domingo, outubro 08, 2006

A dificuldade de ler (64- C5/P7)

- Do que preciso é de terminar os meus escritos para impor ao mundo a boa-nova de haver uma solução.
- A solução final...
- O meu método é a especialização. Enfrentar o pormenor até à exaustão. Não deixar nada ao acaso no campo de estudo a que me dedicar. Isto até parece uma ideia geral mas é muito mais do que isso. O universo é fractal. Dentro de cada pormenor estão todos os pormenores. Dentro de cada ponto estão todos os pontos. Dentro de cada átomo está um universo. Dentro de cada ser estão todos os seres.
- Parte-me o coração a tua honestidade intelectual. Lamento ter que estar aqui a ouvir os teus segredos. Devias guardá-los sigilosamente até que fossem publicados com direitos de autor.
- Repara como uma ideia destas até pode explicar Deus! Temo-Lo procurado no céu, nas coisas grandes, nas estruturas macroscópicas e afinal Ele pode estar nos interstícios dos núcleos atómicos. É o pormenor que interessa. O dado elementar, tão elementar quanto possível, absolutamente elementar. O especialista recolhe-se ao estudo do seu pormenor mais particular e aí fica preocupado em que não lhe escape nada, que nada fique por descrever, que a nada falte a palavra que o nomeia e salva da inexistência.
- Esse Deus achará bem que me tenhas aqui engaiolada?
- Ainda não sei. Mas Ele sabe das minhas boas intenções. Sabe que acima de tudo O quero reconhecer e encontrar.
- Então deixa-me ir. Não estou aqui a fazer nada. Acabaste de dizer que é isso que te interessa acima de tudo.
- E disse bem. É Deus que me interessa acima de tudo. Imagina o impacto que teria eu demonstrar a existência de Deus no mais recôndito do infinitamente pequeno! Isso daria uma visibilidade total à minha investigação. O mundo inteiro está à espera disto. Mas é preciso que percebas que tu és eu. Essa questão nem se põe. Falar contigo é pensar em voz alta. É falar de mim para mim. O teu corpo e a tua alma, a tua memória e a tua imaginação são parte de mim. Eu escolhi-te. Provavelmente isso estava escrito no livro do destino mas para todos os efeitos foi uma decisão minha escolher-te. Se encontrar Deus, como espero, essa será uma das primeiras coisas que Lhe vou perguntar.
- Pergunta-lhe também porque te fez tão cretino...
- Estarás comigo. Poderás fazer as perguntas que quiseres.
- E se não encontrares Deus, deixas-me ir embora?
- Em breve deixarás de querer ir embora. Serás a primeira a sentir o prazer da glória e a não querer trocá-la por nada deste mundo. Em breve pensarás o que eu penso e anteciparás os meus desejos para que eu me sinta bem e seja produtivo e assim possamos viver os dois na nossa perfeição.
(continua)

Torcato Matos

3 comentários:

Fausta Paixão disse...

já não bastava a dificuldade de ler esta obsessão ... agora ainda codificas os títulos... achas que alguém tem resistência para tanto!
Manda para uma editora. Depois de tudo comPILAdo talvez seja mais fácil...

Torcato Matos disse...

Cara Fausta (suponho-a mulher de gostos de requintados), quando a preocupação de quem escreve é a verdade torna-se muito difícil tanto a escrita como a leitura. Não tenho meios para tornar a realidade mais apetecível e como repórter ficcional tento que a minha interferência narrativa seja mínima. Fosse eu crente e aceitaria que o que guia a minha mão que escreve (como estas expressões estão datadas nesta altura em que a a mão esquerda se especializou no 'a' e no 'e' enquanto a direita escolheu o 'i', o 'o' e o 'u') é o próprio Deus. Ou fosse eu um ficcionista moderno e diria que me rendia à história que queria ser escrita e me utilizava como instrumento. Mas não é assim, Fausta. E só numero os capítulos e as partes para não me perder no labirinto das personagens. Quanto à editora já imaginaste coisa mais 'publicada' do que aquilo que se põe na 'internet'?

Fausta Paixão disse...

Caro T. Matos, leu publicar onde eu escrevi compilar.

Bem sei que aos homens há expressões que não interessam. Não há quem os compreenda nestas fugas à realidade!

De qualquer forma hei-de conseguir ler a sua prosa, nem que seja para depois lhe dizer o que penso.