde entrei à força do músculo das marés.

Quando, lá no alto, o som ausente estremece nos meus pulmões limpos da cegueira e da fome, e o ténue risco que separa as nações se mostra imponderável, vejo-me a inundar os corais e a animar as cores infundadas das anémonas.

Quando, no topo, na sólida rigidez das pernas, gastas de ingratas caminhadas e quedas e regressos e medos e sonhos e impossibilidades, desejo-me sentido e calmo, sorvendo a lentidão solene de um balouçar prudente, encantador de sereias, de tempo e de servidão.

Todos os dias o sentido iluminado volta.
Pelas ruas crescem, à porta das casas, as ilusões.
Não é necessário esperar mais tempo para perceber que será sempre assim.

Mas não importa.
À porta de cada casa há uma razão própria e única para colher as flores.
Cada degrau passa por cima de toda a Terra.
Por muito alto que suba é sempre a mesma a distância ao centro.

Sísifo

segunda-feira, julho 03, 2006

A dificuldade de ler (8- P/P8)

Lembro-me de já ter escrito esta mesma sequência noutra história e de ter apagado, um a um, os caracteres alternadamente localizados à frente e atrás do lugar original, fazendo surgir uma outra história com ainda menos sentido. Mas já percebi que é assim mesmo. De cada lado de uma narrativa, nascem várias que a completam ou destroem ou se tornam figuras autónomas de uma espécie de texto fundamental do universo. Eu não participo; estou aqui, por acaso, a servir de capacho aos reis e aos príncipes.

Ele tinha uma ponte muito longa para atravessar. No lugar marcado para o encontro não encontrara ninguém, porque estava lá, inesperadamente, gente a mais, gente de mais, mais do que gente. Ele não sabia justificar o que é que havia lá, mas não era um encontro assim que o movia e por isso removeu-se ao encontro de outro encontro do lado de lá da ponte que naquele momento, por razões que agora desconheço, se sobrepunha ao Tamisa. Os rios correm sempre acima do nível do mar, antes de morrerem, antes de naufragarem.

Não era previsível uma ponte extensa para atravessar um rio estreito. Para ele era uma agradável surpresa saber que demoraria mais do que o desejado e mais do que o necessário. Nada interessa se não tiver o seu tempo próprio, se não se medir pela dificuldade expressa com que se identifica na marca de água, no estrondo da queda de um corpo no líquido viscoso da noite. É provável que ele tenha pensado isto, ainda que não o fizesse com estas palavras.
(continua)

Torcato Matos

domingo, julho 02, 2006

A dificuldade de ler (7- P/P7)

É provável, até porque é costume, que tenha passado algum tempo entre o instante em que ele adormeceu e o instante em que acordou. Tinha anoitecido e ela já não estava presente. Também não estava presente em nenhum lugar da casa escura. A sala consultório estava envolta na penumbra de fumos já gastos e a cozinha emitia as manchas pálidas da televisão acesa, mais do que suficientes para encontrar às apalpadelas bolachas integrais sem colesterol e uma cerveja familiar.

A torre da igreja batia as horas mas eram demasiadas para ele perder tempo a contá-las. Mau a matemática, passara a também ser mau a contar coisas, a enumerar os objectos e os acontecimentos. De uma boca destas não saem factos nem interpretações.

Saiu pela porta para poder saber o estado do tempo no alpendre antes de se meter à estrada. Havia sombras de folhas no local onde, no dia anterior - melhor dizendo, num dia anterior - tinha depositado, sem grande entusiasmo os restos imortais de uma coisa estranha que tinha sentido.

Ao chegar ao local do encontro já se tinha esquecido da importância que tem a noite para esconder os desejos. Havia muita gente naquele lugar e isso tornava difícil distinguir o que era luz do que era reflexo e do que não era uma coisa nem outra mas o simples desejo de ver. Tinha dito a Elsa que o medo era apenas um instante; não durava mais do que o instante antes de saber: e antes de saber era necessário o medo, para que cada acto fosse mais do que um simples jogo de cartas.
(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 01, 2006

A dificuldade de ler (6- P/P6)

Perguntei-te apenas se me amavas, como se pergunta nos filmes, mas agora já percebi que não.” “O amor para mim sempre foi, só e apenas, o medo da ausência e o medo da presença. Todos os que amei até hoje foram os mesmos que eu magoei, e a todos eles receei magoar e a todos precisei de magoar. Não tive alternativa. Contigo não é diferente. Magoo-te todas as vezes que te digo alguma coisa e ficas magoado também quando ignoro o que me dizes e perguntas. É por isso que passei a ser absolutamente sincera sobre o que penso e sinto, mesmo quando não penso nem sinto nada. E se te digo que neste momento não sei dizer se te amo ou não, quase que te posso garantir que mal saias aquela porta sentirei o desejo absurdo do teu regresso e a angústia de não estares presente. É assim que eu sinto e é assim que eu sempre senti. Razão não tenho para sentir de outra maneira como não tenho para sentir desta.”

