segunda-feira, março 20, 2006

Trio

É sempre legítimo dizer coisas horríveis acerca da humidade.
Faz-se o mesmo com as coisas altas e com as coisas baixas.
E com isso, sendo isso as palavras e os sons que se não percebem, arrumam-se de uma vez só várias questões fracturantes.

Mas eu não desdenho a humidade.
Nenhuma humidade.

Lá em cima, no lugar onde penso sempre ser o topo, é também o lugar onde as nuvens se formam.
Às vezes, com tempo, com bom tempo, fico no meio delas, oscilando entre o horror de não ter horizonte e o prazer de ser vivo.
Nesses dias sinto-me a água que como eu, desce a montanha a correr, e formo-me em gotas que tombam brincando com a gravidade dos factos.
Ser água é não ser mágoa, é escorrer pelos caminhos feitos de tempo e escolher sem escolher o lugar preferido para evaporar de novo.

Às vezes sou vapor.
E como vapor subo, ascendo ao topo, ao lugar onde as pressões já não me comprimem.
É como vapor que me vêem os olhos dos que olham para os textos e não lêem.
E é isso que é bom no vapor: ser a metamorfose de uma coisa que é o nada e nada é.

Como vapor sou sonho; como líquido sou intenção; como sólido sou morte.
Voar, andar ou morrer.

Um dia serei gelo.
Pedra partida e seca, morta, despenhada no caminho, veneno reversível.
E isso, isso de ser gelo morte e tudo, deixarei para depois, para quando já me tiver esquecido.
Também podia ser assim: sonhar, lembrar, esquecer.

Entretanto, entre tanto sonho, entretenho os dias mudando de estado, viagem à volta dos lugares e de volta aos lugares em que cristalizo sombras.
Desço rápido a montanha que me abriga; recupero o tempo dando-lhe outra forma; ascendo às alturas por força de um vento poderoso; e não me canso, não me canso, não me canso...

Sísifo

8 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Um dia lerei os teus livros com o mesmo prazer de todos os dias...

Beijinhos

CSD

Claudia Sousa Dias disse...

Porque a qualidade que vejo no teu blog, assim como no de alguns amigos nosso, como o ikivuku e o Lino centelha, ou então o prólogo, a isso obrigam!

Tudo de bom!

CSD

João Dias de Carvalho disse...

Passei por cá…parabéns pelo Blog.

JAC
Blog "O meu Computador"
http://o-meu-computador.blogspot.com/

João Villalobos disse...

Muito alquímico :)
Gostei!

jp disse...

não me canso,não me canso,não me canso...
isso é óptimo
:-)

sem cantigas disse...

se fores húmidade fujo-te se fores gelo derreto-te se fores água bebo-te se fores vapor ah se fores vapor quero-te!

sisifo disse...

Hum… Tudo indica que queres sempre o mais difícil… ou talvez o impossível…

sem cantigas disse...

sisifo ou lá como te chamas que isso não é nome de ninguém: verdade!

e tu com esse nome queres o quê? marias e maneis????