sábado, janeiro 13, 2007

O império do amor

Há muitos anos, nas salas de 'chat' do IRC mais dedicadas à área da escrita e da literatura, era comum os mais jovens que apareciam, expressarem o seu desejo de no futuro virem a ser escritores. Quando lhes perguntava sobre o que liam, referiam, invariavelmente, com enorme paixão o escritor brasileiro que mais vende no mundo (EBMVM*). Não conhecendo a fabulosa escrita de EBMVM e não estando disposto a experimentar**, limitei-me a constatar que a leitura do EBMVM induzia comportamentos imitativos e reforçava a famosa auto-estima. No sentido mais plano do termo, muitos dos leitores do EBMVM apercebiam-se que aquele tipo de escrita estava perfeitamente ao seu alcance. Dez anos depois alguns desses potenciais escritores estão a publicar. Outros têm 'blogs' espirituais.

Lembrei-me desta questão ao ver num hipermercado um molho de livros em saldo, provenientes da recentemente finada Tinta Permanente, pela qual tinha uma especial simpatia, devida, entre outras coisas, a ser a editora de "FICÇÕES - revista de contos" - que entretanto passou para a Caminho - e me ter parecido, durante a sua curta existência, ser respeitadora da palavra literária.

No meio dos vários livros em saldo estava, a 3,00 €***, uma pérola chamada "O império do amor", um livro de contos de Luísa Costa Gomes que teve há alguns anos sobre mim o efeito contrário ao que o EBMVM costuma ter sobre os seus leitores. Perante o virtuosismo dos contos de "O império do amor" apercebemo-nos de como é difícil escrever bem; de como manejar a arte das palavras exige esforço, dedicação e estudo; de como o texto se pode tornar numa coisa viva, resistente e amável; de como o mundo é uma entidade complexa em que nada se define pela linearidade, nem os sentimentos têm que ser permeáveis à vulgaridade do poder; de como a liberdade, a inteligência, o conhecimento e o espírito crítico têm afinal aplicabilidade na relação entre as pessoas.

Suponho que é inevitável a instalação da facilidade em todos os domínios. Uma frase que não seja óbvia numa primeira leitura será abandonada como confusa. Einstein, na sua bonomia, terá referido a importância de em alguns aspectos da existência permanecer criança toda a vida. Referia-se à curiosidade e à disponibilidade para o maravilhoso da realidade. Hoje é interpretado como se tivesse dito que qualquer assunto deve ser transmitido com a simplicidade que permita ser percebido por uma criança de sete anos. Suponho que esse é o método seguido pela televisão e seria excelente que se ficasse por aí. Mas os livros, Senhor...


* uso esta sigla em vez do nome para evitar que o 'google' traga aqui pesquisadores que iriam ficar desiludidos e porque desde pequenino que sei que não se deve invocar o santo nome de Deus em vão.
** não sendo um suicida entusiasta recuso experiências cujos efeitos perniciosos consigo identificar a tempo nos outros.
*** deixo aqui o preço para aqueles que tiverem a oportunidade não a deixarem escapar, pois é livro para depois disto ficar sem reedição milhares de anos.

Artur Torrado

3 comentários:

Fausta Paixão disse...

ainda bem que não disseste o nome do EBMVM, senão já terias sido escorraçado da blogosfera...

A Luisa é boa pessoa mas falta-lhe... espiritualidade...
... vê lá se a outra não vende comó milho!!! (não digo o nome por respeito ao teu sitemetter)

Elisa disse...

EBMVM em vez do nome do tal escritor (escritor?) é engraçado... eu jamais me lembraria de tal. Além de tudo o que dizes... eu creio que a leitura de EBMVM é perigosa. Por várias razões.
E eu gosto da Luisa Costa Gomes... mas dela prefiro o Pequeno Mundo.

Bastet disse...

É sempre bom ficarmos a saber o preço das nossas prendas de Natal! Eh, eh, eh!!!