terça-feira, agosto 15, 2006

A dificuldade de ler (41)

Nenhum dos numerosos aglomerados que se acoitavam nas escassas sombras do Rossio, parecia a Verónica concordar com a sua expectativa de um grupo de militantes pró-piercings e, à medida que as seis da tarde se aproximavam, instalava-se na sua mente literal a dúvida sobre a veracidade da mensagem que recebera. O que a frustrava, digamos assim, não era a hipótese de ter sido enganada, mas a desilusão de não se manifestar abertamente contra o governo integrada num número suficientemente numeroso para não sentir que estava a gritar sozinha.
Cogitava em juntar-se a outro grupo qualquer que lhe parecesse adequadamente anti-governo quando tocou, no saco que trazia a tiracolo, a Cavalgada das Valquírias, indicadora de nova mensagem. "Tá pur aki alguém prá manifa dos piercings. Todus á porta da Suissa." O sorriso de Verónica abriu-se. Afinal ia haver protesto.

À porta da pastelaria com ar de quem procurava alguém, apenas estava um barbudo de óculos muito grossos e roupa demasiado pesada para o calor que estava. Vendo o ar inquiridor de Verónica perguntou-lhe se vinha para a manifestação.
- Venho para a manifestação contra o governo. Não têm nada que proibir os piercings.
- Ainda bem que a encontro.
- A mim?
- Tomamos um café?
- Então e não esperamos pelos outros?
- Não há outros. Posso saber o seu nome? Eu chamo-me Guilherme.
- Verónica, muito prazer. Mas que história é essa?
Guilherme entra na Suissa à procura de uma mesa e tem sorte de ver uma mesa a vagar, mas tem o azar de, na pressa de não perder o lugar, derrubar com a mochila, um galão a ferver para cima do colo de uma velhinha. Teve sorte porque a velhinha tinha a mala no colo e a maior parte do líquido resvalou para o chão de maneira inofensiva. Teve algum azar porque a velhinha não aceitou as desculpas sem interpor um conjunto de denominações de origem a propósito de Guilherme que não seria decoroso para nós e para os intervenientes pôr aqui preto no branco.
Sentou-se finalmente Guilherme e à sua frente Verónica ainda irrecuperável da portentosa cena de acção a que não estava habituada devido a uma inabilidade visceral para processar a lactose.
- Tiveste azar Guilherme.
- Não foi mal. Costuma ser pior. Tenho um fundo de maneio para estas situações. Já me aconselharam a fazer um seguro. Mas tenho resistido porque se as coisas correm mal com o seguro fico sem saída. Assim apenas vão acontecendo acidentes de pequena monta.
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, agosto 14, 2006

A dificuldade de ler (40)

Capítulo III (versão zero ponto seis um)

Tinha sido convocada por telemóvel para uma manifestação de apoio ao uso indiscriminado de piercings: “Manifa a favor dos pircings no Russio k u guverno ker puribir na kuarta ás seis”. Verónica não ligava nada a estas mensagens que chegavam nem sabia bem de onde. Carregava no botão e ficava a olhar para a mensagem a desaparecer para sempre num caixote de lixo animado. Mas desta vez tinha dado atenção e decidido participar. Não a interessava nada a questão dos piercings. Tinha horror a agulhas e os furos nas orelhas tinham sido antes da sua consciência. O que a alertara, fora a questão de o governo proibir. Bastava ouvir falar em proibições e governo para a pele engalinhar e o sangue lhe subir à cabeça. Já fizera terapia para saber porquê e tentar controlar os impulsos, mas as verdadeiras razões tinham ficado escondidas no inconsciente ou noutro lugar qualquer a que nem ela nem a terapeuta tinham acesso. Depois desinteressara-se. Era assim; havia de saber viver com os próprios constrangimentos. Também tinha pé chato e isso não a impedia de caminhar.
Além disso Verónica andava irritada. Tinha feito o casting para entrar numa narrativa em Londres e quando chegara a sua vez, os baixos índices de audiência e o desinteresse generalizado pelas boas e más narrativas que vai transformando o mundo numa coisa indescritível, tinham transferido a acção para Lisboa e arredores, e dado um rude golpe na ansiada oportunidade de internacionalização. Há muito que se provara, nesta santa terrinha, que um português para ter sucesso tem que sair daqui e ser apreciado no estrangeiro para depois poder voltar e suscitar a correspondente inveja. Tinha insistido em entrar logo no primeiro capítulo, já que se considerava exímia na tragicomédia e queria marcar o ritmo da narrativa com uma entrada de leão, no caso uma entrada de leoa, mas o editor tivera um peso excessivo e o narrador parecia não saber o que queria. Um verdadeiro caos, sem ordem nem governo. Talvez por isso tivesse decidido permanecer no projecto. Também porque já não era possível suportar as despesas do dia a dia apenas com o subsídio de desemprego. Um biscato, ainda que numa narrativa aérea e pouco credível, era melhor do que nada, enquanto não substituíam mais um ou dois ministros por outros ainda piores.
Uma manifestação contra o governo caracteriza-se sempre por ter poucas pessoas mas boas. Verónica chegou ao Rossio e ficou hesitante sobre qual dos pequenos grupos que por lá andavam seria a manifestação dos piercings. O calor exagerado para a época mas relativamente ameno se descontarmos o aquecimento global, fazia com que mesmo os mais extravagantes procurassem a sombra. Verónica que tinha com o Sol uma relação muito próxima de tu cá tu lá, achava deprimente que as pessoas se protegessem do que considerava o verdadeiro e único Deus, que trouxera a vida e a levaria quando muito bem entendesse. Tinha estudado física nuclear há muitos anos, quando fora obrigada a tirar um curso para ser alguém na vida, já que não tinha estofo para se dedicar a procurar um homem que lhe desse, como a mãe dizia, sustento e dignidade. Ela estava-se nas tintas para a dignidade mas falhava na questão do sustento porque havia sempre coisas e mais coisas que eram necessárias e a maioria das pessoas não levavam a bem ser roubadas por pobres, embora não se importassem nada de ser roubadas por ricos, o que até parecia para alguns ser uma honra.
(continua)

Torcato Matos

domingo, agosto 13, 2006

Ninguém

Todo o Mundo anda a Roubarte!

Som

Esta casa, agora, tem um silêncio morto. Os sons que chegam lá de fora, cheiram a ecos secos. A luz que passa pelas cortinas embacia os olhos e faz sombras nas lombadas. Há por aqui um silêncio morto que não se esconde. Salta à vista por cima dos móveis e ressoa assombrado nos cantos onde o pó se arruma.

Não costumo ter amor aos lugares. Sei da sua temporalidade e temo-a, e por isso não quero nada que me ligue a eles. Mas é inútil não querer ter sentimentos quando eles sentem por si sós. O telefone já não toca a surpresa que às vezes acontecia. Menos ainda a campainha da porta que nunca tocou nem esperei que tocasse. Não acendo o fogão. Prefiro queimar o tempo refazendo outra vez a história, recontando-a a mim e ao silêncio morto da casa.

Espero que as janelas abertas levem um pouco da sufocação que aqui se acumula. Circula algum ar fresco mas traz um cheiro já cansado. Também o ar já se esgotou a entrar e a sair de milhares de pulmões famintos. Agradeço-lhe a solidariedade mas não sinto nada ao agradecer.

Tentei pôr uma música, encher um pouco o silêncio com alguma harmonia, dar à casa um vapor capaz de a desassombrar. Não foi possível continuar porque a música, qualquer música, traz com ela memória, e por agora, por enquanto, a memória dói como se fosse um espinho.

Rasguei uma folha do calendário que tinha ficado esquecida e pensei que poderia ser isso. Poderia ser o tempo parado do calendário que tinha deixado imobilizados o silêncio e a sorte. Eu sabia que não era assim mas quando se convive com o silêncio morto começa-se a ter comportamentos desajustados e infiltrações de abandono nas articulações.

Fico a pensar nas muitas coisas que há para fazer e que agora não parecem ter importância nem força para me mover da letargia do silêncio morto. De repente tudo é feio, inútil e bronco. Não há para quê que justifique um movimento em falso. Apetecia-me chuva. Muita chuva lá fora a inundar os caminhos, sons de trovoada, vento medonho, aterrador. Queria os elementos a jogar do meu lado, a sacrificarem-se por mim.

Mas não há nenhuma ligação entre as coisas. Este silêncio morto que aqui jaz nesta casa, não tem a ver com nenhuma outra coisa do universo. Está aqui por acaso como poderia estar noutro lado qualquer, a ser sentido por outra pessoa qualquer que como eu, ou ao contrário de mim, não soubesse o que fazer para se livrar dele. Gostava que ainda fosse como antes quando eu acreditava que havia relação entre os acontecimentos do mundo e podia, por isso, ambicionar a ter algum papel no evoluir das situações. Aí eu acreditava - e ao acreditar sentimos o que acreditamos mesmo que não seja - que podia fazer alguma coisa para o silêncio morto se ir embora, ou ressuscitar, ou transformar-se em música, ou outra coisa qualquer que pelo menos me enchesse de actos e palavras até que deixasse de sentir ou pensar a morte do silêncio.

Beatriz Teresa
(post anterior)

sexta-feira, agosto 11, 2006

A dificuldade de ler (39)

- Devo então pedir a minha demissão. É isso que você quer, Weissmuller, que eu abandone a empresa.
- Isso é uma maneira trágica de dizer a coisa. O Franz já abandonou a empresa há muito tempo. Não sei precisar quando, mas há um momento em que deixou trabalhar para o grupo e passou a trabalhar para outra entidade que me abstenho de referir.
- Que está a insinuar, Weissmuller? Dedico-me cem por cento a esta empresa.
- Admito que esse seja o seu sentir. Daí eu poder dizer que não sabe tudo a seu respeito. É suposto que um organismo funcione por cooperação das suas partes. E cada parte funciona tendo em vista o bem global do organismo. A parte não se dedica ao organismo: integra-o, é o próprio organismo. Houve um momento em que o Franz passou a olhar para a empresa como se estivesse do lado de fora. Lamento dizê-lo assim, mas foi isso que aconteceu.
- Isso é um disparate.
- Só quando se está do lado de fora é que se começa a ter um olhar crítico sobre o organismo; começa-se a contestar, a sentir que há coisas que não estão a ser bem feitas, a falar de ética e moral e respeito e não sei mais o quê. Isso corrói, Franz. Estraga o bem estar do sistema. Tomamos o pulso, vemos a temperatura e sentimos o organismo em desarmonia. Há um 'corpo estranho' a contaminá-lo.
- Eu sou esse 'corpo estranho'?!
- Não é nada de pessoal, Franz. São medidas instrumentais, medidas médicas. O organismo deve ser protegido das infiltrações perigosas. A afinação, a produtividade, a imagem exterior, a alegria interior, tudo depende de não haver areia na engrenagem. É uma terapêutica. A radiografia indica um corpo estranho. Temos de começar por aí.
- Acha que eu ponho a empresa em perigo?! Que é que eu fiz de tão grave? Discordo dos novatos, dos métodos agressivos. Discordo de caluniar a concorrência. Os nossos produtos são bons, valem por si. Para quê denegrir os outros. Mesmo que fosse verdade...

