terça-feira, janeiro 10, 2006

Miragem



De um desafio de Tozé


Tozé, tenho que reconhecer que esta foto não me diz nada. Um velho e uma criança na areia de uma praia, desenhando ao mesmo tempo um futuro e um passado, ambos errados, ambos querendo acima de tudo brincar. Pois, não me diz nada a fotografia.

Talvez o desenho, sobre a areia, de geografias novas. Talvez uma ocasião exacta em que alguém ainda ensina e alguém ainda aprende. Talvez uma magia que prende o olhar orgânico mas não engana a máquina. Talvez o vazio do ser, subitamente preenchido por um milagre.

Não, não me diz nada.

Porque se quisermos ver a imagem com uma certa frieza, e os tempos são propícios a não nos lembrarmos do calor próprio das coisas, areais imensos, anos acumulados e expectativas é o que mais há por aí. E sabemos como tudo isso é vão, deslavado, irreal.

O que eu vejo nesta fotografia, embora possa estar completamente enganado, é um olhar que parece querer trespassar o mundo com uma atenção que me comove. Porque há esta questão que, talvez erradamente, me parece esquecida: atrás da zona luminosa que atrevidamente é captada, roubada portanto da realidade instantânea que o tempo permite, está um olhar.

E hoje, ao olhar para esta foto que no sentido directo não me diz nada, não pude deixar de me colocar no lá atrás onde, no difícil papel de ausente que se perde sempre e se esquece e se reduz, pode ser referido um acaso, uma oportunidade, um rasgo, enfim alguém que no momento exacto que a memória reteve soube carregar no botão do sentido.

E por isso é estranho que uma imagem limpa e límpida a que recusei audácia, traga afinal uma carga de beleza e reflexo que põe na objectiva um pensamento e no obturador o sentir.

Talvez eu esteja enganado. Talvez não passe de uma miragem.


3 comentários:

Toze disse...

Gostei bastante desta Reflexão, Obrigado Zumbido !

Abraço :)

Elipse disse...

Ninguém se lembraria deste lado da visão... o texto é lindo!

sem cantigas disse...

escárnio e maldizer!
fantastico surreal