quinta-feira, novembro 02, 2006

Livremente

Não quis que soubessem o meu nome quando atravessei a altura máxima da montanha.
Assim também tinha guardado para mim os lamentos e evitado que me vissem eu.
Da mesma forma me dirijo aos lugares ermos e de lá volto no escuro da invisibilidade.

Ontem morreu alguém na montanha.
Tinha todos os gestos certos mas houve um que falhou e a dureza do tempo aproveitou-se.
Não me ocorre agora a tristeza por isso ou por tantas vidas que ontem se perderam.
Ocorre-me antes pensar nesta natureza que cumpro em mim e a que não dou nome.

Não sei até que ponto é patético desfolhar a luta diária com os elementos.
Eles vêm de diversas formas e tomam as nossas mãos nas suas para sempre.
Invadem a propriedade e a atenção como se não pudéssemos ser.
Negam os desejos por um acaso em que não estejam interessados.
Limitam os movimentos às zonas nobres como se esperassem com paciência infinita.

Mas, não, eles, os elementos, não querem.
Passam pela voz pendente dos sonhos e determinam a partir da indeterminação.
Desdenham das poses sem chegarem a desdenhar, indiferentes.
Não pousam o pé na nossa lógica e seguem o seu caminho sem olhar para o caminho ao lado.
Dispersam os porquês em passos aleatórios, abismos, potências, fogo.
Movem o peso pesado do tempo na margem da absoluta marginalidade.

A terra seguiria divina a sua marcha sem nós.
Levaria o seu impulso até que outro impulso maior a perturbasse.
Pó, pedra e lume seguiriam ainda o rasto do lume, da pedra e do pó.

Aqui, no meu passo simples, sou tão natureza como natureza é o trovão.
Sou tão inofensivo como inofensivo é o riacho que desce a gravidade.
Sou tão apático como apática é uma lua a honrar um sol.
Sou tão leal como leal é o frio que volta no inverno.

Não há nomes que cheguem para dar a todas as coisas.
E, por isso, algumas ficam esquecidas de ser e de se ouvir.
Como se a indiferença nascesse de não haver um lugar perfeito para a colocar.

Fogem pelo caminho passos mais apressados que os meus.
Vão animados à procura do que resta para enfeitiçar.
Querem, porque a vontade os impele, querer outras coisas que também querem e fogem.
E o fluir constante dos desejos faz animar o vento e as forças ocultas.

Lá longe, no lugar onde se fecha o horizonte, e onde parece que as espécies outonais se comprimem, há nomes a morrer e outros a nascer, selados os documentos que a história irá avidamente recolher.

Sísifo

5 comentários:

Anónimo disse...

é bonito esta tua homenagem, a quem morreu a fazer aquilo que gostava

tristes daqueles que morrem sem conseguir saber o que gostariam

eu nem sequer devia estar a escrever isto,mas já morri tantas vezes pela boca que já nem me ralo( abençoados os pobres de espirito,dize alguem...)

sisifo disse...

Não foi pensado como homenagem - até por que não gosto de homenagens - foi mais um olhar deslumbrado com as forças na natureza. E olha, ainda bem que estás aqui, porque falando de forças da natureza poderia ser sobre ti.

mfc disse...

Quando alguém nos deixa, choramos por nós!

Anónimo disse...

Homenagem, foi uma palavrinha mal empregada Sisifo. Nem eu tão pouco gosto dela.
Agora o Lino...vai lá vai pra presidencia.
;-)

Iris disse...

às vezes teimo em não compreender por que razão se empurra uma pedra sendo essa uma tarefa que não vai salvar o mundo da fome, da guerra, da miséria, da injustiça, enfim... dos males todos que a Pandora deixou sair daquela caixa dada pelos deuses.
outras vezes sou eu que me vejo na tarefa sem sentido da auto flagelação, também ela comandada pelos deuses em troca de remissão.
serão malditos esses deuses que fazem com que os homens desejem chegar aos céus?