- Aí está, Franz. Você já não está cá. Saltou pela janela, como ia saltar ali fora trinta e três andares. Espalhar-se aos bocadinhos lá em baixo e lixar a empresa com publicidade negativa. Você incorporou o exterior do grupo e agora já nem consegue raciocinar de acordo com o que é importante. E repare que é tão grave que nem tira nenhum benefício dessa situação. Rebenta consigo e rebenta com o grupo. Imagine amanhã nos jornais: quadro superior da Coriander Systems Enterprise atira-se pela janela e esborracha-se na via pública, perturbado o trânsito e a cotação em bolsa.
(continua)

Torcato Matos

Pitrol

Nada disto faz sentido e ainda assim a gente insiste. Diz umas coisas a seguir às outras cheio de vontade de ter razão mas pouco disposto a pensar muito nesse assunto ou noutro qualquer. Deixar discorrer as palavras de maneira abundante. Consentidas mas não sentidas. Quando digo a gente falo de mim que sou o meu agente e o meu objecto de crítica construtiva. O não saber é apenas uma forma como outra qualquer de retardar o avançar da hora a caminho de coisa nenhuma. Esta velocidade louca com que avançamos não é o tipo de velocidade de quem quer chegar a algum lugar. Não. É apenas a velocidade de quem foge mesmo que não saiba de quê. E não sabe de quê. Claro que não sabe de quem. A gente que anda por aí, eu, portanto, passa pelas coisas sem as ver nem as perceber e num certo sentido - que é o mesmo que dizer sem sentido nenhum - é mesmo esse prazer de não saber nem sentir que se procura. Para quê andar a tentar fingir que tal e coisa, que era interessante ir agora ver uma exposição muito engraçada que até falaram no jornal e depois chegar lá e não conseguir perceber nada daquilo e, pior ainda, ter que dar a impressão que se percebe para manter a ilusão das coisas e não criar um brusco solavanco no mundo. E o problema não está na exposição. Está na dificuldade em perceber as coisas. Cada um, eu também, às vezes, acrescenta um digito ao código de maneira a que a coisa se torne o mais obscura possível e não há paciência, é que não há mesmo paciência. Imaginem agora que para ir ver uma exposição e passar uma tarde bem passada cheia de surpresas e reconhecimento eu tinha antes de ler meia dúzia de manuais e mais não sei quantos catálogos e até saber a história da coisa. Não. Perdi o comboio num lugar qualquer e agora já não dá. Já não consigo acompanhar. Já não estou em condições de me preparar para as piscadelas de olho e ficar muito contente por pertencer ao clã. Qualquer que seja o clã. A facção oculta dos iniciados na obra sincrética do ídolo dos anos noventa que pintava os tectos dos subterrâneos dos sarcófagos de Minsk! Não. É claro que não. Ao virar da esquina há sempre outra coisa potencialmente mais interessante para me surpreender. Digo eu que não sei o que há ao virar da esquina nem estou preocupado com surpresas. Se queremos ser surpreendidos, nós, a gente, eu, damos uns gritinhos, meio histéricos, meio emotivos, meio fingidos, meio vamos lá a animar este pessoal, usando técnicas muito giras, e muito verdes, e muito sorridentes. Eu queria dizer parecer surpreendidos mas já nem vale a pena estar com distinções entre coisas que valem o mesmo seja lá onde for. Pois a questão deve ser essa (continuo estupidamente à procura de palavras mais importantes e fundamentais do que outras), o valor. Vale ou não vale e se vale quanto vale. Traduz-me isso em euros, em dólares, em barris de petróleo. Deve ser isso. Chego sempre a qualquer coisa parecida com barris de petróleo mas não vejo como tomar isto como uma fixação da infância. E perco-me. É a tal questão do sentido, ou da falta de sentido. Sei lá do que estou a falar quando falo de barris de petróleo.

Artur Torrado

quinta-feira, agosto 10, 2006

A dificuldade de ler (38)

- Você não sabe tudo sobre mim. Só sabe o que eu deixei que soubesse.
- Engana-se. Eu sei tudo sobre si. E por isso sei mais sobre si do que você.
- Então a sua teoria está errada porque mesmo sabendo tudo não tem poder sobre mim.
- Ó Franz, eu sou um homem pacífico. O poder não me interessa. O poder é um mecanismo que apenas interessa a quem tem carências de diversa ordem. Não é o meu caso. Não passo a vida a comparar-me com os outros. Num mundo são, a avidez de poder seria um sintoma passível de internamento compulsivo. É o primeiro dos sintomas do sentimento de inferioridade. Só quem não se sente bem na sua pele é que precisa da pele dos outros e de mostrar aos outros que a sua pele é de melhor qualidade.
- Lamento dizer-lhe, Weissmuller, mas o seu asilo de ávidos de poder haveria de ter uma dimensão considerável. Quem sabe se não é isso mesmo que já está a acontecer sem que nos demos conta: vivemos num asilo de ávidos de poder! Que quer de mim? Porque tenta seduzir-me com essa conversa?
- Gostaria muito de lhe dar uma razão prática, Franz. Mas existem factores que ultrapassam o meu gosto particular. E neste caso estou aqui como médico de trabalho de uma empresa que compete no mercado internacional, uma empresa que precisa de comer outras para não ser comida. E nesta selva a lei é a mesma de todas as selvas. A mesma lei que regeu a evolução, eliminando os mais fracos, que é como quem diz, os que não se conseguem adaptar, os que não estão à altura do que o momento exige.
- Quer dizer-me que eu vou ser eliminado? Vai mandar-me para a câmara de gás?
- Como já lhe disse, não tenho poder. A minha posição de médico de trabalho é, digamos assim, adjacente aos mecanismos de poder. O mais que eu faço é dar pareceres. Digo o que penso depois de analisar tecnicamente as situações, mas em caso algum tomo decisões fora do estrito campo do meu foro pessoal.
- As suas opiniões têm peso. Não há ninguém nesta empresa que não tenha já sentido a força das suas opiniões. Para o bem e para o mal.
- É um exagerado, Franz. Opiniões temos todos. Os meus pareceres são fundamentados, não são emissões de emoção. Se ler os dossieres verificará o escrúpulo do meu critério.
- Qual é então o seu 'parecer' a meu respeito? Vai puxar-me para cima ou para baixo?
- Franz, você sabe, e aí tão bem como eu, que nesta empresa atingiu o seu nível de incompetência. Há anos que não é promovido porque o seu sector deixou de ter crescimento. Como sabe, isso é mau para a saúde da empresa.
(continua)
Torcato Matos

Vida

Estava à tua espera, portanto. Os dias tinham-se tornado cinzentos e a luz era uma mágica definição de sombras. Tínhamos decidido, sem ter decidido nada, que o local do reencontro era aquele em que por momentos fôramos felizes. Por acaso.

Estava à tua espera, portanto, embora soubesse pelo valor da experiência que não era agora que virias, nem seria amanhã a véspera desse dia, como esperam os gauleses. Esperar-te passou a ser um gesto repetido por hábito e por não saber que outra coisa fazer. Dirás que não é uma espera digna desse nome, que merecias mais, que continuo a soletrar os mesmos textos da infância, as mesmas hesitações, os mesmos costumes limitados e passivos.

Estava à tua espera ontem, como vou estar hoje. Como estive sempre. Espero aqui sentada, redigindo o testamento do meu tortuoso sonho, viajando na mescla de imaginação e memória que te fazem no interior de mim. Soubera eu este destino e teria dito ao meu corpo que te evitasse, que não adoptasse o vício temerário de te querer, que não te deixasse entrar no lugar escuro que sou eu. Mas nunca sabemos nada do futuro. Ou sabemos. Sabemos tudo do futuro e mesmo assim rodamos a nossa certeza para off e avançamos no presumível imponderável, sabendo que vai ser mais uma vez o mesmo futuro que vimos no filme acelerado da infância. Fazer de conta. Perder, perder outra vez e sempre.

Estava à tua espera para te falar do silêncio que entretanto veio e ocupou todos os lugares disponíveis. Tenho um longo discurso preparado de que já esqueci as partes mais comoventes, porque entretanto o meu coração endureceu, como é próprio dos corações que batem sempre no mesmo ritmo mesquinho da submissão. Como é próprio dos corações que se apegam ao impossível.

Estava à tua espera relendo as cartas que fui escrevendo e não pude enviar, porque entretanto o teu paradeiro se perdeu na infinidade de lugares do mundo. Ficaram aqui, também as cartas, à tua espera. Mais alegres que eu, mais firmes nas suas decisões, mais claras nos seus propósitos e nas suas ambições, menos vulneráveis ao tempo no seu frágil papel. Na verdade, já nem sei se fui eu quem as escreveu ou se se escreveram a si próprias, ditadas pelo crepúsculo.

Estava aqui à tua espera comparando a leveza dos aromas que partilhámos, com o peso betuminoso que o tempo calcou sobre os meus desejos. Espero-te como espero a morte. Só que desejava que viesses antes, um pouco antes, a tempo de eu desaparecer feliz, como espero que aconteça quando a espera terminar.

Beatriz Teresa
(post anterior)

quarta-feira, agosto 09, 2006

Superfície

O meu modo de vida é andar à superfície. Há uma pele nos objectos que delimita, com clareza quase ilimitada, o seu lado exterior do seu lado interior. Claro que só o digo assim porque estou a olhar para os objectos na minha perspectiva superficial e portanto também a clareza quase ilimitada a que me refiro é uma clareza quase ilimitada mas superficial. Também é à superfície das coisas, dos objectos portanto, que sou capaz de encontrar, sem grande esforço - como é próprio de andar à superfície - um lado exterior, que é, por definição e prazer, o meu lado, e um lado interior que, por razões próprias do meu modo de vida, só me interessa de maneira muito superficial.

Aqui à superfície sou mais do que eu. Como se estivesse ao leme, levando a nau a bom porto.

Os corpos interagem pela respectiva superfície. Tocam-se, mas não se chegam a tocar verdadeiramente. A parte de um corpo que toca a parte de outro corpo é apenas a instável e probabilística e quântica nuvem electrónica das suas moléculas que toca apenas a quântica e probabilística e instável nuvem electrónica das moléculas do outro corpo. Nesse toque há sempre, numa superfície cuja mínima espessura desafia a imaginação, uma troca de electrões que se se desse o caso de terem uma individualidade ou um nome próprio, dariam a um investigador, ainda que superficial, a hipótese de saber que objecto tocou em que objecto, que corpo roçou em que corpo, que coisa chocou com que coisa.

