terça-feira, julho 04, 2006

A dificuldade de ler (9- P/P9)

Ele pensa com palavras. A ponte do rio é demasiado longa para se atravessar numa noite de verão. Ele pensa, com palavras, em voltar para trás, para o aconchego das pontes que se atravessam num ápice e devolvem o outro lado das coisas sem o gosto avermelhado da ira. "Um homem não desiste" murmura entre dentes apertados contra o esforço de seguir em frente numa ponte que ainda sobe por tardar em chegar ao apogeu da travessia.

Enquanto ele atravessa a cada vez mais longa ponte, ocorre-me que os ventos, a humidade, o cheiro poluído da água, a transpiração do esforço, o andar do relógio, a presença de um olhar inquiridor, o fantasma imperioso da torre, a força inconstante do vento, todas essas mudanças desconexas de contexto que desamparam o herói, podem desgraçadamente transformar um homem normal num louco imprevisível. Ou o contrário. Mas isto é apenas uma hipótese, uma opinião, uma achega à perplexidade que a cena propõe. E é preciso que ao sair do contexto não me perca em formalidades nem apanhe demasiado frio.

A ponte, como qualquer ponte, há-de chegar ao fim. Ele não tem pensamentos que cheguem para tão extensa travessia. Há certezas que se vão no caudal do rio e outras que se formam ou regressam do momento em que já tinham morrido. Ressurge nele uma vontade de outra margem e, no desespero, naquela proporção destemperada de gestos em que se esquecem os valores da lógica, pronuncia com delicada propriedade uma oração da infância que para todos os efeitos estava dada como perdida, morta e enterrada no lugar mais escuro da submissão.
(continua)

Torcato Matos

2 comentários:

jp disse...

as pontes caro Torcato, que nome me lembra o gato,sempre lhe pode girar o ciclo, cravar estacas,mostrar que de ferro é a bigorna que destroi a torre.
e nem sempre manso e cordacto se quer o gato,que para almas meio cegas, uma lavagem repentina nos olhos de moça do outro lado,pode ser que faça efeito.
enfim,encha-se de fervores e deixe de lado as dores, e mostre-lhe que o aço que o transporta,também se entusmeçe e queima.
vai ver que a ponte se abre em flor,e se torna rio limpido e relaxado sem matos
desta sua leitora
atenciosamente
;-)

Torcato Matos disse...

Valha-me Deus, J.P. que tenho pavor a gatos e se me eriçam os pelos do bigode com medo das alergias, das unhas, dos dentes afiados e dos maus olhados que os gatos pretos lançam a quem se lhes atravessa no caminho que atravessam a correr, os desalmados. Pois já não me lembro que ponte é essa em que os fervores ultrapassam as dores. Agradeço a sua leitura, leitora, no leito de um rio lento, de lentas palavras com pontes de ferro e que me leia sem mansidão nem cordatura e já agora poupando-me, por enquanto, da bigorna e da repentina lavagem...