quarta-feira, setembro 20, 2006

A dificuldade de ler (57- C4/P9)

"O se que digo é reflexo e não condicional. Ver a própria imagem reflectida no infinito, num corpo que se oferece voluptuoso para o desejo de desejar sempre novo desejo e a cor da pele a avermelhar a potência da loucura. Já nada agora me ocorre como certeza e ao mesmo tempo já não me destrói a ilusão. Passei a saber que o lastro perdido da infância vem a correr de novo para se soltar em gritos de alegria que agora acompanham os gritos do prazer. Depois de ser como era é outra coisa ainda.
Há no desenrolou todo o aroma da verdade. Há tempo, há espaço, há acontecimento, há sensação de movimento, de pressão crescente sobre o corpo. Há fluxos se vontade a assomarem, ou vontades a perderem-se como o momento em que o soldado cercado já não pode resistir mais e pondera sem razão nem sentido a capitulação, a entrega do corpo e da arma ao inimigo. Mas não se trata aqui do inimigo. Sou aqui o guerreiro que luta consigo próprio e procura o instante supremo em que o impulso vital torna de novo às imprudências do sonho.
Durou pouco este durante. Mas não interessa o que durou porque durará para sempre. Num universo gasoso é na solidez dos planetas que se forma a vida. Há a dureza de um lugar para que ele seja lugar e se identifique entre todos. É assim que eu vejo a oscilação natural da vida a ocorrer entre os dois pólos opostos da dureza extrema da rocha à suavidade displicente dos vapores. Durante o tempo em que dura uma história somos felizes. E quero que dure esta história. Esta esta a que me refiro é uma mulher que conheci aqui, durante este congresso, entre vós, enquanto trocávamos os nosso saberes, os nosso sonhos e os nossos projectos, troquei eu também os sabores, as sensações e o prazer com uma mulher que se não tivesse nome nem profissão eu chamaria rainha da LI. Mas há aqui algo de profundamente egoísta que quero partilhar convosco: quero-a só para mim. Troquei por estes dias a virtude enquadrada de um académico de renome pela margem do plano adjacente à aceitabilidade. E ao dizer-vos isto tenho a consciência de estar a cumprir um mandato da minha vontade, contra tudo e contra todos. Contra todos e contra as mais coerentes ansiedades.
Foi assim a semana que vos descreve este congresso. Não foi talvez esta a maneira mais correcta de o ver. Nem a mais literária. Nem a mais profissional. Ficará por ser a mais humana. A mais fragilmente humana. As minhas preocupações literárias vão todas para a inutilidade. Sete dias passam muito depressa e esquecem-se muito depressa. Interessa que pelo caminho encontremos palavras que sobrem e sejam as necessárias para levar nos bolsos para o caminho e para os momento de pausa, quando, nos nossos locais de trabalho nos lembrarmos do inesperado acaso que levou um respeitado professor de literatura inclusa a encontrar o amor numa jovem cozinheira estagiária que assava frangos como ninguém."
(continua)

Torcato Matos

3 comentários:

jp disse...

virá daí a frase, sao muitos anos a virar frangos?
(neste caso a franga)
;-)

Torcato Matos disse...

Gostava de lhe poder dizer que não, para não adulterar o sentido da obra de arte. Mas nestas como na generalidade das coisas humanas o sentido de oportunidade está desfasado dos sentidos da sensualidade. Eu também quis ser um místico ou um filósofo mas o destino empurrou-me dramaticamente para repórter ficcional. O mercado está repleto é o que lhe digo. Já não é possível fugir. Os meus respeitos.

jp disse...

Se formos por aí caro Torcato, quer mais sensualidade que um corpo que vira outros corpos, enquanto em suor se crestam as peles no calor das brasas?
Mas deixe que lhe diga dramaticamente que fica sempre bem um ligeiro ar blase, que para Torcato repórter ficcional, você faz-se. E esconda-se,vai ver que ainda o acham.
Desta que
respeitosamente
lhe faz a vénia.