É à superfície que ocorrem os contactos. É à superfície que ocorrem as trocas. É à superfície que se traçam os caminhos e se percorrem as estradas e se escrevem os desejos.

Se a terra fosse uma maçã, a espessura habitável seria a fina casca. É aí que eu moro, nesse lugar apertado mas suficientemente vasto para as minhas exigências.

O meu sonho é ir ao fundo das coisas. Existe textura, forma e peso debaixo da pele. O único mal de andar à superfície é a incómoda e permanente sensação de haver uma massa que nos suporta, um plano que não é o nosso plano, um fundo a que não acedemos, uma espessura que é mais espessa que a razão, um interior que existe sempre, mesmo quando tentamos desvendá-lo. O que não está à superfície pressupõe o absurdo da crença. Deixo isso para o sonho. Adormeço na fase líquida e mergulho na lava, à espera de perceber, à espera de saber o que é a verdade. Durante o sonho pego nas moléculas dos objectos e separo-as umas das outras à procura da razão porque estão ali, como se se sentissem bem a fazer um corpo maior que elas, como que quisessem cooperar.

Aqui, no fundo, sou mais do que eu. Pedaço atómico de um formigueiro que se estende pelos continentes. Os corpos não sabem do interior uns dos outros. Permanecem na ocultação de não saberem de si próprios, daquilo que move a quilha para estibordo. Sonho então que sei o que está aí dentro, no interior que parece conter a razão das coisas e fazê-las inesperadamente mudar de rumo, mesmo que a superfície calma, a planície fleumática, o vagar manso das águas pareça mostrar a paz do instante imediato.

À superfície sonho o interior dos objectos, as hipóteses para as estruturas, o movimento telúrico dos magmas. Na lâmina rasa dos instintos leio os sinais do desconhecido. Não creio que o interior nos queira, de livre vontade, mostrar-se como é, revelar-se, tornar-se exterior. O que não é suportável é a pressão absurda do inconsciente à procura de caminho no acaso dos batimentos cardíacos. Se quisermos, a verdade é isso: o abalo sísmico que diz o que é o fundo das coisas. Todo o fundo é um sonho da mesma forma que a superfície é real. Desvendar é transformar fundos em superfícies, interiores em exteriores, medos em banalidades.

Prólogo

A dificuldade de ler (37)

Franz, vendo que Weissmuller não terminava com os seus incompreensíveis disparates acerca do Sudoku, deu meia volta e encaminhou-se para a saída que dava acesso ao elevador. O rosto tinha-se transformado em pedra amassada por contradições de uma queda abismal sobre a escarpa aguçada de uma longa encosta. Weissmuller não tinha acabado o seu discurso apologético de quebra-cabeças numéricos.
- Franz! Onde vai? Eu estava aqui à sua espera.
Franz voltou a estacar. Um catavento precisa de vento como de pão para a boca. Humm. Não é uma boa frase. Não vem a propósito. Há que ter em conta o contexto sócio-político. Por vezes a elisão pode chegar a extremos de ilegibilidade e esse nunca é o propósito. Mas há várias teorias que defendem não ser necessário expressar tudo para que a comunicação passe. Alguém (A, por exemplo) dirá: eu diria da mesma forma. É uma verdade, certas incorrecções da linguagem ganham estatuto e tornam-se emissoras de informação correcta. E não estou a pensar neste caso concreto. O que também não é uma boa frase.
- Franz, não vou ter a indelicadeza de lhe perguntar o que veio aqui fazer, mas devo informá-lo que conheço as suas intenções, respeito-as e estou disposto a ajudá-lo desde que escolha outro caminho.
- Continuo a não saber do que fala, Weissmuller.
- Falo de jogos, Franz. Talvez não saiba do meu interesse por jogos. É natural. O médico conhece os seus pacientes mas os pacientes não sabem nada sobre o médico. Há uma extrema assimetria. É assim com todas as relações de poder: “quanto menos souberes sobre mim mais poder tenho eu sobre ti”. Não estou a citar ninguém, ocorreu-me agora, mas já deve ter sido dito por alguém (A, talvez). Já tudo foi dito, caro Franz. Já se fez tudo o que havia para fazer. A diversidade está esgotada. Cada um de nós apenas pode repetir um gesto já milhares de vezes utilizado. A nossa época já não tem hipóteses de originalidade. Limitamo-nos a reciclar acções em cenários reciclados com motivos reciclados e intenções recicladas. Até a barbárie, Franz. Até a barbárie é reciclada.
- Que quer de mim, Weissmuller?
- Protegê-lo, Franz, protegê-lo. O juramento de Hipócrates obriga-me, e neste caso faço-o de boa vontade.
- Proteger-me de quê? Que é que me pode fazer mal?
- Você, Franz. O Franz é o tipo de pessoa que não faz mal a uma mosca. Quando sucede necessitar de agredir alguém para repor alguma ordem no mundo, escolhe-se como vítima. Você é Cristo, Franz, Cristo.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, agosto 08, 2006

A dificuldade de ler (36)

A pontualidade britânica de Franz fez-se notar no momento em que chegou ao trigésimo segundo andar e, de olhar focado num horizonte que só ele via, se encaminhou para a plataforma de onde mais longe se avistava o mundo naquele edifício.
- Franz!
A voz inesperada de Weissmuller travou o ímpeto de Franz que estacou ao mesmo tempo o passo e o olhar focado no tal horizonte.
- Há momentos desagradáveis em que estes jogos de números me parecem insolúveis e me sinto objecto de gozo do não-identificado (NI) que o fez. Como se o NI tivesse a intenção de criar o caos na cabeça daqueles que se entretivessem a resolver os seus quebra-cabeças.
- Não esperava encontrá-lo aqui Weissmuller.
- Mas por outro lado a minha fé na natureza humana leva-me a acreditar que o NI não teria esses maus instintos e que, por exemplo, posso estar perante uma gralha: alguém (A) ao transcrever o problema pode ter-se enganado num número ou na posição em que o colocou e com isso ter gerado um problema impossível.
- Deveria estar a cuidar dos seus doentes Weissmuller.
- É engraçado pensar que a simples troca de um número por A pode tornar o possível em impossível. Um pormenor de tão pouca importância a torcer para sempre a uniformidade do sentido.
- Não percebo do que está a falar Weissmuller.
- Nunca resolveu um problema de Sudoku, Franz?
- Não, Weissmuller. Não perco o meu tempo com inutilidades.
- A mim dá-me gozo enfrentar estes pequenos demónios. Uma única saída num pequeno labirinto. Genial, meu caro Franz. Genial. Porque os momentos desagradáveis de que lhe falava há pouco, são parte integrante da genialidade. Há mesmo, nos melhores problemas, um momento de desespero. A fé desaparece, procuramos um ponto qualquer onde segurar o que nos resta e os números mostram os caminhos todos tapados.
- Weissmuller, será melhor irmos descendo.
- Mas a seguir descobrimos uma brecha na muralha e renasce a esperança. Há uma saída! Há uma solução! Não há indeterminação nem redundância. Confesso-lhe que é um momento avassalador.
- Tenho que ir, Weissmuller, vão dar pela minha falta no meu gabinete.
- E há jogos, Franz, em que esta apoteose é múltipla! O desespero e a esperança alternam várias vezes e deixam o coração em alvoroço.
(continua)
Torcato Matos

domingo, agosto 06, 2006

Frio

Hoje não subo ao topo da montanha.
Não levo a pedra, nem o meu corpo, nem o pensamento ao alto.
Hoje a força da gravidade não fará o seu trabalho que, como o meu, é um castigo dos deuses.

O calor do dia queimou as minhas mãos e tornou impossível outro sonho.
O que valia a pena ontem não vale a pena hoje.
Pelo calor, pela importância das chamas que vão consumindo a floresta.
Também pelo ar seco que leva a garganta a perder a voz.

Hoje, excepcionalmente nego o castigo dos deuses.
Sei que cada negação dobra a pena e cada desobediência multiplica a ira.
Mas, mesmo assim, hoje não subo lá ao alto do esforço.

Haverá outros dias em que pagarei os juros.
Noutra altura saberei ser mais forte e penar a minha pena com entusiasmo.
Pode mesmo haver a improvável sorte de os deuses perdoarem o meu desvio.
Pode mesmo acontecer que eles percebam as minhas razões e esqueçam este acaso.

Hoje, seja como for, não vou lá, não me mexo daqui desta imobilidade.
Não me apetece sequer pensar nas duras consequências dos meus actos.
Hoje, sem exemplo, fico à espera que o tempo arrefeça e as chamas se apaguem.

Tudo seria diferente se eu soubesse como contrariar o corpo.
Se em algum momento da minha vida eu tivesse aprendido a dominar a besta.
Se, como é próprio de quem quer andar neste mundo, eu tivesse olhado com mais cuidado para a natureza informe da paixão e a tivesse sabido colocar à margem do ser.
Tudo seria diferente se eu soubesse.

Mas hoje, por não saber, fico aqui à espera que o tempo leve este dia.
E fico à espera também que os dias seguintes o esqueçam e possa tudo não ter passado de um efeito secundário do calor.
Talvez amanhã eu consiga por um pedra sobre o assunto.

