quinta-feira, janeiro 03, 2008

Eco

Muitas vezes é melhor o silêncio.
Uma banal ausência presente.
Ou o contrário.
Jogo de palavras que se não dizem para não acordar dormências ou sonhos.
Passa-se sobre o ranger inquietante do soalho a ouvir fantasmas.
Acontece sempre tudo no silêncio.


Portas que batem, ferrolhos que correm, chuva cansada.
No silêncio ouve-se o impossível.
Há segredos a fugirem no murmúrio do ar.
Um brisa improvável e passos a descer a escada.
Respiração.
Um relógio.


É comum que se use o silêncio para confrontar o tempo.
Na música acorda o sentido da nota seguinte.
Na batalha antecipa a violência da morte.
No amor afina a atenção para o odor dos corpos.
No pensamento abre uma brecha para a divagação.


O silêncio é uma indisciplina.
Carrega o peso ingrato do desafio.
Muito mais do que o grito irado.
Muito mais do que o insulto ou a promessa.
Mais ainda que a ignorância militante.


De vez em quando é necessário um tempo de silêncio.
Uma pausa, um salto, uma falta, um soluço, uma distracção.
Do intervalo regular das rotinas sai um momento de inquietude.
Nas bermas do caminho o reflexo de passos.
No céu os riscos brancos.


No topo da montanha ouve-se, em certos dias, o poder do silêncio.
Rasga-se sobre a mente com uma violência insuportável.
Pesa mais que a tortura de um castigo injusto.
E mesmo assim é necessário um tempo de silêncio.


Como a tortura, como o medo, como a ingratidão.
Só mais tarde saberemos, no ajuste de contas, dos benefícios do silêncio.


Sísifo

2 comentários:

addiragram disse...

No silêncio ouvimo-nos melhor!

Feitixeira disse...

Talvez fosse melhor o silêncio, mas não consegui conter as palavras:
Está lindo!!

Beijinhos quebrando silêncios***