Ele, que não dorme nunca, entretanto adormeceu envolto no mistério de não saber se a amava, já que ela só o amava na ausência e ele na ausência nem se lembrava que ela existia. E as formas da existência e dos sonhos são sempre absurdas, inúteis em sentido lato, vertidas daquela intenção de sobreviver que vem de uma vontade interior inexplicável. Faça-se luz! E a luz fez-se.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, junho 30, 2006

Lilly Rose

Agora que parece inevitável a partida, deixo aqui uma última carta de amor.

Eu também não perdoo que se perca a Lilly pela falta de uma palavra. Porque pode haver sempre heterónimos que substituam heterónimos. Mas há heterónimos que se apaixonam por heterónimos e a seguir se perdem de dor pela ausência. Quem somos nós para nos metermos nesse mundo em que os heterónimos vagueiam? Que temos nós a ver com aqueles que não somos? Que poder é este de ser e não ser ao mesmo tempo? Não, não é justo que uma palavra faça desaparecer outra e que essa outra leve com ela as palavras que estavam a germinar num outro lugar imaginado. Porque há sempre a hipótese de não haver a certeza sobre quem se conforma no heterónimo. Há sempre a possibilidade de o heterónimo ser afinal o outro que tem o poder de se esquecer por não querer recordar. Não, não é justo que o heterónimo desanime o outro heterónimo, ou, parafraseando o Luís Filipe Cristóvão, nos contentemos em ser poucos lá em casa para o muito que há para fazer. Não desistas Lilly de encontrar a palavra certa para o espaço vazio. Há no feminino o dom de criar o espaço adequado à presença do masculino. Seja assim, então, a ausência de uma ‘password’ a castração da potência que dava a Lilly a hipótese de ser desejada. Espaço vazio que nada gera, que nada produz, que nada sofre e que nada goza. Não, não é justo que uma palavra elimine outra.

Ikivuku

A dificuldade de ler (5- P/P5)

Devo nesta altura reconhecer que os dados de que disponho sobre a verdade dos factos são tão fidedignos como quaisquer outros e esses outros de que não vou falar por não os reconhecer como legítimos nem legitimamente os conhecer, não farão parte da realidade que à vista de todos construo.

Ao dizer isto não quero forçar as coisas e meter-me numa história que já afirmei e confirmo não me tem como personagem. Eu limito-me – e a palavra é mesmo esta – a enquadrar os acontecimentos de maneira a que eles façam sentido ou estejam muito perto disso. Cada personagem tem a sua oportunidade e ela não podia deixar escapar o momento em que a atenção se concentra nas cartas.

Ao contrário do que pode parecer ele não dorme. Pergunta-lhe: “amas-me?” “Não sei. Tenho que perguntar às cartas. O mundo é dinâmico e o meu desejo escapa-se por entre os dedos. Amo-te quando estás ausente. Amo-te quando sais daqui em missão e te acompanho pensando nos perigos que corres, na violência que enfrentas, no medo terrível de que não voltes. Mas agora que estás cá, não sei. Tenho que perguntar às cartas, ler na tua mão e na minha e nas mãos do destino. Sei lá o que é o amor. Sei que contigo ausente me preocupo e contigo aqui ainda me preocupo mais. Amo-te como? A que te referes?”
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, junho 29, 2006

Pérolas (IX)

Carta? Poema? Incêndio? Intensidade... "... somos poucos para tudo o que há a fazer..."

A dificuldade de ler (4- P/P4)

Foi nessa altura ou um pouco mais tarde, não sei agora precisar, que ele saiu do carro e entrou em casa pela janela das traseiras como um ladrão que não tem nada a temer por saber a casa vazia. Nunca o prenderiam por roubar ar de respirar, por ser um ar como os outros e, bom ou mau, ser património mundial e não propriedade particular de um inocente qualquer.

Fechou a janela com cuidado para não ferir os cortinados que esvoaçavam com uma felicidade assustadora. Isto sou eu a dizer. Porque ele não pensava, nem pensa, em coisas tão banais como a felicidade. O efeito de cada segundo sobre o empilhar de energia nas células é, em si, causa mais do que suficiente para viver.

Havia no compartimento um cheiro a sono que contaminava todas as emoções e propunha ao instante que cedesse o seu tempo à ausência. Acendeu a luz para localizar a cama que todos os dias se mudava.

Depois apagou a luz para dormir. Dizem que os gatos vêem de noite e ele não sendo um gato via de noite os gatos pardos e dormia de dia para não saber o que se passava nem se preocupar com isso.

