quinta-feira, outubro 26, 2006

A dificuldade de ler (68- C6/P2)

Bom, mas isso era o que eu tinha pensado para mim próprio. Ou pelo menos é o que hoje penso que pensei na altura. Embora tenha que reconhecer que não me recordo com precisão se esta ideia me surgiu já aqui, quando a minha imaginação se sentiu defraudada pelo tédio e pela estranha vontade dos autóctones de olharem para o pormenor dos hábitos de quem chega de fora.
Não sou do meio. Estou aqui mas num certo sentido estou expulso. Não sei se te apercebes do que é estar num lugar e sentir que os que estão à tua volta te consideram um estranho. Faças o que fizeres o teu movimento será sempre rudimentar, incapaz de pertencer à harmonia de gestos do grupo. Eles, ao contrário de mim, conhecem os segredos que se foram aconchegando com o tempo à alma que os faz uniformes. Digo eu que conhecem, porque os observo de fora e me parecem mover-se com à vontade na irregularidade medonha dos caminhos, como se estivessem perfeitamente seguros, como se tivessem uma ciência própria capaz de interpretar as mais difusas ameaças.
Não quero que sintas, nem por instantes, que me pretendo colocar num patamar superior. Nem por sombras. Conheces-me, mais depressa faria precisamente o contrário. Mas aqui estou com um objectivo claro de ser justo e ao mesmo tempo consciente da habilidade do tempo para me surpreender. Este não é o meu meio e temo - temer é uma palavra exagerada - que faça o que fizer nunca virá a ser. Não será aqui que algum dia me vou sentir em casa.
Eu sei que me disseste que não me seria proveitoso sentir-me bem num lugar. As tuas teorias do desequilíbrio contínuo - que tu sabes bem me aborrecem continuamente - só fazem sentido ditas à mesa de um café, e mesmo assim depois de um almoço devidamente regado. Dirás - sei que dirás - que é nos meios hostis que as habilidades se revelam. Que é a ter adversários que se aprende a lutar, e outras barbaridades do mesmo calibre. Mas isso é aí no teu lugar onde ninguém te hostiliza e onde te sentes sempre em casa e com as costas quentes. Além disso, aqui ninguém é contra mim. Nem contra nem a favor. Indiferença pura.
Também sei que já estás a pensar que o que me perturba é ignorarem-me. É verdade que para eles eu não existo. Estou aqui mas não existo. Toleram-me, embora eu não saiba dizer a que poderia assemelhar-se um sinal qualquer que demonstrasse que não me toleravam. Sou eu que sinto que me toleram porque não sei dizê-lo de outra maneira. Não há nenhuma manifestação evidente de rejeição. O que eu queria dizer é que a maneira como me dão os bons dias é diferente da que usam para se saudarem uns aos outros. Isso faz-me sentir como não pertencendo ao meio. Tão simples como isto.
(continua)

Torcato Matos

3 comentários:

MRF disse...

Torcato, nenhum filósofo é do "meio". ou o excluiram - para não dizer "expulsar", ou excluiu-se por vontade própria. Dá imenso jeito à inteligência ser um "excluído" - e não é preciso temer - temer é uma plavra demasiado forte, pois - a acusação de se estar ou querer estar acima de. É que não é mesmo essa a posição. Na verdade, as coordenadas nem são para aqui chamadas. Não é de distância sequer que se trata. É de estranheza. Um excluido estranha e é causa de estranheza. Por outras palavras, é um quebra espelhos (silencioso), e essa "missão" é absolutamente indispensável ao progresso, sobretudo quando a imagem que o espelho reflecte do meio agrada à maioria do meio.

Não te tormentes, Torcato, usa calças com bolsos para poderes enfiar lá as mãos, naqueles momentos em que os membros parecem partir-se em pedaços. Suporta o desmembramento passageiro. Imagina os cacos de vidro no chão, o estilhaçar do espelho falsamente liso, polido, e cristalino.

e ela vai saber ler.

addiragram disse...

Se metemos os dois pés lá dentro aceitamos o provisório "ser como eles", suportamos todas as irregularidades que resultam da alteridade e...mesmo assim,continuamos "nós".Suportar meter os dois pés lá dentro é também admitir que não saímos quando queremos,que as ligações têm um preço, sendo o que se guarda "vivo" para sempre.

mfc disse...

Nós não pertencemos a lado algum. Apenas podemos permanecer onde nos autorizarmos... e de forma temporária!