sexta-feira, abril 07, 2006

Roleta russa

(para o Escritor Famoso V)

A cena passa-se num dado perfeito. Há um cubículo cúbico em reconstrução. Paredes sem estuque nem escuta, caídas e recuperadas de um ataque.
Uma mesa verde num chão plano. Além do dado, um baralho de cartas escritas a toda a volta com versos e infiéis. Far-se-á uma contabilidade dogmática.
Duas câmaras e várias freguesias, ou uma apenas se for bem gerida, focam alternadamente os rostos sombrios de duas personagens que podem ser dois homens, duas mulheres ou, preferencialmente, por uma questão de cotas, um homem e uma mulher ou uma mulher e um homem, para ser tão correcto quanto possível.
Admitindo que as personagens sejam capazes de dizer alguma coisa, escondem-se microfones e a câmara aproxima-se lenta mas continuamente de um rosto de cada vez. A não ser que aconteça alguma coisa inesperada. Nesse caso, os protagonistas devem ser devolvidos a instâncias superiores.
A foca deve estar imóvel e o móvel deve estar focado. Se isso não for possível, usar uma foca de plástico e deixá-la na sombra. Há uma expectativa mística.
Acima de tudo que ninguém se aperceba que existe um realizador. Para ele a câmara deve olhar de lado sem pestanejar. Só é oculto o que está à vista.
Um pouco mais abaixo ficam as luzes, junto a iluminuras do século treze. Não usar romanos nem romãs. Se não houver iluminuras disponíveis evita-se que as câmaras se desloquem acima do olhar humano. Não esquecer de desenrolar um novelo de lã de uma cor barata.
A mesa verde é pentagonal. As duas personagens esperam mais três. Ninguém sabe se vêm. É provável que isso não interesse. Tudo depende do ónus da prova.
Acima de tudo, no mesmo lugar do realizador, espera-se um acontecimento inesperado. Há cadeiras para todos: umas são genuínas, outras feitas em segunda época. A cadeira do realizador não conta mas terá escrito rodazilaer ao contrário nas costas para ser lido no espelho, como se fosse uma ambulância. Pode ser necessária. Um acontecimento extraordinário aponta para necessidades urgentes de socorro.
No nível imediatamente inferior, um pouco acima das cabeças sentadas, baloiça um pêndulo metálico de grandes proporções. Não sei para quê. Há-de ser uma metáfora difícil. Há-de haver na minha infância um pêndulo capaz de o justificar. Na superfície curva da esfera pendular estará colado um cartaz de uma promoção turística. O cartaz não deve ter mulheres nuas embora por instantes possa parecer que o cartaz tem mulheres nuas. Convém ter a sala aquecida.
Ao nível dos olhos de quem está sentado formam-se sombras oscilantes. As sombras sobrepõem-se por vezes aos rostos sombrios, tornando-os, por instantes, rostos sóbrios. Movem-se devagar imitando a câmara lenta.
À cota do plano do pano da mesa há fumo. Nada de cigarros. Apenas incenso chinês genuíno com cheiro a brócolos cozidos. A dada altura há-de cheirar a carne queimada. Talvez isso faça comover as personagens. Cheirar é como ver. Mas é mais envolvente porque é químico.
Sobre a mesa há duas garrafas de água exactamente iguais. Luso, Vitális, Serra da Estrela, Evian, Perrier, Pedras Salgadas, tanto faz. Tanto faz porque uma delas tem ácido clorídrico. A dúvida maior é se as personagens devem ou não saber qual o conteúdo da garrafa. Se souberem o drama é antes. Se não souberem o drama é depois.
Os cigarros estão no chão sob a forma de beatas pisadas. Mas as câmaras não olham para o chão. As câmaras olham sempre na horizontal: nem sobranceiras nem submissas. Fitam o horizonte à procura do tal inesperado. O perigo raramente vem de cima ou de baixo. É melhor as beatas não entrarem na história. Tudo pela dignidade.

A acção decorre a uma hora morta. A decisão é deixada ao acaso. Cada um age segundo a sua vontade. A protagonista poderá ser uma garrafa de água. Mas também pode ser o pêndulo. Ou o dado. Um dado novo é sempre perfeito. É muito improvável que depois do riso não ocorra um drama.

Diálogo exemplar:

PA é a personagem A; PE é a personagem E.

PX - O meu médico recomendou-me riso.
PX - O meu patrão recomendou-me produtividade.

Frases de reserva

PX - O meu pai recomendou-me juízo.
PX - O meu advogado recomendou-me prudência.
PX - O meu massagista recomendou-me actividade.
PX - O meu padrinho recomendou-me investimento.
PX - O meu tutor recomendou-me sexo.
PX - Na televisão recomendaram calma.
PX - Os meus professores recomendam-me estudo.
PX - O meu gestor de conta recomendou-me boas acções.
PX - O meu maior amigo recomendou-me viajar.
PX - O meu arrumador recomendou-me cocaína.
PX - O meu padre recomendou-me comunhão.
PX - O meu porteiro recomendou-me um alarme.
PX - O meu jardineiro recomendou-me água.


Artur Torrado

5 comentários:

Damelum disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Fausta Paixão disse...

Ó px, digo, pst! eu acho que devias seguir a opinião do teu tutor.
Água, só depois, mas usa a torneira (de todas as maneiras que souberes)

sem cantigas disse...

mostra-me um dado imperfeito

Artur Torrado disse...

Todos os dados são imperfeitos até que provem o contrário...

sem cantigas disse...

artur estorricado: mentira!