Sísifo

A dificuldade de ler (35)

"Franz é um praticante entusiástico do suicídio”, disse o chefe de Franz ao minuto dezassete da reunião matinal de chefes de vendas. A minha fonte garantiu a hora exacta, o nome de Franz e o termo suicídio. E garantiu também que o sentido da frase era este. Mas garantiu ainda que não se tratava de uma transcrição literal porque tinha ouvido pelo menos uma outra versão que dizia: "Franz é um suicida entusiasta". No entanto, o meu editor, perante as duas hipóteses, deu-me a entender que esta última frase poderia ser uma adaptação involuntária do título "O suicida entusiasta" de Dries Van Coillie e achou mais verosímil a primeira frase. Confesso que me confundiu esta explicação, porque o título da edição inglesa - "I Was Brainwashed in Peking" - é muito menos literário que o original holandês - "De Enthousiaste Zelfmoord" - e menos susceptível de ser vítima de uma adaptação involuntária, mas dado o estado relativamente degradado das minhas relações com o meu editor achei melhor não o contrariar.
O Dr. Weissmuller pôde ver, a partir do seu confortável gabinete, mas com o desconforto habitual que o chefe dos chefes de vendas lhe provocava, a mudança de cor que a frase produziu no rosto ansioso de Franz. Sabia que devia agir rapidamente e deslocou-se com o seu passo enérgico para o vestiário onde trocou o casaco por uma bata branca desenhada há muitos anos por Hugo Boss. Em seguida, munido do seu telefone portátil interno, subiu no elevador de serviço ao trigésimo segundo andar. Sentou-se na sala de acesso ao hangar de helicópteros e dispôs-se a esperar, dando graças a Deus por ter no bolso da bata um espesso livro de sudokus.
Enquanto procurava o número certo para cada casa, lembrou-se que nunca chegara a comprar nem a ler "O suicida entusiasta". Parecera-lhe sempre um título demasiado expressivo para sobrepor a uma história e, talvez injustamente, acreditara tratar-se de um livro escrito unicamente para aproveitar um título paradoxal. E não era de paradoxos que o Dr. Weissmuller gostava. O sudoku era muito mais claro: cada problema, uma única solução.
(continua)

Torcato Matos

sábado, agosto 05, 2006

A dificuldade de ler (34)

Ao contrário de Franz, o chefe dos chefes de vendas - e por consequência chefe de Franz - era um enigma para o Dr. Weissmuller. Por essa inconsistência naquilo que ele considerava a sua Teoria Dinâmica do Homem (TDH), tivera o chefe de Franz sucessivos e injustificados pareceres positivos da parte do Dr. Weissmuller, que muito contribuíram para a sua meteórica ascensão hierárquica. Tudo isto, como é fácil de imaginar, tem um peso inusitado na consciência geométrica do médico de trabalho, habituada pela disciplina, pela história e até pelo clima, a uma linha ininterrupta entre todas as causas e todas as consequências. Se quiséssemos ver as coisas numa perspectiva meramente humana, já poderíamos considerar rudemente humilhante que o chefe de Franz, cuja qualificação académica é, digamos assim, um mistério, faça questão, nas raras vezes em que se dirige a Weissmuller, de lhe referir o título com a voz firme e perfeitamente articulada.
Na manhã seguinte à constatação por parte de Franz de que o mundo estava a mudar de uma maneira que contrariava o próprio sentido das realidades que tão arduamente perseguira, durante a reunião com o chefe dos chefes de vendas e os outros onze chefes que, como ele, coordenavam as equipas que esquadrinhavam cada milímetro do potencial aquisitivo do Império Britânico e de alguns países estrangeiros, o chefe de Franz e dos outros chefes de vendas acendeu, como habitualmente, o seu primeiro cigarro e as baforadas iniciais instalaram o habitual silêncio expectante entre os inquietos participantes da assembleia. Não havia nenhum precedente que determinasse para o primeiro cigarro do dia uma gradação especial de importância da frase que lhe estivesse associada. Os estudos encetados pelo perplexo Dr. Weissmuller não tinham encontrado nenhum padrão que pudesse encaminhar um investigaror metódico para fórmulas práticas de previsão do pensamento fumegante do chefe dos chefes de vendas. Nenhuma disciplina, nenhuma sucessão, nenhuma simetria, nenhuma arrumação, nenhum ritmo. Mesmo no campo do aleatório a distribuição tinha um carácter errático.
O Dr. Weissmuller não participava nas reuniões do conselho de chefes de vendas. Tinha acesso directo pelo circuito interno de televisão, e por razões puramente científicas, através do uso de uma chave digital por especial deferência do conselho de administração e permissão expressa do próprio chefe dos chefes de vendas. Era da sua sala que sempre que podia tomava a necessária atenção ao momento especial em que a dada altura, não previsível, era proferida a primeira frase do primeiro cigarro.
(continua)

Torcato Matos

sexta-feira, agosto 04, 2006

A dificuldade de ler (33)

Weissmuller era o terceiro filho de um importante quadro do III Reich e tinha prometido a si próprio uma dedicação total à ciência e à salvação física dos homens, para compensar o ainda não explicado desvio do pai em relação aos bons princípios da deontologia médica e da boa prática clínica, que as circunstâncias especiais da guerra - e a guerra tem sempre razões que a razão desconhece - tinham despoletado num homem tradicionalmente afável, amigo dos seus amigos e preocupado com a sobrevivência da espécie naquilo que ela tinha de melhor e portanto dos seus melhores e superiores elementos. Naquela empresa, Weissmuller não queria ser um médico de trabalho rotineiro e por isso tentava ir mais longe na apreciação do estado de saúde e de espírito dos seus impacientes colegas. Tinha adquirido prestígio e conseguido eliminar o sotaque germânico, dois esforços que, em casa do inimigo, consumiram os primeiros anos de exercício e o tornaram uma inesperada peça chave da intrincada estrutura da empresa. Pode dizer-se que há anos que nenhum parecer transpunha um nível que fosse da cadeia hierárquica sem uma, ainda que ligeira e não oficial, pincelada opinativa do Dr. Weissmuller. Não é necessário dizer mas digo-o na mesma, o intenso orgulho que Weissmuller transpirava ao sentir como reconheciam a sua evidente superioridade moral e mental. A questão da superioridade física resolvia-se através da sua insuperável perícia tanto no golfe como no ténis, em que há vários anos recebia o cobiçado prémio da associação de empresas do sector, e na postura charmosa com que enfeitiçava o sector feminino desde a quarta sub-cave onde laborava o pessoal menor até ao trigésimo terceiro andar de onde a administração pensava o futuro com uma soberba vista - quando o nevoeiro deixava - sobre a distância paciente do rio.
O campo complexo das investigações do Dr. Weissmuller não se enquadrava na tradicional terapêutica de dar umas pastilhas para aliviar as dores e as irritações. Cada caso é um caso, diria ele para os seus colegas que tentavam entrar em generalizações apressadas - podendo considerar-se uma generalização apressada generalizar que todas as generalizações são apressadas. No caso de Weissmuller - ele prescindia amistosamente do título considerando que era tão evidente a sua qualidade de doutor que deixava a designação para uso naqueles em que pudesse persistir a dúvida - não só cada caso era um caso como se distinguia de todos os outros, não num pormenor mas em inúmeras e inconciliáveis diferenças. Num sentido muito próprio ele sabia que tinha a solução para quase todos os casos que lhe passavam pelas mãos. Mas - e este mas é sumamente importante - não considerava que fosse da competência do médico proporcionar felicidade ao paciente. Tinha sim a obrigação concorrente de manter a vida e reduzir o sofrimento até aos limites do suportável. Tal perspectiva poderia facilmente colidir com inúmeras outras - e em certa medida com as de alguns dos trabalhadores da empresa - mas era bem vista pela hierarquia que tinha há muito detectado em gráficos de elevada definição, uma correlação inversa entre a felicidade e a produtividade.
(continua)
Torcato Matos

quarta-feira, agosto 02, 2006

A dificuldade de ler (32)

Os acontecimentos precipitaram-se sem que Franz tivesse oportunidade de contrariar a ordem pouco natural que as coisas pareciam procurar quando estavam à mercê da ambição e da estratégia comercial. Tinha preparado aquela equipa com um empenho que lhe custara dois casamentos e pensão de alimentos para sete vidas que se estendiam entre os três e o dezassete anos; vários anos sem tempo para férias nem para ir à Escócia natal; dores periódicas de coluna e miopia galopante; preocupações diárias; milhares de relatórios; anos inteiros de reuniões e incontáveis serões de formação para egoístas preguiçosos ansiosos por ser rapidamente ricos... Uma vida deitada fora através da dedicação a uma causa que agora era posta em causa por uns galarós acabados de sair de uma escola profissional cheia de inteligência emocional e vazia de preconceitos, mesmo daqueles preconceitos que são essenciais para uma vida minimamente digna. Para Franz parecia o fim. O fim dele e o fim do mundo que são duas coisas inseparáveis e estritamente relacionadas.

O chefe de Franz, cujo nome não me ocorre agora, adquirira com o andar dos anos uma sabedoria de que não tinha hipótese de partilhar, pelo menos entre aqueles que já tinham ganho o hábito de o considerar louco, senão os míseros efeitos especiais que a tradição e o mito impõem. Também ele tinha penado para se tornar, naquela empresa, o chefe dos chefes de vendas, e esse lugar, ambicionado por seis em cada dez dos seus colegas – segundo os censos de dois mil e três, potenciava a inveja, a intolerância e um espírito selvagem que parecia vir directamente dos primórdios da evolução. A sabedoria do chefe de Franz, resumia-a o próprio a uma frase: não emitir mais do que uma frase com significado durante cada cigarro. Tal postura económica permitia que com um cigarro na mão se criasse a expectativa de uma reflexão muito profunda que seria linearmente seguida por um aforismo que mesmo que não fosse aforismo haveria de se tornar em tal. Porque a sabedoria do chefe de Franz era coroada por um corolário que se pode resumir a nada acontecer no intervalo entre cada dois cigarros.

O médico da empresa, anti-tabagista convicto – ou pelo menos tão convicto quanto é possível a um profissional ser contra os benefícios pessoais da sua própria arte – ruminava razões científicas que explicassem a interacção do dióxido de carbono ou do alcatrão ou da nicotina, com o peculiar cérebro do chefe de Franz e a descontinuidade mental que o caracterizava.

(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, julho 31, 2006

Violentamente

Não, de facto não consigo fazer-me ao gesto que devia ser. De facto não altero um milímetro do meu jeito para empurrar o destino para longe. Não, de facto não sei voltar a ser o que não sei se alguma vez fui, por não saber ou por não querer ou por não saber como querer. De facto não me ocorre nenhum facto que tenha qualquer importância capaz de mover a importância dos factos e imprimir no papel branco do futuro um selo branco de autenticidade.

Os factos são coisas assim obscuras que aparecem a ilustrar as teorias para aqueles que têm sentido prático perceberem alguma coisa por exemplo. Os factos vêm sempre depois de já não serem esperados e resolvem todos os problemas de interpretação de uma assentada: levam os que não percebem a perceberem que percebem mesmo que não percebam e os que percebem a perceber que afinal não percebem porque é que perceberam.

Perceber é, em si, um acto místico, como um sonho, como uma desavença conjugal, como o içar de uma bandeira, como o plantar de uma roseira brava. Fica-se com o significado entranhado na carne à espera de um golo de um destilado forte acima de quarenta graus. Depois de perceber falta aceitar.

Um dia, com tempo, com paciência, com determinação, com desejo, com infelicidade, com tédio, olharei para a palavra aceitar com a atenção que ela merece. Porque assim à primeira vista parece-me uma palavra cheia de potencialidades. Talvez ela me esclareça sobre este drama interminável dos factos; sobre este proverbial imposto de dizer não antes de saber; sobre a origem e destino de perceber o que é perceber; e sobre o tempo, a paciência, a determinação, o desejo, a infelicidade e o tédio que é necessário para olhar com olhos de ver para aceitar.