Ela - ainda não tinha dito que havia uma ela - a que cuidava dele, que era amante e cartomante e quiromante e às vezes adivinhava o futuro, tendo nisso uma percentagem razoável de sucesso, aproximou-se do repousado e sentiu-lhe a febre com a mão na testa de ferro.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, junho 28, 2006

A dificuldade de ler (3- P/P3)

Falava eu do pulso que neste caso pode ser o pulso dele. Estava deitado, sobre a perna direita o pulso direito e sobre o volante a mão esquerda mantinha o seu mais directo pulso suspenso das decisões do cérebro que bebia sangue dentro das catedrais. Pulsava, portanto, o pulso em ritmo de cruzeiro, sinal apropriado à via e à morte e ao mais que se quiser.

Há entre o suicida e o pulso uma relação de amor-ódio. Vários autores, todos experientes, sustentam que o pulso pode ser uma espécie de alter ego do inimigo. Outros autores, também experientes, dizem o contrário mas com menos veemência.

Ele acendeu um cigarro com o isqueiro do carro. Não sei se o renault quatro gtl tem isqueiro. Mas isso não é relevante porque poderá querer dizer que o carro não era um renault quatro gtl. Não me surpreenderia que não fosse porque nenhum outro nome de carro tem, neste momento, a musicalidade necessária.

Abriu a janela de correr com um gesto brusco mas o fumo não saiu. Estava frio cá fora depois das gotas de chuva deslavada. O fumo recusava-se a sair do carro porque tinha o objectivo genético de entrar nos pulmões dele ou de outro qualquer humano. Seria lamentável que uma molécula que fosse se perdesse da sua função primária, do seu destino inscrito nos genes. Lembrei-me que também ele poderia ter nascido para matar e por isso se conformou a comer o fumo como sobremesa de sangue.

(continua)

Torcato Matos

Caminho

Parte tudo dessa vontade de querer construir fora da realidade.
Começamos pelo rosto inocente, pela pele de bronze uniforme e pelo gesto contido dentro dos parâmetros da impunidade.
São inúmeros e insondáveis os caminhos do senhor.

Sei que me querem culpar de uma herança que recebi.
Tentação genética da sociedade com consumo mínimo obrigatório.
Cada ocasião de resistência só o é se for também ocasião de morte.

Não me defino no sentido obrigatório das consciências e por isso não me defino em lugar nenhum.
Passa-se do gesto obscuro ao inevitável consentimento do medo.
Cada facto é um momento desgarrado das potencialidades, limitando o futuro à evidência e reduzindo a zero a esperança.

São inúmeros e insondáveis os caminhos do senhor.
O meu caminho passa pela sombra; ilumina-se com claridades emprestadas pela indiferença.
Outros diriam que os caminhos onde nos cansamos são o outro lado das caminhas onde descansamos.
Mas isso seria um jogo erótico de conveniência de sons.

Ainda não é possível caminhar sobre as estrelas.
Ouvem-se os gritos como ecos da distância e baixa-se o volume para a perturbação ceder.
Todos os dias há loucas tempestades de areia a apagar o rasto da morte.


Pensa-se em algo para o futuro sabendo de antemão que o futuro já foi e nada sobrou do regozijo.
Escuta-se a utopia como exemplo e como preparação.
A seguir virá o nada e por ser menos, não é.
Ainda assim, suspiramos de alívio pelos riscos que não corremos...

Beatriz Teresa

(post anterior)

terça-feira, junho 27, 2006

A dificuldade de ler (2- P/P2)

Ele bebeu o sangue e voltou a sair, não pela porta por onde entrara, mas por outra que não sei dizer qual devido ao estado de agonia em que fiquei quando ele bebeu o sangue com a mesma passividade de quem bebe um copo de água - ou uma cerveja sem álcool para não parecer tão prosaico.

Na rua chovia. E o que chovia não era sangue. Água, um bocado suja, verdadeira lama por vezes que deixou os carros imundos, mesmo o dele que agora, já sem sede, se sentou no renault quatro gtl e pegou num livro que não era nada um livro normal daqueles que servem para ler ou pelo menos para colocar estética e estrategicamente numa estante, embora, bem vistas as coisas, também pudesse servir para enfeitar uma sala.

O livro, dizia eu, era uma caixa e tinha dentro dela uma pistola de cano curvo, e dento da pistola uma munição e dentro da munição uma potência de morte. Só muito mais tarde soube porque é que o cano da pistola era curvo.

No acto do suicídio a posição do pulso é muito importante. Já se escreveram vários tratados sobre o assunto e todos eles – a maioria, obras de gente experiente – referem o pulso como o elemento chave de todas as histórias que podem acabar mal. Por um lado há o impulso, a lei informal de trazer o destino para o lado menos optimista. E não há outro lado como, por lapso, possa ter parecido.

(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, junho 26, 2006

A dificuldade de ler (1)

Preâmbulo


Quando há no texto a impressão de não ter nada a dizer ficam dos dias passados ocasiões propícias a formas arredondadas de letras e números que se querem trágicos e arrebatados. Não é justo que todas as palavras sejam indiferentes ao sentido. Deixam-se cair como gotas de chuva sobre o chão preenchido de terra seca e tudo se esvai em cheiros de calor e perda. Na dispersão das letras formam-se ideias vagas sobre o vazio e tornam-se os pesos de consciência mais ligeiros e infinitos. Não há tragédia nenhuma na saída desfigurada do tempo. Teria sido mais claro se houvessem desígnios eficazes sobre a natureza da verdade.

