terça-feira, julho 25, 2006

A dificuldade de ler (27)

E o pior, Doutor, é não acreditar no regresso. O tempo só decorre num sentido, nunca tem retorno. Experimentei já voltar para trás à procura de objectos que tinha amado e percebi, à minha custa, a irreversibilidade do tempo. Sei que a seguir vem sempre um sofrimento maior e, mesmo sabendo, vou de encontro a ele como se arriscasse apenas um pequeno jogo de hipóteses em vez de laborar o vertiginoso horizonte das certezas e desfazer o que resta de pudor e dignidade. A história não se repete mas o sentimento e a dor são sempre os mesmos; e mesmo que gritemos que não conseguimos transmitir o que sentimos - porque cada um sente à sua maneira e de acordo com a sua história - acontece que todos sabemos do que cada um fala quando diz da angústia que lhe vai apertando irracionalmente o coração, e partilhamos como que uma prática universal que parece permitir o 'com-sentir' das emoções, nos casos em que as paixões domesticadas não se interpõem a filtrar os impulsos que impedem o cínico caminho do horror.

Interrupção II

Haverá petróleo em Marte? Os cientistas têm aumentado a pesquisa no sentido de descobrir o planeta mais adequado para - num futuro eventualmente distante - transferir a população da Terra para o corpo celeste que apresente melhores condições de sustentabilidade e permita manter um elevado nível de vida. Os cientistas conseguiram ainda mais dinheiro para fazer mais investigação e fazer mais teorias e construir mais máquinas de perceber. Há anos, as primeiras referências indicavam a necessidade de procurar num outro sistema solar, dado parecer evidente que neste os planetas eram demasiados inóspitos e só com muito esforço, muita adaptação, seriam viáveis. Por isso se procurava noutros sistemas da nossa galáxia um habitat de catálogo, chave na mão, pronto a usar. Hoje pensa-se de outra maneira. Os constrangimentos de ordem material, espiritual e humana empurram para uma solução mais adaptativa. Vai ser necessário muito esforço, muita disciplina, muito sacrifício para criar lugares habitáveis. O professor Gao Xingjian, especialista em sociologia pós-geo, sintetizou os conceitos que estão subjacentes a esta reviravolta epistemológica: "Antes acreditava-se que no futuro - hoje, portanto - seriam possíveis sociedades igualitárias, o que - hoje sabemos - não veio a suceder. Tal facto fez emergir uma reflexão mais integradora das diversas funções sociais. Que fazer com tantos miseráveis? Que fazer com tanta mão-de-obra humilde e barata? A minha ideia, que, como sabem, me valeu o prémio Nobel, foi entreter esta enorme energia braçal na construção de mundos. Salvam-se os ricos e ocupam-se os pobres. Um equilíbrio de uma beleza oriental."
(continua)

Torcato Matos

1 comentário:

upssidetown disse...

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