Há entre as palavras um concubinato que as faz, ao encontrarem-se, gerar mais palavras. Dizem, os que esperam desesperadamente os factos para perceberem, que isso torna o mundo imperfeito, complicado e irrisório. Que seria melhor as palavras ficarem por aqui, definidas como diz o livro e sem mais para dizer, nem escrever, nem contar. Percebem, portanto, nos factos a obrigação que estes têm de cumprir o que está escrito e não subir nem descer do patamar lógico de o centro do mundo estar devidamente identificado.

Mas - o tal mas - perceber a partir dos factos é um banal jogo de lego, despir e vestir a Barbie, empurrar a bola com o pé que está mais à mão, e o homem, a ser em algum ponto diferente da matriz essencial que o gerou, gostará de subir um pouco mais sobre a planura inconsciente da matéria e considerar que sobre os factos, sobre as potências que envolvem os factos, acima da luminosidade que demonstra a potência, flutuando sobre o fogo que gera a luz, estarão pormenores de ser que não vieram de lugar nenhum, que não são sobras de nenhum passado e estão aqui por razão nenhuma.

É assim que percebo as coisas, com ilustrações, com desenhos ininteligíveis, com moldes em plasticina. Foi um erro da natureza ter distribuído a torto e a direito noções elementares de consciência. Todos os factos pesam, todos implicam todos e a seguir a cada hesitação aparece um caminho cortado pelo abismo. O meu esforço é apenas tentativa de não ser confundido com um folha arrastada em doce violência pelo vento.


Artur Torrado

A dificuldade de ler (31)

O agente da mudança é uma unidade de elite. É escolhido segundo critérios de exigência inacessíveis ao comum dos mortais. Natasha Kent é uma agente da mudança com a experiência de quase quinze anos de actividade ininterrupta. Na época em que foi recrutada, por ter concorrido aconselhada e recomendada por um histórico agente da mudança, os níveis de exigência eram ainda maiores e a média mínima de admissão rondava o 9,835* numa escala de zero a dez. Hoje Natasha Kent é uma profissional reconhecida embora só e apenas dentro do seu meio muito restrito dado o carácter secreto das suas funções.

A nossa sorte, do ponto de vista narrativo, evidentemente, é Natasha Kent preferir gozar as suas férias no inverno, ao invés da maioria dos seus concidadãos que escolhem o verão e a época mais bonita de Londres para sair da cidade, deixando-a entregue aos visitantes japoneses e portugueses. Podia dar-se o caso de Natasha, Peter e Elsa serem os únicos habitantes habituais a permanecer na cidade se isso não constituísse um situação insustentável do ponto de vista da verosimilhança. E apesar de sabermos que a realidade não é, por vezes, verosímel, quando a transpomos para a narrativa temos que acrescentar-lhe o mínimo de estranheza para que o leitor não tenha que esforçar demasiado o seu orgão de crença. Assim sendo, as probabilidades de intersecção permanecem baixas mas dentro do possível.

Era uma tarde de verão. Nem muito quente, nem muito fria, nem muito húmida, nem muito seca, nem limpa, nem muito nublada. Franz tentava demover a sua equipa de vendas de usar palavras menos próprias para com a concorrência: "Eu sou o chefe e por isso o único com capacidade técnica e moral para insultar os meus estimados adversários". A equipa de vendas não concordava. "O insulto," - dizia Anthony - "é uma arma popular, deve ser deixada nas mão de quem a sabe usar e o chefe há-de reconhecer que não tem a prática necessária, nem uma iniciação credível nesse campo. Não está em causa a capacidade técnica, mas o seu MBA não o preparou para adjectivar com precisão quando se trata de denegrir. Apenas o ensinaram a dar uma boa imagem das suas coisas. E o que é preciso agora é destruir a imagem dos outros." (continua)

* 9.835 no original

Torcato Matos

sexta-feira, julho 28, 2006

A dificuldade de ler (30)

Capítulo II (versão zero ponto sete)

Há uma mulher que se cruza com Peter quando este está sentado sobre uma pulseira de diamantes à espera que a noite caia. É uma mulher jovem - naquele sentido em que uma mulher é jovem desde que mantenha à sua volta um aroma peculiar - loura natural com o cabelo rudemente pintado de negro baço, um olhar confiante e decidido, roupa cuidadosamente desleixada, moderna, de andar largo marcando o ritmo do salto, agitando as formas soltas e propondo ao olhar de quem passa desejo, cumplicidade ou inveja. Vive na parte norte de Londres, num apartamento de duas assoalhadas, uma delas com vista para um jardim público de dimensões assinaláveis, a maior parte das vezes ocultas ao olhar por um nevoeiro militante, e mais não deve ser dito porque se trata de uma personagem com uma missão secreta, quer neste caso quer em muitas outras histórias em que tem participado, bastas vezes sem o devido reconhecimento.
É sempre complicado para quem narra, encontrar a equidistância necessária entre o facto, a narrativa e a verdade. Não seria justo que esta mulher - Natasha Kent de nome - tivesse a sua intimidade devassada pela rotina de uma história, podendo pôr em risco a sua segurança, o seu amor-próprio e, não menos importante, a sua qualidade de vida, apenas pela futilidade de dar a conhecer ao leitor pormenores episódicos de uma vida absolutamente igual às outras se retirarmos as questões mais ligadas à acção e ao modo de ganhar o pão de cada dia. Dá-se então a conhecer o que é relevante e omite-se o que é banal. Delimita-se a zona da verdade de maneira a respeitá-la como um absoluto e uma meta. Salvaguarda-se o particular para garantir o universal.
A mudança caracteriza-se, em Natasha Kent, pela procura sistemática, portanto disciplinada, do intervalo mínimo de tempo necessário para que um determinado objecto, em dada altura muito familiar, se torne um objecto suficientemente estranho para poder ser querido de novo. Natasha Kent é, portanto, uma agente da mudança. Tem cartão de identificação válido até 28 de Outubro de 2017, embora tenha que adquirir semestralmente uma vinheta de garantia anti-furto. O cartão dá também direito a descontos nos armazéns Aroldos às terças e sextas e refere ser Natasha Kent do sexo feminino, olhos verdes, cabelo louro, 69 polegadas, 154 libras, nascida na Rodésia a 28 de Outubro de 1967. É uma agente secreta na medida em que ninguém sabe que ela é agente secreta. Sabemos que é uma agente da mudança mas apenas podemos suspeitar que é uma agente secreta da mudança. O seu trabalho é claro. Move-se rapidamente pela cidade de Londres - por vezes noutras cidades - em busca de objectos que se enquadrem no perfil predeterminado pelos seus superiores hierárquicos.
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, julho 27, 2006

A dificuldade de ler (29)

Sabe-me bem estar aqui a falar consigo Doutor. Embora eu saiba que já não me ouve. Sinto a sua respiração pesada de quem dorme com a consciência leve. Ainda é melhor assim: falo consigo, desabafo, e continua a não saber nada de mim, a ser um estranho, como convém. Desta forma não tem que fingir que não sabe. É a melhor estratégia: não saber, ignorar, estar a leste, ficar de fora, não ver, não ouvir, não ter que testemunhar nem fazer perante os outros uma figura qualquer de aparência. Depois de experimentarmos, depois de sabermos, depois de tomarmos posse de um elemento qualquer de informação, já não somos os mesmos. Ficamos sem condições de ser. Mais tarde ou mais cedo revela-se a nossa experiência, essa primeira vez que sendo a primeira pode ser a única mas se chama já e para sempre experiência. É ainda o corpo que nos trai. O corpo é terrivelmente honesto, dorme quando tem sono, grita de dor, quebra com a fome e seca com a sede, desarticula-se sem sensualidade, cai morto quando morre e esquece. Não há nada a fazer para o fazer passar por ignorante quando sabe. A mim parece-me, Doutor, que aquilo que sabemos, tudo o que sabemos, fica mergulhado nas células, passa a ser carne, e por isso não somos capazes de mentir com o corpo. Os meus dentes que agora tenho que proteger para me acompanharem enquanto aqui estou e vou comendo para me manter viva, serão a última coisa a desaparecer depois de morta. Se não me queimarem para que a minha matéria entre logo a seguir no jogo encantado da reciclagem biológica. Acredito na reencarnação, claro que acredito na reencarnação. A matéria de que sou feita já foi outros corpos - muitos, espero eu - desde que há vida. Há um pedaço de couve que comi hoje que ontem era couve e amanhã sou eu. É engraçado ver a vida assim: somos reciclagem pura. Nada do que nos faz veio de propósito para nós. No meu cabelo pode haver metais que já fizeram o cabelo de Parménides, de Átila, de Dante. Bah, eu só sou enquanto sou, enquanto estou aqui a falar consigo, mesmo que o Doutor seja o que é enquanto é e não me esteja a ouvir. Não há outro caminho e este tem pano para mangas. Fez-me bem falar consigo, Doutor, não é o mesmo que falar com uma parede; há um lado humano em si, mesmo que não me ouça, ou mesmo que já nem esteja nesta sala. Não tenho a certeza de o ouvir respirar. Pode muito bem ter-se ido embora, farto da minha conversa e dos meus problemas. Mas estou aqui bem e nem me apetece voltar a cabeça para tirar esta dúvida. Jogo nas probabilidades, no efeito devastador das palavras e na vontade de rir que agora chegou para me tirar este peso. O Peter não é meu filho, não o produzi, não o determinei. Não tenho como explicar esta preocupação. E não explico, não sei, não digo, não penso. Este lugar é bom, sinto-me bem aqui.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, julho 26, 2006

A dificuldade de ler (28)

Capítulo I (retoma 2)