Ele entrou pela porta do arco que está em frente ao lugar mais alto do pudor. Pediu, com voz um tom acima do exigido, que lhe dessem de beber um sangue qualquer. Não houve resposta, pelo menos que eu saiba, embora eu não faça parte desta história. Ele poderá ter ouvido qualquer coisa que nunca saberemos. Pelo menos eu nunca saberei, porque mesmo não fazendo parte desta história, tenho a minha opinião e se sei que naquela altura não houve resposta não será agora, esquecido o acontecimento, que ele irá dizer que ouviu o que quer que seja.

Mas confirmo, apesar de a minha confirmação poder não ser digna de confiança pelas razões já avançadas, que o vi beber um sangue qualquer. É bom que o diga aqui pois não teria interesse nenhum em falar deste assunto se não tivesse havido sangue. (continua)


Torcato Matos

sexta-feira, junho 23, 2006

Caminho

Gosto de estradas sinuosas; de não chegar nunca ao destino; de ficar pelo caminho e nunca ter de esperar pelo regresso.
Gosto, agora que o digo, e não sei o que diria ausente numa estrada sinuosa sem conseguir chegar ao destino.
Gosto por pensar que é bom gostar de coisas estranhas e querer que a estranheza se instale em qualquer lugar de mim, nem que seja à força.

Gosto de gostar, antes mesmo de pensar no que gosto.
Viro-me para o lado de onde vem o sol e espero que queime, que me dê uma indicação clara do lugar para onde vou e a que distância fica o norte.

Várias vezes me pergunto o que quero dizer deste gosto que tenho em gostar sem saber de quê e o que quero saber quando o sabor de um gosto me perturba o gosto de outro sabor que já não sabe como o sabor de outro gosto de que gostei.
Jogo, por isso, como o gosto e com a maneira de pensar o gosto.

Gosto de lugares onde ainda não fui; muito mais do que dos lugares onde já estive; e ainda mais do que dos lugares onde estou.
Já não é como era quando o que queria era chegar depressa ao lugar de ocaso.
Espero enquanto espero que a chegada se demore no caminho e aguardo o momento, que não ainda o momento final.
Sobre o tempo fica pendente a sua imperfeição; o seu andar levemente descaído para a indiferença; a bússola pousada no colo a pensar horizontes magnéticos de desejo.

Estamos parados agora no vale de lugar nenhum; ligeiramente à esquerda da fonte da sede eterna; próximos do oásis da desidratação; vigiados de perto pelos satélites da absoluta ausência.
Há setas a indicar o horizonte, erguidas sobre plataformas rotativas que giram com a penumbra e sigo com os olhos o risco altivo de um avião que regressa a casa.

Gosto de ficar por aqui pela parte norte do desejo.
Não monto a tenda porque isso já me pareceria uma concessão ao destino.
Fico à espera como se não esperasse, e com o tempo percebo que já não espero e monto novas teorias da existência, repelindo a fé e a intensidade dos sentidos, substituindo o arfar sagrado do cansaço por novas leituras da realidade, erguendo sempre a vista para uma verdade que já não está lá.

Não é forçoso que o mundo seja perfeito; não é forçoso que se mova; não é forçoso que seja como eu o quero às vezes, nessas vezes curtas em que eu o quero.
Gosto do que está antes, do que vem antes de o movimento ser excessivo, antes de a música ficar demasiado alta, antes de a bebida ter tornado os sentidos inoperantes e as cores serem todas uma, antes de ficar desiludido no lugar que procuro.
Sobre a marcha lenta que antecipa a rigorosa chegada à meta, adormeço as tempestades, arrumo os modelos reduzidos da minha intenção e preparo a partida para outra etapa em que os ventos tenham apagado os trilhos e enfeitiçado a paisagem de miragens.

Prólogo

quinta-feira, junho 22, 2006

A Samantha

Sabe-me bem esta ausência da Chris. Persiste um incómodo subterrâneo que tanto pode ter origem na preocupação com o seu paradeiro, como na angústia de a todo o momento ela regressar, como ainda na sensação de culpa pelo bem que a ausência me sabe. Os amigos dizem que ela não regressará antes do fim das férias, dando a entender benevolamente que ainda terei um enorme verão de paz. Não confio nos amigos quando têm o oblíquo propósito de me reconfortarem. Nestas coisas, como em outras, confio mais na minha intuição, apesar de apresentar um saldo profundamente negativo.

Sendo eu um céptico militante, concedi sempre à intuição um lugar marginal, e dei-lhe apenas as oportunidades em que não dispunha de métodos mais deterministas para me decidir. Hoje, uso a intuição numa forma desesperada: torna-se cada vez mais improvável que a intuição falhe outra vez!

