sexta-feira, julho 14, 2006

A dificuldade de ler (17- C1/P1)

Capítulo I

- Vamos lá então ver como vão essas miseráveis cáries.
- Doutor, preciso de lhe falar do Peter.
- Então porquê? Ele continua a não querer lavar os dentes?
- Não é isso, é o nosso casamento que está em risco.
- Vocês são casados? Pensei que ele fosse teu filho.
- Pareço assim tão velha?
- Não. Por amor de Deus. Ele é que parece um adolescente. Também não se cansa muito com o que faz... Abre lá a boca.
- Estive a ler as cartas. E fiquei assustada. Ele aparece ao lado de Deus. Não sei como interpretar.
- Hum... Não te preocupes. Todos estamos junto de Deus. Abre a boca.
- Não tenho nada nos dentes, Doutor. Tenho a alma dorida.
- Está bem. Mas já que estás aqui deixa ver.
- Preciso de falar consigo. Preciso de falar com alguém que me conheça um pouco mais do que como leitora de cartas. Preciso de ajuda, Doutor. O Peter...
- Acredito, Elsa. Mas eu sou dentista, não sou psiquiatra.
- Não tenho dinheiro para psiquiatras, Doutor. A única especialidade em que o serviço nacional de saúde me dá o direito de falar deitada a custo zero é a odontologia.
- Mas eu não percebo a não ser de dentes. Dentes e gengivas, estás a ver?
- As coisas estão todas ligadas Doutor. O meu tormento é na cabeça. Preciso de falar.
- A parte que eu conheço da cabeça é a mecânica. Não é a psíquica. Os meus instrumentos não interagem com a alma.
- Isso é o que o Doutor pensa. A estabilidade familiar é óptima para combater a cárie. Preciso que me ouça, que se sente aqui atrás de mim e tome atenção ao que eu digo.
- É ridículo, Elsa. Eu sou um cientista, pá. Tu é que lês cartas e mãos e fazes magias. Eu leio o passado nos dentes e tento alterar o futuro deles.
- Uma parte da história está nos dentes e a outra eu conto mas preciso da sua ajuda.
- Tenho mais pessoas lá fora à espera.
- Isso não tem importância. Tenho que falar do Peter.
- Fala lá, mas depressa.
- Só preciso de uma coisa antes.
- O quê?
- Umas gotas de desinfectante na boca e um bocadinho de som da broca...
- Estás doida?
- Vá lá, Doutor. É muito importante. Mesmo muito importante.
(continua)

Torcato Matos

2 comentários:

Fausta Paixão disse...

essa da broca!!!!!!

jp disse...

é fetiche...