Não sei dizer de que ajuda preciso. Sei apenas, Doutor, que me sinto incapaz de recomeços e me assusta a ideia de perder outra vez o rumo, de voltar a sentir além da lágrima dolorosa da perda, o vazio intransponível de outro início, de voltar a soletrar outros nomes até que um me pareça aquele que acompanha a vibração do meu. Assusta-me, Doutor, ter de perder outra vez muitas vezes até haver uma vez milagrosa em que voltarei a ganhar. Houve um tempo, Doutor, em que acreditei que éramos mais do que o corpo que nos vestia, que havia fluidos extraordinários que ensopavam de alma a nossa carne; acreditei que tinha que haver mais qualquer coisa do que o acaso que particularmente nos tocava e acreditei também que de ser para ser se poderiam estabelecer pontes que transcendessem as propriedades físicas da matéria. Agora sei - dirá que acredito, o que é o mesmo - de sermos apenas estas células em efémera cooperação, que fazem uma unidade estranha e às vezes quase equilibrada. Sei que é este corpo que tenho que me determina e traz com ele memórias que me fazem eu, e me dizem o que sou, história de mim própria, caminho construído na sucessão de contingências determinadas, acasos obrigatórios e erros criativos. Sei, sabendo que o que sei é acessório, que o meu corpo só amará outro corpo pelo corpo que o outro é e que todos os sinais de afecto nascem apenas dessa ramificação que se cria entre os toques em que a matéria se troca, o bafo, a saliva, a palavra, o sémen, o suor, o cheiro, o som, o grito, a luz, a forma, o peso, a electricidade, o magnetismo, as unhas, o cabelo, as lágrimas... O sólido, o líquido e o gasoso em vez da água, do ar, da terra e do fogo. Sei, Doutor, só agora, que é sobre isto que as palavras se constroem, e é sobre as palavras que se constroem os mitos, e é sobre os mitos que se constroem as ilusões, e é sobre as ilusões que se constrói o medo, e é sobre o medo que se constrói o poder, e é sobre o poder que se destrói o corpo, e se culpa o corpo, e se elimina o corpo, e se dá origem por decreto ao fluido inefável da alma. O que me vai doer, se o Peter se perder de mim, é o corpo, Doutor. Só o corpo. Ainda que eu precise de usar as palavras para falar dessa dor e as palavras digam coisas que parecem só ter sentido se o corpo não estiver presente. Será sempre um corpo que perde outro e fica, por isso, só, equidistante de todos os outros, sem aquele que lhe serve de ponte para a existência. No corpo que já não está serei viúva, ausência do próprio corpo que não é enquanto não tem alternativa que o faça ser mais do que um espectro.
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, julho 25, 2006

A dificuldade de ler (27)

E o pior, Doutor, é não acreditar no regresso. O tempo só decorre num sentido, nunca tem retorno. Experimentei já voltar para trás à procura de objectos que tinha amado e percebi, à minha custa, a irreversibilidade do tempo. Sei que a seguir vem sempre um sofrimento maior e, mesmo sabendo, vou de encontro a ele como se arriscasse apenas um pequeno jogo de hipóteses em vez de laborar o vertiginoso horizonte das certezas e desfazer o que resta de pudor e dignidade. A história não se repete mas o sentimento e a dor são sempre os mesmos; e mesmo que gritemos que não conseguimos transmitir o que sentimos - porque cada um sente à sua maneira e de acordo com a sua história - acontece que todos sabemos do que cada um fala quando diz da angústia que lhe vai apertando irracionalmente o coração, e partilhamos como que uma prática universal que parece permitir o 'com-sentir' das emoções, nos casos em que as paixões domesticadas não se interpõem a filtrar os impulsos que impedem o cínico caminho do horror.

Interrupção II

Haverá petróleo em Marte? Os cientistas têm aumentado a pesquisa no sentido de descobrir o planeta mais adequado para - num futuro eventualmente distante - transferir a população da Terra para o corpo celeste que apresente melhores condições de sustentabilidade e permita manter um elevado nível de vida. Os cientistas conseguiram ainda mais dinheiro para fazer mais investigação e fazer mais teorias e construir mais máquinas de perceber. Há anos, as primeiras referências indicavam a necessidade de procurar num outro sistema solar, dado parecer evidente que neste os planetas eram demasiados inóspitos e só com muito esforço, muita adaptação, seriam viáveis. Por isso se procurava noutros sistemas da nossa galáxia um habitat de catálogo, chave na mão, pronto a usar. Hoje pensa-se de outra maneira. Os constrangimentos de ordem material, espiritual e humana empurram para uma solução mais adaptativa. Vai ser necessário muito esforço, muita disciplina, muito sacrifício para criar lugares habitáveis. O professor Gao Xingjian, especialista em sociologia pós-geo, sintetizou os conceitos que estão subjacentes a esta reviravolta epistemológica: "Antes acreditava-se que no futuro - hoje, portanto - seriam possíveis sociedades igualitárias, o que - hoje sabemos - não veio a suceder. Tal facto fez emergir uma reflexão mais integradora das diversas funções sociais. Que fazer com tantos miseráveis? Que fazer com tanta mão-de-obra humilde e barata? A minha ideia, que, como sabem, me valeu o prémio Nobel, foi entreter esta enorme energia braçal na construção de mundos. Salvam-se os ricos e ocupam-se os pobres. Um equilíbrio de uma beleza oriental."
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, julho 24, 2006

A Hilda

Temo dizer certas palavras como se ao dizê-las se pudesse quebrar um encanto e voltar contra mim forças estranhas e poderosas, capazes do bom e do mau e caprichosas quanto baste para me tiraram com a mão esquerda o que dão com a direita. Nestes momentos recordo Hilda. Imagino-me de novo com ela como aconteceu quando a mereci, há muito tempo, no auge, digamos assim, do meu potencial de sonho.
Conheci Hilda, como acontece nos milagres, não na altura em que mais precisava dela mas quando cresci o suficiente para a compreender. E mesmo assim foi demasiado cedo porque se soubesse o que sei hoje teria ficado com ela para sempre. Assim ela o quisesse também.
Naquela altura morava numa cidade grande, maior que esta, ou pelo menos parecia-me muito maior que esta, porque circulava com um rio dentro e isso dava-lhe uma dimensão de corpo vivo que tem sangue e veias e artérias, não era só o empilhamento de motores de combustão interna a derramarem desesperadamente moléculas envenenadas. Num dos lados da cidade havia um jardim de uma dimensão que eu nunca consegui esgotar e um dia, um dia inteiro, decidi, ou decidiu o acaso por mim, faltar às aulas para pensar enquanto percorria a passo os caminhos entre as árvores, entre os pássaros, entre os esquilos, entre os cisnes, entre algumas pessoas, poucas, umas mais estrangeiras que outras e entre elas Hilda, sentada, absorvida num livro que não era bem um livro, como ela me explicou depois de termos trocado olhares coincidentes de curiosidade e começado a falar do sabor agradável daquela brisa que afinal não soprava porque o tempo tinha parado por uma razão qualquer que ainda hoje, estes anos todos depois, não percebi.
Hilda era tão estrangeira como eu, estava ali apenas porque queria estar e tinha adquirido essa sapiência sobrenatural de saber e fazer o que queria, ignorando, sem se forçar a ignorar, disputas de alma ou questões internas de decisão ou hesitação.
Eu sei que já amava Hilda antes de a encontrar naquele jardim improvável e de ter tido com ela aquele diálogo impossível. Se ela me tivesse confirmado que era uma deusa - como ingenuamente lhe perguntei - em vez de ter aberto ainda mais aquele sorriso de conforto absoluto, eu teria embarcado naquele momento na sua nuvem de eterna transcendência. Depois ficamos calados, contemplando o movimento regular das copas e o vogar delicioso dos cisnes.
Dos meses seguintes não tenho mais imagens que as de Hilda. Depois achei que poderia haver algo ainda melhor. Pareceu-me que não me bastaria ficar pacientemente a escutar o arfar cauteloso dos arbustos à passagem das crianças alegres. Queria oscilar entre esses momentos bucólicos e a guerrilha atribulada de me confrontar com o inesperado. Hilda não se perturbou no seu afazer pacificado e deu-me a entender que eu fazia bem. Deixei-a no mesmo banco do mesmo jardim a ler ainda o mesmo livro que, como ela me mostrou, não era bem um livro.
A ausência de Chris, de quem não sei há alguns meses, parece ter colocado aqui em casa a imagem de Hilda a procurar no seu livro de significados ocultos, as frases de que não sabemos o fim porque se perderam com a erosão do desejo. Hilda pode mesmo ter sido uma deusa que tive o privilégio de conhecer e que hoje, tarde demais, continuo a procurar como aconteceu anos mais tarde quando voltei ao mesmo jardim, ao mesmo banco, e aí encontrei ensanguentada uma pomba branca.

Ivo Cação

('post' anterior de Ivo Cação)

A dificuldade de ler (26)

Eu sei que não sei dizer com objectividade o que me prende ao Peter, nem sei se posso encontrar alguma coisa de partilhável no que sinto, para poder, por momentos, ser coerente a minha precisão de pensar que não tenho que sentir o que outros esperam que eu sinta ou que me habituei a pensar que é costume sentir. É provável que precisemos de alguns pontos comuns para comunicar. Deve ter havido em algum momento da evolução um compromisso entre a liberdade e a comunicação: para partilhar o que sei tenho que me sujeitar às regras da partilha e ser um pouco menos livre do que seria se não tivesse essas regras. O Peter é para mim um compromisso, nada mais nos liga que uma palavra qualquer que teremos dito um dia já avançados na bebida e no prazer e no jeito saciado com que as palavras saíam sem entraves nem dissonâncias.

O que temo agora, Doutor, é que os acasos da rua o tenham apanhado na sua perversidade e os afectos da atenção o tenham prendido a uma estaca qualquer de certezas e absolutos. Temo, Doutor, que uma voz um pouco mais astuta lhe tenha segredado propósitos extraordinários para uma vida, e em vez da sua proverbial aversão aos provérbios tenha agora encaminhado o sentido para uma forma de missão outra que a de não ter missão alguma. Confesso que estava relativamente bem com a sequência inútil de nada acontecer, de os dias serem tão claros e possíveis como as noites, de, sem fogo de artifício, ir preenchendo os instantes com movimentos milimétricos na sua simplicidade e no seu alcance, mudanças de cor só visíveis para olhos muito atentos e perspicazes, tudo devidamente enquadrado por um lugar fixo que espera sem enfado o nosso regresso e onde se coordenam uma pequena dose de conforto e de segurança, lugar de retorno, coito dos jogos opacos que a interacção social exige. É isso que temo, Doutor, a perda, voltar ao fantasma de não ter um recurso prático a que chamar sítio do meu sonho, e não sei, Doutor, não sei se isto que sinto é um sentimento meu ou o desgosto de ele poder já não ser o que eu sinto, desilusão portanto, falha, outra vez, da perspectiva e desta dificuldade insane em perceber a dinâmica do tempo, dos afectos e dos desejos.
(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 22, 2006

A dificuldade de ler (25)