Não foi a intuição que me levou a Samantha. Foi o desejo, foi a vontade, foi a força, o impulso interior, base da sobrevivência.

Não recordo a primeira vez que desejei Samantha. Nem serei capaz de recordar todas as vezes que a quis. Com algum esforço conseguiria lembrar todas as vez que foi minha, porque foram poucas... Mas é um esforço inglório. Samantha vive no seu próprio mundo, indiferente a mim e aos outros inúmeros que a desejam. Olha para cada um de nós com desdém, imune aos afectos, centrada apenas naquilo que considera valer a pena. Joga com o seu poder de sedução e sabe tornar-se a mais bela de todas, desviando aqueles que a querem dos seus caminhos seguros e banais. Pega no mais humilde de nós e, querendo ela, eleva-nos à figuração suprema da glória.

Corro o risco de que pensem que Samantha é uma mulher fácil - como é costume dizer-se das mulheres que não se fixam eternamente na exemplaridade de um macho. Seria lamentável porque Samantha é a mais difícil das mulheres. Dá-se, é certo, a quem ela quer. Mas estabelece para isso padrões de muita exigência e distribui os seus favores com o critério de uma deusa. É ela quem escolhe e decide. Invertem-se então as relações causa-efeito dizendo que o melhor é aquele que ela escolheu. Samantha define então o que é bem e mal e torna-se ainda mais desejada.

Amo Samantha desde que a vi pela primeira vez. Devo mesmo tê-la amado ainda antes, apenas pelas descrições que ouvi. Falava-se de Samantha - tal como se fala hoje - como o ser perfeito para fazer de um homem um deus e levar ao céu a cabeça coroada de um humilde. Amo Samantha ainda. Não com o impulso desregrado da juventude, nem com a pressa da inquietação, mas com a serenidade reflectida de dar sentido a cada dia.

Não é vergonha dizer que não fui, nem de perto nem de longe, o favorito de Samantha. Apesar do que cada um sente ser muito seu e exclusivo, e a mim ter Samantha dado bastas vezes o privilégio, sei ver de muitos outros a quem Samantha mais vezes e mais alto levou ao paraíso.

Continuo a amar Samantha. Persigo-a no dia a dia, já sem a imprudência de outrora e intuindo que só muito esporadicamente terei os seus favores. Mas também é verdade que antes parecia que só nela era possível sentir o mundo e hoje, aprendidos os truques que a natureza tem para nos moldar, sei que há mais e melhores lugares para viver.

Ivo Cação

(post anterior de Ivo Cação)

quarta-feira, junho 21, 2006

Bandeira

Não tenho que saber o lugar de onde vim.
Não tenho terra, não tenho a obrigação do regresso nem a justificação da sedentariedade.
Fico onde estou enquanto quero ou as circunstâncias são propícias.

Não tenho que saber quando cheguei.
Submeto-me aos relógios do instante e aí encontro abrigo
Parto logo a seguir ao amanhecer quando a luz já é firme.

Não tenho que dizer como me chamo.
Os sons que se propagam no ar trazem sempre um nome.
Não é aí, na denominação de origem, que seguro os meus mitos.

Não tenho que jurar fidelidade à evidência.
Procuro restos nos caminhos perdidos da invenção.
Faço o meu caminho pelos atalhos que tornam a certeza mais distante.

Não tenho que preocupar-me antecipadamente com a morte.
Voo todos os dias sobre penhascos e incandescências.
Flutuo placidamente em rios de lava e espanto-me com todo o vazio.

Não tenho que jogar às escondidas com o sentido.
Passo abertamente à frente do medo e defendo-me gritando.
Compro todos os dias o jornal para embrulhar e manter quentes os sonhos.

Não tenho que gemer os sofrimentos.
Quebro um elo de cada vez e fabrico a importância do desejo em golos doseados de líquido incolor.
Cubro o olhar com lágrimas para consumo interno.

Não tenho obrigação de acompanhar os tempos.
Faço o meu lugar como faço a barba pela manhã à procura do rosto que reconheço.
Subo um degrau de cada vez com a lentidão própria de ficar a saber como descê-lo.

Não tenho força para resistir ao vento forte.
Dobro-me inconstante à passagem da tempestade, ignorante dos objectivos supremos.
Uso o meu corpo para ser outra vez, outro lugar, outra coisa.

Não tenho que ter amor aos símbolos nem às divindades.
O meu cosmos é o maior e o menor de todos, e descreve-se a si próprio como lume herdado da natureza.
É vão discutir: importa apenas o lugar onde nasce a palavra.

Sísifo

segunda-feira, junho 19, 2006

Postnove

Como sabes, não adianta nada a submissão. Foi uma perda de tempo acreditar que as cedências de hoje poderiam ter compensações amanhã. Acreditar, como acontece nos jogos e nas batalhas, que um ligeiro recuo pode ser estratégico para a posterior vitória. A vida é um jogo, desde que não seja a nossa. Quando está em campo o sofrimento próprio, o cinismo enterra-se na sua inanidade.

