sábado, abril 22, 2006

Rastilho

Em toda a tua vida cometeste apenas um erro.
Em toda a tua vida houve apenas uma vez em que escolheste o caminho errado.
Um desvio apenas.
Um lapso.

Não sei quando nem o quê.
Não estava lá, no momento, a lucidez nem a vontade.
Ocorreu apenas o passo dado, no lado distinto do que devia ser.
Foi um pouco ao lado nunca saberei de quê.

Fizeste o teu momento, encaminhaste os passos para o plano que sobrava.
Viraste à esquerda quando era para virar à direita.
Subiste num momento em que era imperioso descer.

Nada é claro no desenvolver dos instantes e dos mistérios.
Nunca se propõe que o destino seja uma coisa pré-definida.
Mas está lá sempre o caminho projectado por um desenhador louco no início dos tempos.

O teu erro poderá ter sido um sonho.
Um pensamento que por desatenção vagueou fora do propósito.
Estiveste, por momentos, ausente da consciência histórica e trocou-se o efeito físico pelo metafísico.

Lado a lado seguem o destino e a consciência, alinhados no pudor e na insistência.
Há uma certa clareza no desejo, mas há também as regras e a estabilidade do sol.
Voam sempre os edifícios distantes no real e na sensibilidade.

Caminhaste sempre na tua recusa da imobilidade.
O erro foi apenas um, definitivo por isso, inevitável porque submisso aos tremores da consciência.

Não há ciclos.
Tudo emerge novo de novo.
Pálidas flores que agora brotam são diferentes das pálidas flores dos anos passados.
E a chuva - estas gotas inocentes de vida - é a que agora cai e que agora molha.

Tiveste o teu tempo de fraqueza.
Falhaste a ocasião em que o teu olhar estava ocupado em vão.
É mesmo assim.
É sempre um erro que nos traz a liberdade...


Sísifo

4 comentários:

Elipse disse...

Nenhum rastilho sobrevive, basta que não se alimente a combustão, se ela provar ser maléfica.

João Villalobos disse...

Fabuloso. Bravo. E um portentoso final.

batista filho disse...

Sem dúvida, um belo texto, escrito por quem - não só tem familiaridade com a palavra escrita -, como também revela conhecimento e sensibilidade para da alma humana.

jp disse...

É sempre um erro que nos traz a liberdade, dizes tu.
Eu acrescento que é na descoberta do erro que começa a liberdade.
;-)