Teria eu certamente de amar a loucura como toda a gente, mas eu não quis, eu sabia que isso era possível mas não procurei essa parte deslocada da vida. Não me interessa o lado não lúcido; arrepia-me estar, ainda que por instantes, na presença de factos que não são factos, pensamentos que não são pensamentos, virtudes que não são virtudes, ilusões, mentiras, truques, falhas de perspectiva; não me interessa o que não é, quero apenas que ele seja então esse ser que eu construí com os dados mínimos das primeiras pinceladas e ver aí a absoluta indiferença pelo sentido geral, pela cultura geral, pela ideia geral, pela maneira geral, pelo estado geral, pela média presumida de lei que dita cada valor e cada ansiedade e ainda que nós não queiramos enfileirar pela mesma medida de generalidade; fica quase sempre a ideia desalinhada e louca de ao não pertencer ao grupo, pertencer pelo menos ao grupo dos que não pertencem ao grupo, encarrilar com qualquer coisa, mesmo que estranha, mas nunca ficar à chuva, não recusar o chapéu que há sempre para encobrir um qualquer desencaminhado que se estranhe no lugar a que não sabe pertencer; nada de ficar de fora da taxonomia, nada de ousar misturar o trigo com o joio, nada de afectar os indicadores de confiança que são muito sensíveis à diferença, porque pode perturbar a indiferença militante e de um momento para o outro o rebanho tresmalha e os rendimentos de quem rende tornar-se subitamente menos rentáveis. Eu encontrei o Peter como se fosse o milagre impossível. É certo que isso já me acontecera antes. Mas ganhei experiência, aprendi a olhar melhor para a textura do primeiro impacto e a recusar o que se parecia às anteriores desilusões. Aprendemos ao mesmo tempo que esquecemos. Esquecemos os factos mas ficam as impressões, os métodos, as intuições, os impulsos de defesa. Peter é diferente demais, é a pedra que escapou ilesa ao rolar furioso do rio e chegou a mim ainda sem as marcas do tempo, sem as pressões das tempestades, sem a avidez incontrolada da fome. O Peter nunca me fez sentir como uma coisa que pode ter um dono.
(continua)

Torcato Matos


sexta-feira, julho 21, 2006

Alcance

Sente-se que a terra treme.
O alcance de uma bomba é sempre curto.
Um grande passo para um homem, pequeno passo para a humanidade.
Não se sente em lugar nenhum a não ser na curva logo a seguir ao lugar da morte.

Ontem soube que ninguém queria a salvação para o seu vizinho.
É agradável viver num mundo assim em que não se chega a sentir o pior.
Há uma margem bem definida e fica-se do lado de cá para o que der e vier.

Em todo o caso, seja qual for a insolência do tempo, o desvio de grandeza é sempre ínfimo.
Ninguém tem alcance na voz para se fazer ouvir para além da sua resguardada solidão.
A arte cénica do gesto hiperbólico também só é vista nas primeiras filas da plateia.
O aroma da violência não vai além do arame farpado que define o redondo da vala comum.
E o sabor da morte, quando chega, é intransmissível.

Poderia ser diferente?

Ontem fiquei a saber que os gestos humanos são encenados por especialistas.
Também ontem, numa tarde de emoções avulsas, se revelou o aspecto recorrente do medo e a evolução maciça do desespero.

Não há apelos a fazer, nem instruções ritmadas, nem gestos purificadores.
Não há soluções empacotadas, nem fórmulas químicas de correcção.
Não há modelos aperfeiçoados, nem justiça, nem sementes mágicas.
Não há pistas, nem praias, nem desembarques, nem almoços, nem gritos.
Não há processos arquivados, nem poder tolerante, nem saber gratuito.

O que há, é esquecimento.
Pura evanescência na memória, ou rumores perdidos e renovados.
O que há, é ver outra vez a mesma cena, já com outra matéria nos olhos e outra luz no horizonte.
E esquecimento.
E medo de perder, de ganhar, de sentir, de tremer no momento da perturbação.

Aconteça o que acontecer é irrelevante.
O sofrimento é uma coisa pessoal, reprimível, funesta e indeterminada.
Nada ocorre sobre a inocência bruta do rio que segue o seu desleixo próprio de milhares de anos de história sem pesadelos nem consequências.

Poderá não existir substantiva diferença entre o encaminhar rotineiro das vidas e a flutuação caótica das ondas a remar indolentes com a maré, razoáveis no seu mister e transparentes no horror que lançam sobre as outras formas de existência.

Sísifo

A dificuldade de ler (24)

Capítulo I (retoma)

Quando conheci o Peter senti que era agora, que esta era a oportunidade, finalmente, de alguém que não era como se esperava que fosse, e que tinha, parecia-me a mim, um coração, assim uma coisa amável, que sentia em conformidade mas não estava preso a nada nem sentia com as situações do dia a dia relação ou remorso; vogava pela vida como se já soubesse da sua inutilidade e não parecia incomodado, e eu achei que esse poderia ser o formato adequado para encaixar as minhas sucessivas desilusões; parecia, e era, uma indolência benigna, uma condescendência com a evidente materialidade da vida; subia as escadas da casa que eu queria nossa e dizia ao chegar, com arrepiante sinceridade que já não tinha medo de se afogar no ar embaciado que respirávamos os dois ao mesmo tempo, dentro da mesma casa, e que o meu cheiro, que a princípio lhe tinha provocado algum temor, era agora uma coisa familiar que até podia ser benigno quando ele não sentia, pelo cheiro sim!, que me dominava a angústia e as moléculas da minha pele se escapavam pela pressão interna do desespero. Senti, com ele, outra vez, que era desta vez, que o quadro se compunha, que tinha aqui ao pé a dureza arrepiante do imponderável revestida de uma forma que sendo reconhecível não era da mesma espécie que várias vezes me quisera tornar pedaço humano morto e enterrado; acreditei, acredito, que qualquer expressão particular havia que me não enganava nesta ocorrência singular de homem que primava por não saber a que me referia quando não me referia a outra coisa que não ele próprio e assumia que entre nós, entre o corpo dele e o meu corpo, havia, de facto, uma união que não era tradutível em sinais universais e buscava nessa particularidade de único a suficiente harmonia de ser ao contrário do que até então eu conhecera que parecia sempre feito da matéria oscilante de um espelho que tenta reflectir em cada gesto um outro gesto já usado e aprovado pelas normas e pelas associações que impunemente governam e arregimentam o mundo. Só depois eu quis saber quem era o Peter, buscar pelo seu corpo marcas de identidade, encontrar nas suas palavras e nos seu tiques impressões digitais de um eu que escapava sucessivamente à lógica, à certeza, à prudência, à consciência, à posse...
(continua)

Torcato Matos

quinta-feira, julho 20, 2006

A dificuldade de ler (23)

Não é importante que eu diga os lugares onde as coisas aconteceram, nem os nomes das pessoas, nem o modo como se desvaneceu a minha raiva; não interessam as datas, a altura do ano ou que paixão me movia; não vale a pena referir os nomes, os apelidos, as alcunhas, os estilos de vida ou a falta de estilo das vidas, tirando agora o Peter que é o que agora interessa, porque é o homem que agora tenho ou é o homem que agora me tem ou não é uma coisa nem outra porque não sei que chamar a esta ausência de espaço entre nós quando estamos à distância e a angústia que se forma quando o vejo a dormir fora do meu tempo, fora da minha forma de ser, e não sei, Doutor, não consigo perceber o que o move agora, o que o leva para os seus amigos, para a sua noite, para a sua definição de mundo que não se aparenta a nada do que até aqui tive que cumprir; e fico à espera, Doutor, e não sei, não sei se vale a pena, outra vez...

Interrupção I (pequena intercalação no capítulo)

Há informações que levam a crer que o destino não está traçado. Disseram isso no noticiário das 18:00h. Baseados em estudos realizados nos últimos doze anos numa rede de universidades do país, os cientistas Edward Morgan Forster e Nadine Gordimer, apresentaram um extenso relatório onde confirmam tudo o que não se sabia nem estava demonstrado no relatório preliminar apresentado há cinco anos no décimo sétimo Congresso Internacional de Saúde Ambiental, Políticas Alternativas e Geriatria Animal. "Desta vez fomos ao fundo da questão e conseguimos dados surpreendentes que terão impacto imediato na perspectiva que o homem tem sobre si próprio" foram as palavras com que o Dr. Forster iniciou um longo discurso que poderá deixar o país em estado de choque. "A próxima fase da investigação - a que apenas falta o adequado financiamento para ter início - irá, esperamos nós, demonstrar a existência de Deus com o mesmo grau de confiança com que agora demonstrámos a fragilidade do destino". Wall Street reagiu mal ao anúncio e a generalidade das acções tiveram recuos da ordem dos sete por cento. A Dra. Gordimer, confrontada com a questão bolsista, reagiu de imediato declinando quaisquer responsabilidades uma vez que mais importante do que a vida económica é a vida espiritual e o conhecimento da verdade. Entretanto, todo o sistema hospitalar britânico entrou em alerta amarelo, no temor de uma súbita onda de tentativas de suicídio.
(continua)

Torcato Matos

quarta-feira, julho 19, 2006

Cedo

Percebi cedo que é muito mais fácil quando não se quer.
Cedo demais. E cedo demais também.
Por não querer, cedo passei a ceder ao querer que não era meu.
Porque era mais fácil. Foi isso que percebi cedo demais.
Cedo demais quer dizer antes de poder perceber que o que é mais fácil cedo, pode não ser mais fácil mais tarde.
Cedo demais quer dizer que não oponho resistência às vontades por não encontrar outra vontade para lhes opor.
Mais cedo ou mais tarde acabamos por ceder.
E eu que percebi, cedo demais, que era mais fácil não querer, percebi, tarde demais, que cedi demais.

Percebi, tarde demais também, que não era nada fácil não querer.
Embora em princípio, cedo portanto, parecesse que o mais fácil era não querer, percebi enfim, sem querer, que o não querer era difícil.
Se primeiro, e bem cedo, percebi ser muito mais fácil não querer, depois, muito depois, concedi que é muito difícil não querer.
Porque o que eu percebi já muito tarde foi que em todas as coisas há um antes e um depois e um antes e um depois antes e depois de cada antes e depois e assim sucessivamente.
E o que eu achei mais fácil tinha a ver com o depois porque ao não querer eu não tinha que me haver com as consequências de querer.
E ao querer, como percebi mais tarde - tarde demais - não cedo à vontade de não querer e fico, sem querer, indiferente ao fácil e ao difícil.

Percebi, concedo que nem tarde nem cedo, que antes cedia com facilidade e por causa disso era tudo demasiado difícil.
Parecia - e não posso dizer que perceba o que apenas parece - sempre demasiado cedo para dizer que bastava e sempre demasiado tarde para recomeçar.

Agora, enquanto não descubro coisas novas que possam, sem que eu o queira, alterar este desequilíbrio estável, agrada-me acreditar que não é cedo nem é tarde para tentar não ceder a esta vontade, que cedo percebi, de não querer por parecer mais fácil.
É uma questão de crer. Bom... mas isso de crer é outra história.