Mas também sabes que não nos submetemos por estratégia. A inteligência, como o gozo, tem um horizonte temporal curto, sucumbe rapidamente ao sentimento, perdendo aí o confronto com a ilusão. Acreditar, como acontece no teatro e no comércio, que a simulação é uma táctica fecunda para obter do outro o benefício. A vida é um teatro, desde que não seja a nossa. A realidade coincide com aquilo que cada um sente.

Sabes que episodicamente consegui fugir da minha realidade. Cedi, fui ao encontro do que manifestava o teu desejo e a tua vontade. Ensaiei os modelos de destino que não subscrevia. E depois de uma cedência – depois de uma perda – aprendi que vem sempre outra e outra. Acreditar, como acontece nos sequestros e no dever, que há um resgate que compensa o valor do risco. A vida é uma prisão, desde que não seja a nossa. Do formato equívoco da vontade nasce o outro equívoco da liberdade.

Só muito mais tarde soube – e não sei se tu sabias - que com a experiência não aprendemos nada que antes não soubéssemos. Testamos a liberdade por descargo de consciência, para sentir que o tempo passa na direcção certa. Acreditar, como acontece nos laboratórios e no amor, que o acaso - ou Deus - pode ter um dado viciado a sortear números impossíveis. A vida tem um destino, desde que não seja a nossa. Não me interessa o que está escrito em nenhum livro que me nomeie.

Sei que não sabes que eu não sabia que não era possível.

Aibieme

quarta-feira, junho 14, 2006

Pérolas (VIII)

o fui ler muitas vezes mas ainda não o sei de cor.

terça-feira, junho 13, 2006

Vertigem

Fui avisado a tempo de que não deveria falar da verdade.
Disseram-me porquê e não esqueci, apesar de as razões serem absurdas e inqualificáveis.
É, portanto, com conhecimento de causa que minto.

Avisaram-me que não me aproximasse demasiado dos precipícios.
Que não olhasse o sol directamente nem me expusesse à fúria da tempestade.
Que não enfrentasse o mar nem o deserto sem instrumentos de navegação.
Que não me deslocasse para a beleza encantadora da neve sem me cobrir com agasalhos.

Há sempre alguém ao longo da estrada que me mostra no seu passado as feridas.
Dizem, com boas intenções, que devo aprender em vez de arriscar.
Há sempre alguém no içar incompleto da bandeira que diz saber do que fala.
Diz das dores que o corpo padeceu para encontrar o caminho de que se queixa e orgulha.

Eu oiço, por pensar que é possível que alguém saiba alguma coisa nova.
Tinham-me avisado que as palavras poderiam ser perigosas.
Tinham-me dito, quase em segredo, que constava não terem permanecido vivos os que tinham contactado com a verdade.

Hoje poderia ser, por tudo isto, uma pessoa avisada e consciente.
Pode dizer-se que se conjugaram os astros e as razões para que fosse um homem feliz.
Houve em todo o processo, em todo o andar da carruagem, sinais benignos e informações construtivas.

Hoje poderia estar aqui entretido a descrever as minhas vitórias e a queixar-me com o mesmo orgulho das derrotas.
Poderia estar aqui a enunciar conselhos e a mostrar caminhos.
Poderia estar a mostrar a voz da experiência e a zombar dos erros da ingratidão de cada um.

Mas a coisa correu bem.
Continuo a ser capaz de dizer que não percebo o que aconteceu.

Sísifo

Interesseiro

A mim interessa-me pouco o interesse. Interessa-me não me interessar por nada e ter com os outros interesses a relação calma e saudável de quem sobrevive. Porque não interessa nada a ninguém que eu tenha ou não tenha interesses. Num certo sentido é mesmo isso que me interessa. Que os interesses que tenho sejam tão pouco interessantes que, digamos assim, não haja interessados em interessar-se pelos mesmos interesses que eu. É nesse sentido que não tenho interesses. Claro que me interesso por coisas interessantes. Mas as coisas que considero interessantes não têm geralmente interesse nenhum. É por isso que quase sempre as outras pessoas acham desinteressantes os interesses que me interessam.
Poderia enumerar aqui uma série de coisas desinteressantes que me interessam muito particularmente. Mas como parto do princípio que não interessam a ninguém, não há interesse nenhum em divulgar de forma desinteressada os meus modestos interesses.
Não deixa de ser curiosa – ia dizer interessante – a ideia de considerar modestos os interesses particulares. Porque ao dizer modesto eu estava interessado em realçar o interesse que os modestos interesses têm. Interessa-me, portanto, que o que quer que eu diga dos meus interesses seja inferior ao interesse que deveras lhes atribuo. Por outro lado não me interessa rigorosamente nada que os meus interesses sejam muito particulares. Não é aí que vou buscar o seu interesse. Interessa-me sim que os meus interesses sejam mesmo interesses meus e não interesses que tomo emprestados dos interesses de outros apenas para que os meus interesses não sejam assim tão particulares. Interessa-me também que o interesse que as coisas que me interessam têm, seja um interesse bastante superior ao meramente interessante. Porque entre estar interessado em estar interessado e estar interessado em parecer interessado vai uma interessante diferença.
Se me interesso por alguma coisa - e seria interessante sabê-lo - e se esse interesse que sinto é um interesse muito particular - e desprezo por desinteressantes os interesses que não são particularmente particulares - então é interessante reconhecer - e cá está um interesse particular - que não é o interesse que me interessa mas o que há de interessante nas coisas que me interessam, mesmo que não interessem a mais ninguém.