Prólogo

A dificuldade de ler (22)

Fugi, Doutor e fugi várias vezes. É próprio dos animais fugirem dos ambientes hostis, procurarem lugares que os aceitem ou, pelo menos durante algum tempo, lhes pareçam amigáveis, tolerantes, no mínimo lugares que os ignorem e os deixem em paz. E foi isso que eu fiz. Foi assim que andei de poiso em poiso, não propriamente à procura - o que é sempre uma maneira bonita de ilustrar o nómada - mas empurrada pela substância do acaso, ávida de corroer em cada humilde pausa, a textura delicadamente construída no interior de cada universo diferente que fui encontrando, e acreditando, e sonhando, e construindo, e perdendo... Mesmo no contínuo estado de perda acabei, sempre, por ser mãe, Doutor. Mulher com a matriz da maternidade, como se um poder superior determinasse ter que ser mesmo assim, com ou contra, em estádio de ser ou de parecer, em forma ou em conteúdo, em vontade ou em mera contradição de termos e de lamentações; sempre adiando o dia em que havia de ser por outra causa qualquer que não a de salvar, de trazer a vida na palma da mão, como uma planta que se cuida para ser outra vez razão nenhuma, outro arbusto a suportar os custos da sombra e a sentir ai, no desgosto de não ser e ao mesmo tempo não saber o que é ser, reservada a intenção para mais tarde, para quando fosse possível, para quando Deus quisesse, para depois de salvar tudo e todos, na impossibilidade flagrante de não continuar a dar apenas lágrimas como contributo à felicidade imaginada para todos.

Mas não é bem assim, Doutor. Estava a deixar-me ir pelas palavras. Por instantes pode ter parecido que estas fugas estiveram isentas de ódio e isso não é sequer pensável porque o que me moveu, juntamente com o medo e ao mesmo tempo que o medo, foi o ódio, puro e duro, firme de morte, revolta total contra a presença e contra a ausência, clima tonitruante de ira extrema e sangue enxameado de destruição, de veneno, de asco... Sabe como as emoções vão e vêm, sabe, somos todos assim, pesa-nos às vezes a alma com a importância que de repente um nada ganha e nos faz perder o sentido do real, e ficar o mundo inteiro pendurado pelo fio flácido de uma aranha mesmo à mão da nossa mão de justiça...
(continua)

Torcato Matos

terça-feira, julho 18, 2006

A dificuldade de ler (21)

O Doutor deve saber que não há muitos destinos possíveis para um mulher quando emerge nos vastos e maioritários espaços em que ainda se não deu forma a alguma desarrumação na geometria elementar das consciências, e quando digo que não há muitos destinos não consigo evitar pensar em apenas dois, na restrição binária do maniqueísmo nivelado pela morbidez mental de costumes - substâncias nauseantes a que se convencionou agregar sentido para justificar como justo tudo o que empalidece e esvai em nada o paradoxo da inteligência - que deixa como caminhos exclusivos e de sentido único, a perda sumária da dignidade no banquete dos prazeres ou a dor silogística da maternidade, Madalena ou Maria para sempre, rostos contraditórios nos extremos da fuga ao máximo terror de perceber e aceitar a diversidade do ser e do gesto, temor, sempre temor, terror, medo absoluto a vencer outro medo absoluto, luta constante com o aproximar da estranheza, culto dogmático da ignorância e da imposição, e medo, e medo, e humilhação, tudo por um pedaço de tempo próprio para sentir, sem nunca chegar a saber como; vida binária, ser e ter sem ser nem ter, e deixar o gosto inebriante da simetria, como na benevolência da rima e do gesto harmonioso, determinar a verdade, o belo, o bom, o sentido e a divindade. Foi por isso que fugi, que saí de lá, de ao pé dos lugares em que me sentia primitiva, desses lugares em que se acredita que a verdade é uma coisa que foi determinada num passado muito distante e onde agora nada mais nos resta que esperar que esse luxo abandonado regresse, sempre com este sentido de termos sido abandonados, deixados à nossa sorte por não termos sabido aproveitar o que valia a pena e termos optado não sei bem porque maus caminhos, mas certamente os mesmos limitados maus caminhos que uma humanidade fêmea pode tomar na sua essência de criatura a quem mais não resta do que perder-se ou cuidar devotamente da sua geração, dando-lhe por um lado razões externas para viver e alimentando por outro a sua amargura do resto que sobrou de uma intenção melhor que nunca se pode concretizar, ilibada mesmo assim de culpas se souber apreciar na dor o êxtase merecido e na dádiva da vida a vida como dádiva. Foi por isso que fugi, mesmo não sabendo que era por isso que fugia.
(continua)

Torcato Matos

segunda-feira, julho 17, 2006

A dificuldade de ler (20)

Nos desatinos de uma ocasião ficou o meu corpo preso à demência de gerar outro e só a sorte anónima de um habitat que fazia por se proteger do que era demais, segundo uma lei fatal que vinha de profundidades irracionais, ficou-se a meio do seu potencial num passe de dolorosa magia em que um gesto brusco e quase cirúrgico recolocou a vida na sua ensanguenta normalidade e me retirou a mim uma impureza que não podia ser por não estar prevista na lei a impunidade para os actos que não se deixam medir pela fraqueza ou pela força dos que podem e determinam. Fiquei também, e ao mesmo tempo, dispensada para sempre dos pesadelos do pecado como se o acto de morte tivesse sido ao mesmo tempo uma confirmação do meu baptismo de vida e uma carta de alforria para o prazer e para a isenção formal dos seus meritórios impostos. Mas eu era ainda demasiado jovem e já demasiado ressentida e tudo o que poderia vir a seguir estava contaminado de excesso e de negação e todo o passo que eu desse pelos caminhos que já estavam escrutinados de desrespeito por quem tinha ido além do que a moral pedia, como se cada acto feito à revelia da consciência fosse um teste mais à viabilidade orgânica de um ser que tinha que escolher na idade tenra o lugar social a que iria pertencer, colocando com a devida precisão a hierarquia elementar dos desejos e a formulação exacta das possibilidades - escolha portanto que não era escolha mas teste absoluto a uma natureza que era viável ou não, como aconteceu logo a seguir quando na fábrica aprendi a rejeitar, sem apelo nem agravo, o que não fosse de acordo com a norma e a aproveitar apenas o que encaixava no 'check list' rotineiro, deixando de lado, qual ditador desumano, o objecto em que um lapso milimétrico no erro de fabrico, tinha ensaiado uma condenável imperfeição - dizia eu, todo passo que eu desse, fosse por onde fosse, seria um falso alarme de outro passo que nunca seria capaz de dar.
(continua)

Torcato Matos

domingo, julho 16, 2006

A dificuldade de ler (19)

Tudo nesse passado se perdeu através de frinchas de portas que escutavam assobios repentinos de medo e da assombração pormenorizada que cada gesto de um pai que era ali rei para compensar as humilhações de um dia a dia desesperado e tinha para com o mundo que nos cercava e afogava, frases absolutas e inquestionáveis, leis divinas a somar às leis divinas que a mãe divulgava em provérbios assentes na verdade irrefutável da rima pobre que talvez se chame assim por ser rima de pobre ou se tenha tornado pobre por ser a rima das verdades que só interessam a quem deve permanecer pobre para todo o sempre a fim de que recicle habilmente os restos que vão caindo da soberba mesa de quem pode e eu não sabia que todo o destino está na infância e nada mais se pode acrescentar a esse pedaço de tempo em que as palavras ainda não se dividiram em múltiplos significados e que, mesmo o que sabemos é, antes de mais, o mais ineficaz dos conhecimentos a levar o sentido da existência para labirintos em que já se sabe que o caminho não tem saída mas mesmo assim se tenta na esperança de um milagre que também sabemos não existir, sendo um saber a que não damos importância porque temos de dar mais importância ao silvo embriagado da água que finalmente aqueceu e traz a potência de por momentos reduzir o desconforto de dias e dias em que não era possível senão encostar corpo contra corpo para sentir que o mundo não acabava ali naquele gelo que comprimia a difícil respiração e expulsava vapores nauseantes pela boca que no meio da tosse e dos fumos fabris ainda tinha um espaço mínimo por onde manter o sangue a correr, e o coração, coisa de textura mole e inadaptada, ousava admitir que havia um futuro reservado noutro corpo, sem saber como nem porquê, atento apenas aos esgares fortuitos das secreções e à movimentação estratégica das hormonas, inquietas de se fazerem sentir na formalidade doentia de quereres que não eram vontades mas pareciam, e que levavam a água ao seu moinho, isentas de responsabilidade e de medo de consequências, anestesiados os dons da moral e dos provérbios pobres de rima e requerida da altura de um abismo a urgência inestimável que dava para retirar do mundo o estado supremo da fascinação do instante e o arremedo instantaneamente gasto do prazer.
(continua)

Torcato Matos

sábado, julho 15, 2006

Pérolas (XI)

É reincidente. Uma padeira que chama os bois pelos nomes.

A dificuldade de ler (18)

- Este sabor, Doutor, faz-me regressar à menina de há muitos anos, ao amargor de saber que o que está para acontecer é sempre pior que o que já aconteceu e o som da broca, o agudo que entra pelos ouvidos, arrepio de vida a fugir por entre os dedos, dor insuportável antes do contacto, silvo de bala prolongado no tempo, à espera de um corpo que há-de encontrar mais tarde ou mais cedo, morto ou vivo, indiferente ao que não seja o próprio sofrimento e indiferente também à astúcia do tempo a recriminar os afectos e a perder as esperanças, abandonada já a infância, com uma certa pressa, não fosse o azar das questões internas provocar derrames alargados de lágrimas e de pensamentos na modesta casa em que as coisas só aconteciam motivadas por alguma pressão do exterior ou das bocas que se ouviam à passagem, ou que nem se ouviam mas ficavam nos ouvidos como se fossem ditas porque, para todos os efeitos, sentíamos que eram merecidas ou mesmo desejadas, que as questões que se punham a quem nem sequer tinha tido tempo para aprender a sonhar, quanto mais a soletrar as letras difíceis do alfabeto de uma virtude qualquer e em que, a cada momento que passava, parecia que o anterior tinha sido mais um degrau descido em direcção a um inferno ainda mais desumano, eram vagas emanações de uma retórica impiedosa, morta à nascença e deixada abandonada no caminho para que todos vissem a miséria como forma legal de dar à ilusão um espaço sensível e tributável, porque o problema maior era já termos visto o outro lado, sabermos, na nossa ignorância, que havia um lado de lá, rigoroso de promessas e ares misteriosamente limpos e de aparência salubre - atraentes esses lugares - mais não fosse porque eram outros lugares que não os do hábito da censura e da negação e de parecer, porque parecia, Doutor, que além do nosso casulo com cheiro a estrume, cercado de odores que carregavam a morte, havia lugares em que o nariz não se fechava na defensiva e aspirava como se se pudesse respirar realmente e sempre.
(continua)

Torcato Matos