Prólogo

domingo, junho 11, 2006

Efeméride

Parece haver uma boa razão para as religiões evitarem nomear o Deus que as define. Digo-o numa perspectiva científica, racionalista e razoável: acredito que há sempre uma causa para todo o efeito.
Em tempos, nas minhas investigações, explorei a hipótese de ser uma tentativa de evitar a banalização. Parecia-me que a sistemática enunciação de um Nome, ainda que divino, Lhe haveria de provocar um indesejado desgaste e consequentemente uma perda de valor de Mercado. Quando percebi que os valores de Mercado têm estranhos comportamentos retirei a hipótese: um Nome é muito mais valioso pelo nível de notoriedade do que pela qualidade percebida. O conceito de Bom Nome é pura retórica que não alimenta ninguém. Falem de mim, ainda que mal, mas falem.
Noutra fase acreditei – é inevitável o recurso à crença – que se omitia o Nome por respeito, por consideração pela Entidade cujo reconhecido mérito ultrapassava toda a contingência e toda a compreensão e deveria por isso, ser digno de permanente homenagem. Não foi difícil descartar esta hipótese através da simples observação da contabilidade das instituições. Enriquecer não é um direito mas um dever. O Mercado é o desejo de saciar todos os desejos.
Houve outras hipóteses irrisórias que nasceram e morreram sem mérito nem heroísmo, permanecendo a causa do efeito na sombra dos mitos. Se a ciência não sabe esqueçamos a ciência.
Sobrou, no entanto, a convicção de que a História tinha acumulado dados de experiência que conduziram ao tabu. Uma lei que não possa ser compreendida será imposta pelo medo. Ficou, por isso, para um não crente como eu, a crença de que o Nome não deve ser dito. Não é em vão que o tempo deixa Marcas. A omissão do Nome é uma marca da Evolução, como o oxigénio que respiramos; como a posição erecta do corpo; como a visão sobre a zona mais abundante do espectro solar; como o polegar oponível; como os nove meses de gestação...
É essa a razão porque omito os nomes. Não digo, não pronuncio os nomes de quem gosto. Evito os nomes das coisas. E daquilo que odeio tento nem pensar o nome. Ultimamente esforço-me por não memorizar os nomes que ouço. Os nomes das pessoas, os nomes das instituições, os nomes das empresas, os nomes das marcas, dos políticos, dos artistas, dos escritores, os títulos dos livros, das músicas, dos filmes.
A verdade é que agora não quero saber nenhum nome, nem apelido, nem alcunha, nem número de identificação...
Se eu dissesse o nome da coisa horrível de que estou a falar, estaria inadvertidamente a promovê-la e a aumentar o seu valor de Mercado.

Artur Torrado

sábado, junho 10, 2006

Pérolas (VII)

Para um jornalismo decente não há como a imprensa independente!

quinta-feira, junho 08, 2006

Cleptomania

Aqui não há nada de novo!

terça-feira, junho 06, 2006

Por um partido político para a defesa dos tumores

- D. Yolanda, chamei-a aqui para a informar que tem um tumor no cérebro.
- Oh! Doutor! E é grave?
- Como tudo na vida depende do ponto de vista.
- Então o Doutor quer dizer que é benigno!?
- Bom. Seria pouco ético estar a tecer considerações sobre a bondade do tumor. Como sabe devemos manter-nos equidistantes e preservar a nossa independência em relação a tudo o que possa constranger a correcção dos nossos procedimentos.
- Não entendo Doutor. A minha vida está em perigo?
- Eu não queria ser muito literal porque certamente, mais tarde ou mais cedo, serei prejudicado quando me citar fora do contexto em que estou a produzir estas afirmações.
- O Doutor preocupa-me...
- Por quem é, não precisa de se preocupar comigo, D. Yolanda. A sua qualidade de minha paciente atribuída aleatoriamente pelos computadores do serviço nacional de saúde, é para mim um ponto de honra uma vez que foram as virtudes do acaso que nos juntaram neste momento histórico.
- Comove-me a sua dedicação...
- Analisando a sua questão sobre a 'gravidade' do tumor no cérebro eu penso que deveríamos chegar a um acordo sobre o conceito de 'gravidade' que vamos, neste caso concreto, partilhar. O que é que significaria para si ser grave?
- Porra, Doutor! Quero saber se vou morrer com isto!
- ...
- Peço desculpa...
- Eu compreendo a sua exaltação. Não é todos os dias que nos dão assim notícias que nos tornam uma situação excepcional. Devo entender que se preocupa com a morte...
- Claro, Doutor. Sou jovem. Tinha um futuro à minha frente...
- Em primeiro lugar quero que perceba que não sou eu o responsável por você ter essa coisa dentro da cabeça.
- Sim, eu sei... ninguém é responsável.
- Gostaria que compreendesse que do meu ponto de vista muito pessoal o seu caso não é grave.
- Não?!
- Se você fosse uma doente minha de catálogo, daquelas que chegam à minha procura de maneira activa e empenhada e procuram os meus serviços personalizados, eu até consideraria o seu caso como uma grande sorte para mim.
- Oh, Doutor...
- Mas não foi assim. Não há em si uma vontade explícita de ser minha doente. Chegou a mim por acaso. Não é provável que se entregue confiadamente nas minhas mãos. Depois de mim irá a correr procurar uma segunda e uma terceira opinião até que algum dos meus doutos colegas consiga tocar na corda da sua sensibilidade e determinar a sua crença.
- Eu estou a confiar em si. Só quero saber o meu destino.
- A D. Yolanda não consegue perceber que está na presença de um profissional. Eu não sou um amador. Faço umas horas aqui no hospital mas a minha vida não acaba aqui. Eu não posso considerar o seu caso grave quando ele tem o potencial de aumentar a minha conta bancária. Mas percebo que para si pode ser grave porque vai fazer baixar a sua.
- ...
- Do ponto de vista social é mais ou menos indiferente, apesar de a palavra tumor ser muito complexa, difícil e dolorosa, tem conotações à esquerda, traz alguma revolução, provoca alguma complexificação da coisa social. Mesmo assim é pouco relevante.
- ...
- Já do ponto de vista biológico é uma coisa do domínio do bem. Os tumores são uma espécie minoritária apesar de terem algum relevo social. Antes não se dava conta deles, estavam dentro dos sistemas socialmente aceites. O tumor era uma causa natural de morte. O que não é o mesmo que morrer atropelado por um eléctrico, ou como a morte química ou bioquímica ou radioactiva.
- Acha então que eu vou morrer?!
- Além da questão discriminatória. A perturbação das espécies. Um tumor é um objecto que tem em vista a diversidade biológica e por isso tem que ser preservado. Nesta minha faceta de funcionário público não liberal não vou querer tratar disso. Mas no meu consultório tenho que velar para que a ciência progrida.
- Vou morrer...
- Os concidadãos vão muito solidariamente pagar para tratar o seu tumor. Um tumor é um propriedade pessoal e portanto não deveria ter-se a preocupação de responsabilizar a solidariedade social com o seu problema. Como seu concidadão também não estou minimamente interessado em participar, ainda que modestamente, na resolução de um problema que é seu. A não ser que quisesse que a tratasse particularmente. Sem recibo. Sem provas. Eu não me posso envolver numa situação que me ultrapassa. Eu poderia ter-me dedicado à política. Poderia ser um autarca. Aí sim, a minha função seria preocupar-me com os problemas dos cidadãos.
- Vou morrer...
- Como médico estou preocupado com as variantes que vão florindo da natureza. Não tenho estrutura de açambarcamento moral. Interessa-me muito o ponto de vista do tumor. Uma forma de vida que deveríamos adequadamente proteger. Como médico sinto que o tumor tem muito mais a dizer-me, é muito mais atraente, do que a pessoa que o transporta.
- Já não tenho esperança...
- A D. Yolanda há-de reparar que há milhares de pessoas preocupadas com a vida de pessoas como a senhora. Agora diga-me: e os tumores? Quem se preocupa com os tumores? Que culpa têm os tumores para serem rejeitados por todos sem lhe darem sequer a oportunidade de se defenderem?
- Eu morro...
- Haverá um dia, D. Yolanda, em que os tumores hão-de mostrar a sua força e a sua importância. As pessoas vão perceber que têm estado a ser egoístas, que remeteram os tumores para um gueto e lhes retiraram direitos. É uma questão de tempo. A biodiversidade dos tumores, a ecologia dos tumores, os tumores como minoria marginal à sociedade. Incompreendidos, rejeitados, sem direitos, ...
- Adeus, Doutor.
- Isso, vai-te embora louca intolerante! Nunca perceberás. Esta gente é tão limitada que não enxerga os verdadeiros valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Como é que há gente que consegue ser tão insensível com os pobres dos tumores...


Lino Centelha

(ocorreu-me este diálogo ao saber que se tinha formado na Holanda um partido para legalizar a pedofilia, a pornografia infantil e a zoofilia...)

sábado, junho 03, 2006

Pérolas (VI)

Este texto investe em várias frentes.